iTurismo: Nem 8, Nem 80 – por Atilio Forte

O jantar de encerramento da “Web Summit” que causou polémica por ter sido realizado no Panteão Nacional, e a urgência de um novo aeroporto para Lisboa, são comentados por Atilio Forte no iTurismo desta semana, enquanto no “O + da Semana” destaca os trágicos incêndios que ao longo deste ano fustigaram a zona Centro de Portugal. Nos “Tópicos da Semana”, o comentador dá atenção ao turismo de inclusão, à captação de investimento hoteleiro em Toronto, bem como aos programas de fidelização da Marriott e da Hilton.

 

Tópicos da Semana

  • Multinacionais turísticas muito atentas à inclusão: Várias são as grandes empresas turísticas que, cada vez mais, estão atentas a este fenómeno, nomeadamente no que respeita à tomada de medidas que lhes permitam ser mais inclusivas, principalmente junto da comunidade LGBTI (Lésbica, Gay, Bissexual, Transsexual e Intersexual). Este tipo de cuidados fazem sentir-se, sobretudo no sector do alojamento, com o ter à disposição dos hóspedes, por exemplo, casas-de-banho de género neutro ou fazer acções de formação junto dos colaboradores acerca deste importante segmento de consumidores, tendo sempre por objectivo demonstrarem um maior compromisso com a diversidade e a inclusão.
  • Toronto soma e segue próspera na captação de investimento hoteleiro: Durante o ano de 2016 as transacções de hotéis no Canadá atingiram níveis recorde e, ao que tudo indica, o ritmo dos negócios no corrente ano parece não ter abrandado. Contudo, deve salientar-se que uma em cada três compras/vendas de hotéis que têm lugar naquele país realiza-se numa única cidade: Toronto.
  • Marriott e Hilton inovam nas acções de fidelização: Ambas as cadeias hoteleiras expandiram as opções dadas aos seus clientes para rebate dos pontos acumulados, resultantes das suas acções de fidelização. Doravante, a todos os membros dos programas “Marriott Rewards” e “HHonors” será permitido efectuarem compras online a retalho, através da utilização daquele tipo de benefícios que foram colhendo e conquistando pela sua lealdade.

 

Comentário:

Turisver – O jantar de encerramento da “Web Summit” causou polémica por se ter realizado no Panteão Nacional. Na base desta polémica está a permissão que a  Lei confere ao aluguer de espaços em edifícios nacionais para a realização de eventos, com a finalidade nobre de ser uma receita adicional para a sua conservação. Na sua opinião, pelo excesso cometido com o aluguer do Panteão, deverá pôr-se em causa a Lei actual?

 

Atilio Forte – Nas últimas duas semanas este tem sido um dos temas candentes que mais espaço tem ocupado na comunicação social e mobilizado a opinião pública. Sobre o mesmo já ouvimos um pouco de tudo, desde opiniões atabalhoadas, a pedidos de desculpa, a pretensas indignações.

Quanto a nós, e contrariamente às vozes de muitos, este é um assunto sério e que, por esse motivo, nunca poderia ter sido tratado com a aparente leviandade com que o foi. Estamos, assim, em total desacordo com aqueles que o têm procurado desvalorizar, fazendo contraponto, por exemplo, com o surto de “legionella” que ocorreu no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa.

E não o dizemos por, de forma alguma, desconsiderarmos todos quantos foram afectados por aquela infecção e, muito menos, por desvalorizarmos asmortes que ela provocou. Longe disso.Pois não há nada mais importante do que a vida humana! Embora em patamar diverso, referimo-lo porque este é mais um caso em que existiu uma flagrante falha do Estado. É que este jantar realizado no Panteão Nacional, é contemporâneo do mencionado surto de “legionella” e acontece na sequência dos trágicos incêndios ocorridos em toda a zona Centro do País e em Pedrógão Grande e do roubo de armamento militar em Tancos.

São, em pouco tempo, episódios a mais e Estado a menos! Acontecimentos que demonstram um Estado ausente ou demissionário das suas funções essenciais: garantia da protecção da vida humana, dos cidadãos e dos seus bens, da saúde pública, da preservação do território, da defesa e da soberania nacional. A que se soma agora a desconsideração por alguns dos nossos maiores símbolos ou, como diria o “Poeta”: “[…] (d)aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando” (in, Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas”, Canto I, estrofe 2).

