iTurismo: 2017 em Retrospectiva, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana, Atilio Forte faz uma ampla retrospectiva do que foi o mundo em geral em 2017, e em particular, dos avanços que aconteceram na actividade turística no ano que agora findou. O comentador destaca, igualmente, as boas performances do Turismo no nosso país, quer em todos os seus indicadores, na criação de emprego, na contribuição para as finanças públicas, e nos reconhecimentos internacionais, entre os quais o maior de todos – o de Melhor Destino Turístico do Mundo.

 

 Turisver.com – A visão que podemos ter do Mundo em 2017, relativamente ao balanço feito sobre o ano passado, é que ele ficou melhor ou pior?

 

 Atilio Forte – Antes de mais, como este é o primeiro iTurismo de 2018, gostaríamos de desejar aos nossos leitores e às suas famílias, um excelente ano, pleno de sucessos tanto pessoais como profissionais.

Relativamente à pergunta colocada – se o Mundo está melhor ou pior –, vale a pena recordar que há um ano, quando perspectivámos, aqui no iTurismo, o que 2017 nos reservava, afirmámos que ele iria ser o ano de todas as incertezas. Para o bem e para o mal, esta nossa previsão acabou por confirmar-se, ou seja, estamos melhor nalgumas coisas, piores noutras, mas o que mais releva é que 2017 foi, de facto, um ano extremamente incerto. Entre os inúmeros aspectos que contribuíram para essa qualificação, permitimo-nos salientar aqueles que, na nossa análise, consideramos seremos mais relevantes:

Em primeiro lugar, o ano que agora findou começou com um dado incontornável, a tomada de posse de um novo Governo nos Estados Unidos da América (EUA) – a Administração Trump –, facto que acabou por condicionar muito daquilo que se passou em todo o Mundo. Porém, pela sua relevância, convirá que nos detenhamos num ou noutro dos seus factores mais marcantes, tanto relativamente àquilo que se passou dentro dos próprios EUA, como àquilo que foram algumas das opções de política externa desta nova Administração americana, para melhor percepcionarmos a magnitude dos efeitos provocados.

Assim, em termos internos e quase desde a sua entrada em funções, houve uma temática que fez com que esta Administração, por assim dizer, sentisse-se acossada ao longo de todo o ano, que é a relacionada com o avolumar das dúvidas sobre tudo o que se passou no processo eleitoral, e que de alguma forma foi pondo em causa a legitimidade do mandato que lhe foi conferido pelas eleições. Como se tal já não bastasse, e por culpa própria, o Governo americano foi duramente questionado por algumas das decisões (ou tentativas de decisão) que tomou e que redundaram em enorme contestação interna, como o caso dos sucessivos decretos legislativos anti imigração ou, mesmo, a iniciativa de revogação da Lei de Protecção e Cuidado ao Paciente, mais conhecida por “Obamacare”.

Para além disto, e sendo estes os aspectos mais relevantes – não temos aqui tempo, nem espaço, para analisar em detalhe outras matérias relativas à política interna –, no plano internacional existiram duas questões que acabaram por marcar muito do que foi uma política externa errática (a qualificação é nossa) e a que não estávamos habituados por parte dos EUA: a primeira relacionada com a problemática do nuclear na República Popular Democrática da Coreia (vulgo Coreia do Norte); e, a segunda, que ocorreu recentemente, relativa à transferência da Embaixada americana em Israel de Telavive para Jerusalém, com todas as consequências que o acto, em si, provocou e está a provocar.

Ainda a nível internacional, devemos destacar que, quando aqui projectámos 2017, para além de dizermos que estaríamos perante um ano de incertezas, também dissemos que seria um ano que consubstanciaria o (re)nascimento de uma “nova ordem mundial”, resultante da “partilha” do Mundo entre os Estados Unidos da América e a Federação da Rússia.

