iTurismo – Comentário de Atilio Forte

A entrevista com o presidente da Confederação do Turismo Português, Francisco Calheiros, publicada sexta-feira pelo jornal Expresso e a próxima realização do 1º Fórum de Turismo Interno, numa iniciativa da Entidade Regional de Turismo do Centro de Portugal, são esta semana os temas da análise de Atilio Forte Turisver.com – Face ao elevado número de perguntas que tivemos, é incontornável que no iTurismo de hoje comente, e analise, a entrevista dada por Francisco Calheiros, presidente da Confederação do Turismo Português, ao jornal Expresso da passada sexta-feira. Começava por lhe pedir uma análise global à entrevista. Qual a sua opinião pela centralização dada, quer pelas perguntas como pelas respostas, ao tema da promoção turística, parecendo que esta é a única área que preocupa o sector? Atilio Forte – Não é demais focar que neste espaço não comentamos pessoas mas sim políticas, projectos e estratégias e, portanto, dentro desse contexto, começo por dizer que não foi das mais felizes a forma como a Confederação do Turismo Português procurou, nesta entrevista, passar a sua mensagem. Para quem lê a entrevista até dá, de alguma forma, a ideia de que a mesma não foi devidamente preparada e que as respostas foram dadas com alguma ligeireza face à importância do tema. Contudo, e tanto quanto julgo saber, não me parece credível que, contrariamente ao que transparece, esta entrevista apenas tenha versado sobre um único tema. Porventura – e isto é fruto da experiência que tenho destas coisas – esta foi a temática que acabou por se destacar face, como atrás referi, de alguma superficialidade com que as respostas foram dadas. Por esse motivo, não caio na tentação fácil de afirmar que a questão da promoção turística é a única área que preocupa os agentes económicos do turismo. Turisver.com – Quando questionado sobre o que irá fazer, o presidente da CTP deixa a porta aberta à continuação da discussão de um novo modelo para a promoção. No entanto no final da resposta anterior afirma que “é de tal maneira importante envolver os privados na promoção que se isto acontecer em 2016, para mim está bom. E se for em 2017 ou 2020, continua bem”. Esta resposta não revela resignação, falta de convicção e de objectivos? Atilio Forte – A questão do envolvimento dos privados na promoção turística é uma matéria que já vem de longe. Recordo que começou a ser colocada com particular acuidade logo a partir da segunda metade da década de 90, tendo desde então conhecido altos e baixos, ou seja, maior ou menor confluência de posições entre os sectores público (leia-se governos) e privado (leia-se quer empresários, quer as suas estruturas representativas). Desses altos e baixos, permito-me destacar como muito positivo o período que vai de 2003 até finais de 2006, no qual, pela primeira vez, existiu uma verdadeira parceria entre o público e o privado e, como menos positivo, o período que vai desde o final de 2006, início do ano de 2007, até meados de 2011, onde acabou por se perder tudo o que de bom tinha sido feito e, talvez mais importante, o capital de experiência que foi acumulado ao longo dos anos mais positivos, no tal período que anteriormente referi. Por outro lado, recordo o que já aqui dissemos sobre a forma algo ingénua como, principalmente por parte do governo, esta temática foi abordada no último ano e meio, referindo-me em concreto à eventual criação de uma Agência Nacional de Promoção Turística. Ora, tendo por pano de fundo todas estas razões, creio que o que se pretendeu dizer, ou melhor, a imagem que, na minha opinião, a Confederação procurou passar, é que não irá desistir da pretensão de ver os privados mais envolvidos na questão da promoção turística. Admito que esta talvez não tenha sido a forma mais eficaz de o dizer, mas – e gostava de sublinhar isto – creio ser muito importante tê-lo afirmado, nomeadamente, numa altura em que foi recentemente apresentada uma nova estratégia para a promoção turística externa, na qual, aparentemente, os privados não foram tão ouvidos, ou participaram, quanto desejariam ou por eles seria expectável. Turisver.com – Obviamente, teríamos muitas outras perguntas, mas temos também outro tema bastante interessante para abordar. A Turismo do Centro vai organizar, a 26 e 27 de Junho, o 1º Fórum de Turismo Interno sob o lema “Vê Portugal”, que conta com o apoio do Governo e do Turismo de Portugal, e a participação de responsáveis governamentais e várias personalidades do sector. O objectivo é discutir temáticas relacionadas com o turismo interno, existindo a pretensão de dar ao evento um carácter anual. Que comentário lhe merece esta iniciativa, quando temos estado, nos últimos anos, perante um quase abandono da promoção do turismo interno, por parte das entidades oficiais? Atilio Forte – Começo por dizer que me parece que fez um enquadramento perfeito a esta questão, por isso, em minha opinião, não tenho quaisquer dúvidas em considerar este encontro como uma excelente iniciativa, até porque tem o mérito de repescar para a agenda turística a questão do turismo interno. Mas gostaria de ir um pouco mais longe no que a esta iniciativa respeita, dizendo que aqui está uma das boas formas das Entidades Regionais de Turismo se afirmarem e sublinharem uma das várias insubstituíveis missões que podem e devem desempenhar com reflexo, não só no alerta para a importância do turismo interno, como pelo papel que desempenham no território, na organização e estruturação do produto turístico, no incontornável serviço que podem prestar ao turismo enquanto plataformas de contacto, tanto ao nível local como regional, entre os recursos, o sector público e o sector privado. Espero, assim, que a pretensão de dar uma periodicidade anual a este Fórum venha a ser concretizada. Numa altura em que tanto se fala em mercados e em consumo turístico, faz todo o sentido não deixar esquecer o nosso primeiro mercado, aquele com que devemos sempre contar – o mercado interno. Turisver.com – Na sua óptica faz sentido não termos uma campanha de turismo interno desde há vários anos a esta parte? Atilio Forte – Embora reconheça a existência de dificuldades, fruto da conjuntura económica adversa em que temos estado mergulhados, com óbvios reflexos no poder de compra dos portugueses, sinceramente não entendo como é que, e apesar disso, este tipo de campanhas foi progressivamente sendo descurado, mais a mais quando – pelo menos é a ideia que tenho – desde a célebre campanha que ficou conhecida como “Vá para fora cá dentro” tal ficou profundamente enraizado nos consumidores nacionais. Aliás, num momento em que se dá tanto ênfase à questão das redes sociais e das novas tecnologias, parece-me até algo paradoxal não tentar dinamizar o turismo interno e, simultaneamente, fazer dos consumidores nacionais um dos grandes veículos de promoção do mesmo, através, exactamente, das novas tecnologias e das redes sociais. Sempre disse, e continuo a afirmá-lo, que não vale a pena fazermos nada para fora se não formos bons dentro da nossa própria casa e, apesar de todas as dificuldades, foi dentro da nossa casa que encontrámos, quando mais necessitámos, alguma resposta, num momento de maior retracção dos mercados externos. Por estas e por muitas outras razões, seria muito importante retomar a campanha de turismo interno que, até face ao passado, não exigirá, em termos de investimento, um esforço por aí além. Nota: Recordamos que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.