iTurismo: Banco Meu, Banco Meu…, por Atilio Forte

As preocupações com a evolução turística dos EUA, a diminuição de desperdícios por parte de grandes cadeias hoteleiras e excesso da oferta em Taiwan são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolheu como “O + da Semana” a constituição de um “Conselho de Administração Sombra” na AccorHotels. Já o Comentário versa sobre o apoio das instituições financeiras ao turismo e a aposta da região Centro no turismo de luxo.

 

Tópicos da Semana:

  • Mais avisos à “navegação” americana: Por diversas vezes já aqui demos nota e enfatizámos algumas das preocupações relativas à evolução turística do mercado dos Estados Unidos da América (EUA). Como que a corroborar esses alertas vem agora o World Travel & Tourism Council (WTTC) sublinhar que a actuação da novel Administração Trump, combinada com o fortalecimento do dólar, pode refrear os fluxos turísticos para aquele destino, justificando esta sua posição com a ideia que começa a passar para os mercados (e para os consumidores) que os EUA, no que ao turismo respeita, estão “prestes a fechar para balanço”. Por seu turno a USTA – United States Travel Association partilha de idêntico sentimento, o que a levou a lançar publicamente o apelo que transcrevemos: “Mr. President, please tell the world that while we’re closed to terror, we’re open for business” (lapidar!).

 

  • Grandes cadeias querem diminuir desperdícios: Uma larga maioria das principais cadeias hoteleiras entende que pode melhorar o seu desempenho e resultados operacionais através de um combate mais eficaz ao desperdício alimentar. Para tal estão a desenvolver programas-piloto, conjuntamente com o WWF – World Wildlife Fund for Nature, visando implementar estratégias preventivas que passam pela formação dos seus trabalhadores, pela avaliação/medição do desperdício, por “educar” os clientes e pela revisão das ementas.

 

  • Taiwan pode estar a pagar pelos excessos cometidos: Graças a um Governo que claramente apoiou a captação de turistas e o desenvolvimento turístico assistimos, nos últimos anos, a um crescimento explosivo da actividade em Taiwan. Acontece que, na opinião de muitos especialistas, aquele Estado insular está agora a passar por uma fase de excesso de oferta, particularmente no sector do alojamento.

 

Comentário

Turisver.com – O turismo está em alta e o sector financeiro parece estar a reconhecer isso mesmo. Tanto assim que até já existem campanhas publicitárias que demonstram a disponibilidade destas instituições para apoiarem a actividade turística. Que efeito positivo é que esta situação pode gerar nas empresas do turismo?

Atilio Forte – Esta é, e por favor não nos levem a mal, aquilo que poderíamos designar por uma pergunta “traiçoeira”, uma vez que a sua resposta tende a ser óbvia e por isso clara, tal como aparentemente favorável e de grande importância para o bom desempenho das empresas do turismo, seja no seu dia-a-dia, seja para o seu futuro, sobretudo no que respeita a tudo o que se prende com o investimento.

Por este motivo, e para não cairmos na tentação fácil do seu enaltecimento e no elogio dos múltiplos efeitos positivos que a mesma poderá provocar, é fundamental que consigamos vislumbrar um pouco mais além do que está à vista, procurando reflectir sobre o que está por baixo (como agora é moda dizer-se) da camada de “espuma” mais à superfície, evitando que se criem expectativas elevadas que, como veremos, nos tempos mais próximos poderão não ter a tradução prática desejada.

Assim, importa que comecemos por sublinhar que o turismo é, como se sabe, uma actividade económica de capital intensivo, sendo por isso de vital importância que o sector financeiro compreenda e perceba a razão desta sua característica, tal como também é decisivo que sempre que um projecto de investimento turístico é analisado, se tenha em consideração que o seu prazo de amortização é, na quase totalidade dos casos, sensivelmente o dobro do registado nas demais áreas da economia.

