iTurismo – Comentário de Atilio Forte

O turismo no Algarve, em vertentes como a sazonalidade, a formação, a elevada contribuição da actividade turística para o PIB regional e ainda o endividamento de algumas autarquias da região, preenche o Comentário de Atilio Forte na já habitual rubrica iTurismo que publicamos todas as terças-feiras. Turisver.com – São várias e diversificadas as perguntas que nos vão chegando para lhe colocar e por norma tentamos agrupá-las, mas nem sempre é fácil. Desta vez tentámos juntar algumas questões que nos foram remetidas e que têm o Algarve como denominador comum. O Algarve tem um forte emprego sazonal, em especial na hotelaria e restauração, começando-se a sentir alguma falta de formação no atendimento o que provoca uma perda de qualidade, mas mais grave é a falta de profissionais qualificados para áreas como recepção e chefias intermédias, o que é causado segundo responsáveis hoteleiros pela emigração. No seu entender o que é preciso fazer para não deixar agravar esta situação? Atilio Forte – Fazendo uma análise rápida à questão colocada, sou de opinião que esta é uma situação que resulta da conjugação de um triplo conjunto de factores, que acabam por constituir um círculo vicioso. O primeiro, e porventura o mais importante, prende-se com uma percepção distorcida que muitas empresas (felizmente que há excepções) têm da importância e do valor do seu principal activo, as pessoas, os que nelas trabalham. Tal prende-se, sem dúvida e em grande parte, com sua a débil estrutura económico-financeira, fruto da difícil conjuntura que tem afectado o país, em geral, e a actividade turística, em particular, que as tem obrigado a constantes racionalizações – ou corte de custos ao nível dos encargos fixos -, o que acaba, inevitavelmente, por atingir os quadros intermédios. Mas isso não explica tudo, já que essa necessidade acaba por muitas das vezes tolher a visão dos decisores, levando-os a “esquecerem-se” que quadros mais “baratos” e menos qualificados ou a extinção de algumas funções (nalguns casos aparentemente redundantes) acabam por ter interferência directa no desempenho das empresas e consequentemente na qualidade do serviço prestado, o que no fim da linha se reflecte na satisfação do cliente. O segundo factor resulta do acentuar da sazonalidade – que no Algarve tem vindo a ganhar expressão -, em parte devido à crise, mas convirá também dizê-lo, em parte como resultado de falta de estratégias empresariais que ajudem a atenuar e a contrariar esse efeito, seja pelo acréscimo de valor ao produto, seja pela sua diferenciação, seja ainda pela inovação, sem esquecermos os efeitos provocados pelo aumento da taxa do IVA, quer no golfe, quer na restauração que, claramente, contribuíram para o agravar de uma situação que, já de si, não era fácil. Finalmente, um terceiro factor, resultante, por um lado, da falta de uma cultura de reconhecimento do mérito e da capacidade dos nossos profissionais – e isto é, infelizmente, algo muito português – e, por outro lado, do estímulo, errado em minha opinião, que até dada altura o governo foi dando com o incentivo à emigração. Ora, numa região tão dependente do turismo como é o Algarve, a conjugação destes três factores aliada ao facto do turismo ser uma actividade económica feita por pessoas e para pessoas, constitui uma espiral quase incontrolável que urge suster, sob pena de continuarmos a ver os profissionais que, por uma ou outra razão, quase que obrigámos a procurarem uma carreira fora das nossas fronteiras, a terem o merecido sucesso e reconhecimento noutras paragens. Dito isto, tudo o que for feito no sentido de interromper as dinâmicas de cada um dos factores atrás apontados, será um grande contributo para a (re)solução desta situação. Como nota final, quero apenas acrescentar que este não é um problema só do Algarve e muito menos exclusivo do turismo. E isso, em minha opinião, deveria levar-nos a uma profunda reflexão. Turisver.com – O turismo constitui grande parte do PIB algarvio e é a área económica que mais empregos gera na região. Dada a sua importância o líder do sector no Algarve (RTA) não deveria ter poderes mais