iTurismo: 2018 em Perspectiva, por Atilio Forte

Neste que é o segundo iTurismo de 2018, e depois de na semana passada esta rubrica ter sido dedicada ao balanço do ano de 2017, Atilio Forte traça hoje perspectivas para o ano que agora começa, quer no que toca à envolvente política e económica e também ao turismo mundial, como no que se refere a Portugal, igualmente em termos da política económica e da actividade turística.

 

Turisver.com – O turismo é uma actividade económica que é impactada por tudo o que acontece no Mundo, seja positivo ou negativo. O que é que se perspectiva, de bom e de mau, que possa vir a influenciar o turismo neste ano?

Atilio Forte – Como no passado dia 7 completámos quatro anos de iTurismo, não podemos deixar de começar o comentário de hoje sem dedicar uma palavra especial de agradecimento aos nossos leitores, quer pela fidelidade que têm demonstrado para com esta rúbrica, quer por constatarmos, semana após semana, o aumento do número de visualizações da mesma o que, sem sombra para qualquer dúvida, é o maior incentivo que podemos receber para prosseguirmos com as análises que fazemos.

Depois de na semana passada termos aqui feito a retrospectiva do que foi 2017, sobre o qual dissemos ter sido o ano de todas as incertezas, tentaremos hoje perspectivar o que irá ser o ano que agora começa. E, desde logo, se quiséssemos qualificar 2018 numa frase, poderíamos dizer que este vai ser o ano em que os “dados estão lançados”.

Assim, do ponto de vista internacional, importa olhar em primeiro lugar para o que irá passar-se nos Estados Unidos da América (EUA), isto é, se internamente o Presidente dos EUA vai ou não ser alvo de um processo de “impeachment”; se continuaremos a assistir ao crescendo de contestação pública contra a Administração Trump; e até que ponto a eventual intervenção russa nas eleições do actual Presidente virá a provar-se. Por outro lado, a nível externo, e não podendo os Estados Unidos corrigir alguns dos “tiros” que já deram (como aqui analisámos na semana passada), será grande a expectativa para ver como os mesmos irão comportar-se em algumas questões de enorme importância para o Mundo, de entre as quais se destacam a israelo-palestiniana, a da Coreia do Norte, a das relações que irão ter com os países da América Latina e, ainda, como evoluirá a sua posição relativamente aos acordos de Paris que, como é público, versam sobre o aquecimento global.

Escusado será dizer que tanto a Rússia como a China estarão obviamente à espreita para colherem possíveis dividendos internacionais destas posições e, desse modo, poderem vir a cimentar a sua importância como superpotências.

Quanto à União Europeia (UE) veremos, por assim dizer, se demonstrará capacidade de voltar um pouco às “origens”, ou se se preferir, a um dos principais lemas da sua fundação, o “todos diferentes, todos iguais” de forma a reequilibrar-se e por essa via reconquistar algum protagonismo na cena internacional. Mas, para isso, terá de provar saber lidar e ultrapassar as questões dos nacionalismos, de que aqui demos conta na semana passada, nomeadamente naquilo que se prende com o cenário mais candente que é o da Catalunha, tal como será importante observarmos como irá evoluir a situação interna no Reino Unido, nomeadamente em matéria de “Brexit”, bem como, na Alemanha, se será ou não possível realizar, a curto prazo, um acordo entre as diferentes forças políticas que permita empossar um novo Governo e, finalmente, convirá que não nos esqueçamos que, já em Março, realizar-se-ão eleições em Itália, perspectivando-se que as mesmas também dêem origem a um quadro político de alguma complexidade.

De qualquer forma, caso não existam sobressaltos, tudo indica que a economia mundial, e particularmente a da União Europeia, vai continuar a crescer, apesar da instabilidade e das dúvidas generalizadas que persistem em pairar sobre o sistema financeiro internacional.

Neste aspecto em concreto, acreditamos que iremos assistir, por um lado, a um paulatino aumento das taxas de juro e, por outro lado, à progressiva diminuição das ajudas do Banco Central Europeu (BCE) aos diversos Estados-Membro, algo que nos diz mais directamente respeito, por passar-se dentro da “Zona Euro”.