Feita esta ressalva, se por um lado é de saudar a predisposição e disponibilidade do sector financeiro em aliar-se à mais pujante actividade da nossa economia, por outro lado não deveremos esquecer-nos que existem problemas quer a montante, quer a jusante, que necessitam de um olhar mais profundo, já que podem comprometer aquela que é, temos a certeza, uma genuína manifestação de vontade para a criação de uma saudável aliança.

Desde logo porque desde a crise financeira mundial de 2008 que aquele sector, particularmente no nosso país, e concretamente no que se refere à banca, vem passando por sucessivos e graves problemas que têm atingido as suas empresas, abalando a credibilidade de umas, colocando outras em situação periclitante ou, mesmo, fazendo com que algumas tenham visto a sua actividade cessar de forma abrupta.

Por seu turno, desde esse mesmo período que as empresas turísticas, apesar de terem demonstrado uma fantástica resiliência e uma capacidade de auto-regeneração única e, não obstante, os bons resultados turísticos que globalmente Portugal tem vindo a alcançar, continuam a evidenciar – genericamente falando – “apertos” sérios ao nível da tesouraria, bem como a apresentar balanços com capitais próprios negativos, para já não referirmos que a composição do tecido empresarial do turismo caracteriza-se por uma grande atomização.

Estamos, portanto, perante um quadro onde estão expostas algumas das maiores fragilidades que ambas as partes apresentam, o qual, acreditamos, explicita melhor a razão de termos começado por afirmar que esta era uma questão “traiçoeira”. É que quando uns precisam, a longo prazo, de capital para investir, os outros não estão em condições de lho garantir; e quando o podem (e querem) fazer, nem sempre encontram a robustez económico-financeira que acautele o risco de realizarem essas operações.

Retirando desta equação as excepções que (felizmente) existem, entramos naquilo que podemos designar por “círculo vicioso” tendo, de um lado, empresas com enorme exiguidade de capitais (os bancos), o que significa que têm de ser extremamente selectivas na sua aplicação e, do outro lado, empresas que não apresentam a solidez devida (as turísticas), que se traduz numa reduzida capacidade para acederem ao crédito, seja ele de curto, médio ou longo prazo.

Acresce a tudo isto o facto de existir por parte da banca um relativo desconhecimento sobre a complexidade do turismo actual, que em nada ajuda a uma melhor percepção dos projectos de investimento que lhe são apresentados, a que se somam “enganos” passados – provocados tanto por excessiva “boa vontade” na concessão de crédito, devido a elevada liquidez, como por terem acedido a financiar negócios “brilhantes”, que apenas o eram na cabeça dos seus promotores –, que estiveram na origem de um sem número de imparidades, as quais tiveram como resultado ou (pelo menos) deram um forte contributo, entre muitas outras consequências, para a implosão de empresas de referência e/ou dimensão de ambos os lados.

Em suma, apesar de considerarmos muito positiva esta “vontade” do sector financeiro em apostar no turismo (através das suas empresas), estamos em crer que enquanto não forem definitivamente ultrapassados os problemas que a banca atravessa, enquanto não houver uma melhor compreensão e conhecimento da realidade (e complexidade) do que a actividade turística é hoje, das suas especificidades e peculiaridades, e enquanto os bons resultados do nosso turismo não se fizerem sentir de forma significativa quer nas tesourarias, quer nos balanços das empresas que nele operam, dificilmente conseguiremos sair do “círculo vicioso” em que nos encontramos e entrarmos num “ciclo virtuoso”, no qual exista, de parte a parte, um ambiente saudável e propício ao desenvolvimento dos negócios.

E quando aí chegarmos, pois não duvidamos que assim acontecerá, naturalmente que as melhores “campanhas publicitárias” passarão a ser os projectos financiados, principalmente os de longo prazo, e o acesso fácil ao crédito por parte de todas as empresas do turismo, independentemente da sua dimensão, pela credibilidade creditícia que oferecerão.

