iTurismo-Comentário Semanal de Atilio Forte

 

Turismo de saúde e bem-estar mais abrangente, os novos desafios de Macau, e a novela da Starwood, fazem parte dos tópicos da semana, enquanto O + da Semana é dedicado à recente inauguração da “Cidade do Futebol”. No comentário habitual, Atilio Forte destaca a aposta deste Governo na captação de congressos e eventos internacionais bem como a segurança como factor chave na atractividade de um destino, tema de um painel do Congresso da ADHP.

 

Tópicos da Semana:

  • Turismo de saúde e bem-estar mais abrangente: Já se sabia que este tipo de produto tinha grande sucesso junto dos “baby boomers”. Contudo, as novas gerações começam também a revelar uma enorme apetência por ele. Assim, quer os consumidores da geração X, quer os da geração do milénio (Y), estão entre os que mais o procuram, colocando as idas aos Spas, os tratamentos para perda de peso e os programas que promovem o exercício ao ar livre na lista dos mais desejados.
  • Os novos desafios de Macau: Em resposta à queda das receitas provenientes do jogo verificada nos últimos anos, Macau começa a reinventar-se. E, nesse sentido, alguns sinais já são visíveis, nomeadamente, a baixa dos preços dos hotéis e a promoção do destino mais ao estilo de Las Vegas (retirando ênfase ao jogo e promovendo atracções para toda a família). No entanto, a inexistência de infra-estruturas adequadas para tal e a baixa percentagem de turistas “não-chineses”, contam-se entre os maiores desafios a vencer.
  • A novela Starwood: O último mês foi particularmente agitado para a Starwood Hotels& Resorts Worlwide. O negócio, que chegou a ser dado como “fechado” pela Marriott International, teve uma inesperada reviravolta quando um consórcio chinês liderado pelo Anbang Insurance Group fez abrir uma “guerra” de licitações. Mas a maior surpresa ainda estava para chegar, com o abrupto retirar da oferta de 14 biliões de dólares por parte dos chineses, que pareciam determinados em levar por diante a aquisição. Resta-nos aguardar pelas cenas dos próximos capítulos.

 

Comentário

 

Turisver – A Secretária de Estado do Turismo anunciou a criação, no âmbito do Turismo de Portugal, de uma equipa de “choque e de ataque” para a captação de congressos e eventos a nível internacional. Para concorrermos num mercado tão competitivo a nível mundial, quais são, na sua perspectiva, as principais premissas para que possamos ter êxito?

 

Atilio Forte – Há algumas semanas já aqui havíamos saudado este anúncio por parte do Governo, sobretudo porque também foi acompanhado de dotação financeira específica. Para além desta situação tal configura ainda uma alteração de prioridades, sobretudo por parte do Turismo de Portugal que, como nos recordamos, não colocava a captação deste tipo de eventos na primeira linha da sua actuação.

E todos sabemos bem os impactos positivos dos mesmos, já que quase sempre têm lugar nas épocas baixa e média (contribuindo para esbater a sazonalidade), trazem amiúde turistas com elevado poder de compra (muitos deles chegam antes ou partem depois dos eventos), pela sua dimensão exigem a intervenção de múltiplos agentes da cadeia de valor turística e, não menos importante, está provado que a taxa de repetição do destino que os recebe é significativa entre os que neles participam, principalmente quando em gozo de férias.

Se estas são razões que justificam o esforço desta “aposta”, não menos verdade – tal como é referido na pergunta – é que este é um segmento altamente competitivo pois, como se compreende, todos os destinos se posicionam da melhor forma para atrair e captar tão apetecíveis fluxos turísticos.

Assim sendo, e para que Portugal possa ser bem-sucedido na atracção deste tipo de eventos deverá, em nossa opinião, pelo menos “bater-se com armas iguais” às dos seus concorrentes. E, neste particular, existem dois aspectos que se nos afiguram como essenciais. O primeiro, prende-se com a articulação; e, o segundo, com a competitividade.

Relativamente à articulação, referimo-nos não apenas ao indispensável trabalho conjunto que deve ser efectuado entre todos os agentes turísticos – empresas e entidades públicas nacionais e regionais -, mas principalmente à mobilização de toda a nossa rede diplomática que pode – e deve! – ter um papel bem mais incisivo no influenciar, nos respectivos países de origem, dos seus decisores e promotores.

À primeira vista poderá dizer-se que tal parece óbvio. Contudo, o que até hoje tem acontecido – salvo raríssimas excepções -, é um quase total alheamento por parte das nossas embaixadas e consulados em irem para o terreno e procurarem apoiar as iniciativas dos agentes turísticos (privados e ou públicos) nacionais. Para aqueles que, tal como nós, vêem os nossos representantes externos como uma primeira linha, ou guarda avançada, da promoção do país e dos seus produtos e serviços, as desilusões e, consequentemente, as oportunidades perdidas, têm sido inúmeras.

