iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

A importância das agências de viagens online, o vírus Zika “versus” desvalorização do Real e a continuação do investimento hoteleiro na Rússia, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que o habitual comentário versa sobre o primeiro dia da BTL e as Jornadas da AHRESP. Para “O + da Semana” Atilio Forte escolheu as comemorações do Centenário das Aparições de Fátima.

 

Tópicos da Semana:

  • Agências de viagens online (OTAs): Muitos analistas financeiros defendem que, em 2016, uma das principais consequências do aumento do número e da importância das OTAs será o crescimento das fusões e consolidações no sector do alojamento, sobretudo na hotelaria. A atestá-lo estão as declarações da Marriott, onde é sublinhado que o novo contrato com a Expedia foi decisivo para avançar com a aquisição da Starwood Hotels & Resorts International.
  • Zika versus Real: A desvalorização do Real veio (novamente) tornar o Brasil como um destino extremamente apetecível para muitos mercados, nomeadamente para o português. Por outro lado, o impacto do vírus Zika nos fluxos turísticos ainda está por determinar. Assim, é com alguma curiosidade que se aguarda pela evolução das operações entretanto anunciadas para aquele país, principalmente as que têm por base a retoma dos voos charter.
  • Em contracorrente: Apesar dos “ventos adversos” que a Rússia vem enfrentando, resultantes da volatilidade política e económica, não se prevê que o investimento na hotelaria conheça qualquer abrandamento. Só no presente ano está prevista, naquele país, a abertura de mais 4.697 quartos, metade dos quais situar-se-ão na região de Moscovo.

 

Comentário

 

Turisver.com – Quem no primeiro dia de BTL foi à feira pode observar que em relação a anos anteriores tem mais espaço ocupado, um conjunto de iniciativas paralelas com algum relevo e, talvez mais importante, sente-se um clima de maior interesse dos profissionais pelo evento. Esta situação deve-se à conjuntura turística favorável, ou a uma aposta na estratégia que vem sendo continuada pelos responsáveis da BTL?

 

Atilio Forte – Creio que a edição da Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) deste ano reflecte um conjunto de situações, todas elas positivas, que têm como pano de fundo o bom momento por que a actividade turística passa, tanto em Portugal, como no Mundo.

Como já aqui comentámos, o ano de 2016 apresenta-se com francas possibilidades e perspectivas de ficar para a posteridade como o do virar de página do turismo português ou, se se quiser, como o da transformação do “Cabo das Tormentas” – pelo qual passámos entre meados de 2008 e finais de 2013 -, em “Cabo da Boa Esperança” – dado existir a possibilidade, no final do ano, de alcançarmos resultados semelhantes aos obtidos em 2007.

É, por isso, natural que a presente edição da BTL traduza esta expectativa, a que se deverão adicionar os bons resultados turísticos que o nosso país atingiu, sobretudo em 2014 e 2015. Ora, a conjugação destes factores e os impactos que os mesmos tiveram na actividade económica do turismo, conduz a que, de uma forma geral, e com especial ênfase para as empresas, haja uma maior predisposição (fruto de uma maior capacidade e disponibilidade financeira) para investir na promoção e divulgação dos seus produtos e serviços. Daí a sua presença na feira em maior número (a nível profissional e/ou como expositor).

Para além deste aspecto, deveremos também ter em consideração as datas em que o certame acontece – em nossa opinião, as alturas ideais seriam Maio, para o caso de se pretender estimular o turismo de exportação (”outgoing”), ou meados de Setembro/Outubro, se se pretendesse privilegiar o turismo de importação (”incoming”) -, uma vez que ao realizá-lo à entrada para a estação média tal possibilita às empresas e aos destinos uma apresentação mais concreta e completa da sua oferta, por um lado, e desperta uma maior apetência dos consumidores para o visitarem, em razão da época das decisões de férias estar cada vez mais perto, por outro lado.

Mas 2016, em particular, apresenta ainda outros factores que reforçam este argumento, seja para o lado da oferta, seja para o da procura. Concretamente, o facto da Páscoa ocorrer no final de Março e a existência de um maior número de dias feriado, muitos deles associados a “pontes”, aliados à expectativa de recuperação de algum poder de compra, constituem-se como motivos adicionais de atracção de mais consumidores ao certame.

E, se observarmos bem, verificamos que as empresas turísticas têm estado extremamente atentas a esta situação pois, nas duas semanas que antecederam a BTL, realizaram inúmeras acções, principalmente junto da comunicação social, para noticiarem as novidades que têm para oferecer aos seus potenciais clientes.

