iTurismo: Às Portas do Éden(r), por Atilio Forte

A nova visibilidade de Portugal com a conquista do Euro 2016 e os benefícios que pode trazer ao turismo, e o tema do 42º Congresso da APAVT são os assuntos versados por Atilio Forte no iTurismo de hoje. Nos “Tópicos da Semana”, o comentador escolheu a rentabilidade na hotelaria, o primeiro hotel flutuante em Paris e novos investimentos na Irlanda. Na rubrica “O + da Semana” o assunto é os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, que vão ter lugar no Rio de Janeiro.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Hotelaria mais rentável: Com o passar do tempo os hotéis têm-se tornado menos complacentes com os cancelamentos de última hora, retirando daí óbvios benefícios. É o que comprova uma vasta análise internacional, feita entre 2007 e 2014, que destaca um aumento médio de 3,1% na rentabilidade das unidades hoteleiras, decorrente da melhoria dos resultados operacionais conseguida por essa via, confirmando ainda a actual “saúde” do sector.

 

  • A flutuar em Paris: A “cidade luz” já tem o seu primeiro hotel flutuante – o “OFF” -, ancorado perto da estação de Austerlitz e a curta distância tanto da Catedral de Notre Dame, como da Câmara Municipal. Dotado de uma arquitectura moderna, os seus luxuosos 54 quartos e 4 suites oferecem aos hóspedes uma experiência única fruto de uma nova perspectiva da capital francesa reflectida a partir das águas do Sena.

 

  • Investimento na Irlanda: O surto de venda/compra de hotéis naquele país continua em linha com o verificado no ano transacto, com mais unidades transaccionadas no primeiro semestre de 2016 do que no total de 2006, até aqui o ano que apresentava maior volume de negócios. Até ao final de Junho 29 propriedades mudaram de mãos, representando um volume de investimento de cerca de 151 milhões de dólares, aos quais se estima que possam adicionar-se mais 554 milhões de dólares na segunda parte de 2016, resultantes de negociações em curso.

 

Comentário

 

Turisver.com – No passado domingo Portugal conseguiu feitos desportivos significativos no Campeonato da Europa de Atletismo, onde os atletas portugueses conquistaram várias medalhas e, em termos ainda mais mediáticos a nível mundial, conquistou o Euro 2016. Esta visibilidade pode trazer benefícios para o turismo português?

 

Atilio Forte – Não temos quaisquer dúvidas que o dia 10 de Julho de 2016 ficará para a História como uma das mais belas páginas do desporto português. Por isso, curvamo-nos perante todos quantos foram os verdadeiros obreiros de tamanhos feitos, não obstante tenhamos que reconhecer o impacto único do futebol no “imortalizar” desta jornada (principalmente) para todos nós portugueses, independentemente do lugar do Mundo onde nos encontramos. Para além da grande alegria que nos deram, encheram-nos de emoção e orgulho. Assim, também nós lhes dizemos: Obrigado. Muito OBRIGADO!

Atenta a mediatização dos dias de hoje, que se estende da comunicação social às redes sociais, é óbvio que tais factos não passam despercebidos e, naturalmente, levam o nome de Portugal a todos os lugares do planeta, por mais recônditos que sejam. E, nesse sentido, é claro que (também) o turismo português disso beneficia.

Nenhuma campanha promocional alcançaria esta dimensão ou teria tamanha presença junto de um tão grande número de potenciais consumidores, como a que destes feitos resultou. Ora, ao falar-se tanto de Portugal, certamente que isso despertará em muitas pessoas a vontade e a curiosidade de saberem mais sobre o país e sobre as suas gentes. Ao fazerem-no descobrirão o que muitos já sabem: apesar de pequeno em dimensão, é um enorme concentrado de diversidade turística, possuindo uma riquíssima e qualificada oferta. Portanto, a consequência mais lógica é que muitas dessas pessoas sintam-se tentadas a visitarem-nos e a conhecerem-nos melhor.

Devemos também destacar que, neste aspecto em particular, contamos com uma preciosa ajuda, tantas vezes esquecida e desvalorizada, a nossa diáspora. Como se viu, sobretudo no que respeita ao “desporto Rei”, a nossa conquista revelou – aproveitando uma parte do mote da selecção nacional de futebol – que somos muito mais do que 11 milhões e que marcamos presença em todo o Mundo, o que significa que em cada um desses portugueses temos um embaixador, um verdadeiro promotor do nosso país. Em muitos casos já com descendência, à qual é passado e incutido o que é “ser português”. E isso vale muito. É algo precioso.

Quem não se lembra (com emoção) das imagens, que correram Mundo, de uma criança portuguesa a consolar um adepto francês, após terminar o jogo da final, em Paris. Tanto quanto se sabe tem 10 anos e chama-se Mathis. Será, seguramente, de 2ª ou 3ª geração e nascido em França, mas demonstrou naqueles pequenos mas impressivos gestos, a compreensão, a tolerância, a afabilidade, a solidariedade e a humanidade, características tão próprias do nosso povo que, por certo, lhe terão sido transmitidas pela sua família. Quem reage assim, quem é assim, no meio da rua, numa hora de tamanha euforia, emoção, afirmação e orgulho, imagine-se o que faria se tivesse recebido, em sua casa, aquele francês?

