iTurismo – Comentário de Atilio Forte

Esta semana Atilio Forte tece vários comentários, à forma como decorreu a BTL 2014 – Feira Internacional de Turismo. Em cima da mesa está também o desempenho turístico de Lisboa e a questão dos preços na hotelaria. Turisver.com – Muitos dos nossos leitores aperceberam-se de que andou pela BTL e colocaram algumas questões em termos de apreciação da feira. Por isso vamos continuar hoje com este tema que já começámos a abordar na semana passada. Segundo os leitores, a edição deste ano da BTL recuperou face a anos passados. Como é que viu a feira, nomeadamente em relação aos expositores e aos visitantes profissionais? Atilio Forte – Começo por, rapidamente, deixar uma palavra de enorme agradecimento aos nossos leitores que aí encontrámos, pois o estímulo e incentivo que nos transmitiram para continuarmos, as opiniões, sugestões e ideias que nos deram, são, indiscutivelmente, o mais motivante tónico para procurarmos melhorar estes Comentários semanais. Dito isto, sem dúvida que a edição da BTL deste ano revelou uma melhor dinâmica, embora ainda se tenham feito sentir os efeitos da complexa conjuntura económica e financeira por que o país passa, apesar dos bons resultados e animadoras perspectivas que o turismo nacional atravessa. Do ponto de vista dos visitantes profissionais, foi visível não só um maior afluxo dos mesmos ao certame como, sobretudo, uma maior intensidade de contactos, com o objectivo de fazer negócio, facto que se saúda, pois andava, por assim dizer, há demasiado tempo mais arredado da BTL. Já no respeitante aos expositores não partilho de uma visão tão optimista, pois a feira, infelizmente, apenas continuou a ocupar 3 dos 4 pavilhões da FIL – decorrendo em simultâneo, no pavilhão 4, um outro certame -, sendo que, mesmo esses 3 pavilhões ocupados, não estavam “apertados” ou a “transbordar” com stands, como já aconteceu no passado, tendo alguns “espaços mortos”. E, se atentarmos bem, as grandes ausentes foram as empresas, certamente não porque o quisessem, mas porque as suas necessidades financeiras ou de controlo de gastos a isso as obrigaram.Não nos esqueçamos que um dos grandes objectivos de umafeira com estas características é, para além do de proporcionar contactos que produzam negócio, dar visibilidade ao produto que cada um tem para oferecer e, deste ponto de vista, a presença das empresas é fulcral, mais a mais quando a actividade que despoleta o evento é o turismo. Uma última nota, para referir o grande número de eventos paralelos que decorreram durante a BTL. Se isso é positivo, pois revela a importância que muitos dos participantes e entidades atribuem ao certame, não menos verdade, é que por vezes se torna quase impossível atender a tantas manifestações, algumas delas ocorrendo ao mesmo tempo e acabando por desviar os profissionais da primeira razão da sua presença na feira: promover e vender. Turisver.com – Para muitos, a BTL passou este ano uma imagem de actividade, de movimento, que não passava há alguns anos. Isso pode querer dizer que a estratégia que está a ser seguida é a correcta, ou a feira terá beneficiado do efeito data (Março)? Atilio Forte – Creio que foi um pouco de ambas. O efeito de criar um grande evento turístico de encontro do espaço lusófono, conjugado com o deslizar, para Março, da data de realização da BTL, contribuíram para dar uma maior dinâmica à feira. Aliás, sempre defendemos – e já aqui o dissemos por mais do que uma vez -, a importância que uma alteração das datas de realização da BTL poderia trazer ao evento. Estamos convictos que, se a sua realização ocorresse um pouco mais tarde (em Maio), caso o foco fosse a divulgação do produto de férias destinado ao mercado nacional, ou em Outubro, caso o objectivo fosse a captação de mais clientes estrangeiros, ainda melhores seriam os resultados. Estou certo que, face aos resultados alcançados este ano, a organização terá motivos acrescidos para vir a considerar essas opções. Não obstante, uma palavra de apreço deve ser dada aos organizadores, por não se acomodarem e procurarem novas soluções. Turisver.com – Fosse durante a feira como mesmo no pós-feira, tem sido muito falado o stand da APAVT/Travelport. Que comentário lhe merece? Atilio Forte – Para mim foi, de todos, o melhor stand, não porque os demais também não tivessem qualidade, mas porque, em minha opinião, foi aquele que melhor interpretou, por um lado, o espírito do que deve ser uma feira – um ponto de encontro para fazer negócio – e, por outro lado, aquele que mostrou melhor sensibilidade para as dificuldades porque passam as empresas e encontrou uma excelente solução, para lhes proporcionar a