iTurismo: Mais Confiantes (!?), por Atilio Forte

A eleição, pela terceira vez, da cidade do Porto como “Melhor Destino Europeu” é a escolha de Atilio Forte como “O + da Semana”. Os “Tópicos da Semana” versam sobre empregos únicos na hotelaria, a nova rota da Qatar Airways entre a capital do país e Auckland, na Nova Zelândia, e ainda um inusitado inquérito realizado por uma OTA britânica. No habitual “Comentário” é abordado o indicador de confiança dos portugueses e o turismo madeirense, recentemente elogiado pelo secretário-geral da OMT.

Tópicos da Semana:

  • O que é que era capaz de fazer por uma viagem de sonho?: Num inquérito levado a cabo junto de 1.000 consumidores ingleses, durante o passado mês de Janeiro, a agência de viagens on-line britânica “Loveholidays” quis saber quem é que estaria na disposição de trocar um mês de sexo por umas férias de sonho? De acordo com os resultados obtidos, 33% dos inquiridos respondeu positivamente à questão, sendo que a mesma granjeou mais adeptos entre o género feminino (38%) do que entre o masculino (28%). E à pergunta que outros sacrifícios é que estaria disposto(a) a fazer pelo mesmo objectivo, nomeadamente abdicar dos hábitos diários de higiene? 40% também responderam afirmativamente, sendo que 10% referiram nem se importarem de deixar de tomar banho…
  • Empregos únicos na hotelaria: As profissões turísticas têm vindo a evoluir, principalmente nos hotéis, de modo a acompanharem os desejos de clientes cada vez mais ávidos do único, do diferente, do irrepetível. Por isso, aqueles que já pensavam ter visto de tudo um pouco, não devem estranhar deparar-se com novas propostas de emprego, tais como: caçador(a) de trufas; instrutor(a) de sereias (para ensinar a vestir, despir e nadar com um fato de sereia); ou até, massagista de cães.
  • O Mundo mais perto: A Qatar Airways inaugurou recentemente uma nova rota que liga Doha (capital do Qatar) a Auckland (maior cidade da Nova Zelândia). Nada de muito surpreendente caso não se tratasse do voo comercial mais longo do Mundo. De acordo com as informações divulgadas, os 14.535 km serão percorridos em 16h20m na ida e em 17h30m na volta (devido aos ventos contrários) por um Boeing 777. Este voo vem assim superar o operado pela Emirates Airlines entre o Dubai e Auckland, que era o detentor do anterior recorde (14.200 km).

 

Comentário

Turisver.com – Segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em Janeiro o indicador de confiança dos consumidores atingiu o melhor resultado desde Abril de 2000,  dados positivos que também se expressam ao nível das empresas. Na sua opinião estes indicadores poderão ter efeitos no consumo ao nível das empresas turísticas?

Atilio Forte – É óbvio que a melhoria tanto do indicador de confiança dos consumidores, para níveis que não se verificavam há mais de uma década e meia, como da inversão do indicador do clima económico, que nos últimos meses de 2016 tinha regredido, são uma boa notícia para o país, para a economia nacional, numa palavra para todos nós.

Por isso será natural que a actividade turística beneficie deste “estado de espírito” por parte de quem consome e venhamos a assistir a um aumento da venda dos produtos e serviços comercializados pelos seus agentes económicos, confirmando o que se vinha pressentindo, atento o crescimento do volume de reservas verificado, principalmente para as épocas de maior procura (Páscoa e Verão).

Aliás, já se antevia uma melhoria global destes indicadores (agora divulgados pelo INE), uma vez que, para além do turismo, a predisposição para um maior consumo também se registava noutras áreas da economia, como no sector imobiliário – com os preços das casas a aumentarem – ou no sector automóvel – com as vendas de carros a subirem.

Mas voltando à actividade turística, restará agora sabermos quais serão os destinos que mais beneficiarão com este previsível crescimento, ou seja, se o seu maior reflexo será no turismo interno ou se, pelo contrário, tal significará mais viagens para paragens no estrangeiro. É que os efeitos económicos não são iguais, como se sabe.

Mesmo a alguns meses de distância do pico das reservas, e caso não existam sobressaltos a nível internacional, antecipamos que se assistirá a uma maior procura por destinos fora de Portugal, devido à conjugação de dois factores: desde logo pelo seu natural “apelo” e pela vontade de “sair daqui” por parte dos consumidores portugueses; e, paralelamente porque, quer devido ao trabalho que os diversos agentes turísticos têm vindo a realizar, quer considerando a conjuntura internacional que atravessamos, a procura pelo nosso país tem subido – como atestam os resultados turísticos dos últimos anos –, o que se repercute no aumento antecipado de reservas (e compra em “firme”) por parte dos grandes operadores turísticos internacionais e, consequentemente, à confirmação da “velhinha lei” da oferta e da procura, que conduz à subida dos preços a qual, em muitos casos, revelar-se-á incomportável para o “bolso” dos portugueses.

