iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

Neste iTurismo, Atilio Forte perspectiva o ano que acaba de iniciar, tanto a nível global como em Portugal, e o impacto que eventuais situações económicas e sociais possam ter na actividade económica do turismo.

 

Turisver.com – O que é que perspectiva para este ano, a começar pela área internacional. Quais são as principais movimentações no mundo turístico que podemos esperar?

 

Atilio Forte – 2016 vai ser um ano extremamente complexo para o mundo e, consequentemente, para a sua maior actividade económica, porque há um conjunto vastíssimo de situações que podem influenciar a actividade turística, positiva ou negativamente, uma vez que estão encadeadas.

Sinteticamente, destacamos aquelas que nos parecem ser mais importantes:

Desde logo, o clima de “guerrilha urbana global”imposto pelo terrorismo, que estamos a viver, e que tenderá a alastrar, apesar de todos os esforços levados a cabo para o suster por parte da comunidade internacional.

Paralelamente, uma questão que está interligada com esta, é a dos migrantes que, pela falta de solidariedade humana, continuará na ordem do dia, nomeadamente, no seio da União Europeia, onde infelizmente acreditamos que haverá a tentação de adoptar, cada vez em maior número, medidas securitárias.

A acrescer a estas situações temos as tensões que se têm vindo a verificar (e a agravar!) no Médio Oriente, sobretudo entre os dois grandes países, no que à religião respeita, representativos das duas principais correntes religiosas – estamos a falar do Irão e da Arábia Saudita, ou seja de xiitas e de sunitas -, pelas consequências e repercussões que podem vir a ter à escala global, não apenas na estabilidade política do Mundo, como da Região, como inclusivamente no custo do petróleo.

E a propósito da evolução do preço do crude, convirá referir que esta é uma das grandes incógnitas para 2016, uma vez que temos, por assim dizer, dois tipos de análises opostas: uma que defende que o preço tendencialmente irá subir para cerca de 50 a 60 dólares por barril e, uma outra, que defende que o preço continuará a cair dos cerca de 30 dólares, em que se encontra actualmente, para os 20 ou, até, para os 15 dólares por barril.

E como se tudo isto não bastasse, temos ainda três grandes economias mundiais dos chamados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em sérias dificuldades -neste momento com a Rússia e o Brasil em recessão e a China em continuado abrandamento -, às quais podemos adicionar o caso de Angola, pelos reflexos que tem em e para Portugal, pois embora não faça parte dos BRICS, é muito relevante para nós.

Finalmente, será importante observarmos o comportamento das taxas de juro dado que se se mantiverem baixas, tal será bom para o consumo, logo para as empresas, que são quem cria riqueza de modo mais sustentável, uma vez que terão que responder a uma maior procura de bens e serviços em resultado da menor poupança por parte das pessoas.

Feito este enquadramento e falando agora das questões turísticas, apesar deste cenário pouco animador do ponto de vista macro, julgamos que as perspectivas para o turismo vão continuar a ser de crescimento global e acima da média da economia mundial, em conformidade com as projecções da própria Organização Mundial do Turismo (UNTWO).

No entanto, alguns mercados importantes, como acabámos de fazer referência, nomeadamente o chinês, o russo e o brasileiro, pelas razões apontadas, terão tendência para viajar menos para o estrangeiro e realizar mais viagens dentro de portas.

Em contrapartida, se a quase paridade entre o Euro e o Dólar se mantiver, quer a Europa, quer os países da zona Euro vão ter uma segunda oportunidade, em 2016, para captarem uma maior fatia do mercado norte-americano, o que não lograram fazer em 2015.

Tal como a manter-se a baixa do preço do petróleo, as viagens de avião poderão ficar mais baratas, o que criará novos focos de oportunidade para os consumidores viajarem.

Finalmente, creio ainda que, genericamente, e no que ao turismo respeita, iremos assistir, ao longo do ano de 2016, a grandes inovações na actividade, sobretudo impulsionadas por novas potencialidades tecnológicas, mas não só, que assegurarão também uma melhoria dos processos de gestão, dos quais decorrerá uma optimização dos resultados operacionais das empresas turísticas.

E, neste ponto, não resisto a abrir um parêntesis porque acredito ainda que será muito importante, durante todo este ano, estarmos atentos às novidades ao nível da concentração dos grandes grupos turísticos, principalmente no sector do alojamento, que poderá continuar a acontecer.

