iTurismo: Brexit, por Atilio Forte

O Brexit, os possíveis impactos no turismo em Portugal e o posicionamento a ter perante a situação, é o grande tema da análise de Atilio Forte no iTurismo de hoje. “O + da Semana” é a abertura da primeira rota de uma companhia iraniana – a Mahan Air – para a Europa e nos “Tópicos da Semana”, Atilio Forte aborda as projecções para o turismo mundial em 2016, a possível conversão de quartos do nova-iorquino Waldorf-Astoria em apartamentos de luxo e a relação da hotelaria com o mundo digital.

Tópicos da Semana:

  • Crescer ou não crescer? Eis a questão: A generalidade dos analistas divide-se quanto ao crescimento ou estagnação do turismo mundial, em 2016. Para uns o pico já terá sido alcançado, enquanto para outros nada indicia qualquer abrandamento. Recorde-se que no ano passado a economia mundial cresceu 3,1% e a actividade turística 4,4%. Uma coisa é certa, mesmo os mais cépticos (para nem sequer mencionar os pessimistas) acabarão por ter boas notícias, pois há algo em que todos estão de acordo: o turismo continuará sempre a crescer bem acima da média global.

 

  • Investimento turístico ou imobiliário?: Embora sem estar oficialmente confirmado pelos actuais proprietários – Anbang Insurance Group -, fala-se nos meios do turismo que o emblemático hotel nova-iorquino Waldorf Astoria poderá ver convertidos em apartamentos de luxo cerca de 1.000 dos seus quartos, reduzindo a capacidade daquela unidade para próximo dos 420 quartos. A ser verdade, é algo que a todos nos deve fazer reflectir…

 

  • O segredo é acompanhar a evolução: A esmagadora maioria dos especialistas do “mundo” digital aconselha os agentes turísticos – principalmente os ligados ao alojamento – a tirar o máximo partido da conectividade, encarando-a quer como uma necessidade primária ou básica dos clientes, quer ligando-a à vivência da própria marca. De entre as várias sugestões dadas, destacam-se a monitorização permanente da sua utilização e o aumento da largura de banda mal a ocupação da dita alcance os 80%.

 

Comentário

Turisver.com – A notícia da saída do Reino Unido da União Europeia provocou alguma apreensão nos agentes do turismo em Portugal. Para o nosso país os britânicos são o segundo maior mercado emissor, e para o Algarve, o principal mercado, representando 33% das dormidas totais. Na sua opinião, que consequências pode o “Brexit” ter para o turismo português?

Atilio Forte – Gostaríamos de começar por referir que quando avançámos, no nosso comentário da passada semana, com a necessidade de existência de uma espécie de “plano B” – criação de um mercado interno lusófono -, para precaver, ou de alguma forma contrabalançar, a excessiva dependência turística de Portugal dos mercados europeus, estávamos (também) a pensar numa situação desta natureza, na qual poucos verdadeiramente acreditavam que viesse a acontecer, mas que era (como se viu) verosímil e totalmente legítima, porque são essas as “regras” da democracia.

Agora, o facto está aí e é incontornável! Os britânicos escolheram sair da União Europeia e com isso abanaram os fundamentos da economia do “Velho Continente” e mundial, uma vez que, é bom tê-lo presente, o Reino Unido é a 5ª maior potência económica do Mundo.

Uma decisão com estes reflexos e magnitude acarreta, como não podia deixar de ser, inúmeras consequências, entre as quais, na área de actividade económica em que directamente debruçamos as nossas análises: o turismo.

A mais imediata (e óbvia) foi a súbita desvalorização da libra – face ao dólar e ao euro, embora este último também tenha sido penalizado -, para valores semelhantes aos verificados em 1985! Ora, do ponto de vista turístico, tal conduz-nos a duas evidências: a primeira é que, para os britânicos, viajar para o exterior ficou mais caro; e, a segunda, é que visitar o Reino Unido passou a ser mais barato, para a generalidade dos que aí não residem.

Atenta a importância daquele mercado para o turismo nacional, isto significa que Portugal de imediato “encareceu” para os britânicos. Mas não se julgue que tal só afectou os nossos produtos e serviços turísticos. Infelizmente, o efeito de escala é bem maior. Basta olharmos para o transporte aéreo, cujo custo também subirá, já que o preço do petróleo tem vindo paulatinamente a aumentar, situação que agora é agravada com a desvalorização da libra face ao dólar que é, como sabemos, a moeda de referência a nível global para cotação daquele recurso natural. Numa palavra, isto quer dizer que viajar de avião vai ser mais caro para os britânicos.

