iTurismo- Comentário Semanal de Atilio Forte

Os instrumentos financeiros de apoio ao investimento anunciados na BTL, a forma negativa como Portugal é descrita na Ucrânia, e os investimentos na Ásia/Pacífico, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje. O comentário de Atilio Forte versa sobre a criação de um grupo de trabalho que visa combater a sazonalidade no Algarve, e sobre o que há a melhorar na organização da BTL. Para “O+ da Semana” escolheu o sucesso do 1º Salão de Empregabilidade.

Tópicos da Semana:

  • Contas certas: Durante a BTL foram anunciados dois instrumentos financeiros de apoio ao investimento no turismo: um no valor de 60 milhões de euros, relativo à renovação das linhas de crédito com a banca, mais conhecido por Protocolos Bancários (iniciados em 1992); e, outro, de 50 milhões de euros, para financiamento de projectos turísticos. Ambos se saúdam. Contudo, e não nos cansamos de insistir neste ponto, seria bom (e útil) conhecermos quais os projectos apoiados nos últimos anos pelo Turismo de Portugal (identificação, tipologia e montante). É que as boas contas…
  • Um alerta, um apelo e um convite: Na edição ucraniana de Dezembro da conceituada revista Forbes, uma respeitável colunista/jornalista (Margarita Kurbanova) publicou um artigo sobre Portugal, subordinado ao tema “Vida em emigração – porque os ucranianos escolhem Portugal”. Até aqui nada de estranho. O problema é a forma como o nosso país aí é descrito que nada tem a ver com a realidade (teria se o mesmo tivesse sido redigido há 50 anos!). Assim, deixamos um apelo ao Governo, ao Turismo de Portugal, etc. para, por favor, a convidarem a visitar Portugal, precavendo verborreias semelhantes no futuro e, já agora, para que esta Senhora possa escrever sobre o que conhece.
  • Investimento na Ásia-Pacífico ao rubro: No ano passado o investimento de 9,2 biliões de dólares no sector do alojamento naquela região bateu todos os recordes. Em 2016, espera-se outro excelente ano – as projecções indicam valores na casa dos 8,5 biliões de dólares – e, consequentemente, um apertar da competição entre os diferentes destinos para o atraírem que, neste particular, poderá pôr e causa a actual liderança japonesa.

 

Comentário

Turisver.com – Porque muito se falou durante a BTL, não poderíamos deixar de dedicar parte do comentário desta semana ao Algarve. Como sabe foi constituído um grupo de trabalho formado pela (SET, ERTA e o TdP), para estudar um programa que “combata” a sazonalidade no Algarve. Que comentário lhe merece a ideia?

Atilio ForteJá por diversas vezes aqui abordámos a problemática da sazonalidade no Algarve e, nalguns desses comentários, avançámos mesmo com propostas e ideias sobre esta temática. Por essa razão louvamos esta iniciativa, que envolverá a Secretaria de Estado do Turismo (SET), a Entidade Regional de Turismo do Algarve (ERTA) e o Turismo de Portugal (TdP) e que visa encontrar soluções que concorram para tornar o Algarve sustentável, do ponto de vista turístico, durante todo o ano.

Muito já se disse, estudou e escreveu sobre a sazonalidade da nossa principal região de turismo. Diagnósticos seguramente não faltam. O mais importante é passá-los à prática. E, para tal, este grupo de trabalho deverá, em nossa opinião, ter presente três aspectos que se nos afiguram essenciais para alcançar o nobre objectivo a que se propõe:

Desde logo, ter consciência que a sazonalidade não se “combate”, mas atenua-se. Dizê-lo não é apenas uma questão semântica. Pelo contrário.Por um lado, é ter a noção da realidade turística do Algarve e daquele que é o seu (nosso) principal produto – o Sol & Mar -, o qual apresenta incontornáveis características, sendo a mais evidente a ligação ou a relação que tem comas diferentes Estações, o que significa admitir que o Verão será e trará sempre um pico na actividade. E, por outro lado, que os esforços deverão concentrar-se na concepção e promoção de produtos e na captação de fluxos turísticos nas épocas baixa e média, para que se consiga esbater ou atenuar o inevitável “clímax” da alta estação.

Em seguida, envolver os empresários pois são eles o grande motor da actividade turística. As suas opiniões, a sua visão, as suas propostas, têm obrigatoriamente que ser consideradas, ponderadas e compreendidas pois, como é óbvio, não se pode pedir a uma qualquer empresa que tenha as suas portas abertas, mesmo não tendo clientes. Ora, como são elas quem mais está no terreno e a concorrer num mercado cada vez mais global, que dão corpo e forma à oferta, tornam-se também num parceiro indispensável para implementar a estratégia delineada.