 

Turisver.com – Que consequências poderão ter estes factores para Portugal sendo que é conhecido que uma fatia da contratação com alguns players europeus, que são os nossos principais mercados, já está feita, o que dá uma chancela positiva para o ano de 2016?

 

Atilio Forte – Do ponto de vista português e olhando para a evolução da actividade a nível nacional, mais do que a tendência de crescimento do número de turistas que, acreditamos, se manterá, iremos também assistir a uma melhoria das receitas geradas e, muito provavelmente, podemos chegar ao final do ano com números quase idênticos aos de 2007. Portanto, isto quer dizer que, do ponto de vista interno, existem todas as razões para estarmos, neste momento, optimistas.

Razões essas que, com o aumento do poder de compra decorrente das medidas já implementadas pelo Governo – ou em vias de o serem -, e com a adopção, recuperação ou reposição dos feriados e de outras regalias sociais – a breve prazo -, irão também impulsionar um pouco mais o turismo interno.

Por outro lado, o primeiro pacote de medidas já anunciado pelo Governo para o turismo, onde se incluem os ajustes no regime jurídico do alojamento local, o relançamento dos fundos de captação quer de eventos, quer de rotas áreas e a extensão deste às dos cruzeiros, que vão ser feitos durante o ano, quer aqueles que, do ponto de vista mais imediato iremos ter durante o primeiro trimestre, como sejam os novos apoios ao investimento, tais como os protocolos bancários, o fundo de investimento imobiliário, a agilização do novo quadro comunitário de apoio – Portugal 2020 – e a baixa do IVA na restauração que irá ser consagrada no próximo Orçamento de Estado, são também argumentos de peso que nos dão optimismo acrescido do ponto de vista nacional.

Contudo, será muito importante que o Governo resista à tentação de entrar nas habituais derivas legislativas, ou seja, procurar mexer ou alterar tudo o que foi feito pelo seu antecessor, dado que tal quase nunca traz estabilidade quer ao tecido empresarial, quer aos investidores.

Falando de temáticas a acompanhar, ao longo de todo o ano, do ponto de vista nacional, será com muita curiosidade que iremos seguir alguns assuntos, de entre os quais destacamos as eventuais alterações à legislação laboral, nomeadamente, as questões dos bancos de horas, da flexibilidade dos tempos de trabalho e dos contratos a termo certo, que podem vir a prejudicar directamente a actividade turística.

Também será importante observar se a baixa do IVA do golfe irá acompanhar a da restauração, a eventual adopção, ou não, da solução Portela+1, sendo esse mais 1 o Montijo, para o novo aeroporto de Lisboa, e a maior incógnita de todas, como aqui referimos na passada semana, a reversão do processo de privatização da TAP, sem que continue a haver uma política para a aviação em Portugal e sem que a aviação continue a ser considerada como parte integrante e peça fundamental da actividade turística.

Finalmente, um dos pontos que mais apreensão nos causa é vermos, por um lado, como é que o movimento associativo vai reagir a estas propostas já avançadas pelo Governo, uma vez que não foi pró activo e, por outro lado, ver se, de uma vez por todas, haverá vontade, nomeadamente política, para definir uma estratégia para o turismo nacional, que inclua a aviação, e que a todos – quer o sector público, quer o sector privado – mobilize e responsabilize já que, certamente, vamos ter mexidas no documento prospectivo “Turismo 2020” que, é bom recordá-lo, foi aprovado um pouco precipitadamente pelo anterior Governo em final da legislatura e sem ter ouvido ninguém.

Pessoalmente verifico que, dado estarmos no início, quer de um novo ciclo político, quer de um novo ciclo económico, as associações empresariais têm aqui uma oportunidade de ouro para voltarem a liderar e a marcar a agenda turística do país embora, para ser completamente sincero, não creia que tal venha a acontecer.

Em conclusão, o turismo vai continuar a crescer à escala global e nacional em 2016, mas este será um ano, por todos os motivos que sinteticamente aqui procurámos elencar, extremamente desafiante, e cá estaremos, a par e passo, para irmos comentando e analisando o desenrolar os principais acontecimentos tanto em Portugal como no Mundo.

 

Nota – Não é demais recordar que esta é uma rubrica em que privilegiamos o envolvimento com os leitores que podem colocar questões a Atilio Forte através do e-mail iturismo@turisver.pt.