iTurismo: APAVT a Oriente, por Atilio Forte

O Congresso da APAVT dá mote ao iTurismo desta semana, com as várias questões abordadas no habitual Comentário a centrarem-se nos trabalhos do evento, realizado em Macau. Em “O + da Semana”, Atilio Forte destaca a possibilidade de em 2022 o Mundo assistir a testes reais do “Concorde 2” e nos “Tópicos da Semana” aborda a formação que está a ser dada aos profissionais hoteleiros dos EUA para detectarem casos de tráfico humano, a apetência dos turistas norte-americanos por programas de fidelização e os preços na hotelaria.

 

Tópicos da Semana:

  • Tráfico humano “debaixo de olho” na hotelaria americana: De acordo com a AHLA – American Hotel and Lodging Association o sector hoteleiro daquele país está a dar formação aos seus colaboradores para detectarem com maior facilidade situações de tráfico humano, atendendo a que esta é uma prática que utiliza estadas de curtíssima duração como primeiro “refúgio” após o crime, segundo estudos das forças de segurança e, também, porque todos os profissionais que estão ligados ao sector querem ajudar e ser parte de uma solução que faça diminuir este hediondo tipo de criminalidade.

 

  • Existem condições para aumentar preços na hotelaria: A afirmação é feita pela STR, empresa internacional especializada em análises de mercado. Mas, segundo a mesma, parece que os hotéis estão a deixar escapar esta oportunidade de aumento dos preços, considerando a actual situação do mercado e os níveis recorde de ocupação que se verificam um pouco por toda a parte…

 

  • Programas de fidelização são chave de sucesso junto dos turistas norte-americanos: Estudos recentes feitos junto dos turistas oriundos dos Estados Unidos da América (EUA) indicam que a grande maioria aderiu ou faz parte, pelo menos, de um programa de fidelização. De uma leitura mais fina destes elementos podemos concluir que 62% dos que viajam em negócios e 54% dos que o fazem em lazer são seus utilizadores habituais.

 

Comentário

 

Turisver.com – Podemos dizer que o 43º Congresso da APAVT, em Macau, ficou marcado por intervenções de dois tipos: por um lado as que tiveram um cariz “político-turístico” e que aconteceram na abertura e no encerramento e, por outro, as intervenções a cargo de figuras públicas que partilharam os seus pontos de vista culturais e económicos sobre as relações entre Portugal, Macau e o Oriente. Começando pelas primeiras, que mensagens salienta das diferentes intervenções?

 

Atilio Forte – Antes de mais, devemos começar este nosso iTurismo feito em Macau – é a primeira vez que o iTurismo é realizado tão longe – por agradecer, quer à APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, quer às autoridades da RAEM – Região Administrativa Especial de Macau, seja pelo gentil convite que a primeira nos dirigiu para aqui estarmos presentes, seja pela magnífica recepção com que a segunda nos brindou e, a ambas, pelo excelente trabalho desenvolvido que redundou num óptimo Congresso, coroado por sessões de trabalho de alto nível que tiveram como pano de fundo a sempre fantástica hospitalidade macaense.

Dada esta nota da mais inteira justiça, e centrando-nos na resposta à questão que nos é colocada, cremos que, do ponto de vista genérico, a grande mensagem, quase poderíamos dizer “supra Congresso”, é que existe um Mundo muito para além das ligações políticas, económicas e dos negócios entre os Estados, as Regiões e as empresas, que é o Mundo do encontro das pessoas, do qual um dos grandes expoentes é a ponte civilizacional entre Portugal e a China via Macau que traduz, quase subliminar mas perenemente, os laços de amizade secular e aliança estratégica entre os dois povos e que serve de alicerce para potenciar a importância da cooperação entre a República Popular da China, tendo como porta Macau, e a União Europeia, tendo como porta Portugal.

