iTurismo: As Dores de Crescimento da TAP, por Atilio Forte

A TAP está em destaque no iTurismo de hoje, por um lado devido aos bons resultados financeiros alcançados em 2017, por outro, devido ao início de ano turbulento que está a viver em termos dos seus voos. O habitual Comentário de Atilio Forte versa também sobre o apoio do Turismo de Portugal à realização do Rali de Portugal.

 

Tópicos da Semana:

  • Regulador chinês está a ponderar vender hotéis do Grupo Anbang: Após ter assumido o controlo do Anbang Insurance Group e das suas subsidiárias, na sequência dos indícios de práticas económicas ilegais, o regulador chinês da área dos seguros manifestou disponibilidade para alienar alguns activos hoteleiros detidos por aquele conglomerado. Recorde-se que, só em 2016, a Anbang investiu 6,5 biliões de dólares na aquisição de 16 unidades hoteleiras.

 

  • Excesso de oferta hoteleira na China e em Hong Kong potencia novos negócios: De acordo com alguns analistas a principal consequência desta situação é uma corrida dos investidores à aquisição de hotéis para, posteriormente, os reconverterem. Ao contrário do que sucedeu há alguns anos, desta feita a tendência não é transformá-los em edifícios de escritórios, mas em apartamentos para alugar.

 

  • Trump Hotels querem crescer: Em recentes declarações, Eric Danziger – CEO da Trump Hotels – afirmou que a empresa pretende aumentar a sua presença no mercado, com o propósito de deixar de ser uma cadeia uni-marca para passar a multimarca. Por este motivo está disponível para abandonar o “guarda-chuva” do nome Trump e, assim, entrar em força quer no negócio da gestão hoteleira, quer no da concessão ou licenciamento de unidades para serem geridas por terceiros.

 

Comentário

Turisver.com – Segundo notícias vindas a público, a TAP SGPS teve lucros em 2017. No entanto, a companhia vive um início de ano turbulento com cancelamentos e atrasos sucessivos nos voos, que prejudicam a sua imagem e se reflectem, de forma negativa, na confiança dos clientes. Como analisa estas duas faces da mesma moeda?

Atilio Forte – Esta é, sem dúvida, uma excelente pergunta que merece reflexão pois, à primeira vista, poderá parecer algo contraditório o facto dos bons resultados económico-financeiros alcançados em 2017 pelo Grupo TAP não estarem a ser acompanhados, em 2018, por um bom desempenho operacional por parte da sua transportadora aérea, apesar de uma análise mais objectiva e aprofundada demonstrar as razões que estão na sua origem. Mas, vamos por partes:

Relativamente aos resultados apresentados, e tendo em linha de conta as notícias vindas a público esta semana, a TAP SGPS encerrou o exercício transacto com lucros de 21,2 milhões de euros, sendo que só o transporte aéreo gerou um resultado positivo de 100,4 milhões de euros, para o qual foi determinante o aumento do número de passageiros transportados (14,2 milhões no total), que significou um acréscimo de 21,6%, se comparado com o registado em 2016. Assim, e em termos homólogos, a empresa mais importante do Grupo – a companhia aérea – viu os seus lucros aumentarem cerca de 200% (!) de um ano para o outro (de 33,5 milhões de euros em 2016, para 100,4 milhões de euros, em 2017), superando, em muito, as projecções mais optimistas.

Ao invés, os prejuízos relativos à TAP Manutenção e Engenharia Brasil agravaram-se no mesmo período, uma vez que passaram de 31,9 milhões de euros (em 2016) para 50,1 milhões de euros (em 2017), ou seja, aproximadamente + 60%.

Mas estes números provam, acima de tudo que, tanto a estratégia de aumento da oferta que a TAP levou a cabo no ano passado estava correcta, como o facto de a empresa ter sabido aproveitar da melhor forma quer as oportunidades que o crescimento significativo da atractividade turística do país lhe proporcionou, quer a melhoria das condições económicas que também, a esse nível, se verificaram.

