iTurismo: A “Petróleo-Dependência”, por Atilio Forte

Os efeitos que o aumento do preço do petróleo pode provocar na economia mundial e, em particular, no turismo é um dos temas comentados por Atilio Forte no iTurismo de hoje, onde é também abordado o papel que o turismo pode desempenhar no desenvolvimento da economia africana que está a crescer abaixo do previsto.

 

Tópicos da Semana:

  • Dicas para atrair turistas chineses: Tomando em consideração a dimensão do mercado chinês (não esquecer que a China já é o maior emissor turístico mundial), a esmagadora maioria dos especialistas elege como detalhes mais importantes para ser-se bem-sucedido na atracção dos viajantes oriundos daquele país: ter colaboradores que dominem a língua; oferecer o tipo de alimentação correcto; e, disponibilizar chinelos nos hotéis.

 

  • Assuntos legais preocupam a hotelaria mundial: No mês passado teve lugar em Houston (Estados Unidos da América) mais uma edição da “Hospitality Law Conference” que concluiu que o assédio sexual, o tráfico humano e o Regulamento Geral de Protecção de Dados (legislação da União Europeia) são, presentemente, as três principais preocupações dos hotéis. Entre vários estudos foi apresentado um no qual 30% das mulheres empregadas diz já ter sido alvo de assédio sexual no trabalho.

 

  • Reconhecimento facial faz progressos: O Grand Park City Hall hotel de Singapura irá, a muito breve prazo, iniciar testes de uma aplicação (App) móvel que pode vir a permitir aceder aos quartos através da utilização de tecnologia de reconhecimento facial.

 

Comentário

 

Turisver.com – O preço do barril de petróleo não pára de subir o que traz impactos económicos a várias actividades, nomeadamente ao turismo. Na sua opinião, o crescimento do sector pode sair penalizado desta situação a curto prazo? E o turismo interno poderá vir a ter recuos significativos se o preço da gasolina e do gasóleo continuar  a aumentar?

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que este é um dos assuntos que a todos mais nos deve preocupar. E dizemo-lo não apenas pelos efeitos que o mesmo poderá provocar na actividade turística tanto externa, quanto interna – como mais à frente veremos –, como na economia mundial, como também, e principalmente, pelas razões que estão na sua origem. Mas vamos por partes:

Como é público, presentemente o preço do petróleo atingiu cerca de 80 dólares por barril, o que significa que alcançou valores que já não se verificavam desde finais de 2014 (Novembro, para sermos mais exactos) e, simultaneamente, levando a que muitos analistas prevejam que, com o decurso do ano, possa chegar à “mítica” barreira dos 100 dólares. Vários são os factores que estão a contribuir para esta escalada do “ouro negro”, pese embora todos eles – ou pelo menos os principais – tenham um traço em comum: a instabilidade geopolítica.

Assim, e para melhor ilustrarmos o que acabámos de afirmar, seja a recente decisão do Governo dos Estados Unidos da América (EUA) em abandonar o acordo nuclear com o Irão, que motivou que os mercados antecipassem que as exportações deste último país venham a sofrer uma quebra, seja o cada vez mais visível acumular de tensões entre sunitas e xiitas (leia-se entre a Arábia Saudita e o Irão e respectivos aliados regionais), seja a manutenção dos conflitos no Iraque, na Síria, na Líbia e no Iémen, sem fim à vista, ou o israelo-palestiniano, que recentemente recrudesceu, e que continuam a assolar o Médio-Oriente, seja, também, a persistência na Venezuela (detentora da maior reserva de petróleo do Mundo e um dos seus principais produtores) de um quadro político, económico e social à beira da ruptura, são algumas das causas internacionais que, mais objectivamente, estão por detrás do aumento do preço desta matéria-prima.

Considerando a (ainda) excessiva dependência que a economia mundial tem do petróleo, todos estes “latentes sobressaltos” motivam grande preocupação quanto à sustentabilidade dos seus níveis de produção e, por essa razão promovem, por um lado, a carestia do mesmo, uma vez que fazem “funcionar” um dos mais estruturantes pilares da economia, a lei da oferta e da procura e, por outro lado, aumentam as pressões inflacionistas, dado não ser difícil prever que crude mais caro, signifique um agravamento, quase global, de todos os produtos e serviços.

