iTurismo: O Al-Andalus, por Atilio Forte

As consequências que poderá ter na actividade económica do turismo um possível atentado terrorista em Portugal e a retoma turística de vários destinos da bacia mediterrânica que concorrem com Portugal são os temas comentados no iTurismo desta semana, que destaca no “O + da Semana” a apresentação do programa “Rede de Restaurantes Portugueses no Mundo”. Nos “Tópicos da Semana”, Atilio Forte refere-se à importância do trabalho de equipa e escolha de parceiros, à nova ferramenta Goole que junta alojamento local às pesquisa de hotéis, bem como à subida de reservas hoteleiras nos EUA por parte do turismo chinês.

Tópicos da Semana:

 

  • Trabalho de equipa e escolha dos parceiros certos são decisivos para o aumento da receita: Na opinião de muitos especialistas, formar boas equipas e escolher os parceiros mais adequados sãoactos de gestão fundamentais para que os hotéis independentes possam ser bem-sucedidos no mercado actual. Sem o poder da força de vendas de uma marca e dos meios que ela proporciona, só a escolha das pessoas e dos canais certos possibilitará a este tipo de unidades captar a procura momentânea e, desse modo, serem recompensadas pelo seu esforço comercial. 
  • Google junta alojamento local às pesquisas de hotéis: O Google – um dos principais motores de busca da internet – está a testar uma nova ferramenta que adicionará a oferta de apartamentos/casas às buscas por hotéis. Mas o maior dado novo é que, de momento, este tipo de alugueres não oferece produto disponibilizado pela Airbnb. Assim, embora sem uma oferta tão vasta e detalhada quanto a daquele que é, presentemente, o maior canal de reservas de alojamento local (Airbnb), num futuro próximo perspectiva-se um acirrar da concorrência na oferta/distribuição global deste tipo de produto. 
  • Turismo chinês lidera subida das reservas hoteleiras nos Estados Unidos da América (EUA): De acordo com o operador turístico norte-americano Tourico Holidays as reservas hoteleiras nos EUA aumentaram 8% em 2016 e continuaram a subir em 2017, já que nas primeiras 18 semanas do ano verificou-se um crescimento homólogo de 6,5%. Dos mercados que mais têm contribuído para estes resultados destacam-se o australiano, o brasileiro, o canadiano e o dos Emirados Árabes Unidos. Mas é a da China que vem a “grande explosão” de turistas, com mais 67,5% em relação ao ano passado.

 

Comentário:

 

Turisver – Recentemente, as redes sociais foram invadidas por uma notícia segundo a qual Lisboa estava em alerta máximo devido a um possível atentado terrorista. Sei que esta é uma situação que acompanha pormenorizadamente, por isso deixo a questão: Portugal,  no seu entender, está em risco de ser alvo de um atentado terrorista e, se tal acontecer, que consequências poderá ter na actividade económica do turismo?

 

Atilio Forte – Indubitavelmente que este é um dos temas que, embora aflorado em vários dos nossos comentários, preferimos sempre não destacar, quer por tratar-se de uma matéria extremamente sensível, quer por entendermos que (como não nos cansamos de repetir) a segurança não se promove, garante-se!

Esta tem sido – e é! – a razão pela qual somos críticos em relação a todos quantos, mais ou menos publicamente, teimam em divulgar e transformar a segurança como um dos principais factores de atractividade do nosso país, nomeadamente turística,junto dos mercados externos. Contudo, e uma vez que a questão nos foi colocada por um tão grande número de leitores, não há como fugir-lhe.

Nesse sentido convirá que comecemos por recordar que a esmagadora maioria dos líderes políticos (não confundir com estadistas, porque desses estamos muito carenciados…) da chamada “civilização ocidental”(e cristã), tanto por desconhecimento da História, como por ignorância cultural e religiosa, têm procurado tratar dos assuntos relativos ao “Mundo Árabe” à luz de uma visão e valores que não são percepcionados – quanto mais compreendidos – pela “civilização muçulmana”.

Ora, procurar impor os “ideais democráticos” do Ocidente, a sociedades e culturas que, por assim dizer, emanam e estruturam-se a partir da componente religiosa, não pode (nem poderá) dar bom resultado, já que estamos perante mentalidades completamente distintas. Esta é a grande verdade!

Por isso, e dando um exemplo recente, só os incautos estranharão tudo o que decorreu da chamada “Primavera Árabe”, cujo expoente máximo materializou-se na ascensão do autoproclamado estado islâmico.

Mal comparado, estamos a replicar a mesma fórmula que tão maus resultados deu no passado em África, com a “criação de países” (fronteiras) a régua e esquadro, fazendo tábua rasa daquilo em que, de facto, os africanos se reviam (e em muitos casos ainda revêem): etnias, tribos e clãs, que eram o suporte do seu conceito de unidade e coesão territorial e social.

