iTurismo: Da crise à oportunidade, por Atilio Forte

Portugal como destino alternativo para empresas que queiram deixar de ter no Reino Unido o centro dos seus negócios é um dos temas do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe como “Tópicos da Semana” o aumento da oferta hoteleira nos Emirados, os “novos” hostels e a fidelização dos clientes aos hotéis são os “Tópicos da Semana”. “O + da Semana” versa sobre a possível normalização das relações entre a Turquia e a Rússia.

 

Tópicos da Semana:

  • Ritmo imparável: Antecipando a edição de 2016 do famoso “Hotel Show”, evento que se realiza anualmente no Dubai – terá lugar no próximo mês de Setembro -, a gestora de investimentos e de serviços imobiliários JLL adianta que aí será feito o anúncio que mais 10.000 quartos (!?) estarão disponíveis, até ao final do ano. É caso para nos perguntarmos, até onde e até quando continuará a oferta a crescer naquele mercado dos Emirados Árabes Unidos?

 

  • Hostels: Definitivamente estão a deixar de ser o que eram, uma vez que nos últimos anos, pela incorporação de novos níveis de luxo, têm vindo a tornar-se cada vez mais “finos”, o que tem motivado uma alteração na percepção que os clientes têm/fazem deles. Já há mesmo quem – nalguns casos – os chame por “poshtel” ou “posh hostel” (“posh” = fino, em inglês).

 

  • Um passo em frente: Inúmeros estudos internacionais referem que as empresas turísticas têm uma enorme preocupação em captar clientes através dos seus sistemas de reservas online, mas usam muito pouco toda a informação recolhida para os reter. A comprová-lo estão os pesados investimentos efectuados em poderosos motores de reserva, em oposição à falta de tratamento e análise dos dados recolhidos, que possibilitariam uma melhoria dos serviços oferecidos, moldando as experiências disponibilizadas às preferências dos consumidores.

 

Comentário

Turisver.com – O Primeiro-Ministro defende que Portugal deve ser dinâmico e estar atento às empresas que poderão querer sair do Reino Unido. Várias foram já as que manifestaram a disposição de procurarem outros países para continuar o seu negócio como é o caso da easyJet que apresentou um pedido de certificado de operador aéreo (COA) noutro país da União Europeia. No seu entender, por sermos um país de gente qualificada na gestão turística, esta situação pode ser uma oportunidade?

Atilio Forte – Recordando o que aqui analisámos no comentário da semana transacta – totalmente dedicado ao “Brexit” e às suas consequências para o turismo nacional -, cremos que se impõe começar por dizer que a situação no Reino Unido continua extremamente confusa (senão mesmo ainda mais), o que apenas dá azo ao aumento das especulações.

Por entendermos que a saída do Reino Unido da União Europeia, a acontecer – o que presentemente não é totalmente líquido, como temos vindo a observar pelas notícias que nos vão chegando -, não será imediata, somos de opinião que deverá haver prudência na avaliação dos eventuais cenários.

Contudo, prudência não significa inacção. Assim sendo, acompanhamos as intenções do Governo português, assumidas ao mais alto nível, para que o “país” esteja atento a possíveis oportunidades de negócio e, muito principalmente, à captação de investimento estrangeiro, algo que Portugal precisa como “pão para a boca”. A eventual deslocação de sedes de grandes empresas para o nosso país seria, sem sombra para qualquer dúvida, a melhor das notícias para a economia nacional.

Ora dado que Portugal é, no plano europeu, um país altamente qualificado no que respeita à actividade turística, faz todo o sentido que as diversas entidades, sobretudo as públicas, procurem soluções que nos permitam posicionar-nos como local atractivo e alternativo para acolher todos quantos equacionem abandonar o Reino Unido enquanto centro dos seus negócios.

A grande pergunta que se nos coloca é como conseguir fazê-lo? Ou, se se quiser, como passar à prática esta intenção? E tal não se nos afigura uma tarefa (nada) fácil.

Mesmo não tomando em consideração a pequena dimensão do nosso mercado, existem outros constrangimentos que necessitam ser ultrapassados, para podermos ter sucesso neste propósito. E, à cabeça, deparamo-nos imediatamente com a questão da competitividade fiscal. Como se sabe esta é a principal razão pela qual muitas empresas nacionais já deslocaram as suas sedes para outras paragens, inclusivamente dentro da União Europeia, uma vez que, por um lado o peso e, por outro lado a imprevisibilidade (por oposição à estabilidade) dos impostos a que estão sujeitas internamente é, no mínimo, desincentivadora.

Assim sendo, como explicar a terceiros (atraindo-os) que nos assumimos como uma alternativa credível para os acolher – e aos seus negócios – se “afugentamos” as nossas próprias empresas?

E, repare-se, nem precisamos de aqui introduzir outras matérias, nomeadamente as de índole laboral (legislação, salários, etc.) ou de credibilidade e confiança, como o cumprimento das metas orçamentais (tão em voga nos últimos dias) … No entanto, quer se queira, quer não, tudo isto é ponderado e visto à lupa por qualquer empresa, quando considera estabelecer-se noutro país.

Sempre defendemos que “ficar de braços cruzados” não conduz a um qualquer lugar. Se nos resignarmos, nem vale a pena tentarmos!