Assim sendo, e embora sejamos dos que também partilham da tese que as receitas turísticas nacionais do Verão de 2016 não irão ser afectadas, já não temos tanta certeza acerca do comportamento dos consumidores britânicos. Com isto pretendemos dizer que, como é público, as camas contratadas para a época alta deste ano estão (praticamente) pagas – não só no Algarve, nem em Portugal, mas um pouco por toda a parte -, o que significa que, mesmo que haja uma súbita contracção do consumo turístico no Reino Unido, serão os operadores britânicos os mais afectados, dado terem assumido compromissos baseados em pressupostos de vendas que, eventualmente, acabarão por não se verificar. A ser assim, como o nosso país apenas recebe cerca de 2,5% do total dos fluxos turísticos britânicos, os riscos de incumprimento são relativamente diminutos.

Mas, porventura, o maior argumento para que não haja qualquer alarme no imediato, prende-se com o tempo de implementação da decisão manifestada através do Referendo da semana passada o qual sublinhe-se, pelas implicações e interpretações futuras a que pode dar azo, não tinha carácter vinculativo. Mesmo com as pressões do lado dos “27” para que o “divórcio” seja rápido, certamente compensadas pelas dilações britânicas para estender, até ao limite temporal máximo (dois anos) a saída, quer uns, quer outros, procurarão entendimentos e soluções que atenuem e diminuam tanto quanto for possível, as nefastas, mas inevitáveis, consequências da vontade soberana do povo britânico.

Pelo que já dissemos, a principal questão coloca-se no médio e longo prazo. E não apenas no respeitante aos fluxos turísticos mas, ainda, no tocante ao investimento. Ora, como todos temos conhecimento, os britânicos são grandes investidores na imobiliária turística portuguesa, nomeadamente no Algarve. Com a libra desvalorizada, com um aumento de impostos quase certo, com a subida do custo de vida diário que, a seu tempo, os cidadãos do Reino Unido enfrentarão e com o agravar dos seus problemas internos, não estaremos a ser excessivamente pessimistas se afirmarmos que tanto os empresários como as autoridades portuguesas devem preocupar-se com este cenário.

No entanto, esta é apenas uma das faces da situação. A outra, sem dúvida mais optimista, é aquela que considera que sendo a União Europeia destino de metade das exportações do Reino Unido, as mesmas ficarão mais competitivas, por força de uma libra mais fraca, o que dinamizará a economia britânica, criando mais riqueza e empregos. Na mesma linha de raciocínio as importações ficarão menos apetecíveis, dado terem como referência o dólar ou o euro, estimulando também o aparecimento de produtos de substituição “made in UK”, para consumo interno.

Claro está que esta “outra face” da moeda parte do pressuposto da manutenção, no essencial, das relações comerciais entre a União Europeia e o Reino Unido e tem em linha de conta este último não integrar a zona euro, nem ter aderido ao Espaço Schengen.

Contudo, se a mesma vier a verificar-se, as previsões mais catastrofistas não se confirmarão, o que acarretará que a actividade turística poderá não sofrer grandes impactos, seja ao nível dos fluxos turísticos, seja ao nível do investimento.

Como se pode ver as teses dividem-se e a confusão é, ainda, grande. Portanto, em primeiro lugar, é necessário que todos nos refaçamos do “choque” inicial e evitemos qualquer tomada de decisão “a quente”, até termos uma panorâmica mais clara do que se irá passar e de como é que isso poderá interagir com o turismo nacional.

Decerto esta não seria a primeira vez (sobretudo em/na política) que a célebre frase do escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa – contida na sua obra “Il Gattopardo” (O Leopardo): “tudo deve mudar para que tudo fique como está” – ganharia contornos premonitórios; ou seja, poderão vir a existir circunstâncias políticas internas do próprio Reino Unido que levem a que o artigo 50 do Tratado de Lisboa permaneça por invocar…

 

Turisver.com – Na sua perspectiva qual o posicionamento que devem ter, e o que podem fazer, as entidades oficiais e os empresários, para gerirem de forma positiva uma situação que, no mínimo, pode ser considerada delicada?

Atilio Forte – Esta é, em nossa opinião, a questão essencial. Dos cenários que analisámos na resposta anterior, vimos que existem alguns que nos podem – e devem – preocupar, já que poderão conduzir à contracção do consumo turístico dos britânicos, retirando dimensão a alguns dos seus operadores – levando mesmo ao desaparecimento de um ou outro -, e também, à queda significativa do investimento turístico.

Ao falarmos de investimento devemos ter atenção ao que se irá passar nos mercados financeiros e às repercussões que a substituição da “City” de Londres, previsivelmente por Frankfurt, poderá vir a representar para a Europa e para o Mundo.