A consequência desta prepotência – e desconhecimento – do “Mundo Ocidental” tem-serepercutido numa crescente busca de refúgio religioso por parte de vastos sectores da sociedade islâmica, deixando-os nas mãos e à mercê de demagogos (pois, eles também os têm!), muitas das vezes sob a capa de líderes religiosos, que não hesitam em distorcer a seu belo prazer a mensagem do Alcorão, apelando à “jihad” (esforço, empenho, luta, mais vulgarmente traduzida por “guerra santa”).

Se atentarmos um pouco, verificamos que esta não é uma atitude que possamos ignorar, uma vez que muitos dos exemplos máximos da fé cristã, principalmente do catolicismo, são por nós (e pela Igreja) considerados “Santos”, condição que adquiriram, em grande parte dos casos, pelo seu desapego para com a vida terrena e crença numa outra, melhor e mais duradoura, perto de Deus, motivo que os levava a entregarem-se ao martírio em nome da fé que abraçavam. Não devemos por isso estranhar que quem professe uma religião diferente da nossa possa “oferecer-se” de igual forma, pois essaé a essênciados mártires.

Terminamos este (breve e rudimentar) enquadramento, relembrando que durante sete séculos (do iníciodo século VIII ao final do século XV), a Península Ibérica (onde Portugal se inclui) teve uma forte presença árabe – a espaços domínio –, sendo então conhecida como “Al-Andalus”, único território europeu continental que integrou a denominada “Idade de Ouro Islâmica”. Para além da referência histórica é bom termos presente a conexão religiosa – como vimos omnipresente na cultura muçulmana – pois ambas fazem parte da educação de qualquer jovem árabe. Ou seja, este é um território que está intimamente ligado ao apogeu da “sua” civilização, lição que lhe é ensinada desde os bancos da escola e que irá ter presente ao longo de toda a sua vida até porque, ao invés do que acontece no Ocidente, a prática religiosa diária recordar-lho-á permanentemente.

Quanto ao boato/rumor do passado dia 31 e às mensagens de aviso – que também recebemos –, acerca da probabilidade de estar iminente um ataque terrorista em Lisboa, sinceramente não nos mereceram qualquer crédito. Aliás, muito antes dos desmentidos oficiais, respondemos a alguns amigos que tal não era credível e que mais não seria do que uma brincadeira estúpida e de profundo mau gosto (para não usarmos termos mais contundentes).

Não obstante, posteriormente, viemos a saber que os níveis de alerta das forças de segurança tinham aumentado, seja na sequência dos atentados de Barcelona, seja por outro tipo de informações recebidas.

Relativamente a este assunto e ao que nos é perguntado, parece-nos pertinente fazer algumas referências:

  1. Portugal integra o denominado “Mundo Ocidental” (para além de “fazer parte” do “Al-Andalus”) e, por isso, não podemos excluir liminarmente a possibilidade de ocorrer um atentado terrorista em solo nacional, por mais remota que ela nos pareça. Sem querermos assumir o papel de “profetas da desgraça” achamos mesmo que, a manter-se a actual postura dos líderes políticos ocidentais, a probabilidade de tal vir a suceder nos próximos dois a três anos existe;
  2. Essa probabilidade (apesar de ínfima) não decorre de algo que directamente nos possa ser “imputado”, mas por sermos um país acolhedor e hospitaleiro e, por isso, ser normal estarem entre nós cidadãos de múltiplas nacionalidades, algumas das quais de países que têm estado na linha da frente das más decisões, soluções e abordagens feitas ao “Mundo Árabe” que, infelizmente e como temos visto, são alvos preferenciais desses actos hediondos;
  3. Quer queiramos, quer não, a tendência será que brincadeiras parvas como a ocorrida na semana passada possam tornar-se mais frequentes, já que a idiotice não conhece limites;
  4. Se, contrariamente ao que esperamos e desejamos, viermos a ser fustigados por uma qualquer pérfida iniciativa desta natureza, jamais as autoridades anunciarão antecipadamente o aumento do nível de alerta, por razões compreensíveis, sendo a principal prevenir o pânico da população.

E, claro está, caso tal acontecesse seguramente teria grande impacto na actividade turística nacional o qual, honestamente, é impossível (e indesejável) quantificar. No entanto, basta vermos o que se tem passado nos destinos que têm sido atingidos para podermos ter percepção da magnitude e devastação causadas na totalidade da constelação dos sectores que compõem a actividade.

Mas o turismo é, acima de tudo, a actividade da paz, da concórdia e da tolerância entre os povos, por isso todos quantos a ele estão de algum modo ligados têm a responsabilidade acrescida de transmitirem diariamente esses valores, principalmente aos que nos distinguem com a sua visita.

