iTurismo: A Oeste Nada de Novo, por Atilio Forte

A preocupação dos turistas com a sustentabilidade, o apoio da hotelaria na retoma dos destinos afectados por furacões e o reforço da Hilton na China, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe para “O + da Semana” a eleição de um português para presidir ao Eurogrupo. O habitual Comentário é dedicado ao “rescaldo” do Orçamento do Estado e dos congressos da AHP e APAVT.

 

Tópicos da Semana:

  • A cada dia que passa a procura pela sustentabilidade é preocupação maior dos turistas: Pelo menos esta é a conclusão de um inquérito realizado pela “Bouteco” – empresa de consultoria inglesa que se dedica à promoção de hotéis sustentáveis –, no qual dois terços dos turistas, sobretudo do segmento de luxo, referiram que a sustentabilidade é a sua principal preocupação quando têm de decidir onde ficar. Daí que aquela empresa conclua que a certificação da sustentabilidade é muito importante para os turistas europeus, apesar de reconhecer que os consumidores mais jovens tendem a focar-se principalmente nos assuntos relacionados com as comunidades locais e, em particular, com os aspectos sociais.

 

  • Depois das tempestades o sector hoteleiro revela-se decisivo para a bonança turística: As diversas regiões, tanto das Caraíbas, como dos Estados Unidos da América (EUA), que foram assoladas pelos furacões do último Verão, têm sido extremamente rápidas a passar uma mensagem de tranquilidade e de apelo para que os turistas a elas regressem. De acordo com inúmeros representantes desses destinos, tal só está a ser possível graças ao inexcedível apoio que obtiveram por parte da hotelaria local, quer na ajuda disponibilizada às populações durante as intempéries, quer no esforço promocional que tem vindo a ser desenvolvido pelas diferentes unidades hoteleiras.

 

  • Cadeia Hilton “cheia” de ambição no mercado chinês: Apesar de actualmente só (?!) contar com 117 hotéis na República Popular da China (RPC), a Hilton quer assegurar uma maior presença neste (cada vez mais) crucial mercado. Justificam-se, assim, os 295 hotéis que a cadeia tem presentemente em construção na RPC e o objectivo de, em 2025, alcançar as 1.000 propriedades naquele país asiático.

 

 

Comentário

Turisver.com – No iTurismo de 18 de Outubro, poucos dias após a apresentação do Orçamento Geral do Estado (OE 2018) na Assembleia da República, fez uma análise aqui no iTurismo  que intitulou “Turismo de mãos vazias”. Depois de introduzidas alterações na especialidade, mudou a sua percepção face a este OE?

 

Atilio Forte – Infelizmente, não! Ou melhor, após o debate na especialidade e a votação final, constatamos que os dois maiores receios que aqui tínhamos exposto acabaram por confirmar-se.

Assim, por um lado temos um Orçamento de Estado para 2018 (OE 2018) que em nada discrimina positivamente a principal actividade económica exportadora do país e a que maior capacidade de criação de emprego apresenta e, por outro lado, constata-se a ausência de iniciativa pela parte dos diversos agentes turísticos, mormente as associações empresariais, em apresentarem propostas fundamentadas susceptíveis de fazerem convencimento e terem consequente acolhimento junto dos Partidos Políticos com representação parlamentar, sobretudo dos que suportam o actual Governo.

Estas são razões que atestam e demonstram, com inequívoca clareza, a total ausência de peso político da actividade turística – que amiúde aqui sublinhamos –, por muito que o Governo se esforce por fazer crer o oposto, e que contrariam as inúmeras e constantes declarações de enaltecimento de que o turismo nacional é alvo.

Sabemos bem que numa conjuntura favorável como a que actualmente a actividade atravessa, nem sempre é fácil a adopção ou justificação de medidas que a promovam ou impulsionem mais, tal como reconhecemos ser difícil ter comportamentos de maior pro-actividade quando, afinal, tudo aparenta estar a correr de feição.

Mas também sabemos que é exactamente nestes momentos que as grandes opções devem ser tomadas, aproveitando a “crista da onda” para intensificar o nível de exigência, disponibilizar mais meios e introduzir reformas que permitam e garantam a manutenção do crescimento e desenvolvimento sustentáveis das áreas que podem corporizar, no presente e no futuro, uma nova política económica para e em Portugal.

No fim de contas as coisas mais importantes devem colocar-se em primeiro lugar. E, no OE 2018, o turismo – e de alguma forma a economia em geral – não foi uma prioridade. Como já aqui dissemos, quando analisámos as contas do Estado para o próximo ano, entendemos as opções políticas do Governo. No entanto, também tivemos oportunidade de alertar para os perigos em que elas incorrem, dado aumentarem a despesa e apenas terem como “contrapartida” um crescimento da economia (logo da receita) “quase espontâneo”, isto é, sem medidas que concorram para que ele possa verificar-se e que, a prazo, o sustentem.