Num outro plano, se é verdade que os organizadores da BTL devem ser felicitados por, progressivamente, virem “puxando” a feira mais para “dentro” do ano – durante muito tempo ela tinha lugar em Janeiro -, também lhes deve ser feita justiça por terem o cuidado de a calendarizarem de modo a que muitos dos profissionais que nela participam – sobretudo os provenientes de fora da Europa – a possam conjugar com a ida a outra grande feira de turismo – a ITB -, que terá lugar em Berlim, na próxima semana (9 a 13 de Março).

Em conclusão, creio que é muito bom quer para a feira, quer para todos aqueles que estão ligados à actividade turística ou que por ela se interessam, voltarmos a ver e a ter uma BTL com mais profissionais, com mais expositores e com mais visitantes, pois isso é um sinal de saúde e de vitalidade do turismo português.

 

Turisver.com – A AHRESP realizou mais uma edição das suas Jornadas, com a presença de vários governantes e tem realizado outras acções com impacto público. Na sua perspectiva, são acções como estas, realizadas pelo movimento associativo do sector, que o turismo precisa?

 

Atilio Forte – Obviamente, que estas manifestações têm uma enorme importância, pois obrigam o movimento associativo e empresarial a mobilizar-se, apresentando propostas, e os que nelas participam, mormente aqueles que representam o Estado, a responsabilizarem-se e a comprometerem-se com as afirmações e respostas que dão às questões que aí lhes são colocadas.

Paralelamente, este tipo de eventos também proporciona outros dois efeitos, não menos importantes:

Um primeiro, que se prende com o “dar voz às empresas e aos empresários”, fazendo com que partilhem problemas e busquem, em conjunto, soluções para quaisquer que sejam os constrangimentos que sintam ou desafios que enfrentem. A discussão séria e aprofundada das preocupações de um sector ou de uma actividade económica feita pelos seus protagonistas, as empresas e os empresários, principalmente no caso do turismo – onde o factor humano, tanto do lado da oferta, como do da procura, é decisivo -, tem quase sempre excelentes resultados, já que cimenta o espírito de compromisso e promove a união em torno de objectivos comuns.

E, um segundo, que decorre da ampla cobertura, por parte da comunicação social, de que são alvo, relacionada com o transmitir para a opinião pública do que está bem, do que está mal, do que pode melhorar e como o fazer, na vida do sector ou actividade em causa. Nos tempos que correm, temos consciência que o que não é notícia não existe ou não aconteceu. Esta pode não ser uma afirmação totalmente pacífica, mas espelha a realidade do mundo em que vivemos.

Claro está que as acções do movimento associativo não se esgotam nestas realizações. Longe disso. Mas elas são determinantes, como começámos por referir. E o êxito obtido, em todos os sentidos, por estas Jornadas AHRESP, demonstra-o bem.

Contudo, e como aqui temos vindo incessantemente a defender, o turismo português precisa de muito mais do que isto. Acima de tudo precisa de uma estratégia que a todos (agentes públicos e privados) envolva, mobilize e responsabilize. E estas realizações são pequenos (mas seguros) passos nessa direcção.

 

O + da Semana:

As comemorações do Centenário das Aparições de Fátima – que decorrerão no próximo ano -, só por si constituem uma enorme oportunidade para a promoção de Portugal e, em particular, do turismo religioso, como há meses aqui o destacámos. Agora, com a confirmação da presença do Papa Francisco (nos dias 12 e 13 de Maio de 2017), as mesmas ganharão, por certo, outra magnitude. Por esta razão, é natural (e avisado) que todos os agentes da actividade comecem a planificar e a estruturar a oferta turística e, simultaneamente, procurem aprofundar os seus conhecimentos sobre o perfil do turista religioso, levando em linha de conta que nas datas de maior pico – 13 de Maio e 13 de Outubro –, pelo menos um milhão de pessoas afluirá ao Santuário. Como também é natural, que todos os eventos que estejam ligados com estas celebrações despertem uma maior atenção e participação por parte comunidade turística, nacional e internacional. Assim se justifica o enorme êxito obtido pelo IV Workshop Internacional de Turismo Religioso – realizado em Fátima, no passado dia 26 de Fevereiro e que contou com cerca de 500 participantes, oriundos de 30 países -, e se enfatiza a importância no Mundo da “marca” Fátima.