iTurismo-Comentário Semanal de Atilio Forte

No seu habitual comentário semanal, Atilio Forte destaca a precariedade do emprego sazonal no turismo e a falta de uma política para o sector da aviação, enquanto os tópicos da semana são preenchidos por questões que fazem um óptimo profissional, Lisboa engarrafada e a necessidade de inovar no F&B do hotel. O + da semana é dedicado ao papel determinante do factor humano no turismo.

 

Tópicos da Semana: 

  • Como sobressair no meio da multidão?: Numa recente conferência realizada na Suíça, dedicada a jovens hoteleiros, concluiu-se que o quociente emocional é o aspecto essencial que leva a distinguir os colaboradores excelentes dos demais e que maior contribuição dá para uma rápida ascensão a lugares de chefia. É certo que tanto a educação/formação como as qualificações técnicas continuam a ser muito importantes, mas o que faz um óptimo profissional é a forma como este se liga emocionalmente aos clientes durante o desempenho das suas funções diárias. 
  • Lisboa engarrafada: Da leitura do Índice de Tráfego Global Anual elaborado pela empresa de sistemas de navegação Tom Tom resulta que a capital portuguesa é a cidade ibérica mais “entupida” no que ao trânsito respeita. Lisboa apresenta um índice de congestionamento de 31%, superior ao de Madrid (23%), Palma de Maiorca (27%) e Barcelona (28%). 
  • Quer ter mais clientes a comerem no seu hotel?: Se a resposta for sim, tome nota: comece por rasgar a sua actual carta que propõe mais do mesmo; em seguida, componha um menu com sugestões mais flexíveis e saudáveis e faça com que os pratos contem uma história interessante. Não se esqueça que tomar uma refeição num hotel também deve ser uma experiência para o cliente. E se a inovação do seu F&B o (ajudar a) conquistar… tanto melhor!

 

 Comentário

 

 Turisver – O turismo é uma actividade económica de mão-de-obra intensiva, que cria postos de trabalho, no entanto muitos destes empregos são precários e acompanham a sazonalidade, pelo que nos últimos tempos tem surgido alguma contestação laboral. Com a chegada da época alta podem extremar-se posições por parte dos sindicatos?

 

 Atilio Forte – Muito sinceramente gostava de poder afirmar que tudo correrá bem, sem quaisquer sobressaltos, e que na próxima época alta as empresas turísticas apenas se teriam que preocupar em dar resposta, com qualidade, à forte procura que Portugal certamente irá ter, quer em consequência da continuidade do crescimento verificado nos últimos anos, fruto do trabalho efectuado pelos agentes turísticos, quer pelos benefícios directos que iremos retirar da conturbada conjuntura internacional (tanto política, como económica) por que passamos.

Infelizmente, e tendo em consideração os dados e os sinais que actualmente dispomos, tal não se afigura como o mais provável. Cremos até que este “eventual excesso de procura”, poderá criar condições para um aumento da capacidade reivindicativa por parte dos sindicatos, colocando maior pressão sobre as empresas e, de certa forma, respaldando-se na maioria parlamentar que suporta o Governo – sobretudo nos Partidos Políticos mais à esquerda do Partido Socialista -, a qual vem demonstrando, pelas propostas e iniciativas já em curso ou a apresentar a muito breve prazo (umas mais públicas do que outras), ser sua intenção proceder a alterações importantes no normativo laboral vigente (contratos a termo, bancos de horas, etc.).

Convirá recordar que, em Dezembro passado, deixámos aqui o alerta que tal poderia vir a acontecer, uma vez que, como alguém disse, “passámos a viver o tempo da política” e, portanto, a Assembleia da República (AR) passou a ter um peso muito maior nas decisões, mesmo nas que exigem a procura de consensos sociais alargados, como é o caso da legislação laboral, os quais devem ser obtidos em sede de Concertação Social.