Contudo, fazer crescer a oferta sem acompanhar a mesma de mais equipamentos e recursos humanos, se é verdade que permitiu o progresso do desempenho económico da companhia, não menos verdade é que a colocou em sobre esforço, pois todo o seu material circulante esteve sujeito a maior desgaste, o mesmo acontecendo com a pressão posta nos seus colaboradores, mormente ao nível das tripulações.

Ora, como facilmente se compreende, situações desta natureza não são sustentáveis durante períodos dilatados de tempo. Por isso não deve estranhar-se que, a partir de determinada altura, a falta de aviões (seja por avaria, seja por necessidade de manutenção, seja como consequência de uma frota envelhecida, seja ainda pelos imponderáveis que acabam por afectar o planeamento e o cumprimento de horários) e a contestação laboral (motivada pela reivindicação da melhoria das condições de trabalho) tenham feito sentir-se, repercutindo-se em atrasos quase permanentes e, até, no cancelamento de centenas de voos (só no primeiro trimestre de 2018).

Por este motivo os anúncios, já realizados, de compra e aluguer de mais aviões e de contratação de mais 170 pilotos e 300 tripulantes de cabina, não são de espantar…

Só que não podemos esquecer-nos que a aviação comercial é, porventura, um dos sectores mais competitivos à escala planetária e onde a exigência dos consumidores é maior. Portanto, tudo o que belisque o bom – ou normal – desempenho de uma qualquer empresa que nele actue, inexoravelmente acaba por prejudicar a sua imagem, o que gera desconfiança junto dos seus clientes – ou potenciais clientes – e, consequentemente, acaba por reflectir-se tanto em menos vendas, como no aumento de custos que decorrem da deficiente prestação dos serviços contratados.

Para além do já referido, episódios como o sucedido no final do mês passado, com a detenção de um co-piloto, por embriaguez, em Estugarda (Alemanha), em nada ajudam a boa imagem da companhia, inclusivamente prejudicando-a com severidade, já que originam desconfiança por parte dos consumidores relativamente a um dos aspectos mais essenciais e sensíveis da aviação comercial, a segurança.

Como facilmente se percebe, tudo isto exige, por um lado, a manutenção de critérios de gestão muito rigorosos, sendo de evitar – a todo o custo – situações que conduzam a “dar um passo maior que a perna” e, por outro lado, procurar aparecer aos “olhos do consumidor” com todas as garantias que lhe induzam confiança, para além das vantagens comerciais, para por ele poder ser-se escolhido.

Ao que referimos, acresce também o facto de a TAP ter contratado com vários operadores turísticos nacionais um importante número de voos e de lugares para o próximo Verão, aspecto que, embora acreditemos que esteja devidamente acautelado pela companhia, caso não decorra sem mácula, poderá prejudicar o seu posicionamento junto de alguns dos seus principais parceiros comerciais e no seu mercado base.

Em suma, a nova gestão executiva da TAP, recentemente empossada, tem pela frente este enorme desafio de, simultaneamente, compaginar a continuidade do bom desempenho dos resultados económicos e financeiros, com a credibilização da operação, e a renovação e o aumento da frota, com a melhoria das condições de trabalho dos actuais e novos colaboradores da companhia e, assim, superar as presentes “dores de crescimento” e retomar os elevados índices de satisfação a que ao longo do tempo nos foi habituando e que dela fizeram uma referência na aviação comercial, marca de confiança e de preferência junto dos consumidores e peça fundamental para o desenvolvimento do turismo português.

 

Turisver.com – Depois de se conhecer que a realização do Rali de Portugal estava em risco por falta de verbas, o Turismo de Portugal anunciou que vai apoiar o evento em 207 mil Euros, completando o valor em falta. No seu entender, faz sentido que o Turismo de Portugal apoie estas iniciativas?

Atilio Forte – Já por diversas vezes aqui abordámos a temática relativa aos apoios financeiros a conceder aos megaeventos desportivos internacionais, tendo sempre defendido a importância da sua realização atenta a projecção planetária e os reflexos mediáticos que os mesmos proporcionam, já que atingem um público bem mais vasto do que aquele que é simplesmente adepto da modalidade em causa, para além das mais-valias directas e indirectas que geram na economia regional ou local dos sítios onde têm lugar, seja por aqueles que neles participam, seja pelos que a eles assistem.