Esta ligação histórica e sã convivência de séculos, que tem como principal activo as pessoas, e que numa perspectiva geoestratégica liga a Ásia e a Europa, em geral e Portugal e Macau, em particular, tem por base duradouros laços afectivos que ao longo dos anos têm-se transformado em relações económicas, diplomáticas e até, por vezes, em actos muito concretos do ponto de vista político, foi, de alguma forma, sentida por todos os congressistas, pois pairou um pouco ao longo dos diversos painéis.

Não é por isso de estranhar que a quase totalidade do leque de oradores que foi mencionado na pergunta, tenha feito referência a esta ponte e a esta ligação entre Portugal e Macau ou, se quisermos, ente Portugal/União Europeia e Macau/China que pode ser potenciada pelo histórico, pela afectividade, pelas relações humanas que continuam a perdurar e pela amizade genuína entre Portugal e a Região Administrativa Especial de Macau.

Claro está que também existiram, objectivamente, questões bem mais concretas do ponto de vista político, algumas delas que aqui no iTurismo já vimos abordando há muito tempo, como a que foi sublinhada pelo Governo, e na nossa óptica bem, acerca dos resultados turísticos que têm estado a ser alcançados em duas grandes áreas, concretamente, na da abertura de novas rotas aéreas para Portugal e na da captação de grandes eventos internacionais, que têm tido consequências práticas no aumento dos fluxos turísticos (vejam-se os resultados do corrente ano) para o nosso país. Ou seja, no fundo, aquilo que dissemos e saudámos há dois anos, quando o Governo entrou em funções e disse que ia dedicar apoios exclusivos para estas situações leva-nos, agora, a podermos olhar o futuro de forma mais risonha.

Em contraponto a esta mensagem do Governo, não podemos deixar de enfatizar, mais uma vez, algo que também há muito aqui vimos dizendo, e que neste Congresso foi particularmente sublinhado, que é a total e manifesta ausência de competitividade fiscal que Portugal tem no que respeita à captação de grandes eventos internacionais, nomeadamente pela impossibilidade de dedução do IVA nas despesas profissionais de recepção, alojamento e transporte. Em concreto, Portugal continua a ser um parente pobre do ponto de vista da competitividade turística internacional, mormente dentro da própria União Europeia, o que motivou que quer a APAVT, quer a própria CTP – Confederação do Turismo Português, sublinhassem este aspecto que, embora não sendo novo continua, infelizmente, a ser um tema cuja única solução – se calhar aquela que há mais de 10 anos tinha sido encontrada – passa por accionar os mecanismos europeus de justiça, com o propósito de obrigarem o Estado português a não intervir e a não distorcer o mercado por meio deste tipo de tributação/penalização que é altamente nociva para os fluxos turísticos.

Como referimos, há mais de uma década esta era a posição pública dos agentes da actividade económica do turismo, transmitida aos vários Governos de então pelas associações empresariais e demais actores e que, entretanto, se terá perdido. Esperemos, assim, que este tema ganhe agora uma nova dinâmica e que, quer pela sensibilidade que este Governo vem demonstrando para a questão, quer por uma actuação mais incisiva por parte das associações empresariais, a mesma possa, em definitivo, ser ultrapassada.

 

Turisver.com – A região Centro de Portugal esteve em destaque de diversas formas. Dá a sensação que o país turístico está a querer colaborar de forma muito activa e directa com o Centro, seja sob o ponto de vista associativo como governamental. O leque de intenções apresentado em Macau, que culminou com a escolha do Centro de Portugal, uma vez mais, como Destino Preferido da APAVT 2018, casou bem com um Congresso desta importância?

 

Atilio Forte – Indiscutivelmente que casou bem, até para sermos consequentes com o que dizíamos atrás sobre as relações humanas. A solidariedade perante as tragédias que este ano vivemos com os incêndios em Portugal, que atingiram particularmente a zona Centro do país, tem estado patente e latente em toda a sociedade portuguesa e, naturalmente, isso reflecte-se no turismo, não só porque há um destino do nosso país que ficou devastado e que precisa de se reerguer, mas também porque há uma questão que porventura é única e intrínseca ao próprio turismo, que é o facto de ele ser uma actividade feita por pessoas e para pessoas.