Ora no que se refere à Rússia (que em 2017 comemorou os 100 anos da Revolução Bolchevique) constatámos que ao longo do ano veio reforçando o seu papel de grande potência mundial, que muitos diziam já estar acabado, ultrapassado ou até secundarizado, sendo exemplos disso os importantes contributos que deu e desempenhou tanto na guerra contra o (aparentemente extinto) auto proclamado estado islâmico, como na guerra da Síria, como ainda na forma como conseguiu, também por causa destes dois episódios, relançar um novo clima de relações diplomáticas e económicas com a Turquia. Internamente a economia russa, não obstante as sanções internacionais que lhe têm sido impostas, deu sinais de alguma vitalidade. Tudo somado, e em síntese, temos hoje uma Rússia bem mais pujante e liderante.

A isto juntou-se um outro factor, que há um ano quando perspectivámos 2017 não abordámos em tão grande detalhe, que foi a emergência da República Popular da China, a qual, paulatinamente, tem vindo a juntar-se a este “duo” de super potências – que ao longo do século passado partilharam o domínio do Mundo –, transformando-o num “trio”.

Em parte tal sucede porque a própria União Europeia (UE) sente-se um pouco órfã do “tradicional” apoio dos EUA (em consequência das políticas erráticas a que atrás aludimos) e, para além disso, está enfraquecida internamente, uma vez que ao longo de todo o ano passado começámos a assistir ao recrudescer de alguns nacionalismos – veja-se o caso da Polónia e, o mais flagrante que no último meio ano praticamente condicionou a agenda internacional, o da Catalunha –, mas também porque a própria UE revelou-se incapaz de resolver questões como a dos migrantes, que continua a ser uma matéria adiada, ou mesmo porque o “seu” país farol, a Alemanha, mostra-se incapaz de formar um Governo, na sequência das eleições ocorridas há três meses.

A esta situação acrescem as dúvidas, cada vez mais persistentes, acerca do Brexit, com uma forte corrente interna a pressionar para que seja feito novo Referendo, e que têm trazido consequências complexas ao Reino Unido, sobretudo do ponto de vista económico, seja pela desvalorização da Libra, já com reflexos na diminuição do poder de compra dos consumidores, seja pelo êxodo de algumas empresas e organizações importantes que tal tem provocado.

Ao longo de todo o ano de 2017 constatámos, tristemente, que os atentados terroristas persistiram, tendo ocorrido um pouco por toda a parte, apesar da derrota do Daesh anunciada já perto do final do ano.

Muito ligada a esta temática assistimos a um reacendimento da “guerra surda” entre sunitas e xiitas (leia-se bloco afecto à Arábia Saudita e bloco afecto ao Irão) que tem condicionado a estabilidade política do Médio Oriente, tendo sido notórias algumas tensões com ela relacionadas, bem ilustradas pela crise diplomática vivida no Qatar, desde o início de Junho.

Em 2017 deparámo-nos com uma América Latina cada vez mais instável, não só no caso da Venezuela mas também de outros países da região, devido a problemas ligados à corrupção, à falta de credibilidade do poder político, ao narcotráfico, etc.. No meio deste “quase turbilhão” aparece-nos o Brasil onde, apesar de tudo, e não obstante a conjuntura política extremamente adversa por que passou (e passa), a economia parece não estar a ressentir-se.

Uma palavra também para outro país de língua portuguesa, Angola, que teve em 2017 um ano de viragem e que neste momento, com a nova Presidência, está a criar grandes expectativas, tanto interna, como externamente.

Quanto às dúvidas que assolavam o Mundo inteiro relativamente à “saúde” do sistema financeiro internacional, constatamos que as mesmas, infelizmente, ainda persistem.

Finalmente, quer pelos impactos que teve no ano passado, quer pela importância para alguns dos assuntos que iremos abordar de seguida, temos a questão das alterações climáticas e a posição assumida pelos EUA – mais uma decisão de difícil compreensão por parte da Administração Trump –, pondo em causa os acordos de Paris ao anunciar querer renegociá-los. Como vimos ao longo de 2017, o Planeta Terra, a Humanidade, começa a pagar uma factura demasiadamente pesada pelos erros passados (e presentes) que fez (e faz!) a propósito das alterações climáticas e ambientais e da demora que está a ter em corrigi-los – vejam-se os furacões, as secas, os grandes incêndios e inundações e muitas outras catástrofes –, situação que tem originado um descontentamento acusatório generalizado para com os Estados Unidos e, curiosamente, relevado o papel importante que a China está a ter na manutenção destes acordos internacionais – a mesma China que, por assim dizer, o Mundo inteiro acusava de ser o grande poluidor global…

Contudo, e apesar de toda esta conjuntura altamente complexa e pouco animadora, o facto é que a economia mundial deu sinais de vitalidade durante 2017.

