iTurismo: Comentário Semanal de Atilio Forte

A economia de partilha, a criação de uma equipa especializada para captação de congressos e eventos e o desenvolvimento do catering na hotelaria são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte escolhe para “O + da semana” a conclusão de um novo PENT até final do ano. O “Comentário” versa sobre o impacto no mercado interno do aumento das reservas por operadores estrangeiros no Algarve e as consequências que a procura por crude pode ter no turismo algarvio.

 

Tópicos da Semana:

  • Às voltas com a História: A economia de partilha é um dos temas de maior actualidade à escala global. A sua importância é incontornável em quase todas as áreas de actividade económica. Também por isso o turismo não lhe está imune. O qualquer coisa “sharing” (alojamento, carro, até o sofá…) leva-nos aos primórdios da vida humana, em sociedades pré-moeda onde a troca imperava. Obviamente que qualquer um pode “meter a cabeça na areia” e fingir que nada se passa; ou então adaptar-se e aproveitar a oportunidade…
  • Correcção de rota: São excelentes as notícias que o Governo anunciou para o segmento das reuniões, incentivos, congressos e eventos (MICE) ao criar, no âmbito do Turismo de Portugal, uma equipa especializada na sua captação de forma mais assertiva. Não se trata propriamente de uma novidade. Mas é uma medida plena de oportunidade, que repõe algo que se tinha vindo a perder, aliás como há muito aqui vínhamos dando nota. Corrigir para fazer mais e melhor, mais vale tarde do que nunca!
  • Hotelaria desenvolve catering: Esta é uma nova tendência internacional que, quando bem feita, se tem vindo a revelar extremamente proveitosa (e lucrativa!) para o sector hoteleiro, pois os hotéis aproveitam a sua marca, qualidade dos serviços prestados e capacidade negocial para se posicionarem junto dos organizadores de eventos com uma oferta altamente competitiva.

 

Comentário

 

Turisver.com – Há vários operadores turísticos a comprar milhares de camas no Algarve para 2016 e 2017 e já existem mesmo unidades a fazer stop sales a agências e operadores portugueses. Teme-se no mercado que não haja camas para os portugueses no período do Verão e que os preços venham a ter aumentos colossais face aos praticados o ano passado. Como olha para esta situação?

 

Atilio Forte – Acima de tudo devemos desdramatizar a situação e não entrarmos em alarmismos precipitados, pois isso pode acabar por ser prejudicial para o destino Algarve e, consequentemente, para a actividade turística. Contudo, o simples facto de existir alguma apreensão acerca desta matéria, vem provar alguns aspectos que valerá a pena termos presentes, como sejam:

Desde logo, que Portugal e, principalmente o Algarve, tem beneficiado da conjuntura internacional, particularmente do desvio de fluxos turísticos do Magreb e do Mediterrâneo Oriental para a Região, fruto da instabilidade vivida naquelas paragens. Embora tal seja uma evidência – como temos vindo a alertar -, tem sido algo nem sempre assumido por alguns agentes turísticos nacionais, sobretudo a nível oficial/público.

Em seguida, termos em consideração que o simples facto desta ser uma possibilidade real, isso prova o quão frágeis e vulneráveis, do ponto de vista financeiro, ainda se encontram as empresas nacionais que operam no e com o Algarve – não apenas aí, mas esta é a parte do país que está em análise -, tanto no sector do alojamento, como no da distribuição. Por isto, voltamos a insistir que a criação de instrumentos que permitam e contribuam para a recapitalização das empresas turísticas deve ser uma prioridade.

Finalmente, isso poderia indiciar que essas mesmas empresas nada tinham aprendido com o que se passou nos anos mais recentes, sobretudo no período entre 2009 e 2013, em que não fora o mercado interno, mesmo tendo presente todas as dificuldades e constrangimentos por que passámos, devido às medidas resultantes da assistência financeira internacional a que Portugal esteve sujeito, e os resultados menos bons poderiam ter tido reflexos bem mais nefastos.

Evidentemente que não podemos ser ingénuos, mais a mais porque essa é uma atitude que não pode existir no mundo dos negócios. No entanto, somos daqueles que acreditam que, em primeiro lugar e em qualquer que seja a situação, devemos contar sempre connosco, com quem está mais próximo de nós, isto é, com quem nos momentos menos bons nos deu uma resposta positiva. O que quer dizer que o Algarve e os seus agentes económicos seguramente que não irão tratar o mercado interno como descartável, como se fosse alguma coisa de que já não precisam, nem dependem, em virtude dos ventos da bonança turística terem voltado a soprar no destino. Até porque, como bem sabemos, eles podem ser efémeros…

Obviamente que isso não significará que os preços, principalmente no caso do alojamento, se manterão estáticos, não reagindo à mais importante e elementar regra do mercado: a da oferta e da procura. Será bom recordarmos que, não apenas no Algarve mas em todo o país, os preços ainda se encontram longe dos praticados há largos anos, pese embora, entretanto, grande parte da nossa oferta se tenha modernizado (o que é diferente de inovado), possuindo padrões em termos de qualidade/preço muito acima da média europeia.