Finalmente, nunca esquecer que o turismo é uma actividade profundamente transversal (e ou pluridisciplinar), isto é, que muito dá, mas também que muito recolhe, do que se passa nas demais áreas da economia e da sociedade. Esta é a razão pela qual defendemos que sejam chamados a este grupo de trabalho agentes que estejam “fora” do turismo, da saúde à cultura, do mar às autarquias, dos estabelecimentos de ensino, do comércio, da indústria, da agricultura …, pois todos têm um papel a desempenhar, todos são importantes. Hoje em dia não há turistas que queiram visitar regiões desertas, quase sem vida (genericamente falando, pois sabemos que as motivações dos consumidores são inesgotáveis). E o Algarve precisa ser vivificado, o que só se consegue atraindo mais pessoas para aí se fixarem, fazendo da região a sua “habitação permanente”.

Afinal, como gosto de exemplificar, esbater a sazonalidade não é mais do que termos a capacidade (e a adaptabilidade) de transformarmos, com sucesso, o carrinho dos gelados que vendemos no Verão, num carrinho de castanhas assadas para vendermos no Inverno. O carrinho é o mesmo. A sua função e o produto que vendemos é que são distintos!

Como vimos, este grupo de trabalho vai ter pela frente um grande desafio. Desejamos e acreditamos que será bem-sucedido na sua missão, porque o seu êxito poderá mudar o rosto do Algarve e do turismo nacional.

 

Turisver.com – Durante os dias para profissionais da BTL, existiram um número de acções que decorreram paralelamente à feira, entre os quais o Salão da Empregabilidade que se constituiu num êxito. Como observou estes eventos e que impactos têm para o decorrer do certame?

Atilio Forte – Esta é uma excelente pergunta, porque vem na sequência dos elogios que na passada semana aqui fizemos à organização da BTL deste ano mas, sobretudo, porque toca naquele que, em nossa opinião, foi o aspecto menos positivo – e a corrigir – em edições futuras do certame.

Creio estarmos todos de acordo que, do ponto de vista profissional, o principal objectivo de uma feira com as características da BTL é promover o encontro entre compradores e vendedores, no fundo, é criar as condições para que se façam negócios. Para tal, é feito um grande esforço por todo um conjunto de entidades, mais ou menos ligadas à sua organização, para mobilizarem os agentes económicos dos diferentes sectores que compõem a constelação do turismo, tanto nacionais, como estrangeiros, a nela participarem.

Acontece que o número de eventos paralelos (seminários, apresentações, anúncios, etc., etc.) que têm lugar durante os dias reservados aos profissionais é de tal ordem que se torna humanamente impossível estar presente em todos – ou pelo menos na sua maioria – e, simultaneamente, ainda ter tempo para fazer negócios, o que acaba por ser a negação do primordial objectivo da feira.

Sabemos bem que tal também se deve à notoriedade já alcançada pela própria BTL, a qual a transformou num dos mais importantes acontecimentos do ano turístico, com enorme visibilidade na opinião pública, o que acaba por funcionar como factor de atracção para que muitas entidades e empresas a aproveitem para aí fazerem os mais diversos anúncios e ou realizarem as suas iniciativas.

Esta crítica, puramente construtiva, tem como única finalidade contribuir para que tenhamos uma BTL cada vez maior, em visitantes profissionais e expositores, portugueses e estrangeiros e, principalmente, onde se façam cada vez mais negócios.

 

O + da Semana:

Decorreu, no âmbito da BTL, a “1ª Bolsa de Empregabilidade no Turismo” – uma iniciativa conjunta do certame e do Fórum Turismo 2.1 -, que contou, entre outras, com a presença de várias empresas dos diferentes sectores da actividade económica do turismo (que ali foram oferecer as suas disponibilidades de emprego) e de um grande número de profissionais, alunos de cursos de turismo e entidades ligadas ao emprego (que ali foram em busca do início, da retoma ou da mudança na sua vida activa). O Governo, ao presidir à inauguração do evento, associou-se (e bem) a esta louvável iniciativa, que acabou por ultrapassar as melhores expectativas. Todos quantos contribuíram para o seu êxito – organizadores, participantes e Governo (por se ter associado) – estão de parabéns. Mas acima de tudo merecem ser felicitados e incentivados a prosseguir com futuras edições: porque ajudam a passar a mensagem que o turismo é uma actividade feita por pessoas e para pessoas; porque é a área da economia mundial que, nas próximas décadas, maiores perspectivas de crescimento, logo de emprego, apresenta; porque as profissões e os profissionais ligados à actividade devem ser valorizados e acarinhados; e, tão ou mais importante, porque é hoje que devemos começar a assegurar a competência dos profissionais futuros. Assim, é com grande entusiasmo que ficaremos a aguardar pela 2ª edição desta Bolsa da Empregabilidade que, acreditamos, um dia acabará por ter massa crítica para se autonomizar enquanto grande acontecimento turístico.