iTurismo: Açores Únicos e Autênticos, por Atilio Forte

O habitual comentário do iTurismo de hoje versa sobre o turismo açoriano. Nele, Atilio Forte aborda questões como as acessibilidades, o produto turístico assente na natureza e sustentabilidade, a promoção do destino e o crescimento dos fluxos turísticos para a região, mas também a sua concentração, basicamente, em duas ilhas. Já em “O + da Semana” o destaque vai para os Recursos Humanos no Turismo.

 

Tópicos da Semana:

  • Número de marcas multiplica-se nas cadeias hoteleiras: Na opinião da empresa de análise e pesquisa de mercados STR, presentemente há cerca de 1.000 marcas de hotéis em operação e muitas mais estarão prestes a estrear-se. A título de ilustração vale a pena referir-se que a Hilton possui 14, a Wyndham 20, a AccorHotels 24 e a Marriott 30. Não obstante o intenso debate – em curso – entre defensores e críticos desta estratégia, os seus paladinos argumentam que a ideia é criarem uma maior identificação entre as características do produto e os inúmeros segmentos de consumidores existentes.

 

  • Hotelaria da Venezuela já aceita moeda digital: O hotel Humboldt de Caracas, que reabriu recentemente, já aceita pagamentos efectuados na nova moeda digital venezuelana – o “Petro” –, prevendo-se que seja o primeiro de muitos a fazê-lo se considerarmos as declarações do Presidente Nicolas Maduro a esse propósito: “Todos os hotéis deverão aceitar esta moeda e cambiá-la de modo a melhorar o ecossistema do Petro”.

 

  • Procura continua a superar a oferta em Singapura: De acordo com a multinacional do imobiliário Colliers International apesar dos milhares de novos quartos de hotel que entraram no mercado desde 2015, Singapura – um dos destinos mais populares do Extremo-Oriente – mantém um ritmo de procura muito superior ao da oferta. A prová-lo estão os 18 milhões de turistas que aí são esperados no decurso do presente ano.

 

 

Comentário

Turisver.com – Vários leitores dos Açores têm enviado algumas questões ao iTurismo, escolhemos duas que nos parecem mais abrangentes e pertinentes. A primeira prende-se com a promoção turística que tem assentado no turismo de natureza. A falta de um cartaz turístico internacional que projecte o nome dos Açores e diversifique a oferta é uma lacuna do desenvolvimento turístico açoriano?

Atilio Forte – Esta é o que comummente pode designar-se por uma questão benigna ou, se se quiser, por um problema positivo. Porque dela subentende-se que o que está verdadeiramente em causa é a resposta à pergunta: como é que os Açores conseguirão continuar a fazer crescer os seus fluxos turísticos?

Recuando alguns anos, podemos afirmar que a “explosão” da actividade turística na Região Autónoma dos Açores está intimamente ligada à conjugação de dois factores: um, relacionado com a liberalização do transporte aéreo para o Arquipélago – de que fomos durante tantos e tantos anos defensores –, para o que muito contribuiu a gestão, sob a mesma Tutela, das áreas do turismo e dos transportes; e outro, em simultâneo, ligado com a alteração das motivações dos consumidores, que passaram a colocar a sustentabilidade dos destinos no topo das suas exigências (e preferências), fruto de uma crescente consciencialização para a preservação ecológica e ambiental, interligando-a quase sempre com os activos naturais que os mesmos oferecem.

Solucionado que foi o “como chegar?”, os Açores passaram a estar mais acessíveis ao mercado global o que, aliado às correctas opções tomadas do ponto de vista promocional – posicionando a Região e a sua oferta como um “destino de natureza” –, acabou por fazê-los sair de um “certo anonimato”, trazer-lhe merecidos reconhecimentos internacionais e, consequentemente, mais turistas seduzidos pela genuinidade e autenticidade oferecidas em íntima imersão com a natureza.

É também importante realçar que todos os agentes turísticos açorianos – públicos e privados – souberam comungar e partilhar das responsabilidades destas opções e, acima de tudo, conseguiram resistir a uma (mais do que possível) massificação do destino, pois sabiam que, se o fizessem, mais cedo ou mais tarde acabariam por pagar a “pesada factura” da degradação das suas condições naturais, situação que provocaria uma retracção na e da procura, pela desvirtuação do seu elemento fundamental de atracção: a natureza.