E, tal como referíamos na primeira pergunta, se elas são importantes nas relações civilizacionais porque, no final, são as pessoas que as constroem, que fazem as pontes e que criam os laços, no turismo, sendo a actividade mais humana e mais humanizada que existe, faz todo o sentido que num Congresso com a importância, com a dimensão e com o impacto que tem o da APAVT, haja uma manifestação clara dessa solidariedade, dessa vontade de reconstrução, tão rápida quanto possível, da zona Centro do país, seja em conjunto com as entidades e com os empresários locais, seja com a ajuda quer do Governo da República quer das associações empresariais. No fundo, é uma forma de todos nós, no e do turismo, contribuirmos para que esta região, este destino de Portugal, ultrapasse o mais rapidamente possível a fatalidade de que foi alvo.

 

Turisver.com – O painel mais técnico que tivemos neste Congresso foi o relacionado com as tecnologias. O que é que o agente de viagens pode reter das várias intervenções? 

 

Atilio Forte – Correndo o risco de parecer que este comentário anda sempre à volta do mesmo, há que dizer que aquilo que entendemos das múltiplas intervenções proferidas nesse painel, é que há algo que é incontornável e em redor do qual tudo gira (e vai continuar a girar!), que são as pessoas.

De facto, e para as agências de viagens muito em concreto, num painel que poderia, à partida, constituir um grande desafio, porque abordava a rapidez da evolução tecnológica – temos de frisar que não é a penas a evolução mas a velocidade a que ela se dá – a grande conclusão a que se chegou é que, para além da tecnologia que cada vez está mais enraizada no nosso quotidiano (pessoal e profissional) e independentemente da capacidade e até dos meios de inteligência artificial que essa tecnologia coloca à nossa disposição, no limite há e haverá “alguém”, uma pessoa, em concreto “o agente de viagens”, que acrescerá sempre valor ao produto. E esse acréscimo de valor é aquilo que irá inexoravelmente diferenciá-lo, porque é a forma humana de responder e corresponder aos anseios e expectativas de quem viaja – porque os turistas também são seres humanos.

No fundo, tal como em muitas outras reflexões feitas no passado a este propósito, voltou a constatar-se que se é verdade que as agências de viagens em concreto, e o turismo em geral, têm o enorme desafio de abraçar e de se adaptarem às mudanças tecnológicas, não menos verdade é que têm algo que as pode deixar muito tranquilas: é que no fim da linha estará sempre a componente humana para fazer a ligação entre a tecnologia e o turista. Em conclusão, esta foi uma mensagem muito interessante dada por todos os oradores e que, à partida, poderia não ser tão perceptível quanto acabou por sê-lo.

 

Turisver.com – Um dos painéis que criava alguma expectativa era o da conversa com Diogo Lacerda Machado, muito porque os agentes de viagens perspectivavam vir a saber um pouco mais do que está a acontecer na TAP e do que poderá suceder em termos da sua relação com esta transportadora aérea. Nesse aspecto, pensa que ficaram mais esclarecidos?

 

Atilio Forte – Eventualmente, poderá ter sido essa a expectativa dos congressistas, no entanto não foi assim que nós entendemos este painel. Interpretámo-lo, tal como o seu próprio título indicava, “À conversa com…”, como sendo uma troca de impressões com uma personalidade que tem estado na ribalta, sobretudo nos últimos dois anos, alguém que poderia trazer um grande valor a este Congresso por estar há muitos anos ligado a Macau e à Lusofonia e que lhe poderia acrescentar valor, até pelas funções que agora desempenha, nomeadamente na TAP, para já não falarmos do facto de ser uma das pessoas mais próximas e íntimas do Primeiro-Ministro de Portugal.