Em coerência com esta nossa posição e no que em concreto respeita ao Rali de Portugal também tivemos oportunidade de sublinhar que, tanto por o mesmo se enquadrar na perfeição neste âmbito, como por ser uma das provas com mais “história e tradição” do calendário do Campeonato do Mundo de Ralis, fazia – e faz – todo o sentido que a sua realização fosse apoiada financeiramente pelo Turismo de Portugal, independentemente da região do país onde decorresse.

Assim, todas estas razões justificam o apoio agora anunciado o qual, se considerarmos uma relação “custo-benefício”, nem sequer é de montante elevado.

Explicitada que está a nossa opinião (ou posição de princípio) e sem pretendermos de algum modo colocar em causa o mérito deste financiamento cremos que, num futuro próximo, o mesmo possa e deva ser repensado pelo Turismo de Portugal sempre e quando ocorra em regiões ou municípios que tenham “aderido” à “onda” das taxas turísticas, cujo exemplo mais paradigmático acontece neste caso com o Porto, que “inaugurou” no passado dia 1 de Março a cobrança de um “imposto” de 2 euros por cada dormida realizada na cidade.

Independentemente das verbas daí resultantes serem ou não aplicadas por essas autarquias em prol da actividade turística, são inquestionáveis as receitas geradas por essa via – segundo as contas da Câmara Municipal do Porto ascenderão a 6 milhões de euros/ano –, fazendo por isso todo o sentido que uma pequena (quase ínfima) parte das ditas possa ser reinvestida na atracção deste tipo de eventos, até porque, no final, geram um círculo virtuoso, já que eles atraem mais turistas aos quais também é cobrada mais taxa turística.

A isto acresce o facto de nas últimas edições do Rali de Portugal um dos “pontos mais quentes” e espectaculares da prova ser uma dupla classificativa que tem lugar em plena “baixa” portuense – que vai repetir-se este ano –, certamente atraindo muitos dos seus habitantes mas, igualmente, muitos turistas que, considerando a curta duração desta etapa especial (perto de 1 hora) e mesmo não sendo adeptos da modalidade, a verão como factor diferenciador e, consequentemente, como mais um motivo de atracção para, nesses dias, visitarem o Porto, já que não é comum ver-se carros de competição a andarem a grande velocidade e com enorme espectacularidade em plena cidade.

Em conclusão, e sendo o turismo, tal como as receitas que cria, importantes factores que contribuem para a coesão nacional, em nome dessa mesma coesão, que é o mesmo que dizer-se igualdade de oportunidades, deverão as verbas geradas pela actividade passarem a ser distribuídas com maior equidade e homogeneidade, provenham elas de “taxas e taxinhas” ou do Turismo de Portugal.

 

O + da Semana:

Recentemente, Lisboa acolheu a primeira reunião do Grupo Técnico Ampliado sobre Mobilidade da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, num encontro de onde resultou a vontade unânime dos Membros daquela organização em aprofundarem as facilidades de mobilidade dos seus cidadãos no espaço lusófono. Para tal, os nove Estados que a compõem concordaram em desenvolver três tipos de acções: implementar os acordos já existentes sobre esta matéria, nomeadamente, ratificar os mesmos pelos países que ainda não o fizeram e/ou afinar a sua homogénea aplicação no seio da Comunidade; aprofundar a divulgação dos mesmos junto das populações, concretamente no que respeita ao Acordo de Concessão de Vistos de Múltiplas Entradas para Determinadas Categorias de Pessoas; e, prosseguir com o estudo de medidas que potenciem as facilidades de mobilidade intracomunitária. Embora reconhecendo que o objectivo final – a livre circulação de pessoas – está muito longe de ser alcançado, para já a CPLP propõe-se dar passos seguros nessa direcção, os quais, naturalmente, merecem aqui ser destacados, uma vez que podem vir a traduzir-se num estreitar das relações económicas entre os Estados que a integram e, mais importante, contribuírem para aumentar o intercâmbio, a cooperação e os fluxos turísticos dentro do “mundo lusófono”.