iTurismo – Comentário Semanal de Atilio Forte

As preferências dos consumidores em 2016, a desaceleração da hotelaria na China e o expectável aumento das receitas hoteleiras em Portugal preenchem os “Tópicos da Semana” deste iTurismo em que Atilio forte escolhe para “O + da Semana” a reconfirmada baixa do IVA da restauração. O reforço das rotas da TAP para os EUA e a promoção de Portugal em Espanha são os temas do habitual Comentário.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Quais as preferências dos consumidores em 2016?: No caso do sector do alojamento parece não existir dúvidas: serviço personalizado, adaptação à tecnologia, criatividade na oferta de F&B, ambiência das unidades e arte, são os factores no topo das preferências dos consumidores. Tal significa que o desafio imediato é levar as empresas a saírem da sua zona de conforto e a pensarem “fora da caixa”, de modo a criarem experiências únicas e multifacetadas.
  • Hotelaria na China desacelera: A Associação de Hotelaria da República Popular da China veio recentemente afirmar que as grandes cadeiras hoteleiras, com presença à escala global, estão a reduzir a sua presença naquele país. Contudo, tal tem-se revelado uma oportunidade para os grupos domésticos que procuram preencher esse espaço.
  • Regresso ao passado: Espera-se que a procura continue a bater sucessivos recordes, o que significa que os preços aumentarão, particularmente no alojamento, apesar do (também) impressionante crescimento da oferta. Assim, em 2016, perspectiva-se um aumento das receitas por quarto disponível (RevPAR) na ordem dos 5,7%. Caso tal se confirme alcançar-se-ão resultados ao nível dos registados em … 1981(!).

 

Comentário

 

Turisver.com – A TAP anunciou o reforço das rotas entre Portugal e os Estados Unidos da América, conjuntamente com a vinda de dois novos aviões que irão possibilitar a criação de duas novas rotas entre ambos os países. O mercado já fala sobre esta estratégia e têm-nos chegado algumas questões sobre o tema. No seu entender, que reflexo pode esta aposta vir a ter no nosso turismo?

 

Atilio Forte – Deixe-me começar por recordar – e reforçar – o que aqui temos vindo a enfatizar sobre a “questão TAP”, nomeadamente porque é, presentemente, o maior desafio com que o turismo português se confronta. Todos sabemos bem a importância crítica que o transporte aéreo tem para o crescimento harmonioso e sustentado da actividade turística, pois se os turistas não tiverem como chegar a qualquer que seja o destino, dificilmente o mesmo será bem-sucedido no panorama turístico.

Embora tal seja uma evidência, infelizmente nem sempre é devidamente percepcionada por todos quantos têm responsabilidades na matéria.

A prová-lo está a forma como toda a questão da privatização da companhia tem vindo a ser gerida pelo poder político, mormente, pelo anterior e pelo actual Governo pois, ainda que involuntariamente, tem colocado sérias reticências acerca dos verdadeiros objectivos que se pretendem atingir. A sensação que dá, é que se pretende reparar um erro (o da privatização apressada, em final de Legislatura e sem reunir os necessários consensos), cometendo outro ainda maior (revertendo o processo, pretendendo que os privados invistam mas que o controlo do capital fique nas mãos do Estado e não tendo em conta regras comunitárias que impedem a entrada de dinheiros públicos em qualquer empresa – mesmo se detida parcial ou totalmente pelo Estado).

É uma sensação de “déjá vu”, que não augura nada de bom, e que até à segunda metade da década de ’90 foi, em parte, responsável pelo acumular sucessivo de maus resultados por parte da TAP (a outra parte ficou a dever-se à ausência de know-how específico na sua gestão, fruto de sucessivas nomeações de pendor político).

E, como se tal já não bastasse, tudo parece ser feito sem uma estratégia (se ela existe os portugueses desconhecem-na), e sem tomar em linha de conta os alertas do “país turístico” para as repercussões que tal pode vir a ter quer no turismo, quer na economia nacional.

Longe vão os tempos das chamadas “companhias de bandeira”, algo que parece que os nossos decisores políticos ainda não se deram conta… Como às vezes parecem desconhecer que a aviação comercial é, porventura, o mais competitivo sector da economia, à escala planetária.

Fizemos esta (longa) introdução porque não podemos dar resposta à pergunta colocada sem ter em consideração o cenário que tudo pode decidir. Ainda hoje nos recordamos dos tempos em que se abriam e fechavam rotas apenas “porque sim”, por palpite… E o mais preocupante é que se começam novamente a ouvir alguns palpites.

Felizmente, não é esse o caso no que toca aos Estados Unidos da América. Senão, vejamos:

É do domínio público que a Europa, principalmente os países da Zona Euro, não tem estado a aproveitar, pelo menos do ponto de vista turístico, a quase paridade cambial que se verifica – há quase um ano – entre o euro e o dólar. Tal quer dizer que pouco ou muito pouco tem sido feito para captar turistas oriundos da maior economia do Mundo – que, ao que tudo indica, continua paulatinamente a crescer -, talvez por, na última década, nos termos habituado a não ver os americanos optarem pelo “Velho Continente” em razão da taxa de câmbio.