Volvidos cerca de quatro meses, aquilo que verificamos é que não só este “acentuar” do papel do Parlamento se materializou, como os próprios Parceiros Sociais não têm conseguido, seja por omissão, seja por demissão, seja ainda por falta de capacidade de compromisso, enfatizar o papel incontornável da Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS). E mais. Nalguns casos a intervenção do Governo também não tem sido clarificadora já que, para manter alguns (difíceis) equilíbrios, tem-se “equivocado” na canalização para os Órgãos competentes (AR e CPCS) das respectivas matérias.

É perante este quadro que dizemos não se afigurar fácil, e por isso pouco credível, evitar o aumento da conflitualidade laboral no turismo, nomeadamente na próxima estação alta.

Contudo, tal também não é uma fatalidade. Em nosso entender existe uma linha muito ténue, embora real, que poderá evitar este possível agravar de tensões. Mas é um caminho muito, mesmo muito, exigente, e que passa por um profundo estudo das matérias, por uma grande capacidade de diálogo entre os Partidos Políticos, as estruturas sindicais e patronais (atendendo à caracterização da situação, serão estas últimas a ter que desenvolver os maiores esforços), pela apresentação de propostas credíveis, por muita intuição negocial e política (afinal é dela o tempo presente) e, principalmente, por ter a sagacidade de demonstrar que não se deve tratar por igual, actividades económicas que são diferentes.

É aqui, em nossa opinião, que poderá residir a chave do sucesso, pois não se pode colocar no mesmo “saco” a actividade turística e as demais. O turismo tem especificidades que não são comuns a mais nenhuma outra área da economia, devendo por isso merecer um tratamento diferenciado (o que não significa especial ou de favor).

Se a este aspecto adicionarmos um outro, que se prende com o turismo ser uma actividade económica relativamente jovem e, por essa razão, não estar enraizada nalgumas doutrinas políticas mais ortodoxas (a sua baixa conflitualidade social ao longo dos anos, é disso prova evidente), julgamos estarem reunidos argumentos que nos permitam encarar o futuro próximo comgrande responsabilidade mas, também, com maior optimismo.

 

 Turisver – Os portugueses já viveram a época dos Descobrimentos, hoje parece estarmos a viver a época de sermos descobertos, dado o crescente número de turistas que nos procuram. Na sua perspectiva estamos a atrasar-nos em algumas infra-estruturas que com este crescimento nos irão fazer falta a curto prazo?

 

Atilio Forte – Para responder a esta questão é preciso, em primeiro lugar, ter bem presente que a mais importante condição para que haja Turismo é ter “como chegar?”. E, como é sabido, actualmente ter “como chegar” refere-se, na esmagadora maioria dos casos, ao sector da Aviação (aeroportos, companhias aéreas, controlo, navegação e segurança aérea).

Para um qualquer destino ou país com ambições turísticas, como é o nosso caso, em segundo lugar, é necessário possuir massa crítica, pois as nossas dimensões, quer territorial, quer de mercado/número de potenciais consumidores, são bastante limitadas. Isso quer dizer que é decisivo assumirmo-nos como uma importante plataforma regional de captação e distribuição de tráfego aéreo (passageiros e carga), pois só desse modo garantiremos a existência de operadores com interesse em servir essa base. Esta é, porventura, a principal razão porque tanto se fala no “hub” de Lisboa.

Só que, normalmente, esquecemo-nos que não estamos sós no Mundo. A existência de um “hub” em Lisboa por si só, de nada vale ou nada representa se, também ele, não for alimentado, isto é, se não tiver de onde receber e para onde escoar o tráfego gerado. Em suma, é preciso construirmos uma rede, através de parcerias, onde marquem presença outros “hubs”, também eles com um papel importante na região onde se inserem.

Como há anos afirmamos, Portugal não tem, nem nunca teve, na verdadeira acepção da palavra, uma estratégia ou, se se quiser, uma política para o sector da Aviação, para além de nunca a ter considerado como parte integrante e peça fundamental da actividade turística. Tem-nos valido, principalmente na última década e meia, que a nossa principal transportadora aérea, ao invés do país, tem prosseguido um caminho sólido e consequente, cujos frutos estão à vista.