Fizemos, propositadamente, este breve enquadramento para que melhor se percebam os factores que estiveram na origem do desenvolvimento turístico açoriano, que o têm sustentado (a todos os níveis, nomeadamente, no da captação de turistas e no da sua ligação à ecologia e ao ambiente) e cuja manutenção, acreditamos, continuará a ser determinante para o seu futuro turístico.

Por isto, para que o progresso turístico dos Açores possa manter-se, será crítico que os próximos passos sejam dados com enorme precaução para que a legítima vontade de captar mais turistas, não contrarie (ou obstaculize) tudo o que de bom e de bem foi feito até aqui.

Portanto, abdicar da “natureza” como dinamizador turístico do Arquipélago está, em nossa opinião, fora de questão. O que pode (e deve!) ser feito é procurar aprofundar, de forma sistemática, este e todos os demais aspectos que relevem a autenticidade e a genuinidade do destino, em particular os que estejam relacionados com a cultura e a vida das suas gentes. Porque é exactamente isso que atrai os turistas actuais!

E, aí, encontramos um sem número de motivações que, se turisticamente “bem trabalhadas”, podem impulsionar a Região e estimular alguma diversificação na tipologia dos mercados e consumidores que já a procuram. Em concreto, referimo-nos à sua gastronomia, às suas manifestações socioculturais, mormente as religiosas, sem esquecer o papel que desempenharam na “epopeia dos descobrimentos” (portugueses e espanhóis), na colonização do Brasil, como refúgio de cristãos-novos (judeus sefarditas) provenientes do Continente (sobretudo de Portugal e da Flandres) e, claro está, na umbilical ligação que sempre tiveram com o mar, de que são prova o papel que, no passado, desempenharam na caça ao cachalote ou no ressurgimento da pesca do bacalhau e, presentemente, em múltiplas actividades marítimas, das quais a observação de cetáceos ou o mergulho são importantes expoentes.

Saber encontrar as narrativas mais adequadas que corporizem essas histórias (e estórias), transformando-as em produto turístico, é um desafio que necessita ser superado, afigurando-se como fundamental dinamizar todo o sector relacionado com a animação turística.

E estamos apenas a falar de aspectos tangíveis, já que haverá muitos outros que poderão ser “criados”, inseridos, dinamizados e promovidos desde que devidamente integrados na oferta regional, um pouco à semelhança do que o nosso outro Arquipélago – a Madeira – fez com a Festa da Flor, a Festa de Fim-de-Ano (fogo de artifício) ou, até, o Carnaval, transformando-os em verdadeiras âncoras de atracção turística.

Se, a título de ilustração, pegarmos nas Festas do Espírito Santo (não confundir com as – mais famosas – do Senhor Santo Cristo dos Milagres, que ocorrem duas semanas antes), que têm lugar em todas as 9 ilhas dos Açores, sublinhando quer a componente religiosa quer a profana que detêm, ou as estradas bordejadas de hortênsias e de outras flores, ou o cultivo do chá e do tabaco, ou ainda exponenciarmos as singularidades de cada ilha, nem que seja o seu cariz inóspito próprio de verdadeiras “reservas naturais”, tal como as múltiplas actividades marítimas, encontramos um vastíssimo conjunto de potenciais motivações, às quais é possível dar relevo internacional “de per si” e, desse modo, chegar a segmentos específicos de consumidores que procuram incessantemente esse tipo de produtos. Só precisam é saber que eles existem… nos Açores.

Obviamente que este é um trabalho que exige sistematização, persistência, enorme cooperação entre todos os agentes turísticos e, dado os meios serem exíguos, uma escolha extremamente criteriosa dos canais promocionais a utilizar, pois só desse modo alguns destes “activos” poderão alcançar o “estrelato” e passarem a integrar um futuro cartaz turístico internacional dos Açores.

Para finalizar, duas últimas notas. Uma para dizer que, para além dos Açores continuarem a posicionar-se como um destino essencialmente de “natureza em estado puro” e turisticamente sustentável, há um factor incontornável que deverá ser sempre tido em consideração aquando da formatação da sua oferta turística, que é o clima. Queira-se ou não, ele irá permanentemente condicionar o “produto Açores”. O que pode não ser uma fatalidade ou desvantagem, uma vez que hoje-em-dia os turistas são mobilizáveis pelas mais diversas razões, desde que o produto lhes seja apresentado com uma “roupagem” autêntica.