À luz deste prisma, ouvimos uma “versão” em forma de respostas de uma personalidade que tem estado muito presente, nomeadamente na reversão da privatização da TAP e, portanto, na recuperação por parte do Estado de 50% do capital da empresa, que conduziu essas negociações, e que presentemente está envolvido em funções de administração na companhia, embora as mesmas não sejam de cariz executivo. No fundo, uma visão muito importante, embora nem sempre coincidente com as notícias que têm vindo a público.

Um aspecto que nos parece essencial realçar, e que foi sublinhado neste painel em concreto, é a questão do contrato de concessão da ANA Aeroportos – fazemo-lo porque ainda continua a haver confusão nesta matéria, já que a empresa foi concessionada, embora por um largo período de tempo, mas não foi privatizada como, erradamente, tantas vezes é referido –, pois tal como na altura alertámos aqui no iTurismo, vem comprovar-se que as condições desse contrato – embora tenhamos presente que foi realizado para fazer face a necessidades financeiras prementes do Estado português, o que permitiu a obtenção de excelentes condições por parte da empresa que com ele fechou negócio – não são claras e, por isso, temos tantas vezes instado para que as ditas sejam tornadas públicas na sua totalidade, porque os portugueses têm o direito de saber em que termos é que um bem que era do Estado e, portanto de todos nós, altamente lucrativo e que ainda por cima traduzia uma situação de monopólio, foi afinal concessionado?

E é este exacto ponto que nos conduz à questão do novo Aeroporto de Lisboa (que tanta falta faz a Portugal) que continua sem resposta: quando é que e em que termos é que iremos ter o novo Aeroporto e, ainda, quem é que o irá pagar? São questões que permanecem em aberto e, consequentemente, que carecem de explicação pública e urgente por parte do Estado, (ao turismo em particular e aos portugueses em geral) sobre qual o teor do contrato de concessão que foi celebrado com a ANA Aeroportos de Portugal, mais a mais porque nem sequer foi feito por este Governo.

 

O + da Semana:

Quem não se lembra ou ouviu falar do célebre avião supersónico “Concorde”? Exactamente. Esse que cruzou os céus, principalmente do Atlântico Norte, com as cores da Air France e da British Airways (as duas únicas companhias aéreas que os operaram), entre 21 de Janeiro de 1976 e 24 de Outubro de 2003, data a partir da qual foram proibidos de voar, sobretudo por causa do barulho que provocavam ao superar a barreira do som (mach 1, ou seja, 1.224,71 quilómetros por hora) e, ainda, do trágico acidente ocorrido em Paris, no ano 2000, em que pereceram 113 pessoas. Pois bem, para os mais saudosistas ou para aqueles que nunca o viram “ao vivo” existem boas notícias. Aparentemente a NASA – National Aeronautics and Space Administration está a trabalhar numa nova aeronave – o Concorde 2 –, com o objectivo de reduzir para metade o tempo actual de viagem e, simultaneamente, superar os constrangimentos daquele tipo de voos, particularmente o ruído resultante do “boom supersónico”. Para tal, o protótipo que a NASA está a desenvolver, ao que tudo indica em parceria com a Lockheed Martin, vai ter um novo desenho, que fará com que a “explosão” do som se disperse em vários pontos do aparelho e, desse modo, o ruído provocado pela junção das ondas sonoras seja reduzido em, aproximadamente, um terço. Para já o que se sabe é que o Concorde 2 poderá ligar Londres a Nova Iorque em (apenas) 3 horas, voar a uma altitude muito acima da dos aviões convencionais (55.000 pés/16.764 metros) e que, nos próximos cinco anos, a NASA planeia investir neste projecto cerca de 390 milhões de dólares, de forma a conseguir executar testes reais em 2022. Aguardemos!

 

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