Isto para afirmar que – já que é um assunto que tanta tinta tem feito correr -, um (ou mais um) aeroporto deve ser entendido como um instrumento de política e não como a política em si mesma. Tal como um hospital é um instrumento concreto da política de saúde, ou uma escola da política de educação. Portanto, não havendo política de pouco nos adianta investirmos preciosos recursos de forma quase avulsa, já que o mais provável é que não os rentabilizemos devidamente.

Este deve ser sempre o nosso pano de fundo, o nosso referencial estratégico. Não obstante, para não ser omisso quanto à questão colocada, e concretamente no caso de Lisboa, a manter-se o índice de crescimento projectado, creio que durante os próximos 10 a 15 anos necessitaremos de um novo aeroporto que sirva, principalmente, as companhias de baixo custo (vulgo “low cost”), que se localize não muito longe do da Portela. Felizmente, que já se fala na zona Montijo/Alcochete, como há mais de duas décadas defendo.

Quanto às demais infra-estruturas – portuárias, ferroviárias e rodoviárias – no que respeita estritamente ao Turismo, considero que estamos relativamente bem servidos, embora algumas melhorias de qualidade e conforto, sobretudo ao nível dos terminais de passageiros (portuários e ferroviários), sejam desejáveis e, a meu ver, inevitáveis.

No que se refere à rodovia, é altamente penalizador continuarmos a portajar as ex-SCUT’s, de que talvez o exemplo mais gritante seja o da Via do Infante, dado não existirem alternativas credíveis, tanto em rapidez, como em qualidade, como em segurança. Certamente que os turistas que no Verão visitam o Algarve e são “obrigados” a circular pela (tristemente) célebre N-125, não levam uma boa imagem, tanto do Algarve, como de Portugal.

E tendo presente a importância da actividade económica do Turismo para o esbater das assimetrias entre o interior e o litoral, e assim ajudar ao desenvolvimento económico do interior e à fixação das populações, é imperioso que quem nos visite e utilize essas vias não seja onerado com mais “essa taxa” que, por certo, será recuperada por outras formas, nomeadamente, com o aumento do consumo de produtos e serviços turísticos e os estímulos induzidos nas economias regionais e locais.

Finalmente, somos de opinião que a construção de um grande parque temático – ligado ao Mar ou aos Descobrimentos – que, por si só, funcionasse como âncora de atracção de fluxos turísticos (um destino dentro do destino Portugal), deveria ser encarado como um amplo e mobilizador projecto nacional.

 

O + da Semana:

Numa actividade económica feita por pessoas e para pessoas como é a do turismo, o factor humano desempenha um papel determinante. Se tal é um dado incontornável, não menos verdade é que a satisfação daqueles que escolheram o turismo como profissão depende de todo um conjunto de aspectos, nos quais também se inclui (obviamente) o salário. No caso dos estabelecimentos de restauração e bebidas temos assistido, durante anos e um pouco por toda a parte, à convivência de dois modelos: o europeu, alicerçado no vencimento mensal pago pelas empresas aos seus colaboradores; e, o americano, sobretudo baseado nas gratificações dos clientes, que podem variar entre os 10 e os 20% do valor da conta – nalguns casos acrescidas de um salário (baixo) pago pela entidade empregadora. Certamente que ambos têm virtudes e defeitos, prós e contras. Vem isto a propósito da última grande tendência que se verifica no sector da restauração nas principais cidades dos Estados Unidos da América (Nova Iorque, Los Angeles, São Francisco, Chicago, etc.), onde um cada vez maior número de empresas paga um ordenado fixo (mais elevado) aos seus colaboradores, abolindo assim com as tradicionais “gorjetas”, de modo a garantirem – e exigirem – uma total homogeneidade e qualidade no atendimento prestado. Mais, o cliente é informado que o “serviço” já está incluído no preço do menu, de modo a não estranhar a recusa em receber gratificação por parte de quem o atende.