Caso tal se confirme serão as economias dos países de destino a beneficiarem mais “desta maior confiança” dos consumidores nacionais e não tanto o nosso país.

Por último, em nossa opinião e apesar deste clima mais “distendido” revelado pelos consumidores nacionais, esta é uma situação que convirá acompanharmos de perto, não a dando por totalmente adquirida. É que na sua origem encontram-se alguns factores que não estão plenamente consolidados, como sejam e entre outros, as baixas taxas de juro pagas pela banca aos depositantes que, presentemente, não incentivam a poupança (as quais previsivelmente irão subir, ainda que ligeiramente, ao longo de 2017), o baixo valor da inflação (que também se prevê que aumente ao longo deste ano) e a manutenção de um crescimento económico anémico (que continua muito abaixo dos almejados 3% ao ano – 2016 terá registado 1,4%), para só darmos três exemplos.

Se aos mesmos adicionarmos o aumento dos juros da dívida pública nacional (que a manterem-se obrigarão à tomada de medidas – leia-se impostos/perda de regalias – por parte do Governo) e a incerta conjuntura económica internacional (com as eventuais alterações na política externa dos Estados Unidos da América e as consequências do “Brexit”, à cabeça), verificamos, mesmo sem qualquer pessimismo associado, que existem “condimentos” de sobra para sermos contidos e prudentes na leitura dos indicadores em análise.

 

Turisver.com – Os indicadores de ocupação hoteleira anual na Madeira são de 71%, o que levou o Secretário-Geral da Organização Mundial do Turismo, Taleb Rifai, a afirmar na sua recente visita à ilha que “Nenhum destino, nenhuma cidade, nenhum país tem um nível de ocupação deste calibre”. Na sua opinião como é que devemos olhar para estes dados?

Atilio Forte – Desde há muitos anos que a Madeira – e todos os que aí se dedicam à actividade económica do turismo – nos vem dando excelentes exemplos sobre como o turismo não só deve ser encarado e tratado, seja pelos agentes públicos, seja pela iniciativa privada, mas também como é que um destino se reinventa, quer para manter-se anos após ano com excelentes resultados, quer para superar as adversidades com que se depara, sejam elas fruto de uma crise económica internacional e nacional, sejam resultantes de catástrofes (como cheias ou incêndios).

Mas mais do que olharmos para a taxa média anual de ocupação hoteleira – que embora atinja valores significativos no panorama internacional (não será, porventura, a maior do Mundo) –, julgamos ser bem mais importante termos presente, por um lado, que esse indicador foi alcançado apesar do aumento da oferta verificado (não de supetão, mas gradual) e, por outro lado, que a receita que lhe está associada (RevPar – receita por quarto disponível) também vem registando progressos extremamente interessantes (a título de curiosidade, e de acordo com os dados do INE, em 2015 aquele indicador situou-se nos 41,30€ e considerando os valores contabilizados de Janeiro a Novembro do ano passado, o mesmo apresentava um valor de 48,90€, que corresponde a um aumento de cerca de 18,5%), os quais traduzem bem a percepção de valor que o cliente/turista atribui ao produto que lhe é oferecido/proposto.

Assim, consideramos da maior justiça o elogio que a UNTWO (Organização Mundial do Turismo), pela boca do seu mais alto responsável, teceu à Madeira e aos madeirenses, já que têm sido insuperáveis nas boas práticas postas ao serviço do desenvolvimento e crescimento sustentados da actividade turística e uma verdadeira “escola” para o país em como conseguir criar, com pleno êxito, “uma economia do turismo”, na qual os primeiros e principais beneficiários são os seus próprios residentes.

 

O + da Semana:

A cidade do Porto foi eleita, pela terceira vez, como “Melhor Destino Europeu” numa votação promovida pelo “site on-line European Best Destination” (edição 2017), sedeado em Bruxelas. Para obter esta importante vitória internacional teve que derrotar outros fortes contendores num lote em que se incluíam Londres, Amesterdão, Barcelona e Paris. Sublinhe-se que este triunfo foi alcançado com mais de 135.000 votos, provenientes de 174 países, de entre os quais se destaca a preferência atribuída ao Porto pelos consumidores da África do Sul, da Irlanda, da Suécia, dos Estados Unidos da América, da Dinamarca, do Canadá e do Reino Unido. Deve ainda referir-se que 56% dos votos foram oriundos do estrangeiro e 44% tiveram origem em Portugal, numa votação que, na opinião dos promotores, foi a “mais consensual” de sempre. Valerá a pena recordar que Zadar – cidade croata que detinha o título – obteve um total de 54.000 votos na edição de 2016. Este resultado ilustra bem a grande atractividade e o elevado potencial turístico da cidade do Porto – e por arrastamento de todo o Norte de Portugal – que, paulatinamente, vem afirmando-se como (mais) uma âncora do turismo nacional, enriquecendo a oferta turística portuguesa como destino de cultura, gastronomia e lazer. A todos quantos contribuíram (de forma mais ou menos anónima) para este êxito, endereçamos os nossos parabéns!