presença, a custo reduzido, no certame. Parabéns à APAVT, por ter cumprido na plenitude o seu papel associativo, e parabéns também à Travelport, por não ter esquecido os seus principais parceiros, os agentes de viagens. Espero que em próximas edições da BTL este exemplo se replique a outras entidades, nomeadamente às associações empresariais, como também espero que a parceria APAVT/Travelport não se acomode ao êxito obtido e procure inovar e melhorar a fórmula encontrada e, se necessário, incorpore mais parcerias. Turisver.com – Lisboa, cidade e região, tem vindo a crescer em termos do número de turistas e de dormidas, acima da média nacional. A situação tem permitido que Lisboa ganhe ainda maior peso no todo nacional, no que concerne aos turistas estrangeiros que nos visitam. Podemos considerar que hoje Lisboa é o verdadeiro “motor” do turismo português? Atilio Forte – Lisboa, enquanto destino turístico, a par do Algarve e da Madeira, é uma das regiões que mais contribui para o turismo nacional. Contudo, e sem deixar de valorizar o trabalho que por todos – sejam públicos, sejam privados – tem sido feito, será porventura excessiva essa qualificação, sobretudo se tivermos em conta a nossa dimensão territorial e o concentrado de diversidade de oferta que o nosso país oferece. Portugal, enquanto destino turístico, vale como um todo, sendo tão importantes as regiões com mais peso, como as outras que ainda não o alcançaram. Nos dias de hoje os consumidores anseiam por experiências e quanto mais ricas, mais diversificadas, elas o consigam ser, maior êxito terão. Por isso entendo que um dos grandes desafios que temos pela frente é aproveitar a notoriedade internacional que estas três grandes regiões já têm e procurarmos capitalizá-la em prol do todo nacional. Temos muitas outras experiências que merecem ser vividas e, ainda, muitas áreas de negócio por explorar, ou seja, muitas e convincentes razões para sugerirmos a quem nos visita que permaneça mais tempo entre nós ou, então, que venha de novo. Turisver.com – Já abordámos em comentários anteriores, a questão do preço na hotelaria portuguesa, e os resultados do ano, nomeadamente em termos do RevPar. Embora o turismo não seja apenas hotelaria, esta é uma questão demasiado importante para não voltarmos a ela. Na apresentação do Tourism Hotel Monitor da AHP, a presidente executiva da Associação afirmou que dado o preço se ter mantido “estável” em 2013, “o RevPar cresceu à custa da taxa de ocupação e não do preço”. Quer comentar? Atilio Forte – Como disse, e bem, esta é uma questão da maior importância e, por isso, recorrente nos nossos comentários. Deixe-me apenas complementar o que já aqui dissemos, com duas notas, sendo uma para fazer um sublinhado e, outra, para deixar um alerta. Começando pelo sublinhado, devo dizer que, para aumentarmos preços, é decisivo inovarmos, acrescentarmos valor e diferenciarmos o produto. Caso não o façamos dificilmente alteraremos a percepção dos consumidores que, assim, tenderão a não encontrar justificação para pagarem mais pelo que lhes é oferecido, por maior que seja a sua qualidade – e qualidade é algo que não nos falta. Mas, a dura realidade é que o cliente tem sempre razão e a procura dos nossos dias quer, exige, coisas novas, diferentes, com mais valor, porque pretende vivenciar o único, o (aparentemente) irrepetível… Por isso, se deixarmos que a sua opinião se cristalize em determinado valor, será cada vez mais difícil inverter essa tendência. Quanto ao alerta, o mesmo prende-se com as novas formas de distribuição que todos os dias aparecem, muito baseadas em novas ferramentas tecnológicas, que garantem não só facilidade de utilização, como permitem elevados níveis de proximidade ao consumidor. Ora estas novas formas de distribuição são um negócio, altamente competitivo, diga-se de passagem, sendo lógico que tenham de ser remuneradas. Considero, pois, que as mesmas tenham cada vez mais que ser tidas em linha de conta.Se cada uma destas situações, consideradas individualmente, nos deve fazer reflectir, maior será o desafio caso as conjuguemos, pois se o consumidor não tiver a percepção que vale a pena pagar mais, porque obtém mais em troca, imagine-se onde é que estes novos distribuidores se vão remunerar? À oferta, claro. E isso quer dizer, por mais que nos custe, menor preço para quem a detém. Para finalizar, e porque sei do que somos capazes, sou de opinião que deveremos encarar estes desafios como uma oportunidade enorme e única, já que se demonstrarmos capacidade para lhes responder, estaremos muito mais próximos do sucesso. Nota: Recordamos que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt .