iTurismo: Baralhar e Dar de Novo

No iTurismo de hoje, Atilio Forte tece comentários sobre o Estudo de Impacto Ambiental do novo aeroporto do Montijo, elaborado pela APA – Agência Portuguesa do Ambiente, a (re)inauguração do Palácio de Cristal ou Pavilhão Rosa Mota, e ainda o Brexit.

 

Sem dúvida alguma que a principal notícia da semana passada correlacionada com a actividade turística foi a conclusão (dentro do prazo que aqui há uns meses havíamos adiantado) do aguardado Estudo de Impacto Ambiental do novo aeroporto do Montijo, elaborado pela APA – Agência Portuguesa do Ambiente. Segundo o mesmo, e como já é do conhecimento público, desde que tomadas algumas medidas de mitigação e compensação ambientais por parte da promotora (ANA – Aeroportos de Portugal), orçadas em 48 milhões de Euros, é dada “luz verde” para que aquela importante infra-estrutura possa (finalmente) avançar.

Embora este tenha sido um passo importante, não é ainda razão para que os diversos actores turísticos comecem a “embandeirar em arco” uma vez que, em nossa opinião, ele apenas marca o começo de uma nova etapa que se adivinha (igualmente) de grande complexidade. No fundo, mais não se trata do que “baralhar e dar de novo”! A justificá-lo, basta atentar na aparente surpresa com que a empresa concessionária dos aeroportos nacionais recebeu as condições propostas para a instalação daquele equipamento, nomeadamente o montante que lhe cabe investir, e que se apressou a sinalizar, seja por ter total legitimidade para discordar e/ou propor alternativas às exigências efectuadas seja, sobretudo, para “marcar posição” junto do Estado português e sublinhar que se tiver de investir mais dinheiro deverá (e quererá!) ser compensada no respectivo Contrato de Concessão, o que poderá arrastar o processo negocial e fazer (novamente) derrapar os prazos.

Por seu turno, do lado do Governo a “prova dos nove” só será tirada aquando da apresentação do Orçamento de Estado para 2020, que ocorrerá até ao final do ano, pois aí terão de estar previstas um conjunto de verbas para fazer face ao investimento público que deverá ser realizado, tanto no domínio ambiental, como no das acessibilidades, transportes e outros equipamentos, para além da própria deslocação da Força Aérea, já que, como vimos no último iTurismo, esta é uma matéria omissa no Programa do Executivo.

No entanto, desenganem-se também os mais optimistas julgando que “as coisas” ficam por aqui. Várias organizações ligadas ao ambiente e movimentos de representação cívica anunciaram que irão recorrer às instâncias judiciais, nacionais e comunitárias, para evitar que a actual Base Aérea nº 6 venha a sofrer remodelações que a transformem num aeroporto civil e, assim, destinado à aviação comercial. São pois de esperar algumas longas e morosas batalhas jurídicas.

A acrescer a estes aspectos deverá ter-se presente o arrefecimento da economia mundial, e muito particularmente o desempenho de algumas economias europeias de onde são oriundos grande parte dos fluxos turísticos que recebemos, pois qualquer oscilação negativa que o turismo nacional venha a registar reflectir-se-á proporcionalmente na “vontade política” de materialização da obra. Nada de novo para um país que já discute este tema desde a década de ’60 do século passado…

 

Um segundo assunto que mereceu enorme atenção prendeu-se com a (re)inauguração do “velhinho” Palácio de Cristal, mais recentemente rebaptizado Pavilhão Rosa Mota, não pela recuperação que foi feita daquele importante equipamento do Porto, nem sequer dos múltiplos benefícios, nomeadamente turísticos, que ele pode trazer para a cidade mas, pasme-se, por causa de se ter associado ao seu nome o de uma marca de cervejas propriedade da empresa que custeou as respectivas obras.

Cremos, sinceramente, não valer a pena acrescentar argumentos ao “intenso e apaixonado” debate nacional que tal motivou, tanto contra a associação de nomes levada a cabo, como a seu favor. No nosso entendimento, o que deveria merecer reflexão, da parte de uns e outros, foi o manto de silêncio feito sobre o assunto durante os largos anos em que aquela infra-estrutura esteve semiabandonada e a deteriorar-se, não servindo nada nem ninguém.

Não vemos por isso razões para tamanha discussão. Muito menos para o desfiar hipócrita de tão grande quantidade de argumentos. O que de todos devia merecer indignação é o estado de degradação a que por vezes, por falta de dinheiro ou atenção, deixamos chegar algum do nosso património (edificado ou não) e o “olhar para o lado” cúmplice com que amiúde lidamos com essas situações.

 

Mais de três anos volvidos após o Referendo sobre a permanência da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte na União Europeia (Junho de 2016), o denominado “Brexit” ainda não tem um fim à vista, arrastando o clima de incerteza política, económica e social que a este propósito a Europa e o Mundo têm vivido, isto para nem sequer referir os reflexos internos no Reino Unido. O último prazo para uma decisão esfumou-se no passado dia 31, antecipando-se que as eleições legislativas, marcadas para o próximo dia 12 de Dezembro, serão o derradeiro acto que tudo irá esclarecer… e resolver. Como se as Europeias, de Maio passado, ou os dois acordos de “saída” subsequentes não tivessem existido!

Já muito foi dito e escrito, inclusivamente por nós, sobre esta problemática de variadíssimos efeitos que, do nosso ponto de vista, vão de uma maior fragilização do projecto europeu, à desestabilização territorial do próprio Reino Unido, sem esquecer as consequências económicas que se fizeram, fazem e farão sentir. Mas, em abono da verdade e em defesa daqueles que são mais acérrimos no suporte ao Brexit, há algo que quase nunca é referido, sobretudo do lado “continental”. É que a UE está a provar do “veneno” que criou. Quantas e quantas vezes assistimos, em diversos Estados-Membro, à repetição de votações parlamentares e referendos a respeito de matérias comunitárias, até que o resultado fosse o “pretendido”, isto é, pró UE? Portanto, agora que o “feitiço se parece ter voltado contra o feiticeiro”, ninguém se pode ou deve queixar. Até por que isso poderia ser interpretado como uma atitude antidemocrática, sujeita a ínvios aproveitamentos populistas e nacionalistas, infelizmente tão em voga nos tempos que atravessamos.

 

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