Como pública também é a situação de recessão económica porque passam alguns dos nossos principais mercados – e por isso dos mais servidos pela TAP -, dos quais se destacam o Brasil e Angola.

Ora nada fazer, teria como consequência mais imediata maus resultados para a empresa – em razão da previsível quebra de tráfego – e, consequentemente, menos turistas para Portugal.

Parece-nos pois acertada a decisão da equipa de gestão da TAP em reforçar algumas rotas para os EUA (Miami, por exemplo) e abrir outras (pelo menos duas ao que sabemos: Boston e Washington), porque toma a iniciativa e aproveita uma oportunidade de negócio concreta, para além de, simultaneamente, precaver-se contra óbvias quebras em mercados (e rotas) mais tradicionais. E, claro está, quando se investe num novo e extremamente competitivo mercado – sobretudo se for o norte-americano – convirá fazê-lo com um bom e moderno produto (daí a necessidade de novos aviões).

Para o turismo nacional esta poderá ser uma excelente aposta e o retomar de fluxos que, por inúmeras razões, se foram esboroando ao longo dos anos. Recorde-se que, no início da década de ‘70 do século passado, Portugal era a porta de entrada na Europa dos turistas americanos que agora, como então, continuam a ser dos que mais gastam e mais tempo permanecem num destino.

Convirá pois que “a política” não atrapalhe e que tenha presente que o turismo é uma actividade económica eminentemente privada, com provas dadas e onde as novas oportunidades exigem uma atitude proactiva, enérgica e rápida, própria do Mundo em que vivemos.

 

Turisver.com – Terminou no passado domingo a FITUR, em Madrid, onde Portugal teve uma das maiores representações de sempre. Na sua visita à feira, a Secretária de Estado do Turismo anunciou um reforço da verba para promoção turística neste mercado. Qual a sua visão sobre o trabalho que está a ser feito pelo nosso turismo em Espanha?

 

Atilio Forte – A participação de Portugal na FITUR – a maior feira de turismo do Mundo – não passou despercebida. Tanto ao nível da representação institucional, como dos agentes turísticos (públicos ou privados, nacionais, regionais ou locais), o nosso país marcou, na passada semana, uma fortíssima presença em Madrid que, atentas as perspectivas de negócio, se saldou como uma das mais positivas dos últimos anos.

Este quadro indica, com clareza, que existe uma boa margem de progressão da nossa oferta no mercado espanhol, seja pela sua proximidade, seja pela complementaridade do produto, seja ainda por, quase paradoxalmente, em muitos casos, possuirmos óbvios factores de diferenciação. Daí fazer todo o sentido reforçar-se os meios de promoção turística a afectar àquele mercado.

Assim, somos de opinião que o Governo decidiu bem ao tomar esta opção. Contudo, e como os meios mais do que finitos são, actualmente, exíguos, aquilo que se espera é que esse investimento em Espanha não seja feito “à custa” de cortes noutros destinos, também eles importantes para o nosso portfolio de mercados emissores.

Finalmente, convirá que haja participação – e consequente responsabilização – nas decisões que se prendem com o investimento a efectuar, para que dele possamos tirar o devido partido. É que esta (imprescindível) sintonia entre o sector público e privado nem sempre tem acontecido, com prejuízo evidente da actividade turística.

 

O + da Semana:

A agora (re)confirmada baixa do IVA na restauração dos actuais 23% para a taxa intermédia (13%) merece natural destaque, isto apesar de só entrar em vigor no próximo dia 1 de Julho – uma vez que as alterações fiscais apenas podem verificar-se no início de cada trimestre e dado não se perspectivar que o processo que envolve a aprovação do Orçamento do Estado para 2016 possa estar concluído antes do final de Março, início de Abril. Entretanto, aguardemos para ver o que se irá passar no golfe, isto é, se a taxa se manterá nos actuais 23% ou, como seria de todo o interesse para a competitividade da oferta turística portuguesa, se a mesma voltará aos 6%, valor de onde nunca devia ter saído. Se bem que é ao Governo que deve ser creditado o mérito desta medida – bem como o cumprimento de uma promessa eleitoral, algo nem sempre linear nos tempos que correm -, é bom termos presente que não fora a persistência e a tenacidade da AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal e, este momento poderia nunca chegar. Mais do que os empresários, mais do que os diferentes agentes turísticos, foi a AHRESP e os seus dirigentes quem nunca baixou os braços, quem incessantemente esgrimiu argumentos e, mesmo quando parecia estar isolada a clamar no deserto, quem manteve acesa a chama da esperança (e da justiça!). Por isso é merecedora do tributo do turismo português!