Por estas razões o país fica mais vulnerável, pois qualquer sobressalto que condicione o ritmo de criação de riqueza pode, num ápice, esvaziar os bons resultados obtidos no último par de anos, bem como, os árduos sacrifícios feitos tanto pelos portugueses, como por todo o tecido empresarial nacional e, dessa forma, provocar indesejáveis retrocessos que, caso venham a verificar-se, seriam agravados por uma sensação de “déjà vu”.

Portanto, mesmo para os que tal como nós são optimistas, resta-nos ter confiança na capacidade produtiva das empresas portuguesas, acreditar que as boas perspectivas turísticas para 2018 acabem por confirmar-se e pugnar para que o Estado, nas suas diferentes formas (central, regional e local), deixe de olhar para a actividade turística, para as suas empresas e para os próprios turistas, como meio fácil de obtenção de receita, seja por via directa, seja por via indirecta.

 

Turisver.com – Depois de realizados dois dos maiores congressos associativos (AHP e APAVT) o que alguns dos nossos leitores têm querido saber é que temas, na sua perspectiva, não foram debatidos nestes fóruns e deviam ter sido?

 

Atilio Forte – Antes do mais cometeríamos uma enorme injustiça caso não voltássemos a sublinhar a importância dos congressos organizados por estas duas associações – a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) e a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) –, como espaços imprescindíveis de debate e afirmação do turismo nacional, tanto pela actualidade dos assuntos aí debatidos, como pela riqueza das intervenções proferidas, em grande parte resultantes da qualidade dos oradores presentes.

Aliás, ao longo destas nossas análises temos sempre procurado dar a devida relevância a estes acontecimentos, bem como ao seu incontornável papel para o futuro da actividade turística, tal como para a formação e qualificação dos que neles participam.

Contudo, e de forma alguma sem querer deslustrar tanto o elevado nível organizativo demonstrado, como a importância dos trabalhos que neles tiveram lugar ou, até, os objectivos traçados pelas próprias associações, não podemos esconder as opiniões que nos chegam de muitos empresários e profissionais que aí marcaram presença (e mesmo de alguns que assim justificaram a sua ausência) que, embora compreendam o modelo adoptado – muito virado “para fora” e mediático, com figuras de elevada notoriedade e craveira –, sentem falta de “espaço” para debaterem problemas mais concretos, ou seja, mais próximos do seu quotidiano.

Se bem interpretamos estas opiniões, e é só nesse sentido que as acompanhamos, o que muitos desejam é que os congressos associativos voltem a ter momentos próprios para que os agentes do sector em causa, conjuntamente com os dirigentes das respectivas associações, possam trocar impressões e procurar soluções para questões aparentemente “menores“, mas de vital importância para a gestão diária das empresas. No fundo, que haja um momento que seja “só deles”, longe dos holofotes, das visões estratégicas, das tendências do futuro, da evolução dos mercados, etc., etc. onde, sem rodeios ou “condicionamentos”, se abordem temas endógenos ao próprio negócio.

Não temos dúvida que ambas as associações também já terão reparado nesta “pecha” e, seguramente, estarão a trabalhar para conseguirem encaixar ou criar nos programas de congressos futuros oportunidade para que esses debates aconteçam, pois têm noção que, por muito importantes que sejam as mensagens que deles saem e fazem as notícias, o que mais releva é ter e manter os seus membros unidos, reunidos e coesos em torno da respectiva associação.

Quanto ao mais, somos de opinião que tanto estas, como outras estruturas associativas, têm manifestado na organização deste tipo de eventos uma enorme sensibilidade e procurado, por vezes com grande esforço, mas quase sempre com assinalável sucesso, chamar a atenção, informar, alertar e debater os principais temas e desafios com que se confrontam os sectores que representam.

 

O + da Semana:

Por razões tão óbvias quanto compreensíveis é incontornável que dediquemos o destaque desta semana à eleição de um português para o cargo de Presidente do Eurogrupo que, como é do conhecimento público, é a designação dada à reunião mensal informal dos Ministros das Finanças dos Estados-Membro da União Europeia que integram a chamada “zona euro”, isto é, que adoptaram o Euro como moeda única, e que tem por objectivo a coordenação da política económica dos mesmos. Fazemo-lo, naturalmente e em primeiro lugar, pelo orgulho de termos mais um nosso concidadão a ocupar uma elevada função no plano internacional; também, porque há poucos meses Portugal (e os portugueses) foi injustamente tratado – a par de outras nações (sobretudo) do Sul da Europa –, pretendendo passar-se a ideia que faríamos parte de um grupo de países gastadores e pouco responsáveis, habituados a “viver a expensas” de terceiros ou, dito de outro modo, dos países “cumpridores” do Centro e Norte da Europa; e, ainda, porque sendo Portugal um país de turismo, esperamos que o Presidente eleito do Eurogrupo consiga, pela sua acção, inculcar aos seus colegas da “zona euro” a urgência de dedicarem maior atenção à actividade turística, uma vez que ela, à semelhança do que aconteceu (e acontece!) no nosso país, pode “fazer maravilhas” pelas economias de todos os Estados que integram a moeda única.