iTurismo – Comentário semanal de Atilio Forte

O actual panorama turístico dos Açores e o sistema de incentivos e apoio financeiro às empresas do turismo são os dois temas abordados no Comentário de hoje. Como “Tópicos da Semana”, Atilio Forte escolheu a pirataria informática, a situação do turismo na Turquia e os investimentos na Etiópia. Já “O + da Semana” vai para a Hotelaria de Ar Livre.

 

Tópicos da Semana:

  • Alerta tecnológico: Um pouco por todo o Mundo os ataques informáticos às empresas turísticas vão-se sucedendo, principalmente às de maior dimensão, pois a quantidade de dados que delas pode ser extraída é muito apetecível. Os piratas informáticos têm focado a sua atenção em tudo o que respeita aos clientes (contactos, meios de pagamento, etc.). Desenganem-se aqueles que pensam que isso é algo que só acontece aos outros, ou que não chegará à “ocidental praia lusitana”. De facto, não vai chegar. Já cá está!

 

  • O mal de uns…: A actividade turística na Turquia, com particular destaque para a hotelaria, está a passar por um mau bocado, principalmente devido ao terrorismo e às tensas relações com a Rússia (situações que já aqui havíamos antecipado). De acordo com notícias da imprensa turca, mais de 1.300 hotéis estão à venda em todo o país, com especial incidência na região de Antalya. Também o Grupo TUI já fez saber que as reservas para aquele destino caíram 40%.

 

  • Investir na Etiópia: Algumas da principais cadeias hoteleiras internacionais (Starwood Hotels & Resorts Worldwide, Carlson Rezidor Hotel Group e Wyndham Hotel Group) consideram Adis Abeba – capital da Etiópia – como um mercado em crescimento e de elevado potencial futuro na região. Por isso já o referenciaram, incluindo-o nas suas listas dos mais do que prováveis investimentos.

 

Comentário

 

Turisver.com – Temos recebido algumas questões sobre os financiamentos ao sector turístico que têm estado inalteradas, até pelo objectivo do anterior executivo de querer criar um Banco de Fomento. Agora com as alterações realizadas no Turismo de Portugal, pensa que está na altura de se mexer nesta área?

Atilio Forte – Quando perspectivámos o ano de 2016, esta foi uma das questões que tínhamos eleito como prioritárias no âmbito da actuação do novo Governo, o qual, convirá também referir, mal entrou em funções prontificou-se a anunciar que, durante este primeiro trimestre, dedicaria atenção ao assunto, seja com a criação de um fundo de investimento imobiliário, seja com o desenho de novos protocolos bancários, seja ainda com a operacionalização do novo quadro comunitário (Portugal 2020).

É um facto que as empresas turísticas necessitam com a maior urgência da implementação de um novo sistema de incentivos e apoios financeiros tanto ao investimento, como à tesouraria, uma vez que nos últimos anos, quer pela crise económica, quer em resultado do programa de ajustamento a que Portugal esteve sujeito, o Estado não teve capacidade para manter “vivas” medidas que concorressem e contribuíssem para uma maior dinamização dos investimentos privados e para uma melhoria da saúde financeira do tecido empresarial, nomeadamente, do da actividade económica do turismo. Mesmo tendo o turismo sido quem mais contribuiu para um bom desempenho económico do país…

Mas esta situação de aperto das contas públicas não justifica tudo o que teve a ver com a ausência de medidas, uma vez que existiram várias decisões que, apesar de anunciadas – às vezes com alguma pompa –, nunca chegaram a produzir qualquer resultado.

A título exemplificativo destacamos duas: a primeira, relativa ao Portugal 2020, já que, volvidos que estão praticamente dois anos após o seu início, o número de projectos aprovado é reduzidíssimo, tanto em termos globais, como em termos da actividade turística; a segunda prende-se com a criação do chamado “Banco de Fomento” do qual, apesar dos vários anúncios públicos e renovados compromissos, até hoje não se conhece qualquer acção que consubstancie o (suposto) objectivo para que nasceu.

Atenta a actual conjuntura – estamos em fase de aprovação do Orçamento do Estado para 2016 – faria todo o sentido que, com urgência, o Governo tranquilizasse os agentes económicos, acerca destes dois casos. Por um lado, garantindo que a componente nacional do financiamento, que todos os quadros comunitários obrigam, não falhará, nem dependerá do desenrolar de uma melhor ou pior execução orçamental; e, por outro lado, que esclarecesse qual o futuro do IFD – Instituição Financeira de Desenvolvimento (vulgo Banco de Fomento).