Dito isto, centremo-nos então na questão que nos foi colocada. E, ao fazê-lo, devemos começar por esclarecer que num país, como Portugal, com quase 900 anos de História, é natural (e ainda bem) que exista um vastíssimo património monumental e cultural que é herança e pertença de todas e de todos os portugueses, que dele devem usufruir, quer pública, quer privadamente, mas que também é alvo da curiosidade de todos quantos nos visitam.

Como é sabido a preservação e manutenção deste legado é dispendiosa e particularmente difícil em tempos de menor abundância, como aqueles por que temos passado nos últimos anos. Faz por isso sentido que, em vez de deixar que os mesmos se degradem, permitam-se soluções criativas de obtenção de receita, nomeadamente através da autorização para a utilização privada desses espaços, a qual, muitas vezes, acaba igualmente por ser factor de promoção do próprio local, pois nem sempre estamos a falar de monumentos que são mundialmente conhecidos.

No entanto, essa utilização deve ser cuidada e parcimoniosa, isto é, obedecer a determinadas regras e, acima de tudo, onde o bom senso deve imperar no momento em que quem tem competência para dar a correspondente autorização, o faz. Mais a maisquando o espaço em causa esteja classificado como “Património Nacional”.

Ora, embora compreendamos que na perspectiva de quem pretende alugar o espaço, quanto mais exclusivo o mesmo for, melhor, do nosso ponto de vista, é obrigatório que o dito bom senso prevaleça por parte de quem tem a faculdade de o autorizar. E, neste caso, tal manifestamente não aconteceu.

Contudo, não devemos ser hipócritas. Sabemos hoje que idênticas autorizações já tinham sido dadas e os eventos tido lugar naquele emblemático local, sem que nenhum alarde à sua volta tivesse sido criado. Portanto, a falta de bom senso, não se verificou somente desta vez!

Daí que não hajam “inocentes” nesta matéria. Antes sim falta de responsabilidade e, porque não dizê-lo, incúria. Mas talvez o mais grave, seja o inqualificável “passa culpas” a que temos assistido, sem que alguém assuma que errou, peça desculpa e dê garantias que tal não voltará a acontecer. Istosim é, pura e simplesmente, inadmissível.

Não obstante tudo o que afirmámos, cremos ser forçada qualquer alteração legislativa. Admitimos que possa haver um ou outro retoque clarificador, nomeadamente que abranja todos os locais com estatuto de panteão nacional, ou seja, o próprio Panteão Nacional e os Mosteiros dos Jerónimos e de Santa Maria da Vitória (Batalha). Mas alterar um quadrolegal que explicitamente prevê que sejam “rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos Monumentos” (sic.), parece-nos excessivo (para não dizer capcioso) e uma tentativa enviesada para que a culpa “morra solteira” e que leve alguém a pensar que daqui em diante “é que tudo vai passar-se como deve”.

Temos para nós que qualquer alto dirigente da Administração Pública ou titular de cargo público, seja eleito, nomeado ou com percurso técnico que o habilite a desempenhar afunção, em primeiro lugar deve, obrigatoriamente, ser possuidor de um grande bom senso e, em segundo lugar, ter uma noção exacta do que é a “coisa pública” (a “Res publica”). E, já agora, se não for pedir demasiado, que conheça bem o que vai dirigir ou tutelar.

Finalmente, embora em tese – quase académica – o tenhamos de fazer, custa-nos admitir que num acto desta natureza, sobretudo porque integrado num megaevento como a “Web Summit”, algo tenha sido deixado ao acaso, e (quase) ninguém soubesse “o quê”, “com quem” e “onde” iam acontecer as várias componentes sociais do programa. Habitualmente tal obriga que, previamente e entre outras, acautelem-se questões logísticas, de segurança e operacionais. Enfim…

Por tudo o que dissemos esperamos que, à boa maneira portuguesa, não se passe do “8 para o 80”, e que as restrições já anunciadas pelo Ministério da Cultura apenas tenham por objectivo que exista uma maior consciência da importância de preservar e dignificar os nossos símbolos, referências, exemplos e património, sem que tal inviabilize a sua fruição cuidada por nós e por todos quantos nos visitam e desejam conhecer os nossos valores e a nossa cultura.

 

Turisver – No Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, o Presidente da Comissão Executiva da ANA Aeroportos, Carlos Lacerda, afirmou que com mais espaço aéreo, que actualmente é ocupado por voos militares, seria possível aumentar o número de passageiros no Aeroporto de Lisboa até à construção do novo aeroporto. Na sua opinião esta é uma situação que merece uma resolução rápida por parte do Governo?

 

Atilio Forte – Não sendo esta uma questão nova, até porque é uma das muitas que, há quase duas décadas, justificam a urgência de um novo aeroporto em Lisboa, é de certo modo incompreensível como é que, Governo após Governo, com a concessão da ANA Aeroportos de Portugal pelo meio, a mesma ainda ande a ser falada, sem que se chegue a qualquer conclusão.

Sabemos que a disponibilização de mais espaço aéreo para finalidades civis não é uma matéria fácil de resolver, atenta quer a necessidade de continuar a assegurar “corredores” para o tráfego militar das Bases da Força Aérea que circundam a capital, quer por razões de segurança, já que, como se sabe, existem determinadas zonas que não podem ser sobrevoadas por aeronaves civis.

No entanto, estamos em crer que ao longo de todos estes anos e, sobretudo, vendo o assinalável crescimento turístico do país, em geral, e da região de Lisboa, em particular, só um manifesto alheamento desta realidade – para não referir falta de vontade – é que tem impedido que uma solução seja encontrada.

Claro está que, mesmo que tal suceda a breve prazo, será sempre preciso dotar a NAV Portugal – empresa pública responsável pelo controlo do tráfego aéreo – dos meios que lhe permitam fazer face à gestão de um maior número de movimentos aéreos, mas cujos benefícios que daí advirão, por serem óbvios, mais do que justificam esse reforço.

Portanto, em nossa opinião, não se entende a inacção do Governo sobre este assunto, a qual tem como consequência uma cada vez mais séria limitação ao crescimento do turismo nacional.

Contudo, não podemos finalizar a nossa resposta sem deixarmos o seguinte alerta: compreendemos a necessidade de pôr em prática algumas medidas paliativas com o objectivo de atenuar os constrangimentos actuais, enquanto não existir uma segunda infra-estrutura aeroportuária que sirva Lisboa (e o país), mas será bom termos bem presente que esse tipo de soluções ditas “temporárias” ajudam a “empurrar com a barriga” o verdadeiro problema pois, entretanto, de “remendo em remendo” as coisas, com o esforço de muitos e com custos bastante elevados, acabam por ir funcionando e com isso as decisões sendo adiadas, tal como fácil e infelizmente temos tido possibilidade de vir comprovando. E isso algo é que não pode continuar a suceder!

 

O + da Semana:

Os trágicos incêndios que ao longo deste ano fustigaram a zona Centro de Portugal (envolvendo 59 concelhos), entre muitas outras consequências – com destaque para o elevado número de vidas que ceifaram – destruíram total ou parcialmente 39 empreendimentos turísticos localizados na região. Vale por isso a pena que aqui destaquemos o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, principalmente, entre o Governo, através do Turismo de Portugal e da CCDRC – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, os municípios e a Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal no sentido de, o mais rapidamente possível, minorar a queda abrupta das reservas que de imediato se verificou para aquela zona do nosso país, como também, contribuir para a recuperação dos activos turísticos atingidos e dos mercados, relançando a actividade na e para a região. Saúdam-se por isso medidas que visam a reconstrução do destino, como o acesso pelo tecido empresarial a crédito bancário em condições que poderão chegar à “taxa zero” e com prazos mais alargados de carência, linhas de apoio à tesouraria das empresas parcialmente a fundo perdido, disponibilização de verbas para reparação ou reconstrução, entre outros, de caminhos pedestres, praias fluviais e empreendimentos turísticos, para além de um sem número de acções promocionais, dirigidas aos mercados interno e externos.