Obrigatoriamente teremos de ter em conta o que acontecerá na China, país hoje em dia muito importante para a “ordem mundial” e que está num momento de transição de modelo económico. Como sabemos, durante muitos anos, o modelo de desenvolvimento económico chinês baseou-se em baixos salários e nas exportações passando, actualmente, por uma fase de transição para uma outra estratégia que se pretende muito direccionada para o aumento do consumo interno fruto, sobretudo, dos maiores rendimentos da sua população activa. Ora convirá estarmos atentos a esta mudança, pois a mesma poderá ter impacto na economia mundial, nomeadamente do ponto de vista da inflação que, possivelmente, gerará nalguns blocos económicos.

Também não podemos ignorar as questões ligadas ao terrorismo, uma vez que apesar da anunciada derrota do auto proclamado estado islâmico, estamos convictos que, infelizmente, continuaremos a ter atentados terroristas aleatórios (um pouco por todo o Mundo) e, porventura, assistiremos ao reaparecimento da “Al-Qaeda”, que muitos já deram por “morta e enterrada”, mas que vai dando sinais que poderá, neste ano de 2018 e pelas piores razões, voltar à cena internacional.

Ainda no plano das ameaças, uma questão que acreditamos ganhará importância no ano que agora começa é a que se prende com a cibersegurança. Em 2017 já assistimos a alguns problemas ligados a este domínio, mas tudo indica que 2018 vai ser o ano da “prova dos nove”, ou seja, se a crescente dependência tecnológica que a humanidade manifesta não a poderá arrastar por caminhos indesejáveis, nomeadamente os decorrentes de quebras na segurança informática que poderão originar a exposição de informações mais sensíveis, tanto do foro individual, como colectivo (político, económico, militar, serviços de inteligência, etc.).

Nos assuntos a manter “debaixo de olho” temos a evolução da América Latina e do Médio Oriente que, por motivos diversos que escusamos repetir (falámos deles na semana passada), são presentemente Regiões que podem ser rotuladas como autênticos “barris de pólvora”.

2018 será ainda um ano muito importante para demonstrar se Angola efectuou de facto uma viragem ou se estamos apenas perante uma alternância da nomenclatura.

Embora já tenhamos referido de passagem as questões das catástrofes ambientais – particularmente as climáticas e as ecológicas –, cremos que, lamentavelmente, elas irão continuar a marcar a vida do Planeta e a exigir a todos uma maior consciência e intervenção, isto é, sermos mais activos em cuidar melhor do Mundo em que vivemos.

Uma palavra também para a temática da bolha da criptomoeda “bitcoin”, para vermos até que ponto estaremos confrontados com uma situação meramente especulativa e, se assim for, como é que ela irá evoluir, ou se não nos encontraremos apenas perante uma fraude gigantesca, ligada ao branqueamento de capitais e à evasão fiscal e, no caso de tal se confirmar, como é que isso irá afectar os mercados.

Não podíamos concluir esta ronda internacional, sem sinalizarmos que o maior perigo que o Mundo presentemente enfrenta reside no ego excessivo, transmutado em acesso a “botões do nuclear”, que alguns líderes pouco responsáveis (para não os qualificarmos com outras palavras) revelam, ou como eles próprios dizem, “têm permanentemente em cima da secretária”.

 

Turisver.com – Em termos internacionais as perspectivas apontam para que o turismo vá continuar a crescer…

 

Atilio Forte – Exactamente. Caso não existam quaisquer sobressaltos, a actividade económica do turismo continuará a aumentar e a liderar o crescimento da economia mundial e, se isso vier a confirmar-se, acreditamos que existirão dois ou três aspectos que marcarão 2018.

Desde logo, assistiremos a algumas mega fusões ou aquisições entre ou por parte de grandes empresas. Para além disso, estamos em crer que este vai ser um ano muito marcado pelo início do foco total da atenção dos vários agentes turísticos no cliente e isso será visível, nomeadamente, na tradução que terá no recurso crescente à incorporação de tecnologia no produto, particularmente na sua inovação, e na melhoria drástica dos processos de operação e de atendimento.

Uma última nota para salientar algo que já referimos na passada semana – que é uma das preocupações a que o turismo deverá estar atento – e que está relacionada com o modelo de sustentabilidade do negócio das companhias aéreas de baixo custo (vulgo “low cost”), no que respeita ao que irá passar-se nessas empresas, sobretudo no mercado europeu, onde a concorrência com as transportadoras (ditas) “tradicionais” está “ao rubro”, razão que ao longo do ano poderá originar uma ou outra notícia menos boa e que, caso isso venha a verificar-se, obviamente afectará os fluxos turísticos.

