iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

No primeiro iTurismo deste ano, Atilio Forte faz uma retrospectiva do que de mais positivo e negativo se passou na actividade turística, a nível nacional e internacional, ao longo do ano 2015.

 

Turisver.com – Com o iTurismo de hoje entramos no terceiro ano de publicação desta rubrica semanal, que não é do Turisver.com mas do nosso comentador, Atilio Forte.

Atilio Forte – O iTurismo é, antes do mais, dos nossos leitores, que têm garantido, com as perguntas que nos dirigem, o manter vivo este nosso comentário semanal que fazemos com enorme prazer. Portanto, para além de um grande obrigado por tantos milhares de pessoas nos lerem todas as semanas, não posso deixar de aproveitar para desejar a todos, bem como à equipa do Turisver, um Bom Ano de 2016, tanto a nível pessoal como profissional.

 

Turisver.com – A exemplo do que fizemos o ano passado, neste primeiro iTurismo de 2016 vamos fazer uma retrospectiva do ano que findou e começaríamos por abordar alguns aspectos do turismo internacional. Quais foram os destaques, pela negativa, do ano que passou, em termos internacionais?

 

Atilio Forte – Não tendo nós nenhuma bola de cristal, longe disso, ao rever para este comentário aquelas que foram as nossas projecções para o ano turístico de 2015, verificámos que acertámos em cheio naquelas que seriam as grandes temáticas e as grandes tendências tanto do ponto de vista internacional, como nacional.

Genericamente falando, e de acordo com os elementos da Organização Mundial do Turismo, 2015 foi um ano de crescimento global seja em termos de chegadas internacionais, seja em termos de receitas. Assim, tivemos o turismo, por mais um ano, a crescer acima da média da economia mundial, o que deve ser sublinhado e enaltecido.

Mas perguntou-me pelas questões negativas, sendo que, algumas delas ganharam uma dimensão que não se antevia no início do ano passado. Desde logo não podemos escamotear a questão dos migrantes, nomeadamente para a União Europeia, não só pelo drama humano que essas pessoas atravessam mas sobretudo, do ponto de vista da actividade turística, pelos reflexos que provocaram em muitos Estados europeus.

Assistimos ao reerguer de muros, sejam de arame farpado, sejam de outra natureza e, também, ao acentuar de uma tendência mais xenófoba e securitária, principalmente nalguns casos em que observámos a suspensão dos acordos de Schengen, temporariamente ou não. Esta é uma situação que não se previa que ganhasse tamanha dimensão, mas que é extremamente preocupante, tanto para a Europa, como para o Mundo.

Ainda dentro do quadro internacional, e este é um aspecto que tínhamos aqui sublinhado com algum ênfase, a preocupação, por um lado, relativamente à desaceleração da economia chinesa – que veio a verificar-se ao longo de 2015 –, a qual constituiu um factor de enorme perturbação dos mercados internacionais, com óbvios reflexos na actividade e no consumo turístico. Por outro lado, e também o tínhamos referido aqui, houve um incremento das acções ligadas ao terrorismo internacional – não nos podemos esquecer que, infelizmente, começámos e finalizámos 2015 com atentados em Paris, no centro da Europa, para além de outros atentados ocorridos em diversos locais e regiões do globo, durante todo o ano.

Finalmente vimos que a Europa, do ponto de vista político e macroeconómico, em vez de se unir (provavelmente) deslaçou-se mais. Vejam-se, por exemplo, os casos da Grécia e a postura do Reino Unido face a uma eventual saída da União Europeia.

Creio que, do ponto de vista negativo, estes foram os factos mais marcantes.

Apenas uma nota muito rápida para dizer que, a nível europeu e do ponto de vista turístico, não se aproveitou tão bem quanto seria de esperar, a depreciação do Euro face ao Dólar de que também tínhamos dado nota nas nossas antevisões para 2015.

 

Turisver.com – Do lado positivo temos o crescimento global do turismo…

 

Atilio Forte – Esse é o primeiro facto e claramente o que merece maior realce.

Mas creio ser também importante sublinhar que há um ano existia uma enorme preocupação com o surto epidémico do ébola que, felizmente, acabou por ficar confinado aos países africanos (sendo actualmente residual), não se transformando em pandemia como se chegou a temer e, portanto, isso quer dizer que as autoridades de saúde pública actuaram bem a nível global.

Convirá aqui registar que, como consequência do aumento de fluxos turísticos verificado no ano transacto, o transporte aéreo, a aviação comercial, porventura o sector mais competitivo de todos os que compõem a economia mundial, atingiu, sobretudo na Europa, resultados que não tinha alcançado na última meia década, o que, em nossa opinião, é um aspecto extremamente importante e a sublinhar.

Outro ponto, que daqui decorre, são os bons números que a Europa apresentou do ponto de vista turístico, resultados que foram extremamente positivos e animadores, mormente se tivermos em linha de conta algumas questões pontuais, nomeadamente a diminuição dos fluxos vindos dos mercados de leste, como por exemplo do mercado russo, em resultado da crise da Crimeia. Mesmo assim a Europa manteve uma posição de liderança turística a nível mundial que muitos acreditavam – e vaticinavam – que se iria degradar em 2015.

 

Turisver.com – Por cá, vamos começar pelos pontos positivos.

 

Atilio Forte – Em termos internos, apesar da falta de elementos fiáveis, Portugal não foi excepção ao que se passou no “mundo do turismo” e é com um espírito muito positivo e de orgulho – que todos os agentes turísticos devem ter -, que chegámos ao final de 2015 com mais receitas, com mais turistas, enfim, a nível global com todos os indicadores a serem extremamente favoráveis e a ficarem muitíssimo próximos daquele que é o principal factor de comparação, o ano 2007. Julgo que este é, talvez, o aspecto mais importante a realçar, embora estes resultados globalmente positivos ainda não tenham chegado ao terreno, ou seja, ainda não se fazem sentir, na plenitude, nas empresas.

