iTurismo: 2016 em Retrospectiva, por Atilio Forte

Neste que é o primeiro iTurismo de 2017, Atilio Forte traça a retrospectiva do ano que agora findou, que classifica como tendo sido “o ano de todas as surpresas”, comentando os principais acontecimentos que marcaram a actualidade e a actividade turística, no mundo e em Portugal.

 

Turisver.com – O turismo parece imune ao que se passa por esse Mundo fora, já que apesar dos inúmeros problemas que afectaram o planeta em 2016, a actividade turística continuou a crescer a nível mundial.

Atilio Forte – Sem dúvida que sim! Mas antes de responder queremos aproveitar a oportunidade para desejar aos nossos leitores um Feliz Ano Novo, fazendo votos para que o ano de 2017 nos traga mais certezas e, assim, contraste com as incertezas com que 2016, acabado de findar, nos deixou.

Se quiséssemos classificar o ano 2016 em pouquíssimas palavras, para além das incertezas já referidas, poderíamos defini-lo como o ano de todas as surpresas. Surpresas tão espantosas quanto a questão do Brexit ou, mais no final do ano, o resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos da América, as quais conduziram a que 2016 acabe por encerrar com uma conjuntura internacional altamente complexa.

Não obstante, para os mais atentos nada disto foi propriamente novidade, pois quem está mais desperto para a evolução dos comportamentos sociais, aquilo que verifica é que, de há uns anos a esta parte, a sociedade tem vindo a comportar-se de forma mais egocêntrica, promovendo muito mais uma “cultura do eu”, centrada no individualismo e no egoísmo, onde toda a gente procura os seus “cinco minutos de fama”.

Paralelamente, também se notou um certo cansaço por parte das pessoas – estamos a falar em termos genéricos – acerca daquilo que definimos como sendo “o politicamente correcto”.

Ora, a conjugação destes factores, desta sociedade muito centrada no “eu” e deste cansaço do politicamente correcto conduziu, inevitavelmente, a uma ascensão da demagogia e ao ganhar terreno de algum populismo, o que acabou por resultar naquilo que considerámos surpresas, mas que uma leitura mais fina acaba por demonstrar-nos que poderão não ter sido assim tão surpreendentes, passe-se o pleonasmo.

Por outro lado, 2016 fica também claramente marcado pelo terrorismo, o qual, infelizmente, se dúvidas houvesse, veio para ficar! Basta vermos os atentados que ocorreram em França, na Bélgica, na Alemanha, na Turquia, no Egipto, no Burkina Faso, no Paquistão, no Afeganistão, no Iraque, na Indonésia e nos próprios Estados Unidos da América para termos uma noção mais exacta da dimensão deste flagelo.

Lamentavelmente também constatámos que, tanto por falta de vontade política, como de capacidade dos governantes, não existiram acções concretas para resolverem alguns dos problemas mais profundos, como é o caso da questão dos migrantes, já que terminámos o ano de 2015 com a expectativa que em 2016 iriam ser tomadas importantes decisões neste domínio, que acabaram por não acontecer.

Acresce que no ano transacto (e são aspectos que vale a pena salientar porque se prendem com a segunda parte da questão que nos leva ao turismo) ocorreram várias catástrofes naturais, algumas em países bem próximos de nós, como foram os sismos em Itália.

Para além do que já referimos, gostaríamos ainda de destacar que 2016 fica marcado pelo levantamento das sanções internacionais ao Irão, que decorriam do programa nuclear daquele país e que acabaram por ser retiradas em face do acordo alcançado, sendo importante salientar que este aspecto terá contribuído para esbater uma das maiores dúvidas com que iniciámos o ano e que dizia respeito à evolução do preço do petróleo, isto é, se iria cair para valores muito baixos (cerca de 15/20 dólares por barril) ou se, pelo contrário, tenderia a subir. O que acabou por verificar-se foi que, sobretudo na segunda metade do ano, o preço do “ouro negro” foi paulatinamente subindo, tendo estabilizado na casa dos 50 dólares por barril.

Muito ligada a esta questão do petróleo, vale ainda a pena referir no âmbito internacional, que na segunda metade do ano, sobretudo no último trimestre, assistimos à retoma da economia brasileira, o que não deixa de ser um aspecto importante, nomeadamente pelas consequências positivas que pode acabar por ter no turismo nacional.

Ao longo do ano de 2016 persistiram os muitos pontos de interrogação – que vamos transportar para 2017 -, sobre a solidez do sistema financeiro internacional.