Obviamente que as alterações em curso no Turismo de Portugal podem contribuir de forma positiva, para ganhos de eficácia e eficiência futura, mas para tal, e como tivemos oportunidade de salientar no comentário da passada semana, é fundamental que se recupere o espírito inicial que presidiu à fundação deste Instituto Público, ou seja, que ele esteja direccionado para as várias vertentes da actividade turística e não apenas para uma delas (promoção turística), como há largos anos vem sucedendo. E esta é uma orientação que depende exclusivamente do Governo – qualquer que ele seja -, pois ao Turismo de Portugal apenas compete aplicar no terreno aquilo que politicamente é definido pelo Executivo.

Convirá ainda que o Governo perceba – e interiorize – algumas características específicas do turismo, para que melhor possa apoiar as empresas e os empresários que nele queiram apostar, nomeadamente: que esta é uma actividade cujo tempo de retorno dos investimentos é, sensivelmente, o dobro das demais; que esta é uma actividade de capital intensivo; que esta é uma actividade altamente simbiótica e, por essa razão, com uma enorme diversidade, mas também com grande interdependência de todo o seu tecido empresarial, onde as pequenas, as médias e as grandes empresas cooperam e colaboram para que se atinjam objectivos comuns a todo o turismo nacional; e, por último, mas não menos importante, que os investimentos efectuados na maior parte dos sectores turísticos não são deslocalizáveis (aspecto que não acontece na esmagadora maioria das outras áreas da economia), o que significa que a perenidade dos mesmos deve ser acarinhada e valorizada.

Em suma, e por tudo o que acabámos de referir, acreditamos estarem reunidas todas as condições para que o turismo possa ter um “pacote” de estímulos ao investimento ao mesmo nível daquele que ocorreu com o QCA III, de tão boa memória para a actividade e com resultados que superaram as expectativas mais optimistas.

 

Turisver.com – A próxima edição em papel do Turisver centra-se num trabalho realizado nos Açores e foram vários os profissionais de turismo da região que me pediram que lhe perguntasse qual a apreciação que faz dos últimos desenvolvimentos turísticos do arquipélago?

Atilio Forte – Os Açores são, em nossa opinião, a prova viva de duas coisas que são essenciais para se ser bem-sucedido no turismo dos nossos dias: de um lado uma estreita colaboração entre o sector público e o privado; do outro lado, da importância incontornável que o transporte aéreo tem para o desenvolvimento da actividade turística, pois se não houver “como chegar?” a um qualquer destino, este muito dificilmente conseguirá obter resultados dignos de nota.

É claro que a beleza natural, a hospitalidade, a gastronomia, a autenticidade, etc., etc., também ajudam (e muito!). Contudo, se não existir facilidade nas acessibilidades e uma grande comunhão de objectivos entre todos os agentes turísticos (empresas, trabalhadores, organismos públicos) o caminho torna-se muito mais difícil.

Por tudo isto, são mais do que justos os elogios internacionais de que os Açores têm sido alvo e bem merecidas todas as distinções que lhe têm sido atribuídas.

Mas é, também, nestes momentos que é mais fácil “cair em tentação” e ser-se engolido pelo êxito. Assim, somos de opinião que os resultados alcançados não podem dar azo a um aumento desmesurado da oferta, muito acima da capacidade de carga turística do arquipélago, que se tornaria incomportável e, bem mais grave, que distorceria a imagem de “natureza em estado puro” que é percepcionada pelos consumidores e que constitui, como bem sabemos, um dos grandes factores de atracção de fluxos turísticos que a Região detém.

Pelas provas já dadas, acreditamos que tal não sucederá nos e aos Açores e que, por isso, continuarão a colocar em primeiro lugar o seu desenvolvimento sustentável e a preservação da ligação umbilical entre o destino e a natureza.

 

O + da Semana:

Muitas vezes (erradamente) considerado como o “parente pobre” do alojamento, a verdade é que o progressivo aumento da qualidade e conforto dos equipamentos existentes, a par dos elevados padrões ecológicos e de inserção na natureza, têm feito com que o sector da hotelaria de Ar Livre (Campismo e Caravanismo) seja um dos que maiores taxas de crescimento vem apresentando. A atestá-lo estão os dados (ainda provisórios) do Turismo de Portugal e do INE (Instituto Nacional de Estatística) que apontam para que, só no ano passado, 1,7 milhões de turistas – que geraram 5,9 milhões de dormidas – tenham escolhido alojar-se em parques de campismo lusos aquando da sua visita ao nosso país. Para o alcançar destes números muito tem contribuído a afirmação de Portugal no panorama dos grandes festivais internacionais de música, do surf e a crescente apetência, por parte dos consumidores, de um maior contacto com a natureza. A escolha da cidade de Viseu para, nos próximos dias 10 e 11 de Março, acolher a Assembleia Geral da EFCO&HPA (European Federation of Campingsite Organizations and Holiday Park Associations) aparece, naturalmente, como corolário destes resultados e será, por certo, uma oportunidade única para chamar a atenção dos decisores turísticos (e não só!) para todas as potencialidades do sector.