 

Turisver.com – As questões que acabou de enumerar são praticamente todas negativas. O estranho é que isso parece não influenciar o turismo mundial que continua a crescer.

 

Atilio Forte – Foi exactamente por essa razão que acabámos a resposta anterior com uma nota final sobre a evolução económica. Quase paradoxalmente, a economia mundial cresce (estimam-se + 3%) e talvez o aspecto mais visível desse crescimento seja a pujança que a actividade turística tem vindo a revelar, prevendo-se, de acordo com as últimas projecções, nomeadamente as da Organização Mundial do Turismo (UNTWO), que o ano feche com um aumento turístico na casa dos 6 a 7% a nível global e, principalmente para aquilo que mais directamente nos diz respeito, com a Europa a ocupar um lugar de grande destaque. Portanto, aparentemente, e tal como referimos acerca do sucedido no Brasil, também à escala planetária todas estas incertezas não parecem estar a influenciar nem a economia, nem aquela actividade que actualmente é o seu expoente máximo e mais representativo: o Turismo.

Todavia, ao fecharmos este capítulo internacional e no âmbito do Turismo, vale a pena aqui deixarmos uma nota telegráfica sobre algo que 2017 nos trouxe de novo, que é o vacilar que se sente nalguns modelos de negócio no sector do transporte aéreo, nomeadamente no que se prende com a sustentabilidade das companhias de baixo custo (vulgo low cost). Por essa razão, e apesar de já o termos abordado, este é um assunto que, obviamente, aqui continuaremos a acompanhar, seja por ter sido uma novidade imprevista que 2017 nos trouxe, seja, sobretudo, porque nos deve, a todos, exigir reflexão.

 

Turisver.com – Em relação a Portugal 2017 foi um ano marcado pelos incêndios e pela subida dos indicadores económicos do país.

 

Atilio Forte – É verdade. 2017 foi para Portugal um ano dual, onde podemos constatar a “coabitação” entre o muito bom  e o horrível, entre o excelente e o catastrófico.

Do lado do muito bom tivemos a confirmação da estabilidade política da actual coligação parlamentar que suporta o Governo, algo que se punha em dúvida no início de 2017, mas que se manteve durante todo o ano, embora após as eleições autárquicas tenha dado sinais de alguma “tremedeira”, bem expressa pela intensificação da contestação laboral a que, ultimamente, temos assistido.

Mas as boas notícias não se ficaram por aqui. Do ponto de vista económico-financeiro saímos do procedimento por défice excessivo, o que provocou, quase automaticamente, uma melhoria do rating da República e nos trouxe taxas de juro mais baixas, o que não só é bom para a nossa dívida pública, como também é uma excelente nova para o global da economia nacional.

Economia que, por seu turno, revelou um bom desempenho, o que permitiu com que conseguíssemos ficar abaixo das previsões iniciais para o défice e que, ao que tudo indica, teremos fechado o ano com um resultado histórico, que se situará ligeiramente abaixo de 1,3% negativos do Produto Interno Bruto (PIB).

Toda esta dinâmica económica deveu-se em grande parte ao ligeiro aumento do poder de compra dos portugueses, à diminuição do desemprego e, principalmente, ao aumento das exportações, onde é de salientar que a “estrela maior”da economia portuguesa foi, sem sombra para dúvidas, o Turismo.

E como corolário de todos estes sucessos, qual cereja no topo do bolo, no final do ano acabámos por assistir à nomeação do nosso Ministro das Finanças para a Presidência do Eurogrupo.

Fora deste âmbito, tivemos uma outra excelente notícia. Algo nunca visto por terras lusas: vencemos o Festival Eurovisão da Canção!