Finalmente, e para concluir esta “pincelada global”, não podíamos deixar de destacar a eleição, no final do ano, de um português para Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Com toda esta conjuntura, ou apesar dela, como é referido na pergunta, o facto é que o turismo persistiu em demonstrar argumentos para continuar a liderar a economia mundial, mantendo um potencial de crescimento muito acima da média (da economia mundial).

Vale também a pena salientar o aumento da utilização e da incorporação de tecnologia como ferramenta primordial seja “dos” seja “nos” negócios turísticos, assim como verificámos um fortíssimo investimento, nomeadamente da China, quer nos Estados Unidos da América quer na Europa, sobretudo em activos imobiliários, nomeadamente no sector do alojamento e em particular na hotelaria, que também de alguma forma ajudou a que se desse início ao movimento das mega fusões entre as grandes cadeias hoteleiras internacionais.

Obviamente que a isto não é alheia a manutenção das taxas de juro baixas que tornam menos apetecível para os investidores terem o dinheiro aplicado acabando, de algum modo, por “forçar” estes investimentos como forma de rentabilização dos capitais, mormente na actividade que maior pujança vem manifestando: o turismo.

Mesmo para os mais cépticos, o ano 2016 fica também marcado pela confirmação turística do Médio Oriente como região emergente de enorme potencial turístico.

Concluindo, e quase paradoxalmente, o facto é que toda esta conjuntura internacional parece não ter afectado a manutenção do crescimento do turismo a nível global, acabando, também, por ser extremamente favorável a Portugal.

 

Turisver.com – Ainda numa perspectiva internacional, e porque há coisas que se sentem no turismo, 2016 foi também marcado pelo início da “guerra” dos grandes grupos hoteleiros com as centrais de reserva online.

 

Atilo Forte – O turismo, como temos vindo a afirmar, e já o dissemos em vários dos nossos comentários e análises, é das poucas actividades económicas em que o mesmo cliente é disputado por todos os intervenientes dentro da constelação turística, ou seja, o cliente que vai para um hotel é também disputado não só entre os agentes do sector do alojamento, mas também entre as companhias aéreas que o querem transportar, entre as empresas de animação turística que o querem entreter, entre os restaurantes que o procuram seduzir com a sua gastronomia, etc.. Em suma, o mesmo consumidor tem uma vastíssima multitude de solicitações.

Ora, a questão dos grandes grupos e das centrais de reserva online, algumas delas grandes congregadores ao nível da oferta de alojamento, acabou por fazer com que cada vez mais os grandes grupos procurem premiar a fidelização dos clientes, que em qualquer parte do Mundo acabem por utilizar os seus hotéis, em detrimento dessas outras entidades, o que levou a que assistíssemos a uma alteração de estratégia – comentámo-la nos últimos dois meses do ano – pela parte desses grandes congregadores de oferta de alojamento os quais, em vez de entrarem numa guerra mais directa com as grandes cadeias hoteleiras, procuraram oferecer outras soluções, nomeadamente no plano dos hotéis boutique e dos hotéis independentes porque esses, pela sua especificidade e diferenciação, estavam e estão mais disponíveis para pagarem as comissões cobradas por essas entidades.

No fundo isto é, nada mais, nada menos, que a natural lógica de evolução do negócio turístico. Como o turismo é das actividades económicas que estão em franco crescimento, o seu mercado acaba por aumentar e esse aumento de mercado origina que haja negócio para todos, principalmente para os que demonstrarem ter mais capacidade criativa e inovadora.

 

Turisver.com – Em Portugal vivemos, quase desde o início de 2016 e até pelo menos meio do ano, duas situações de dúvida. Uma delas se o Governo, com os apoios que tem, iria ou não “aguentar-se”, e outra com todas as instituições a fazerem previsões atrás de previsões, qual delas a pior, tirando confiança aos consumidores, aos investidores… Apesar de tudo isso o certo é que parece que cumprimos com aquilo que tínhamos assumido perante a União Europeia e passámos no teste.

 

Atilio Forte – É verdade. Em Portugal, e genericamente falando, podemos dizer que o ano ficou marcado pela estabilidade política, a qual manifestou-se a dois níveis: por um lado, como é dito na pergunta, pelo facto da coligação parlamentar dos Partidos Políticos que suporta o Governo ter permanecido unida, obviamente mantendo cada uma das forças politicas as suas diferenças, mas nunca pondo em causa a coesão da estabilidade governativa; por outro lado, não é alheia a esta situação a eleição do novo Presidente da República que actuou como catalisador, como factor de união entre os portugueses, procurando de alguma forma diminuir – como ele próprio referiu – a crispação dentro da sociedade portuguesa e, particularmente, dentro da nossa vida política, acabando por servir de amortecedor, dando desse modo um contributo impar para a existência dessa estabilidade política.

