iTurismo: Aeroporto de Lisboa e Startups, por Atilio Forte

A necessidade de uma estratégia para o sector da aviação e os apoios ao empreendedorismo são assuntos analisados por Atilio Forte esta semana, que também comenta no + da Semana os desafios de ausência de uma marca de renome em hotelaria. Nós “Tópicos da Semana” os destaques vão para mega fusões e mega aquisições de e entre grandes cadeias hoteleiras, parceria entre hotéis e agências de viagens, e o boom do investimento que se verifica na Arábia Saudita.

 

Tópicos da Semana:

  • Consolidação hoteleira em cima da mesa: Um pouco de toda a parte vão-nos chegando informações (e rumores) de mega fusões e mega aquisições de e entre grandes cadeias hoteleiras – que estarão prestes a acontecer -, as quais farão do negócio “Marriott/Starwood” a alvorada de muitos outros. Não escamoteando essas notícias, até porque o efeito de escala/massa crítica é deveras importante, valerá sempre a pena ter presente que qualquer consolidação deve obrigatoriamente fazer sentido económico e resultar em sinergias significativas. Caso contrário…

 

  • Parceiros e não concorrentes: Numa recente conferência sobre investimento, realizada no Dubai, foi realçado que os vários agentes turísticos do Médio Oriente – sobretudo hotéis e agências de viagens – precisam ser mais proactivos e colaborantes, atendendo a que os ciclos económicos são cada vez mais curtos e intensos. Esta crescente volatilidade dos fluxos turísticos só poderá ser vencida se todos forem mais flexíveis e estreitarem os seus laços de cooperação.

 

  • Jeddah em vias de duplicar o número de quartos: A segunda maior cidade da Arábia Saudita e sua “capital comercial” vai duplicar, em escassos dois anos, a sua capacidade hoteleira. Assim, prevê-se que em finais de 2018 a cidade mais rica do Médio Oriente atinja os 17.200 quartos de hotel.

 

Comentário

 

Turisver.com – Novas ligações aéreas e mais frequências são todas as semanas anunciadas para o Aeroporto Humberto Delgado. As obras que continuamente estão a ser efectuadas têm “escondido” que, em determinadas horas do dia, o aeroporto está saturado, nomeadamente a sua pista. Quando tanto se fala de querer mais e melhores turistas, não acha que o Governo deveria ter já avançado com uma solução?

 

Atilio Forte – Como é do conhecimento geral este tem sido um dos temas de debate mais recorrentes, pelo menos, das últimas duas décadas. Têm sido inúmeras as discussões, têm-se feito incontáveis estudos e até, pasme-se, inaugurou-se um aeroporto em Beja com o argumento que poderia ajudar a descongestionar os de Lisboa e Faro.

Certamente que hoje não haverá alguém na sociedade portuguesa sem uma opinião formada acerca da necessidade, ou não, de avançar para a construção de um novo aeroporto de Lisboa, seja para substituir na íntegra o Humberto Delgado, seja para funcionar complementarmente ao mesmo.

Contudo, e quanto a nós – dizemo-lo há quase 20 anos –, continua-se a “olhar para a árvore”, não querendo ver a “floresta que a rodeia”, isto é, fala-se muito num novo aeroporto (Rio Frio, Ota, Montijo/Alcochete), sem ter a consciência ou o conhecimento que o mais importante é que o país defina, de uma vez por todas, algo que nunca teve: uma estratégia para o sector da aviação.

Traçada que seja essa visão – até admitimos que se lhe possa chamar política -, deveremos então preocupar-nos em dar-lhe forma. E é neste aspecto (e só aqui) que entra a necessidade (ou não) de um aeroporto. É que tal como uma escola é um instrumento da política de educação ou um hospital da política de saúde, também um aeroporto o é da aviação, sem esquecer que, neste caso, o sector faz parte integrante da constelação turística e, consequentemente, dos grandes objectivos de política económica que Portugal pretenda atingir.

Esta foi – e é! – uma da razões porque sempre afirmámos (também nestes comentários) que tanto a concessão da ANA, como a privatização da TAP, deveriam ter obedecido a uma visão global que, infelizmente, o Estado português nunca deteve, o que conduziu a soluções avulsas – legítimas do ponto de vista, num caso, da concessionária e, no outro, dos compradores -, que acabaram por não salvaguardar como seria desejável (e exigível) o interesse nacional.

Aliás basta vermos os avanços e recuos que qualquer destes processos conheceu, para percebermos o autêntico vazio de ideias que atravessou sucessivos Governos, acabando as decisões por serem tomadas apenas por imperativos financeiros. Quando assim é, obviamente que não podemos depositar grandes esperanças no resultado final.

Mesmo com todos estes condicionalismos – e apesar da(s) crise(s) -, a actividade turística nacional tem prosperado, levando a que nos últimos anos o país tenha vindo a alcançar sucessivos recordes. E como não nos cansamos de afirmar, a primeira condição para que haja turismo é ter “como chegar?”, o que nos tempos que correm, como se percebe, se reflecte essencialmente na aviação (transporte aéreo, aeroportos, segurança, navegação e controlo aéreos).

Naturalmente, este crescimento do turismo teve reflexo na capacidade de carga do aeroporto de Lisboa o qual, por muito que as sucessivas obras de remodelação efectuadas tenham ajudado a mitigar, deixa antever que dentro de alguns anos poderá ver o seu tecto de utilização esgotado e, por isso, necessitar de “um apoio”. No fundo, é o recuperar da “velha” solução “Portela + 1”, sendo esse “+ 1” localizado na zona do Montijo/Alcochete, como os dois últimos Governos (o presente e o anterior) já vieram – e bem – afirmar, corroborando assim uma solução proposta e defendida pela quase totalidade dos agentes turísticos (onde nos incluímos) há perto de 20 anos.