Outro dos aspectos a destacar é que o movimento associativo se manteve estável, apesar de em muitas entidades associativas terem acontecido eleições em 2015. Nesses actos eleitorais acabaram por ser reconduzidos, na sua generalidade, o essencial dos Órgãos Sociais das diferentes entidades associativas, o que é também de realçar.

Neste capítulo merece ainda especial relevo a entrada da Confederação do Turismo Português (CTP) no Comité Económico e Social Europeu (CESE), um patamar importante em que o turismo português não estava representado dentro da União Europeia.

Factor também a salientar foi a ligeira recuperação do poder de compra por parte dos consumidores, que sobretudo se reflectiu ao nível do turismo interno.

Duas últimas palavras para as Regiões Autónomas: a primeira para os Açores que, fruto da sua estratégia, nomeadamente do que resultou da liberalização do transporte aéreo, viram a possibilidade de novos fluxos turísticos poderem chegar ao arquipélago, com impactos óbvios na sua economia. E, finalmente uma segunda, para a Madeira, que recentemente foi eleita como melhor destino insular do mundo, o que é de saudar, não porque nos admiremos ou nos cause estranheza, mas porque isso reflecte a rapidez com que a Região soube ultrapassar e recuperar das catástrofes naturais que a assolaram nos últimos anos.

 

Turisver.com – Pontos negativos houve também alguns em Portugal no ano que passou e vamos ter que falar deles.

 

Atilio Forte – Antes de entrar nos pontos negativos gostava de falar num caso que, penso, fica no intervalo de ambos – numa zona que podemos chamar de incerteza – e que é o que tem a ver com a questão da privatização da TAP. Esta privatização, que continua “em agenda”, como aqui já tivemos oportunidade de comentar, foi feita muito tarde na legislatura anterior e sem um consenso político alargado, estando neste momento em cima da mesa a possibilidade da sua reversão. Terminámos 2015 com este assunto “na ordem do dia” e esta é a grande incógnita com que o turismo nacional de momento se confronta: a incerteza relativamente à companhia aérea, agora privatizada, porque do que lhe vier a acontecer muito depende o futuro do turismo nacional.

Dito isto e passando agora aos aspectos negativos, em primeiro lugar o que julgo ser de sublinhar como facto turístico mais marcante, é que 2015 foi um ano de mera gestão política. Andámos praticamente um ano inteiro a ouvir o Governo dizer que estava “em contagem decrescente”, ou seja, em todas as intervenções era sempre referido que o tempo estava acabar, que o mandato estava a chegar ao fim, que a legislatura estava a terminar, portanto, foi um ano em que andámos a “marcar passo”.

Isto quer dizer que nada se avançou no traçar de uma estratégia para a actividade; que o tão falado Banco de Fomento também não avançou; que o novo Quadro Comunitário de Apoio – o Portugal 2020 – não descolou; que não houve novidades ao nível da promoção turística; que a formação profissional passou quase despercebida; em suma, que o turismo – e esta parte já não tem só a ver com o Governo, mas engloba também o sector privado e os seus representantes – não se afirmou.

Apesar de termos tido um bom ano turístico a nível internacional e também um ano muito bom a nível nacional, o turismo português findou 2015 algo acabrunhado, com falta de afirmação, com falta de peso e com poucas propostas apresentadas ao longo do ano.

Mesmo considerando que vivemos um ano eleitoral, nenhuma das partes (pública e privada) o aproveitou para apresentar uma estratégia ou colocar propostas inovadoras em cima da mesa e isso teve consequências. Por exemplo no plano legislativo, alguma legislação saiu incompleta, como no caso do alojamento local, por não abarcar determinados aspectos, nomeadamente, e em termos comparativos, obrigações que impendem sobre as demais áreas do alojamento, ou a “aberrática” classificação (ou desclassificação) dos hotéis para a qual, enviesadamente, o anterior Governo decidiu avançar “ao cair do pano” da legislatura. Isto para não falarmos na (talvez) mais importante alteração legislativa verificada em 2015, que versou sobre o jogo online e os reflexos nefastos que, estamos certos, irá provocar no futuro, particularmente no sector dos casinos o qual é, como se sabe, o grande financiador da actividade turística em Portugal.

Para além disso, e para atestar o que estamos a dizer sobre a falta de influência do turismo, mesmo a nível mais regional ou local, assistimos à insistência na aplicação das taxas turísticas, tanto de dormida, como de desembarque de passageiros, que o município de Lisboa manteve e do perigo de contágio, por alastramento a outras autarquias, que as mesmas representam para o turismo nacional.

Finalmente, é de recordar que terminámos o ano com o início de um novo ciclo político, o qual acabou por trazer alguma instabilidade, fruto da solução encontrada – e aqui não estamos a criticar nem a sua legitimidade, nem a sua bondade, mas simplesmente a dizer (talvez por ser inovadora) que os portugueses e, principalmente, os empresários, terminaram o ano sentindo instabilidade, sobretudo a dois níveis: o dos investimentos futuros; e, o que se prende com a evolução das contas públicas. Aliás ainda recentemente o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou dados sobre a confiança dos consumidores neste último trimestre do ano e aquilo que resulta da sua análise é que a mesma caiu, o que não se verificava há vários trimestres. Creio que tal será fruto de tudo estar ainda muito “à flor da pele” e acredito que, naturalmente, até ao final do primeiro semestre de 2016, esta ausência de confiança terá tendência a esbater-se, dando lugar a que possamos prosseguir, sem sobressaltos, o nosso caminho enquanto país.

 

Nota: Não é demais recordar que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.