Mas estes aspectos por si só não explicam tudo. Em nossa opinião a ligeira recuperação que houve do poder de compra por parte dos portugueses (apesar do grande aumento de impostos verificado, sobretudo dos indirectos), auxiliada por alguma recuperação, ainda que muito ténue, em termos do emprego, com a taxa de desemprego a diminuir paulatinamente ao longo do ano, a par do cumprimento das metas orçamentais exigidas por Bruxelas, foram factores positivos que também deram um importante contributo para esta estabilidade.

Por outro lado não podemos esquecer-nos que, à semelhança do que se passou a nível internacional, também em Portugal o sistema financeiro continuou a demonstrar muitas debilidades, deixando algumas interrogações sobre o futuro, que irão transitar para 2017, sublinhando-se ainda o desempenho em termos do crescimento económico que ficou muitíssimo aquém das expectativas, apesar dos bons resultados turísticos obtidos.

Para além disso registaram-se, infelizmente, como acontece ano após ano, as catástrofes motivadas pelos incêndios, que tiveram como expoente maior desse flagelo a cidade do Funchal, na ilha da Madeira.

E, claro está, se no âmbito internacional tivemos uma excelente notícia que foi a de um português ter sido eleito Secretário-Geral da ONU, não podemos deixar de destacar que o facto de Portugal ter sido Campeão Europeu de Futebol em 2016 também serviu, de algum modo, para que o nosso ego de portugueses acabasse por se elevar, enchendo o país de um legítimo orgulho. Foi mais um motivo, inédito, que contribuiu para que tivéssemos um Portugal mais sereno, mais calmo e mais distendido.

 

Turisver.com – Não podemos falar do turismo em 2016 sem referirmos as taxas turísticas que em Lisboa começaram a ser cobradas logo no primeiro dia do ano. Acha que este ano, até por se ter passado da crítica generalizada a algum apoio pelo facto de as receitas serem aplicadas em obras de referência como a conclusão do Palácio da Ajuda, poderá haver mais municípios a introduzir estas taxas?

 

Atilio Forte – Relativamente às taxas turísticas municipais cobradas aos turistas (pagas por todos quantos decidem gastar o seu dinheiro nas nossas cidades!?), quer sobre as chegadas, quer sobre as dormidas, a partir do momento em que a capital decidiu implementá-las, e independentemente das finalidades que lhes sejam dadas, com mais ou menos “cosmética”, é nosso entendimento, e temo-lo dito aqui ao longo do tempo, que 2016 vai ficar indelevelmente marcado como o ano do início da fobia das taxas turísticas municipais cujo desfecho irá inexoravelmente estender-se a todo o país.

Poderão existir autarquias que resistirão mais do que outras mas, inevitavelmente, esta fobia, infelizmente, tenderá a criar raízes por todo o país, o que prova, por um lado, que os agentes turísticos privados e nomeadamente as associações empresariais não foram capazes de apresentar argumentos válidos para suster este ímpeto e, por outro lado, que os bons números do turismo acabam por atenuar o efeito perverso deste “imposto turístico” porque, não podemos esquecer-nos que o turismo enquanto actividade económica é aquela que maiores efeitos multiplicadores gera e induz nas demais áreas, criando riqueza, emprego e revitalizando as economias locais, e por essa razão mais do que justificando a ausência de quaisquer “taxinhas” ou “multas” a quem nos brinda com o privilégio da sua visita.

Portanto, não é tanto o valor dessas taxas que está em causa mas sim o simbolismo que elas encerram, a par do fenómeno/fobia de arrastamento que podem provocar. E isso, do prisma do turismo, é um ponto extremamente negativo a registar em 2016.

 

Turisver.com – 2016 foi também o primeiro ano da actual Secretária de Estado do Turismo e passada a surpresa da sua nomeação, é hoje bastante consensual todo o trabalho realizado ao longo deste ano. Sem entrar nos resultados, como é que analisa o trabalho feito?

 

Atilio Forte – Como os nossos leitores sabem, nunca comentamos pessoas, mas sempre políticas e estratégias. A essa luz, e pegando naquilo que atrás dissemos quando analisámos a conjuntura internacional, afirmando que ela tinha sido extraordinariamente favorável a Portugal, o facto é que iremos por certo fechar o ano – e espero que em breve a anunciada Conta Satélite do Turismo venha demonstrar aquilo que é o sentimento por parte de todos os actores e agentes do turismo nacional – com excelentes resultados, seja a nível das receitas, seja a nível dos turistas, das dormidas ou dos hóspedes.