Cremos que valerá a pena abrir aqui um parêntesis para esclarecer dois aspectos: o primeiro é que a actual localização do aeroporto de Lisboa é uma enorme mais-valia competitiva quer para a cidade, quer para o país; o segundo, é que apesar do aeroporto Humberto Delgado ter horas de grande congestionamento (sobretudo ao início da manhã e ao final da tarde – igual ao de qualquer fluxo de trânsito na entrada ou saída de uma grande cidade – o que motiva queixas por parte de quem transporta e de quem é transportado, pois todos pretendem espaço nos horários “nobres”), está longe de ter chegado ao seu limite.

Fechado o parêntesis, que justifica a razão de continuarem a ser inauguradas amiúde novas rotas e feitos reforços de ligações aéreas para e de Lisboa, recordamos que o Governo já disse que – e não vemos razões para que se pense o contrário -, a muito breve prazo (julgamos nós até ao final do corrente ano), irá anunciar a decisão de construção do novo aeroporto, que complementará a actividade do actual, encerrando quase meio século de discussões e, atempadamente, precavendo qualquer ruptura do aeroporto Humberto Delgado.

Assim, tanto Lisboa, como Portugal, poderão almejar continuar na senda do crescimento turístico e económico, já que verão aumentadas as suas capacidades de embarque e desembarque de passageiros e mercadorias. Persiste a ausência de uma estratégia para a aviação mas, pelo menos para quem decide, isso parecem ser contas de outro rosário…

 

Turisver.com – Foi oficialmente lançado, esta segunda-feira o Programa StartUP Portugal, de apoio ao empreendedorismo. Este é um programa transversal em termos das actividades económicas, com o Portugal 2020 a estipular 200 milhões de euros para estes apoios. O turismo terá também a sua quota-parte, tendo até em conta que nos últimos anos têm aparecido muitas “startups” na actividade turística. Na sua óptica, estes apoios são bem-vindos?

 

Atilio Forte – Para o estado actual da economia portuguesa, todos os apoios ao empreendedorismo são de enaltecer, pois se há área em que o nosso país está carenciado é a da Inovação e Desenvolvimento (I&D). E mais importantes se revelam se considerarmos, por um lado, o elevado patamar de desemprego que detemos e, por outro lado, a alteração geracional de paradigma verificada no mercado de trabalho, através da qual passámos do modelo de “um emprego para a vida”, para o de “uma profissão para a vida”, para o que presentemente vivemos de “várias profissões e vários empregos durante a vida”.

Perante estes factos, proporcionar oportunidades e desenhar soluções atractivas susceptíveis de serem utilizadas por quem tem boas ideias e iniciativa para as pôr em prática, é semear riqueza da qual, seguramente, colheremos bons frutos futuros, seja no turismo, seja nas demais áreas da economia.

No âmbito desta iniciativa e no que à actividade turística mais directamente respeita destaca-se que, até ao fim deste ano, será lançada a “Call for Tourism”, destinada a “startups” tecnológicas ligadas à actividade, da qual ainda não se conhece o desenho final.

Talvez por isso valha a pena realçar, embora se reconheça o crescente – e incontornável – papel da tecnologia nas diversas actividades turísticas e nas interacções que, cada vez mais, permite com os consumidores, que entendemos como sendo algo redutor restringir a I&D da actividade apenas ao campo digital.

Assim, temos fundada expectativa que na montagem deste Programa se alargue o seu espectro de acção a outras áreas do turismo, como as da sustentabilidade ecológica, territorial e ambiental, as da simbiose empresarial ou as da recuperação e preservação de património intangível mas diferenciador. Convirá, ainda, que se tenha presente que o turismo é uma actividade económica de mão-de-obra e de capital intensivos, mesmo quando se trata de I&D, tornando-se por isso necessário ter em linha de conta aspectos diversos, porque específicos, dos tidos em consideração para as demais áreas.

Finalmente, e tendo como referência a vontade demonstrada pelo Governo em promover políticas activas que visem atenuar os efeitos da sazonalidade, acreditamos que poderia ser extremamente interessante estimular a localização das “startups” apoiadas por este Programa nas regiões que mais sofrem desse impacto, potenciando dessa forma a sua vivificação.

 

 

O + da Semana:

 

Hoje em dia ser proprietário ou gestor de um hotel independente, isto é, sem estar de alguma forma debaixo do “guarda-chuva” de uma marca conhecida, pode ser uma enorme “dor de cabeça”, principalmente se se optar por actuar no segmento das viagens de negócio. Mas terá mesmo que ser assim? Talvez não. Se observarmos um pouco o que se passa à nossa volta conseguimos constatar que existem formas de actuação que podem compensar a ausência de uma marca de renome. De entre elas, há quatro que se destacam mais: estar completamente focado na melhoria da qualidade do serviço prestado, algo que é sempre bastante valorizado pelo cliente; cultivar relações privilegiadas com alguns sectores (e não com todos!) de negócio, como modo de captar mais hóspedes (individuais ou grupos) que viajam por motivos profissionais; estabelecer parcerias locais com outras unidades similares que possam contribuir para suprir eventuais picos momentâneos de procura; e, tirar o máximo partido das redes sociais, partilhando a realização de eventos especiais ou de momentos em que os seus colaboradores (ou algum deles) se distinguiram com particular significado, pois tal, para além de criar uma relação mais empática com os (potenciais) clientes, transmite-lhes confiança e ajuda à construção de uma base identitária (marca).