A outra, para exprimir uma inabalável confiança nos açorianos, pois têm dado enormes provas do cuidado que põem no seu desenvolvimento turístico e, contrariamente a muitos, recusam hipotecar o seu futuro enquanto destino na mira de lucros mais imediatos e fáceis. E isso quer dizer que, em conjunto, saberão melhor do que ninguém o que fazer para que a actividade turística aí continue a sua paulatina progressão e cada vez tenhamos um destino mais único, mais genuíno e, por que não dizê-lo, em maior comunhão com a natureza e com os que aí residem.

 

Turisver.com – Outra das questões prende-se com a centralidade do turismo em duas ilhas do arquipélago, fazendo com que as outras ilhas, em termos turísticos, fiquem para o contexto da região como o interior está para o litoral do país, no Continente. Esta é uma situação de inevitabilidade?

Atilio Forte – Pese embora seja um facto a concentração dos fluxos turísticos recebidos pelos Açores nas Ilhas de São Miguel (sobretudo em Ponta Delgada) e na Terceira (sobretudo em Angra do Heroísmo) esse não tem de ser, ou funcionar, como um aspecto negativo. Pior seria se não existisse qualquer um destes “pólos”.

A partir do momento que o “valor do destino” é percepcionado pelos consumidores abre-se um novo “mundo de oportunidades” para as demais ilhas… desde que saibam transformar em produto turístico o que têm para oferecer (cultura, gastronomia, história e lendas, reservas naturais, observação de pássaros, biodiversidade, etc.) conforme referimos na resposta anterior e, paralelamente, criem as fundamentais acessibilidades.

Acessibilidades que, nalguns casos – como na Ilha do Faial (aeroporto da Horta, que também pode servir a vizinha Ilha do Pico, ou na de Santa Maria (igualmente com aeroporto) –, até já existem com assinalável capacidade e qualidade.

No Continente, durante muitos anos, o Algarve e a Região de Lisboa também tiveram a “quase exclusividade” dos fluxos turísticos internacionais, mas isso facilitou que outras zonas do país obtivessem mais exposição. E hoje já é uma realidade a afirmação do Porto e Norte de Portugal, como também são muito positivos os resultados que têm sido obtidos quer pelo Centro, quer pelo Alentejo e Ribatejo.

Claro está que o “interior açoriano”, tal como o do Continente, está confrontado com importantes desafios (diminuição e envelhecimento da população, dinâmica económica frágil, etc.) mas, como temos vindo a comprovar, o turismo pode dar uma preciosa ajuda para superar estes constrangimentos, através dos efeitos indutores que gera nas economias locais e regionais, na capacidade de criação de emprego que manifesta, na preservação cultural, ecológica e ambiental que promove, na riqueza que gera, etc., etc., etc..

Em suma, não cremos estar perante uma inevitabilidade ou sequer uma fatalidade. Muito pelo contrário. Esta é uma oportunidade que pode, se bem aproveitada, na devida escala e com uma estratégia que inclua todas as ilhas do Arquipélago, contribuir para o desenvolvimento económico global dos Açores e dar a esta nossa Região Autónoma uma maior coesão e sustentabilidade social e territorial.

 

O + da Semana:

 

Neste espaço costumamos dar um especial enfase à inovação, à requalificação, às novas tendências, à sustentabilidade, enfim, a todo um vasto conjunto de áreas que, seja do lado da oferta, seja do da procura, assumam um papel disruptivo ou, pelo menos, acrescentem valor à actividade económica do turismo e que, por esse motivo, possam ser percepcionadas como tal pelos consumidores. Contudo, se é legítimo que se reconheça esse imenso esforço feito por todos os agentes turísticos, mormente pelas empresas que corporizam os diferentes sectores do turismo, muitas das vezes constata-se que o mesmo acaba, a relativamente curto prazo, por esboroar-se… E, ao perguntarmo-nos por que é que isso acontece, quase sempre encontramos a mesma resposta: falta de formação profissional dos recursos humanos! Pode parecer paradoxal, mas não é. O que sucede amiúde neste particular, é que as organizações e as empresas concentram tanto o seu foco nas mudanças que criam, que acabam por “esquecer-se” de uma das “leis básicas do turismo” – uma actividade feita por pessoas, para pessoas – levando a que quem tem a tarefa de interagir com o (potencial) Cliente/Turista não receba, nem tenha o conhecimento necessário para lidar, explicitar ou tirar o devido potencial da “novidade” que tem entre mãos. Assim, para dar um exemplo, de que adianta investir na renovação de um hotel ou de um restaurante, se o conceito, a segmentação ou o propósito que estiveram na origem e presidiram a esse investimento não foi, em paralelo, transmitido (quanto mais participado) a quem lá trabalha…É que quem faz o turismo, são as pessoas!