alargados do que aqueles que na realidade lhe são conferidos? Atilio Forte – Na minha modesta visão e até um pouco na sequência do que referi na anterior resposta, não creio que a questão se deva centrar no que uma ou outra instituição, através do reforço dos seus poderes, possa fazer mais. Creio assim, que a resposta a dar se deverá situar no fazer melhor, na capacidade em estreitar uma mais acentuada congregação de esforços entre os sectores público e privado, neste particular ao nível regional, para que, quer dentro da região, quer nas relações com o poder central, se criem e apresentem estratégias e dinâmicas que estimulem o desenvolvimento das várias actividades económicas, tendo em consideração o seu peso e importâncias relativas, já que há coisas que não se fazem por mero decreto ou reforço de competências, mas pela vontade e pelo querer de todas as partes envolvidas. Deixe-me dar-lhe um exemplo para ilustrar o que acabo de dizer. De que é que adianta reforçar os poderes das entidades turísticas do Algarve, ao nível da capacidade de criação de estímulos ao emprego, ou ao investimento se, em paralelo, continuarem a existir carências ao nível dos cuidados de saúde, nomeadamente, de assistência hospitalar? Por melhor que seja o produto, por mais qualidade que o destino apresente, algum turista o escolherá sabendo que essa qualificação turística não tem correspondência com a prestação de cuidados de saúde? Não creio, pelo menos para a maior parte. Turisver.com – Algumas autarquias do Algarve estão largamente endividadas. Talvez a situação mais conhecida seja a do município de Portimão que tem uma dívida não pagável, segundo se fala, pelo menos nos próximos 20 anos. Esta situação da falta de dinheiro está a deteriorar os serviços e isso reflecte-se na oferta e qualidade que prestamos aos turistas. Na sua opinião deve o governo arranjar uma solução que minimize esta situação? Atilio Forte – Como vê, nem de propósito. Aqui está outro exemplo que pode afectar o turismo na região, mas que não depende das entidades turísticas, tenham elas mais ou menos poderes. Centrando-me na questão colocada, não a irei abordar especificamente pois, para além do que tem sido noticiado, não conheço o caso em detalhe. No entanto, deixe-me que lhe diga que os municípios algarvios têm um gigantesco problema de gestão que se prende com o facto de terem de possuir, ao longo de todo o ano, serviços sobredimensionados, em razão dos 3 ou 4 meses de pico populacional que anualmente têm, pois caso não o fizessem naturalmente acabariam por entrar em ruptura, com consequências também elas muito negativas para o turismo. Temos pois de reconhecer que esta é uma situação que não é nada fácil. Pese embora o que acabo de referir seja uma atenuante, a alternativa, tal como aconteceria numa empresa, não se pode situar no corte cego, visando apenas a diminuição de custos, pois acaba por afectar o quotidiano dos munícipes e prejudicar a actividade turística. A existência de problemas na recolha do lixo ou no simples reparar de um buraco na rua, podem, com o tempo, tornarem-se mortais para o turismo. Neste aspecto, sou de opinião que não cabe apenas ao governo, qualquer que ele seja, a responsabilidade de encontrar uma solução. Contudo, era da competência dos últimos governos, e é sobretudo do actual, liderar e convocar os portugueses para uma das reformas estruturais mais importante: a reforma do estado. Reforma do estado essa que, tal como o nome indica, também deverá englobar as autarquias, sendo importantíssimo que nela se defina, com clareza, onde começa e acaba o papel do estado, quais as áreas que são da sua competência exclusiva e quais as que o não são, pois se há funções que, pela sua natureza, devem apenas competir ao estado, outras há que podem ser melhor desempenhadas fora da esfera pública. Entretanto, caberá tanto a autarcas como a munícipes, a responsabilidade por zelarem pela manutenção e melhoria dos activos que contribuam para uma sã actividade turística, sob pena dos seus problemas deixarem de ser apenas de sobre endividamento… Nota: Não é demais recordar que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.