Transpondo este cenário para a actividade turística e deixando de lado, deliberadamente, as questões mais ligadas à estabilidade política e, consequentemente, à segurança que, é bom que se diga, por si só influenciam as decisões de milhões de turistas, não é difícil antecipar um aumento do preço das viagens, tanto pela influência que tudo isto provoca no custo dos combustíveis, afectando particularmente a aviação (meio de transporte por excelência nos dias de hoje), como nos serviços prestados pelo alojamento, restauração e demais sectores que compõem a constelação turística, em virtude dos impactos provocados no valor de aquisição das matérias-primas e dos produtos por eles consumidos.

Para além disso, haverá também que contar com a perda de poder de compra por parte dos consumidores, sobretudo dos que vivam em países com maior tendência para um aumento da inflação como, por exemplo, a Inglaterra (por causa do “Brexit”), para apenas citarmos um dos mercados que mais nos pode vir a afectar.

Portanto, e como vimos, a manter-se este “quadro”, poucas dúvidas existirão que o turismo, no curto e médio prazo, e à semelhança das demais áreas da economia, será claramente prejudicado no seu escorreito desenvolvimento, o que perturbará (e muito) a maior fonte de crescimento da economia mundial (o turismo) e afectará os principais mercados emissores, quer ao nível das viagens de grande distância, quer ao nível das de maior proximidade, neste último caso sempre e quando o aumento do preço do petróleo apareça aliado a outros factores, como a desvalorização da moeda, fazendo com que a taxa de inflação suba e tenha como consequência o cercear das disponibilidades financeiras de quem viaja.

Por tudo isto, é à luz destes argumentos que deve ser entendido o oportuno alerta lançado pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO), exactamente para assinalar que esta é uma das situações que pode acabar por penalizar o desempenho do turismo, em 2018.

No que respeita ao mercado interno, muitas das consequências serão similares ao que acontecerá no plano internacional, isto é, viajar sairá mais caro para quem pretenda deslocar-se para o exterior. Contudo, também estamos em crer que todos aqueles que pretendam “ir para fora, cá dentro” acabem por ser afectados de idêntico modo, pois os custos inerentes às operações turísticas tenderão igualmente a subir, levando a que tenham de ser reflectidos na formação do preço final disponibilizado ao consumidor.

Só que, no que a Portugal se refere, deve ainda contar-se com uma agravante adicional, relacionada com o preço dos combustíveis, dado sermos um dos países do Mundo onde os mesmos são mais dispendiosos (actualmente ocupamos o 10º lugar na lista dos que têm a gasolina mais cara), muito em particular pela elevadíssima (brutal talvez seja o termo mais apropriado!) carga fiscal que sobre eles é aplicada. Referimo-nos ao (tristemente) famoso ISP – Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos, mas não só, já que ao mesmo ainda são somados (e cumulados) outros, como acontece com o IVA – Imposto sobre o Valor Acrescentado, isto para nem sequer referirmos o custo (elevado) das portagens.

Ora, sabendo-se da importância que as deslocações de automóvel e de autocarro assumem no turismo interno, conjugadas com o natural (diríamos mesmo inevitável) aumento dos produtos e serviços turísticos de que já falámos, não é difícil prever-se uma potencial ameaça ao dinamismo que o turismo doméstico tem vindo a manifestar.

Em suma, caso nada de significativo aconteça rapidamente no plano internacional que conduza a uma acalmia das tensões e dos conflitos com que o Mundo actualmente se depara – apesar do nosso optimismo, sinceramente, não antevemos qualquer alteração de fundo nos próximos meses –, também a nossa economia, por ser de pequena dimensão e estar muito exposta ao que acontece no exterior, acabará por sofrer com a pressão inflacionista – que tendencialmente motivará a subida das taxas de juro – coarctando, assim, o rendimento disponível das famílias que verão limitadas as suas possibilidades de gastos em lazer, mesmo dentro de portas.

 

Turisver.com – A economia africana está a crescer mas abaixo das expectativas de algumas organizações internacionais. No seu entender, o turismo vai poder ajudar os países africanos a terem maiores índices de crescimento?

Atilio Forte – Infelizmente, e contrariando o projectado, as últimas previsões da Organização das Nações Unidas (ONU), constantes da actualização do seu Relatório sobre a Situação Económica Mundial, indicam que a economia africana irá crescer cerca de 3,6%, em 2018 e, aproximadamente, 3,9%, em 2019. Valores que, não obstante situarem-se acima da média mundial (2 a 3%, expectáveis em 2018), ficam muito aquém dos necessários para erradicar a pobreza extrema do Continente, conforme estipulado no “Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 1 da Agenda 2030”, daquele organismo internacional, para além de este crescimento ser, em parte, baseado no aumento dos preços das matérias-primas (parcialmente justificado pelas razões por nós analisadas na resposta à pergunta anterior) e, noutra parte, resultante do desempenho económico global.

No entanto, estamos convencidos que, caso não exista grande turbulência política – o que em África nem sempre é fácil acontecer –, a actividade turística poderá vir a dar um contributo decisivo para suplantar estas previsões, considerando, por um lado, quer o volume de investimento turístico em curso, quer o perspectivado, para a região da África Subsariana e, por outro lado, a notória recuperação do turismo nos mercados da África Setentrional.

Aliás, sobre este último aspecto, convirá que aqui façamos referência ao facto de todos os indicadores apontarem para que destinos como a Tunísia e o Egipto possam voltar a registar, no corrente ano, números de turistas internacionais similares aos de 2010 que, a esse nível, foi o seu melhor ano.

Embora noutra zona do globo, a Turquia também deverá seguir esta linha, situação que, conjugada com a primeira e tal como aqui referimos em anteriores comentários, colocará os países do Sul da Europa (onde Portugal se inclui) perante uma nova conjuntura, à qual terão de saber fazer face.

Assim sendo, com o investimento privado em curso – que acabará também por pressionar o aumento do público, nomeadamente em infra-estruturas – e com a recuperação de alguns dos mercados africanos “mais tradicionais” em marcha, antevê-se um crescendo dos fluxos turísticos para aquele Continente e, consequentemente, maiores necessidades de mão-de-obra o que, somado, induzirá um aumento do consumo turístico e não-turístico, bem como uma melhoria do poder de compra da população de alguns países de África.

Não é por isso de estranhar que o Banco Mundial aponte para um crescimento económico do Gana, da Etiópia, da Costa do Marfim e do Djibuti acima dos 7%, em 2018.

Pelo exposto, e caso se mantenha e aprofunde a estabilidade política em África, estamos convictos que o turismo, como sempre, desempenhará o seu incontornável papel regenerador das economias e impulsionador do progresso económico e social.

 

O + da Semana:

 

No final da semana passada o INE – Instituto Nacional de Estatística revelou que os sectores do Alojamento e da Restauração e Bebidas alcançaram níveis de empregabilidade nunca registados nesta última década em Portugal, uma vez que finalizaram o 1º trimestre de 2018 com um total de 315.500 postos de trabalho que directamente lhe estão afectos. Se fizermos uma comparação homóloga (1º trimestre 2017/1º trimestre 2018) constatamos a criação de 21.400 novos empregos, sendo que a grande fatia deste aumento vai para o sector da Restauração e Bebidas – com 17.400 –, seguido do Alojamento (cerca de 4.000). Dados extremamente interessantes de analisar, não apenas por demonstrarem a vitalidade e confiança do denominado Canal Horeca mas, também, por se registarem em plena “Época Baixa”, o que deixa antever uma atenuação da tradicional sazonalidade ou, ainda, boas perspectivas no que respeita à sustentabilidade da actividade económica do turismo, pelo menos no futuro mais próximo. É, assim, expectável que esta pujança concorra para uma mais rápida valorização das carreiras e profissões turísticas, para uma maior interligação entre o tecido empresarial e os estabelecimentos de ensino – superior e técnico-profissional – e, finalmente, para uma melhoria das condições salariais oferecidas a todos quantos escolham devotar a sua vida profissional às actividades turísticas.