Porventura, teremos concluído o ano com resultados muito idênticos, senão ligeiramente superiores em alguns casos, ao ano de 2007. Volvida uma década Portugal voltou, ou terá voltado, aos bons resultados turísticos e isso não pode deixar de ser sublinhado.

Face a estes bons resultados que se verificaram um pouco por todo o país, o que atesta a “boa saúde” do nosso turismo, não podemos deixar de destacar quatro regiões: por um lado a do Algarve e a de Lisboa, historicamente duas das principais regiões turísticas portuguesas, que confirmaram esse seu peso e essa sua grande capacidade de atracção de fluxos; por outro lado vimos o Porto e Norte de Portugal surgir com uma enorme capacidade de afirmação nos mercados externos; e, por último, não podíamos deixar de enaltecer os Açores que, com tudo aquilo que aqui fomos comentando ao longo do ano, mas principalmente devido à liberalização do transporte aéreo, acabam por ser a região com maior potencial endógeno de desenvolvimento futuro.

Um outro ponto deve ser salientado, pois vale a pena recordarmos que, em 2015, das perguntas que mais vezes nos foram colocadas pelos nossos leitores e, consequentemente, das questões que mais analisámos, foram as relacionadas com a TAP. Ora, apesar da reversão do processo de privatização, para uma paridade accionista entre o Estado e os privados, não é despiciente dizermos que assistimos em 2016 a uma acalmia, quer accionista, quer a nível operacional na companhia, que foi também muito importante para o alcançar destes bons resultados turísticos.

Para além disso a TAP, prosseguindo um caminho a que já nos vinha habituando, dada a situação económica do Brasil que, como se sabe, durante o ano atravessou gravíssimos problemas, conseguiu fazer uma inflexão estratégica, nomeadamente com a abertura de novas rotas para outras paragens, particularmente para os Estados Unidos, de que por certo aqui falaremos na próxima semana quando abordarmos as perspectivas para 2017.

Se a estratégia da TAP contribuiu em muito para os resultados do nosso turismo, importante foi também, em termos da imagem e da promoção de Portugal, a realização da “Web Summit” que acabou por dar uma enorme projecção “ao” e “do” nosso país.

Outro aspecto que também merece ser realçado foi o facto, numa atitude inédita, dos operadores turísticos nacionais terem decidido fazer o reembolso das viagens às pessoas que não as puderam realizar quando no Verão tivemos o problema das greves nos nossos aeroportos. Neste particular, quer a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) quer, sobretudo, as empresas, os operadores turísticos, contribuíram, e muito, para a boa imagem dos nossos agentes turísticos junto dos consumidores, nomeadamente dos que actuam na distribuição.

Centrando-nos na actuação do Ministério da Economia, que era mais o cerne da pergunta colocada, 2016 foi sobretudo um ano de correcção de algumas situações de enorme injustiça, a vários níveis, que vinham a prejudicar a actividade. Referimo-nos, a título de exemplo, à questão do IVA na restauração – infelizmente continuamos com o IVA no golfe na taxa dos 23% – mas, para além disso, houve o reactivar de alguns programas de apoio e incentivo ao investimento que têm vindo a ganhar ritmo, embora não com a celeridade que todos desejaríamos, mas que há que enaltecer, com a inclusão dos cruzeiros e de novas rotas aéreas na possibilidade de aceder a esses financiamentos, tal como alguns ajustamentos efectuados no domínio da promoção turística externa, que provaram que o “digital” é importante mas não o único canal em que se deve apostar.

Assim, e perante este quadro de bonança que perpassa actualmente o turismo português, é óbvio que qualquer Governo, independentemente da cor política que tenha por trás, sai bem “na fotografia”, uma vez que o turismo, como é público e notório, é a actividade económica que hoje mais contribui para as nossas exportações e para a nossa balança comercial e a que mais tem crescido em termos da criação de postos de trabalho.

Com tudo (finalmente!) a correr tão bem no turismo, tendo a actividade praticamente só boas noticias a dar, obviamente que do ponto de vista político, o Governo acaba naturalmente por ser beneficiado, sem que com isto pretendamos retirar o mérito a quem o tem, porque ele existiu tanto do lado público, como do dos privados.

 

Turisver.com – Os bons resultados também se reflectiram, no âmbito das empresas, dos empresários e dos investidores, em novos investimentos?

 

Atilio Forte – Podemos dizer que “o turismo em e para Portugal está na moda” e na próxima semana, quando aqui analisarmos as perspectivas para 2017 não deixaremos de referir a questão do investimento turístico, até porque, em termos globais do país, se houve áreas nas quais 2016 deixou muito a desejar foram as do investimento (público e privado, nacional e estrangeiro) e do crescimento económico.