 

Turisver.com – No último semestre tem-se assistido a um aumento progressivo do preço do combustível, o que, inevitavelmente, afecta o custo das viagens. É expectável que haja grandes aumentos?

 

Atilio Forte – Tudo depende do que vier a acontecer no Médio Oriente. Para além do que se passar nessa Região – cuja conjuntura complexa já aqui sumariamente abordámos –, estão ainda implícitas as evoluções da política internacional que temos vindo a expor mas, também, outras próprias, porque internas, do “Mundo Árabe”, nomeadamente, a guerra surda (que o é cada vez menos…), entre sunitas e xiitas, ou seja, entre o bloco da Arábia Saudita e o bloco do Irão.

Basta atentarmos na instabilidade que neste momento o Irão vive para verificarmos que estamos perante inúmeras incógnitas e, escusado será dizer-se, que as mesmas poderão ditar alterações no preço do petróleo.

De qualquer das formas, actualmente estamos melhor do que há um ano, quando chegámos a ter o preço do barril do crude na casa dos 15 – 20 dólares (embora na antevisão que fizemos para 2017 tivéssemos dito que ele iria estabilizar na casa dos 50 – 60 dólares, como acabou por acontecer), valor que era insustentável em termos dos impactos provocados na economia mundial, como ficou bem patente pelos efeitos devastadores que teve nalgumas economias, entre as quais a angolana, a brasileira e as da maioria dos países do Médio Oriente, embora neste último caso seja importante referir-se que vimos assistindo a um abandono progressivo da excessiva dependência do “ouro negro” em benefício de outras áreas da economia, nomeadamente o turismo, exactamente para quebrar a hegemonia desta matéria-prima e evitar que qualquer oscilação no seu preço, mormente para valores muito baixos, possa vir a provocar problemas acrescidos.

 

Turisver.com – Em Portugal, num ano sem eleições, o que é que se pode esperar em termos de estabilidade e de política?

 

Atilio Forte – São algumas as dúvidas que presentemente se levantam (no plano político) no que respeita à estabilidade do nosso país, concretamente quanto à evolução daquilo que hoje conhecemos por “geringonça” e que, estamos em crer, irão ter como ponto marcante as negociações do Orçamento de Estado para 2019, que não só testarão o equilíbrio da coligação parlamentar que suporta o Governo, como também nos permitirão antever um pouco do que irá passar-se em 2019, ano que, esse sim, será de eleições Europeias e Legislativas.

Por outro lado – e depois de amanhã já o saberemos –, importará termos em conta o que irá resultar da nova liderança do maior Partido da oposição, sabendo-se que, por um lado, se é verdade que as democracias alimentam-se do confronto de ideias, por outro lado, não menos verdade é que elas também precisam de compromissos e, por essa razão, teremos de aguardar para ver o que é que o PSD – Partido Social Democrata irá trazer de novo ao panorama político do País.

Um aspecto determinante para o ano que agora está a começar, será o do crescimento da economia, sobretudo em face dos encargos que foram criados com o Orçamento de Estado em vigor (2018) e que também terá reflexos em anos vindouros (particularmente em 2019, ano que será eleitoral), não porque os mesmos sejam injustos, mas porque representam algo que é incontornável: mais despesa.

Neste sentido, grande parte das atenções, internas e externas, estarão concentradas em avaliar em que medida é que a economia irá crescer para compensar (no mínimo atenuar) esse aumento de despesa e, simultaneamente, ver como é que, por assim dizer, conseguirá travar-se alguma maior predisposição por parte dos portugueses para consumirem mais, uma vez que irão novamente sentir um ligeiro aumento do seu poder de compra.

Contudo, sobre este último aspecto convirá destacar que o mesmo poderá fazer crescer o crédito ao consumo, sobretudo no imobiliário, ou seja, na compra de casa própria, o que tendencialmente desviará algum rendimento disponível dos agregados familiares da realização de outros gastos, nomeadamente em férias ou lazer, com isso afectando directamente o turismo.