Um dos maiores desafios que actualmente se nos coloca – tanto ao Algarve, como aos demais destinos nacionais – é o que fazer para retermos (fidelizando-os) os fluxos dos quais estamos a beneficiar a título “extraordinário”, num futuro que esperemos não seja longínquo. Esta é uma das mais urgentes questões para a qual temos que preparar uma resposta, sob pena de acabarmos por ser apanhados desprevenidos.

Em conclusão, acredito que o que se passou nos anos ’80 e ’90 do século passado, onde muitos portugueses compravam as suas estadas no Algarve a operadores ingleses, alemães, holandeses e outros, quer pelo preço, quer pela disponibilidade, não mais se repetirá. Até porque hoje a oferta – quem tem o produto -, sabe bem que quem dita as regras, quem é dono da decisão, é o consumidor, seja ele português ou de qualquer outra nacionalidade e, por essa razão, penaliza fortemente aqueles que o enjeitam ou não o considerem.

 

Turisver.com – A procura por poços de crude ao largo do Algarve está a deixar preocupados os agentes turísticos da região dadas as consequências negativas que pode trazer na percepção dos turistas. No seu entender podemos estar perante mais um obstáculo ao crescimento do sector nesta região, a curto prazo?

 

Atilio Forte – Julgo que ainda é muito cedo para que possamos tirar quaisquer conclusões, até porque o que está neste momento em causa é a prospecção de petróleo. Ora avaliar da existência específica do chamado “ouro negro”, não significa uma imediata exploração, pois pode dar-se o caso do mesmo existir mas em quantidade que não justifique o investimento na sua extracção.

Embora tenhamos presentes as carências da economia nacional e a imperativa necessidade que temos em conquistar novos mercados e negócios, creio que não menos verdade é que jamais poderemos pôr em causa a sobrevivência sustentada de outras actividades económicas, que têm demonstrado o seu sucesso ao longo de décadas, como acontece com o turismo, no Algarve.

Todos temos noção que, se um dia a exploração de petróleo viesse a ser uma realidade naquela Região, e por mais medidas e garantias de protecção ambiental que fossem pedidas, tomadas e asseguradas, correríamos sempre o risco de um acidente, o que devastaria – turisticamente falando – o Algarve, pois qualquer actividade humana não está imune a erros (para além de causas naturais que não dominamos).

O turismo há muito demonstrou (e garantiu!) ser a actividade económica que mais riqueza, emprego e desenvolvimento pode aportar a Portugal. Para além disso detém a liderança da economia à escala planetária e, tão ou mais importante, é a única área da economia – indústria do petróleo incluída – que seguramente irá crescer muito acima da média mundial, nas próximas três décadas.

Por outro lado, uma das principais razões que um consumidor analisa quando escolhe um destino turístico é a sua relação com a preservação e conservação ambientais, a sua interacção com a natureza, já que hoje em dia a nossa consciência colectiva nos leva a estarmos alerta para protegermos aquela que é a “nossa casa comum”, o planeta azul – a Terra.

Por todas estas razões, e neste caso em concreto, creio não existirem dúvidas que o “petróleo” do Algarve, o principal “combustível” da sua economia, tem sido e será o turismo. Arriscar em algo que possa pôr em causa a sustentabilidade da actividade, por mais tentador que seja, pode comprometer o futuro da Região, mas também o do país, já que estamos a falar da nossa principal marca turística.

Mas, a vida é feita de opções. Assim, e mesmo que se venha a confirmar a possibilidade de exploração de petróleo ao largo da costa algarvia, acabaremos todos – responsáveis políticos e sociedade em geral – por termos que conscientemente optar, entre o “ouro negro” e o “ouro dourado e azul” das praias e do mar do Algarve.

 

O + da Semana:

O Governo anunciou que até ao final do ano pretende concluir um novo PENT – Plano Estratégico Nacional do Turismo, que consagre um conjunto de compromissos, no médio e longo prazos, contando para tal com a participação, sem excepção, de todos os agentes turísticos. Mais do que um anúncio, que se saúda, esta é uma oportunidade de ouro para planificar, responsabilizando, o futuro do turismo nacional. “Ser” público ou privado pouco importará face ao titânico desafio com que nos deparamos. Certamente, todos não seremos demais para o levar de vencida. Por isso somos daqueles que acreditam ser incomensuravelmente mais importante olhar para o que nos une do que para o que nos divide, com pragmatismo, propostas e/ou objectivos realistas que consagrem, por um lado, a pluridisciplinaridade da actividade económica do turismo e, por outro lado, o seu papel fulcral no desenvolvimento futuro de Portugal. Nas nossas mãos reside a possibilidade de provarmos ao país – e demonstrarmos a nós próprios – que o resultado final pode ser superior à soma das partes!