iTurismo: Ambiente, Território e Turismo, por Atilio Forte

A coordenação entre o turismo, o ambiente e o ordenamento do território e a relação, em alguns casos, entre a falta de mão-de-obra no turismo e a escassez de habitações para estes profissionais, são os temas abordados no iTurismo de Hoje, em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” um tema relacionado com a igualdade de género no turismo.

 

Tópicos da Semana:

  • Hotéis boutique e pousadas podem ser reservados via Airbnb: A plataforma tecnológica “SiteMinder”, através do seu produto que possibilita a distribuição online em tempo real (The Channel Manager), celebrou um acordo com a Airbnb que já permite que os pequenos hotéis boutique e as pousadas liguem os seus sistemas de reservas àquele gigante da distribuição do alojamento local, sendo-lhes apenas necessário que detenham “características únicas ao nível do design” e “incorporem influências locais”, para passarem a fazer parte da oferta da Airbnb.

 

  • Estados Unidos da América (EUA) atraem menos turistas: De acordo com alguns analistas, e não obstante o maior dinamismo económico registado, o principal motivo para os EUA estarem a receber um menor número de turistas deve-se, sobretudo, à política que vem sendo seguida pela Administração Trump, uma vez que a retórica e a atitude propaladas pelo Governo têm “arrefecido” o desejo dos turistas (internacionais) em visitarem o país, dado o mesmo apresentar-se-lhes como menos apetecível.

 

  • Quais as áreas da tecnologia que mais impacto terão nos turistas?: Actualmente, esta é uma das perguntas que mais se coloca às empresas e aos profissionais de turismo. Na opinião de uma grande parte dos especialistas, a análise de dados, a utilização da inteligência artificial e as tecnologias de geolocalização serão, no futuro, as três áreas mais importantes na (re)formatação das experiências dos turistas.

 

COMENTÁRIO

Turisver.com – São muitas as situações que têm prejudicado o turismo nos últimos anos, relacionadas com o ambiente e o ordenamento do território. Como se sabe estas três áreas (turismo, ambiente e ordenamento do território) têm grandes ligações entre si.  No seu entender tem existido uma boa coordenação entre elas?

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta à questão que nos foi colocada, cremos ser muito importante aqui registarmos duas notas de enquadramento para que melhor se compreenda quer a estreita relação que deve existir entre a actividade turística, o ambiente e o ordenamento do território, quer a importância que hoje-em-dia os consumidores de produtos e serviços turísticos lhe atribuem.

Como é do conhecimento público a consciência e a urgência da preservação ecológica e ambiental têm vindo, felizmente, a marcar um lugar cada vez mais importante no nosso quotidiano. Desde a simples separação para reciclagem dos resíduos que produzimos, até aos problemas relacionados com o aquecimento global do planeta, passando pelos perigos de extinção que algumas espécies de fauna e flora correm, tudo faz com que todos nós – ou pelo menos a esmagadora maioria de nós! – tenhamos um maior sentido de protecção da nossa “casa comum” e da sua biodiversidade. E isso traduz-se diariamente nas escolhas que fazemos, em coisas tão simples como o que comemos e vestimos, a energia que consumimos, o meio de transporte com que nos deslocamos ou os destinos que elegemos para as nossas viagens de férias.

Para além deste aspecto, todos os que viajam – um número incessantemente crescente! – são motivados por variados factores de atracção, entre os quais encontram-se a genuinidade, a originalidade e a possibilidade de partilhar a cultura e as tradições do quotidiano das comunidades locais visitadas, no fundo aquilo que acabámos por designar como “experiência”, deixando para trás comportamentos e hábitos onde o ideal de “férias” era ir para um resort que possuísse tudo “a gosto”, mesmo que o caos, a sujidade e o desordenamento territorial o rodeassem…

Assim sendo, não é de estranhar a afirmação que o turismo, o ambiente e o ordenamento do território devam ter, obrigatoriamente, uma relação umbilical e simbiótica, ou se se quiser, que o sucesso do primeiro está intimamente dependente do cuidado e da atenção dados aos segundos e vice-versa, promovendo-se por esta forma a sua total harmonia.