Nos aspectos horríveis ou catastróficos, dentro da tal dualidade que falámos, há a salientar a falência rotunda do Estado – tanto na protecção e segurança das pessoas, como dos bens, como do território –, a qual foi tristemente visível nos trágicos incêndios, quer de Pedrógão (Junho 2017), quer do Centro (Outubro 2017), quer também na questão do roubo de material militar ocorrido em Tancos.

Por outro lado, destacamos ainda que, tal como já aqui havíamos antecipado, a nível da Concertação Social acabámos por sentir alguma desilusão, tanto pela actuação dos Parceiros Sociais, mormente do lado dos empregadores como, principalmente, pela desvalorização de que a mesma tem vindo a ser alvo e que é indissociável do actual quadro político.

Por último, apesar de terem sido resolvidos alguns dossiers ligados ao sistema financeiro, finalizámos o ano com mais um problema latente numa instituição bancária, o que significa que transportaremos para 2018 grande parte das dúvidas que já detínhamos relativamente ao sector.

 

Turisver.com – Em relação à actividade turística, foi o ano dos “Óscares”. O Turismo teve um comportamento brilhante, quer em todos os seus indicadores, quer na criação de emprego, quer na contribuição para as finanças públicas e teve reconhecimentos internacionais, entre os quais o maior de todos.

 

Atilio Forte – Assim foi! Os resultados de 2017 vão seguramente confirmar o que dissemos ao longo de todo o ano passado, isto é, que certamente conseguimos ultrapassar 2007, o último grande ano turístico que tivemos, seja em termos do número de turistas, seja em termos de receitas, seja em termos de dormidas seja, ainda, no emprego gerado. Portanto, 2017 foi o ano em que começámos verdadeiramente a retirar frutos do bom trabalho que temos vindo a desenvolver, apesar de um ou outro decréscimo, nomeadamente relacionado com os sinais que começam a vir do mercado britânico, ligados à questão do Brexit, mas que foram compensados, por um lado, com a conjuntura internacional que continua a favorecer-nos e, por outro lado, com a recuperação de alguns mercados como o brasileiro e o norte-americano.

À margem dos números, em 2017 passou-se também algo que consideramos muito importante: o Governo aprovou e iniciou a implementação de uma estratégia a 10 anos, a Estratégia Turismo 2027 e, por seu turno, os agentes económicos privados, através da CTP – Confederação do Turismo Português, apresentaram um Roteiro para a Competitividade. Como os nossos leitores sabem, já aqui analisámos ambos os documentos, é nosso entendimento que eles complementam-se. Por isso, talvez a notícia “turística” menos boa do ano passado, foi ele não nos ter trazido o desejado “casamento” entre estas duas visões, porque desse modo poderíamos ter saído de 2017 com uma estratégia concertada e consensualizada entre todos os agentes turísticos.

Num segmento muito importante que é o do turismo religioso, 2017 ficou marcado pelas celebrações do Centenário das Aparições em Fátima e pela visita do Papa. A isto acresceu outro aspecto muito positivo, que tem a ver com o “regresso” da Conta Satélite do Turismo (CST). Vamos agora ver quando tivermos os dados de 2017, que esperamos estejam disponíveis até ao final do primeiro trimestre de 2018, quais serão os resultados realmente alcançados, apesar de acreditarmos que os mesmos irão certamente confirmar aquilo que aqui acabámos de afirmar.

No entanto, nem tudo foram rosas… 2017 também nos trouxe algum sentimento turismofóbico, ou se quisermos um pouco anti-turismo, não só por aquilo que tem sido a interacção (ou a falta dela) entre o turismo e as comunidades locais, mas também pelo “aproveitamento” que se tem procurado tirar da actividade, nomeadamente pela crescente proliferação das taxas turísticas, que começaram “de vento em popa”e a ganhar dinâmica em 2017, tendência que veremos acentuar-se em 2018, tal como assistiremos ao agravar dos valores cobrados.

Finalmente, e para acabarmos esta “viagem” com boas notícias, 2017 ficará para a História do Turismo Português como o ano em que Portugal, pela primeira vez, foi eleito Melhor Destino Turístico da Europa e Melhor Destino Turístico do Mundo, e isso é algo que a todos nos deve orgulhar e que juntos (sem qualquer excepção) devemos partilhar e celebrar.