Quanto ao investimento público, não acreditamos que ele venha a ter uma oscilação muito significativa durante 2018. No entanto, estamos em crer que, muito provavelmente, iremos assistir ao início das negociações para a obtenção de um largo consenso nacional sobre esta matéria, sobretudo nos investimentos a efectuar nas grandes infra-estruturas do País.

Não só, mas também por isto, há uma questão que, em nossa opinião, não pode continuar a ser adiada que é a relacionada com o início das obras de construção, reabilitação ou requalificação (chame-se-lhe o que se quiser) do novo Aeroporto de Lisboa, porque tanto Portugal, em geral, como a Região de Lisboa, em particular, precisam dele como de “pão para a boca”, isto claro está se a opção política for a de pugnar pela continuação do crescimento da economia e muito concretamente da actividade turística.

Relativamente ao desemprego, a manter-se a tendência de crescimento da economia nacional, espera-se que o mesmo continue progressivamente a diminuir, como veio a acontecer ao longo de 2017.

Finalmente, consideramos que 2018 será ainda um ano crucial para que o Estado (re)defina o seu papel e dessa forma dê passos seguros no (r)estabelecimento da ligação de confiança que deve manter com os cidadãos, para começar a sarar as feridas que resultaram das tragédias que fustigaram o país em 2017.

 

Turisver.com – Em matéria de turismo, vimos de um ano de grande crescimento. O que é que é expectável para 2018?

 

Atilio Forte – Acreditamos que 2018 vai ser novamente um bom ano turístico, embora sem os níveis de crescimento que se verificaram em 2017. Temos alguma expectativa em saber se irá acontecer a (desejada) fusão ou, por outras palavras, o casamento, entre as propostas de médio e longo prazo do Governo e dos agentes económicos privados, ou seja, entre a Estratégia Turismo 2027 e o Roteiro para a Competitividade da CTP – Confederação do Turismo Português.

Perspectivamos, ainda, que vai ser um ano marcado por debates muito amplos a nível interno no turismo e, por isso, será expectável a tomada de decisões, também muito importantes, sobre alguns temas candentes, nomeadamente ao nível do alojamento local, da turismofobia, do combate à evasão fiscal nas vendas online, da resignação, ou não, dos agentes do turismo às taxas turísticas, às quais acrescerá o da evolução do mercado britânico – como se sabe, um dos nossos principais mercados emissores –, quer na perspectiva das incertezas que ainda existem relativas ao “Brexit”, quer das dúvidas que estão cada vez mais a pairar sobre as companhias aéreas de baixo custo, como atrás referimos.

Todavia, acreditamos que a oferta continuará a crescer e, por isso, as perspectivas de investimento, na e da actividade, continuarão a aumentar, o que irá pôr à prova a capacidade de carga turística de Portugal, já que o turismo, enquanto actividade transversal e pluridisciplinar, impacta e depende da infra-estruturação global do país, desde os serviços de saúde, até à limpeza das ruas.

No respeitante ao emprego na actividade turística alertamos para um aspecto que aqui abordámos largamente ao longo de 2017: não se qualifica, nem se dá formação às pessoas de um dia para o outro. Assim sendo, uma de duas coisas irá naturalmente acontecer: por um lado, as empresas terem de incorporar muita mão-de-obra não qualificada; por outro lado, começarem a pensar remunerar um pouco melhor os seus trabalhadores para, por exemplo, tornarem as profissões turísticas mais atractivas para quem possui qualificações ou, ainda, conseguirem “repatriar” muitos portugueses que trabalham no turismo por esse Mundo fora, proporcionando-lhes condições económicas para que voltem a Portugal e, desse modo, contribuam para a criação de riqueza e conhecimento, seja nas empresas, seja no país. Se assim não for, a actividade turística continuará, mês após mês, a falar (com preocupação) da escassez de recursos humanos e da sua falta de qualificação.

Concluímos, com uma palavra dedicada às eleições na CTP – Confederação do Turismo Português, que ocorrerão no primeiro semestre de 2018, previsivelmente no virar do primeiro para o segundo trimestre, para referirmos que apesar de haver bastantes vozes dissonantes (no mundo empresarial e associativo) sobre o rumo que a instituição está a prosseguir, não estamos em crer que venham a existir alterações significativas, quer ao nível da composição dos seus Órgãos Sociais, quer da própria actuação daquela estrutura confederal.