Ora, não obstante estas razões, em Portugal nem sempre as mesmas têm a tradução prática desejada ou, pior, transmitem de forma tangível e perceptível essa sua interdependência. Pela negativa, veja-se o impacto que os surtos de poluição provocam (sobretudo nos rios e no ar, como recentemente constatámos), ou a instabilidade e, por vezes a queda, das arribas nas nossas praias, que ano após ano continua a suceder. E, pela positiva, o êxito que os Açores alcançaram nos últimos tempos, enquanto destino de natureza (por mais importante que a liberalização do transporte aéreo tenha sido – e foi! – para facilitar o acesso ao arquipélago).

Contudo, e apesar de em tese querer passar-se a mensagem que tudo vai bem, o turismo é, quase sempre, deixado de lado nas principais decisões relativas ao ambiente e ao ordenamento do território. Talvez o caso mais paradigmático seja o sucedido aquando, no início deste século, se implementou a Rede Natura 2000 (numa definição simples: rede de áreas designadas para conservar os habitats e as espécies selvagens raras, ameaçadas ou vulneráveis na União Europeia) a qual, não obstante os seus nobres princípios, veio acentuar a desertificação do interior do nosso país, uma vez que passou a incorporar a quase totalidade da área não abrangida pelos PDM’s – Planos Directores Municipais, pela RAN – Reserva Agrícola Nacional e pela REN – Reserva Ecológica Nacional.

Em síntese, praticamente toda a área fora dos perímetros urbanos (abrangidos pelos PDM’s) que não era RAN ou REN passou a ser Rede Natura 2000, levando a que nenhuma actividade económica (praticamente) aí fosse permitida, mesmo tendo a preservação, a observação e a fruição da natureza por objecto, o que acabou por conduzir à desertificação – por abandono – de uma parcela importante do país e ao consequente “esquecimento da sua existência” por parte do Estado.

A esta situação deverá adicionar-se a litoralização económica que, entretanto, se verificou, em virtude dos maiores pólos urbanos funcionarem como uma espécie de “íman” populacional, de gente em busca de melhores condições de vida e, nalguns casos mesmo, de subsistência.

Com a desertificação de vastas porções de território e ficando as mesmas “longe da vista” (por ausência humana), não admira pois que os nossos Parques Naturais estejam quase esquecidos, que inúmeras espécies arbóreas tenham desaparecido e sido “substituídas” por pinheiros e eucaliptos e que tragédias, como os incêndios do último ano, tenham acontecido.

Portanto, é fácil concluir-se que muito mais e melhor coordenação entre o turismo, o ambiente e o ordenamento do território deveria existir, dado os mesmos serem aliados inseparáveis. Com regras e limites, seguramente. Precavendo o excesso de pressão turística, obviamente. Com maior compreensão e entreajuda recíproca, obrigatoriamente. E punindo, severamente, os prevaricadores.

Mas também com noção que nem toda a presença humana é nociva; que existem actividades económicas, como as de muitos dos sectores que integram o turismo, que podem dar um contributo decisivo para a protecção e preservação ecológica e ambiental, porque disso dependem; que a sustentabilidade, o ordenamento e a coesão territoriais são hoje um imperativo das sociedades e, por isso, não existe mal algum em criar-se valor em seu torno.

Valor esse que pode – e deve! – ser reinvestido na valorização e qualificação do nosso país, através de um mais escorreito ordenamento do território e na salvaguarda das suas componentes ambiental e ecológica. Numa frase, no constante desenvolvimento e defesa da nossa herança comum, para que possamos legar às gerações vindouras um Portugal melhor.

 

Turisver.com – Já por diversas vezes temos falado nesta rubrica sobre o emprego e a falta de mão-de-obra para trabalhar no turismo. Um dos problemas que se coloca nalgumas regiões, em especial no Algarve, é a escassez de habitação para estes profissionais, o que torna ainda mais difícil a resolução deste problema. Como é que olha para esta situação?