Alterar as mentalidades e esta forma de estar é, pois, uma prioridade. Basta vermos o que faz a grande maioria dos nossos concorrentes, que utilizam estes canais como autênticas forças comerciais altamente eficazes, ao serviço das suas empresas, das suas regiões e dos seus países.

Já quanto à competitividade a mesma prende-se sobretudo com o aspecto fiscal e, muito em particular, com o IVA (não nos esqueçamos que os nossos principais mercados se situam dentro da União Europeia). E porquê? Porque, ao contrário da esmagadora maioria dos destinos (europeus) que connosco concorrem (e novamente salvo raríssimas excepções, superior e devidamente aprovadas), não é permitida a sua dedutibilidade nas despesas profissionais de alojamento, transporte e recepção, o que quer dizer que o IVA pago, nos diferentes produtos e serviços contratados, pelas entidades organizadoras e pelos participantes nestes eventos, não é passível de qualquer recuperação, o que origina uma flagrante e óbvia perda de competitividade.

Em suma, e para além dos esforços já levados a cabo, caso nada se altere nestes dois aspectos que referimos, não se afigurará fácil que Portugal venha a ocupar um lugar de maior relevo no panorama mundial, como destino primordial no acolhimento das grandes reuniões, congressos, incentivos e eventos internacionais.

 

Turisver – O próximo congresso da ADHP vai discutir, num dos seus painéis, “A Segurança – factor chave na atractividade de um destino”. Já tem abordado esta temática nos seus comentários semanais, no entanto temos recebido a este propósito várias questões que sintetizo numa. Portugal deve usar a segurança como atractivo turístico, para captar mais turistas?

 

Atilio Forte – Os nossos leitores já conhecem bem as nossas posições a este respeito. Por isso, a resposta directa à pergunta colocada é: Não! Jamais! Nunca! Em tempo algum! Creio que mais taxativos do que isto não poderemos, nem conseguiremos, ser.

Dissemo-lo e repetimo-lo: a segurança não se promove, garante-se!

Fazê-lo, mais do que uma atitude leviana, é ignorar a complexidade do Mundo em que vivemos, é fazer tábua rasa, com total ingenuidade, do que se passa à nossa volta. Basta olharmos para tudo o que aconteceu nas últimas semanas (para não dar mais exemplos); basta, diariamente, vermos ou lermos as trágicas notícias que nos chegam.

Infelizmente, nos dias de hoje, ninguém pode afirmar estar a salvo de qualquer hediondo atentado terrorista. Porque vivemos dias em que alguns querem impor as suas razões à esmagadora maioria, semeando o terror, dilacerando, estropiando e assassinando, onde menos se espera, escudando-se por detrás de pretensas crenças em religiões que, afinal, o que defendem é a paz, a harmonia e a concórdia entre os seres humanos.

A guerrilha urbana global está instalada e com ela veio a subversão dos valores, dos princípios e, até, da religião.

Por tudo isto, a promoção da segurança deve ser algo efectivo, mas feito com total discrição, sem alardes ou publicidade.

Tal não significa que nos atemorizemos e que deixemos que o medo, que um punhado nos pretende incutir, nos condicione. Antes pelo contrário. Mas daí até se anunciar aos quatro ventos que qualquer destino turístico é seguro vai, naturalmente, uma grande distância.

 

 O + da Semana:

A recente inauguração da “Cidade do Futebol”, no Alto da Boa Viagem, em Oeiras, inserida no complexo desportivo do Jamor, mais do que passar a ser a “casa” das selecções nacionais do desporto rei, vem reavivar a nossa memória para a excelência dos equipamentos desportivos existentes no nosso país. Se lhe juntarmos os Centros de Alto Rendimento Desportivo – mais de uma dezena – que já possuímos, dedicados a inúmeras modalidades (atletismo, remo, canoagem, ténis de mesa, ciclismo, judo, ginástica, esgrima, badminton, hipismo, triatlo, natação, surf e taekwondo), sem esquecermos os inúmeros pavilhões (de elevada qualidade) espalhados um pouco por todas as regiões, facilmente constatamos que um país de clima ameno e com uma hospitalidade única, como é o nosso, reúne todas as condições – porventura como poucos (sobretudo na Europa) -, para se afirmar como o grande “centro de estágios” do Velho Continente. Certamente que daqui até à estruturação destes importantes equipamentos como produto turístico será um pequeno passo, mas que poderá ter um enorme significado na atracção de importantes fluxos turísticos, principalmente na época baixa e como elemento dinamizador de locais longe dos habituais holofotes do turismo.