Por isto estamos em crer – e é este o motivo pelo qual acompanhamos a postura afirmativa do Governo – que alguma coisa de novo e diferente deverá ser feita para dar corpo a este objectivo, sendo o “Brexit” apenas o pretexto (ou o acelerador) para o levar a cabo, para que se passe das palavras aos actos. Caso contrário, encontrar-nos-íamos perante palavras vãs…

De entre as várias soluções a adoptar, uma poderia ter a ver com a criação de uma espécie de “vistos gold” para as empresas que pretendessem vir a estabelecer-se (investindo) em Portugal. Naturalmente, desenhando-se critérios que incorporassem benefícios mútuos, tais como, volume de negócios, número de postos de trabalho gerados, agregação de valor, projecção e promoção da imagem do país, localização da sede (recordando o que anteriormente sugerimos a propósito da sazonalidade turística), estabilidade do quadro fiscal e legal, desburocratização de todos os processos relacionados com a administração pública, etc., e especialmente dirigidos a actividades económicas de capital e mão-de-obra intensivos – como o turismo -, de comprovada sustentabilidade territorial, ambiental e ecológica – como o mar (e o turismo) -, de elevado grau de inovação ou incorporação de tecnologia de ponta – como as ligadas à ciência e ao digital (e ao turismo) -, para apenas referirmos alguns exemplos.

Poder-se-á dizer que tal discriminaria as empresas que exercem a sua actividade diária entre nós. E, de certa forma, isso é verdade. Como também é verdade que, nesse particular, os próprios “vistos gold” também discriminam. Mas, a prazo, toda a economia ganharia. E ganhando a economia, ganhará o país, ou seja, ganharemos todos nós.

Portanto, este poderá ser um dos casos em que uma “crise” acaba em “oportunidade”!

 

Turisver.com – O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa “apadrinhou” na passada segunda-feira um novo projecto turístico, no âmbito da iniciativa ”Portugal Próximo”, que pretende, ao longo de 700 quilómetros da EN 2, ligar Chaves no Norte, a Faro no Sul de Portugal. Que pensa do envolvimento de personalidades como Marcelo Rebelo de Sousa em iniciativas de carácter turístico?

Atilio Forte – Como é notório sempre que há uma participação das mais altas figuras do Estado no sentido de contribuírem e estimularem o desenvolvimento de produtos ou projectos turísticos – como neste caso -, tal representa e significa um enorme incentivo quer para o turismo, quer para todos os que se envolvem na sua concepção, e isso é extremamente positivo.

No entanto, neste aspecto em concreto, a acção do Presidente da República, embora seja alguém que sempre conhecemos como grande defensor e promotor da actividade turística, assume uma particular relevância, uma vez que deu o seu Alto Patrocínio a um projecto turístico que não só unirá o país – de Norte a Sul – por uma estrada (a EN 2) que percorre, na sua totalidade, o interior como, com esse seu gesto, reconhece e estimula o papel de 32 autarquias a trabalharem em comunhão de esforços para o tornarem numa realidade situação que, como se sabe, nem sempre é fácil alcançar, atentas as idiossincrasias próprias de um país pequeno em território, mas com uma enorme História.

São ideias como esta, muitas vezes as mais simples – cuja tomada de iniciativa coube ao edil de Santa Marta de Penaguião (no Douro) -, que ao ganharem vida, fruto da sua vocação turística, melhor demonstram todo o esplendor do turismo e do muito que ele pode contribuir para o desenvolvimento mais homogéneo de Portugal.

Esperemos que esta ligação do país de lés-a-lés se torne rapidamente num produto tangível, pois se lhe for associada a “estória” certa (atenta a riqueza, o difícil será a escolha), poderá contribuir em muito para a dinamização do interior de Portugal, com todas as vantagens que lhe estão associadas.

 

O + da Semana:

Como tem sido público e notório os turistas russos têm vindo a privilegiar vários destinos das Caraíbas, quer como forma de “substituição” de outros mais tradicionais localizados no Norte de África – Tunísia e Egipto (sobretudo as estâncias em torno do Mar Vermelho) -, que tiveram de abandonar em resultado dos vários atentados terroristas aí verificados, quer como alternativa aos que por via política lhes passaram a estar vedados (ou desaconselhados) como a Turquia, devido ao incidente diplomático ocorrido no ano transacto (abate de um avião militar russo pelas forças armadas turcas), ou grande parte dos europeus, em consequência das sanções “da” e “à” União Europeia a propósito da “questão” da Crimeia. Coincidência, ou não, o facto é que após os bárbaros actos perpetrados na passada semana, no aeroporto de Istambul, os Governos russo e turco anunciaram o reatar das conversações, prevendo-se que a normalização das suas relações, nomeadamente as turísticas, possa vir a ter lugar dentro de um prazo relativamente curto (até ao final de 2016), a julgar pelas declarações do Presidente russo que estabeleceu como prioridade o levantamento das medidas que visam restringir a visita de turistas russos à Turquia. A ser assim, esta é mais uma prova da importância do turismo como a actividade económica que mais contribui para o desanuviamento das tensões, para a paz e para o entendimento entre os povos.