Por isso, e independentemente de continuarmos a aguardar por uma melhor clarificação do modo como o “Brexit” irá materializar-se (recordem-se as reacções pró-União Europeia da Escócia e da Irlanda do Norte, sem nos esquecermos que a República da Irlanda é um Estado-Membro e integra a moeda única), tal não pode obstar a que, de imediato, empresários e autoridades nacionais, particularmente, o Ministério da Economia, comecem conjugada e responsavelmente a trabalhar em possíveis soluções que tenham a ver, tanto com a actuação num futuro próximo (a três/quatro meses) no mercado do Reino Unido, como no estudo de potenciais alternativas para o caso do pior cenário se vir a verificar. E, porque estamos a falar de turismo, deve enfatizar-se que o papel e as propostas dos empresários são determinantes, uma vez que são eles a verdadeira força criadora de riqueza.

Uma coisa é certa, se ficarmos de braços cruzados expomo-nos muito mais ao risco! Quer do que aconteça pela nossa inacção, quer do que a acção de outros provoque.

É bom termos presente que se é verdade que Portugal tem sido beneficiado, enquanto destino turístico, pela conjuntura internacional, concretamente pelos reflexos da “Primavera Árabe”, e particularmente devido ao aumento da insegurança nalguns dos seus principais concorrentes – o último lamentável episódio aconteceu em Istambul (Turquia) há dois dias -, não menos verdade é que a conjuntura económica porque passam o Brasil e Angola nos tem vindo a afectar, tal como as sanções à Rússia, por causa da Crimeia, prejudicaram o turismo europeu e, logicamente, o português.

Podemos sempre voltar-nos para os Estados Unidos da América, destino no qual Portugal até tem estado a apostar em termos de transporte aéreo. Mas será bom considerarmos que este é um ano de eleições presidenciais americanas, das quais poderá sair um (outro) resultado imprevisível (e até impensável para muitos). É que à semelhança dos britânicos, também serão os americanos quem votará… E a sua decisão, neste caso vinculativa, será (obviamente) soberana!

Não pretendendo complicar esta já de si difícil equação, valerá a pena estarmos muito atentos ao que se irá passar noutros Estados-Membro da União Europeia, alguns deles também com peso significativo no nosso turismo, pois vemos que em vários se levantam vozes a favor da realização de Referendos semelhantes ao ocorrido no Reino Unido.

Quase em jeito de desabafo seria bom que no Mundo em que vivemos os nossos líderes políticos olhassem mais longe do que o dia de hoje ou o de amanhã e soubessem mais História. Que se preocupassem mais com o futuro dos nossos filhos e netos, do que com os seus próximos níveis de popularidade. Que mais do que governantes efémeros, fossem estadistas. Ou, nas mais do que actuais (e apropriadas) palavras de Winston Churchill: “Um problema da nossa época é que as pessoas não querem ser úteis, mas sim importantes”.

Em conclusão, e como os nossos leitores já perceberam, mais do que delicada esta é uma situação potencialmente convulsiva, para a qual, presentemente, ninguém pode alvitrar soluções, quer turísticas, quer de qualquer outra natureza. Fazê-lo seria um exercício de puro “umbiguismo” (perdoem-nos a expressão) e leviandade, que apenas encontraria paralelo na pergunta mais vezes efectuada pelos britânicos ao motor de busca da internet “Google.co.uk”, no dia seguinte à realização do Referendo no Reino Unido: “O que é a União Europeia?”

 

O + da Semana:

É por demais sabido que uma das condições fundamentais para se ter sucesso na actividade turística é estar atento ao que se passa no Mundo, pois o conceito de “aldeia global” cada vez tem maior peso nas decisões dos consumidores e proporciona oportunidades onde, aparentemente, menos se espera. Seguindo este princípio decidimos dedicar o destaque desta semana à abertura da primeira rota aérea operada por uma companhia iraniana – a Mahan Air – para a Europa (no pós levantamento das sanções internacionais), concretamente para Paris. Paralelamente, na Índia, foram introduzidas alterações significativas na legislação reguladora do transporte aéreo, que abriram o sector ao capital estrangeiro, permitindo deste modo que seja possível uma companhia aérea, com sede naquele país, ser detida a 100% por accionistas ou sócios não residentes no seu território (até aqui o máximo eram 49%). Em ambos os casos, estamos perante mercados da maior importância e de dimensão assinalável, que se estão a abrir ao exterior, fazendo por isso todo o sentido olhar com atenção para o que por lá se passa e para os quais, principalmente por razões históricas e pela grande cultura – quer erudita, quer popular – dos seus povos, Portugal não é um “ilustre desconhecido”.