 

Turisver.com – A Turismo do Centro lançou recentemente uma campanha de promoção da região enquanto destino para o “turismo de luxo”, segmento de que já se vem falando há bastante tempo noutras paragens. Qual é a sua sensibilidade face a esta aposta neste segmento turístico?

Atilio Forte – Atrevemo-nos a afirmar que, de forma totalmente errada, durante muitos anos o “Centro de Portugal” teve uma existência turística residual, estando-lhe na prática reservado o papel de ponto de passagem entre o Norte e o Sul do país.

Felizmente, com o passar do tempo e graças ao bom trabalho efectuado por todos os (seus) agentes turísticos, ao logo de mais do que uma geração, essa realidade alterou-se, o que permitiu que a região passasse a dar a conhecer a grande riqueza da sua oferta turística e, progressivamente, venha-se afirmando como (mais) um destino de excelência neste grande “concentrado de diversidade” turística que é Portugal.

Naturalmente beneficiou de alguns “impulsos”, entre os quais o mais recente e significativo pode ser considerado o surf, que mais do que lhe trazerem notoriedade internacional, deram um contributo muito importante para “refrescar a imagem da região”, até então quase reduzida a Coimbra (sobretudo pelo seu estatuto de “capital regional” e pela universidade), a alguns monumentos mais emblemáticos como os Mosteiros da Batalha e de Alcobaça ou o Convento de Cristo (Tomar) e, como não podia deixar de ser, à sua maior âncora turística (de projecção mundial): Fátima.

Contudo, e apesar do aumento significativo de turistas acolhidos, o Centro tem ainda um enorme potencial de desenvolvimento, principalmente na sua zona mais interior, onde o património histórico, cultural, natural, gastronómico e termal que detém – para apenas referirmos alguns dos mais apelativos factores de atractividade –, poderá marcar a diferença, nomeadamente pela autenticidade e genuinidade que oferece.

Centrando-se esta “nova aposta” no segmento de luxo – não no conceito mais habitual do luxo “caro” e do “preço elevado” – mas no do “luxo” do poder conhecer e desfrutar do “único”, do “descobrir” algo diferente, algo que se apresenta “cru”, “em bruto” e ”por explorar”, por ainda não ter verdadeiramente entrado no filão dos fluxos turísticos de maior dimensão, somos de opinião que a região está a fazer uma escolha certa que, seguramente, lhe trará dividendos num mercado em que muitos consumidores procuram, incessantemente, destinos com esta tipologia de oferta e para os quais o preço não é o factor determinante.

 

O + da Semana:

Tendo em consideração que o turismo é uma das mais competitivas e globais actividades económicas da actualidade, o sucesso nem sempre é fácil de alcançar, particularmente no seio das grandes empresas, pois muitas falham na tentativa de aliarem a experiência, o conhecimento e as boas práticas de gestão, com a imperiosa necessidade de acompanharem a evolução dos mercados e as expectativas dos consumidores e, simultaneamente, manterem elevados níveis de inovação no produto que oferecem. Esta é a principal razão por que aqui decidimos trazer – e elogiar – a mais recente decisão tomada pela AccorHotels com o objectivo de conciliar estas duas valências e delas tirar pleno partido, através da criação de um “conselho de administração sombra”, composto por treze dos seus mais competentes executivos, com origem e localização dispersa pelo Mundo, mas todos com idade inferior a 35 anos, engajando-os nos processos decisórios, como forma de os preparar para o exercício de funções de topo no futuro, garantir a prosperidade da empresa e, também, para colocar uma pressão saudável junto dos executivos que presentemente integram o “verdadeiro” conselho de administração daquela cadeia hoteleira. No fundo, trata-se de conciliar o saber de experiência feito com o arriscar em ideias mais inovadoras, a prudência que a idade a todos ensina com a fogosidade própria da juventude e da reunião dessas qualidades conseguir extrair o melhor. Excelente exemplo!