Não é pois de admirar que a vitória portuguesa tenha sido celebrada com a mesma intensidade, com a mesma alma, por toda a lusofonia. De Timor ao Brasil, de Macau a África, os gestos daquela criança estiveram presentes noutros povos e dizem quase tudo do que os portugueses foram e são. Para além da união da língua, estamos perante a partilha de um mesmo código genético, fundido na (con)vivência de uma secular vida em comum, onde demos, mas também recebemos, onde mais do que colonizadores, fomos (e somos) irmãos, onde ninguém é superior, mas em que todos são iguais. E, eis que descobrimos novos mercados turísticos – com a importância do Brasil ou Angola (como se viu nos últimos anos) – e aumentámos exponencialmente o número dos nossos embaixadores.

É desta herança, é daqui que vem a nossa afamada “arte de bem receber”.Areconhecida, por todos quantos já nos visitaram, hospitalidade portuguesa.

Desaproveitar tão grande activo seria (será?) um desperdício… que não nos podemos permitir.

No último mêstestemunhámos e vivemos (mais ou menos) intensamente grandes lições de vida sobre as quais valeria também a pena (particularmente no seio do turismo português) que meditássemos: “Acreditar em nós”; “Ter convicções e assumi-las”; “Determinação”; “Ninguém vence sozinho”; “Liderar é partilhar objectivos”; “Nunca menosprezar o nosso concorrente”; “A verdadeira forçareside no trabalho em equipa”; “Tem sucesso quem melhor se adapta”; “O Nós vale sempre mais do que o Eu”; … e poderíamos continuar, mas sabemos que os nossos estimados leitores já nos perceberam, sobretudo porque somos um país (e o turismo espelha-o na perfeição) onde o “mérito” e as “capacidades”, individuais e colectivas, raramente são valorizadas.

Em nossa opinião, estas são algumas das razões pelas quais a grande visibilidade, que os êxitos dos nossos atletas nos permitiram alcançar, se bem aproveitada e interpretada, nos abre graciosamente as portas do “Éden(r)” turístico (desculpem-nos mas não resistimos ao trocadilho com o nome do nosso mais recente “herói improvável”).

 

Turisver.com – O próximo congresso da APAVT tem como tema “Turismo: Liberdade de escolha e factores de competitividade”. Como encara a abrangência da temática colocada à discussão?

 

Atilio Forte – De há muitos anos a esta parte que a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT) nos habituou a excelentes escolhas para “pano de fundo” dos seus congressos nacionais. E o deste ano não foge a essa tradição.

Num momento em que cada vez mais – como aqui vimos dando nota – a desintermediação está na ordem do dia, em que existem fenómenos emergentes – como a economia de partilha ou a evolução do digital –,que colocam seríssimos desafios às agências de viagens e turismo, pelo menos no modo e forma (ainda) predominante do seu modelo empresarial, em que vivemos numa era de autêntico primado do consumidor, a escolha deste tema revela grande coragem pois confronta os associados da APAVT com estas realidades e estimula-os à reflexão sobre o que fazer para se manterem “vivos” (e/ou competitivos) no negócio.

É ainda de destacar que, como todos os agentes turísticos sabem, estes congressos reúnem grande parte da comunidade turística nacional, numa importante representação da sua heterogeneidade, chamando por esta via ao debate – a este debate – os demais actores que integram a cadeia de valor do turismo, o que só o enriquecerá, pois é por demais conhecido o eclectismo dos diversos sectores que integram a constelação turística.

Estamos certos que não será seguramente por falta de assunto que o congresso de Aveiro deixará de ser bem-sucedido e bastante participado.

Uma nota final para dizer que, embora compreendamos as razões que nos últimos anos têm presidido à organização deste evento em território nacional, cremos ter chegado a hora de voltar ao exterior. Assim, e com a expectativa que a Direcção da APAVT nos releve a intromissão – é tão só uma sugestão –, acreditamos que a realização, no estrangeiro, do congresso de 2017, seria muito importante para o turismo português. E do que sabemos, candidatos não faltam…

 

O + da Semana:

Nos próximos meses de Agosto e Setembro realizar-se-ão no Rio de Janeiro (Brasil), respectivamente, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. As crises política e económica por que o “país irmão” tem passado, às quais se têm associado a ruptura financeira do Estado do Rio de Janeiro, os alertas para problemas de saúde pública, nomeadamente os relacionados com o vírus “Zika”, e os avisos das forças policiais quanto à falta de segurança, aparentemente não traçam um cenário muito animador quer para os benefícios que a actividade turística poderá retirar da organização destes dois mega eventos, quer para o retorno futuro dos investimentos efectuados (não apenas no turismo). Por estas razões muitos são já os “profetas da desgraça”que vaticinam um possível descalabro. Contudo, e no que ao turismo respeita, estes “Velhos do Restelo” esquecem-se da resiliência bastamente demonstrada pelo turismo, particularmente nos últimos anos. Assim, somos dos que acreditam que o Brasil turístico, detentor de uma oferta ímpar – quase continental –, continuará a trilhar o caminho do sucesso, procurando adquirir mais e melhor conhecimento e saber(no que Portugal pode e deve colaborar) e, até ao final da presente década, liderará a actividade na América Latina.