 

Turisver – A propósito da questão anterior, é conhecido que vários países da bacia mediterrânicaque concorrem com Portugal têm sido penalizados a nível turístico, casos da Tunísia, do Egipto e da Turquia. Hoje, os principais mercados emissores como o Reino Unido ou a Alemanha já têm mais abertura para que os seus cidadãos voltem a viajar de férias para estes países. No seu entender a retoma turística, por parte destes países, pode provocar uma quebra na procura por Portugal?

 

Atilio Forte – Para além de não responder ao ódio com mais ódio, tomando a “nuvem por Juno” (a esmagadora maioria dos muçulmanos também repudia o horror provocado pelos atentados), um dos modos mais eficazes de frustrar esta “nova” forma de guerra – o terrorismo – é não ceder ao medo e, consequentemente, manter os hábitos de vida quotidianos, nos quais o turismo (ou o acto de viajar) se engloba, sublinhando os ideais de paz associados à actividade.

É por isso natural que este sentimento de repulsa, associado às medidas de segurança tomadas pelas autoridades dos destinos que já sofreram este flagelo, a par da acalmia que o passar do tempo provoca, façam com que, paulatinamente, a actividade turística retome o seu escorreito desenvolvimento.

Por outro lado, a constante procura de novas alternativas (e experiências) por parte dos consumidores, que recusam “vestir” o espartilho de só poderem viajar para locais onde “aparentemente” estarão mais seguros, também pressiona a oferta turística a dar-lhes mais soluções.

Aliás tal não sucede apenas com os países referidos na pergunta. A esses podíamos adicionar pelos mesmos ou outros motivos, a França, a Itália (terramotos e migrantes), a Grécia (sobretudo as ilhas gregas, por causa dos migrantes), Israel ou ainda, para não sermos exaustivos, Marrocos (que foi afectado por ricochete). Vale também a pena referir que, por um lado, a retoma da normalidade das relações políticas e económicas entre a Rússia e a Turquia, deu um forte contributo para oaumento do turismo naquele país e, por outro lado, devemos aguardar mais algumas semanas para melhor podermos percepcionar as consequências que os ataques de Barcelona poderão provocar no turismo espanhol.

Quanto aos efeitos que tudo isto poderá causar à actividade turística em Portugal, somos de opinião que, a curto prazo, eles não serão significativos – apesar de muito pouco se ter feito para procurar reter e fidelizar os fluxos turísticos que acolhemos em razão desta conjuntura internacional, como inúmeras vezes aqui alertámos –, por duas ordens de razões:

A primeira porque as operações turísticas são, em regra, planeadas com um ano de antecedência e, portanto, é necessário que exista tempo útil para proceder aos devidos ajustes. Ora, presentemente, uma parte significativa da contratação para 2018 já se encontra realizada ou em vias de conclusão, o que indicia que estaremos ao abrigo de sobressaltos de maior.

A segunda para enfatizar que o ressurgir de alguns mercados, como o brasileiro e o norte-americano, a par das expectativas (a concretizarem-se) que a abertura de uma ligação aérea directa com a China está a gerar, podem ser factores atenuantes e, eventualmente, compensadores de quebras pontuais que possam existir noutros mercados.

Finalmente, e um pouco fora deste “cenário”, subsiste a dúvida quanto aos efeitos que o “Brexit”, a verificar-se, nos possa causar, quer directa (por retracção económica do mercado inglês, como ao que tudo indica terá sucedido no Algarve em Agosto), quer indirectamente (por aumento da concorrência de outros destinos mediterrânicos, fruto de preços mais aliciantes), razão pela qual, do nosso ponto de vista, já deveríamos ter gizado um plano de contingência para precavere/ou lidar com possíveis quebras num dos nossos principais mercados emissores.

 

O + da Semana:

Na passada sexta-feira foi apresentado o programa “Rede de Restaurantes Portugueses no Mundo”, iniciativa da AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, que conta com o apoio do Governo de Portugal (Ministério dos Negócios Estrangeiros, AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal e Turismo de Portugal) e da Federação Portuguesa das Associações de Desenvolvimento Local – Minha Terra,a qual, entre outros aspectos, visa promover e valorizar a nossa gastronomia nos mercados externos e, desse modo, aproximar a diáspora, divulgar a gastronomia nacional como importante activo que integra o nosso Património Cultural, potenciar a atractividade turística do país, estimular a internacionalização do tecido empresarial português e, não menos importante, aumentar a exportação de produtos genuinamente portugueses. O levantamento dos restaurantes, do receituário e dos produtos portugueses certificados está em curso e culminará em Maio do próximo ano esta sua fase inicial com a instalação da “Rede”, através da entrega dos primeiros galardões, em cinco países com óbvia importância para o turismo português: Brasil, Espanha, França, Inglaterra e Alemanha. Estamos pois, perante a corporização de uma antiga aspiração tanto da AHRESP, como do turismo nacional e, sem sombra para qualquer dúvida, de um projecto que merece total aplauso!