Atilio Forte – Naturalmente com preocupação, pois ela é (apenas) mais uma das provas que confirmam o que (há muitos anos) vimos afirmando, isto é, que o turismo é, porventura, a mais transversal e pluridisciplinar de todas as actividades económicas, o que faz com que o seu sucesso dependa de uma vastíssima confluência de esforços, de estratégias e de cooperação com quase todas as demais áreas da vida política, económica e social de qualquer destino e/ou país.

O caso concreto que é indicado ilustra na perfeição o desfasamento que existe entre o que não está a ser feito e o que deveria sê-lo, uma vez que não faz qualquer sentido termos uma actividade económica a criar emprego no principal destino turístico de Portugal e tanto as empresas, como quem pretende trabalhar, verem-se prejudicados por carências ao nível da habitação, impedindo-se por esta via a materialização de uma relação laboral, com a agravante desta ser uma região de forte sazonalidade e, portanto, fazendo “tábua rasa” que esta oferta de emprego é não apenas benéfica para a população local, como para atrair pessoas oriundas de outras geografias e, por esse motivo, que pela sua presença, também contribuam para a vivificação do Algarve, particularmente nos meses da denominada “época baixa”.

Contudo, e como aqui vimos na semana passada, parece que os concelhos algarvios andam mais preocupados em arranjar forma de aumentarem as suas receitas – através da criação de uma taxa turística, ou imposto sobre os turistas, como é correcto designá-la – do que em criarem condições para serem mais atractivos e terem condições para receberem – todo o ano – novas pessoas, para aí viverem, aí efectuarem, pelo menos, os gastos necessários ao seu quotidiano e, quem sabe, acabarem por aí se fixar e, nalguns casos, aí constituírem família e, assim, contribuírem com natalidade para o rejuvenescimento populacional da região, isto para nem sequer mencionarmos a maior arrecadação de receita por parte das autarquias que, naturalmente, decorreria do aumento do número dos seus residentes.

Em suma, o turismo precisa, cada vez mais, que todos façam (bem) o seu trabalho, pois só assim o país poderá manter-se na senda dos bons resultados turísticos, como almejar dar passos seguros rumo a horizontes mais ambiciosos, seja no plano turístico, seja no económico e social, seja ainda no do progresso, baseado no desenvolvimento sustentável.

 

O + da Semana:

O tema da igualdade de género, principalmente nas profissões turísticas, é um dos assuntos que, a espaços, aqui temos vindo a abordar, nomeadamente para enfatizarmos os progressos que vêm sendo feitos nas empresas turísticas que, apesar de alguma lentidão, demonstram que algo está a mudar no que respeita às suas posições de liderança passarem a ser ocupadas por mulheres, mesmo em países cujas sociedades são supostamente mais avessas e conservadoras (para não dizermos retrógradas e tacanhas) fruto, nalgumas situações, de condicionalismos e interpretações religiosas distorcidas, cujas amostras mais paradigmáticos podem ser encontradas no denominado “Mundo Árabe”. Certamente que esta foi a razão por que tanto se enfatizou o anúncio, feito há alguns meses, por parte da Arábia Saudita (sunita) em conceder o direito de condução às mulheres a partir de Julho de 2018 ou, para darmos um exemplo ligado ao turismo, a escolha de Farzaneh Sharafbati para a presidência da Iran Air, a mais importante companhia aérea do Irão (xiita), no ano transacto. E, neste último caso, as consequências dessa decisão começam já a ter reflexos, uma vez que aquela transportadora aérea acaba de anunciar que vai contratar mulheres para as funções de piloto e co-piloto, alterando aquela que era a prática comum desde a sua fundação (1940), isto apesar de não existir qualquer entrave às iranianas poderem pilotar aviões. Esperamos – e desejamos! – que as demais seis companhias aéreas daquele país adoptem idêntica postura e, muito mais importante, que este gesto seja (mais) um sinal que “inspire” o turismo a, definitivamente, abraçar a temática da igualdade de género!