iTurismo: Demografia: Uma Doença Silenciosa, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte comenta duas situações que podem acarretar problemas e prejuízos à actividade turística em Portugal: por um lado, a perda de população que, segundo especialistas, tende a agudizar-se, por outro, as situações de prejuízo ambiental como aconteceu o ano passado com as vagas de incêndios, e já este ano com a poluição no Tejo.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Reino Unido com excelentes resultados no investimento hoteleiro, em 2017: De acordo com a imobiliária multinacional Savills o total do investimento imobiliário na hotelaria do Reino Unido, realizado no ano passado, ascendeu a 7,3 biliões de dólares, tendo representado um aumento de 32% se comparado com o ocorrido em 2016. Vale a pena sublinhar que em 44% dos 219 negócios efectuados estiveram envolvidos investidores internacionais.

 

  • Oferta turística inspira-se na televisão: O recém-inaugurado Hotel SnowVillage, localizado na Lapónia Finlandesa, tomou como fonte de inspiração a mundialmente famosa série de televisão “Guerra dos Tronos”, em resultado de uma parceria que os seus proprietários fizeram com o canal televisivo HBO Nordic. Assim, não é de estranhar que os seus 24 quartos tenham sido totalmente influenciados por elementos alusivos a esta série e, literalmente, esculpidos na neve e no gelo.

 

  • Projecção das viagens turísticas para 2018: Após o sólido crescimento registado em 2017, todas as previsões apontam para que as reservas de viagens turísticas continuem a aumentar por todo o Mundo. Contudo, uma análise mais detalhada às projecções disponíveis demonstra que a sua distribuição não será homogénea, uma vez que, por exemplo, enquanto é esperada alguma estagnação nos fluxos para os Estados Unidos da América, prevêem-se ganhos de dois dígitos para a região da Ásia-Pacífico.

 

Comentário

 

Turisver.com – Portugal continua a perder população e, segundo os especialistas, esta é uma situação que tende a agravar-se. Na sua opinião, que repercussões poderão vir a sentir-se no turismo, quer em termos da força de trabalho quer em termos do turismo interno?

Atilio Forte – Pese embora não sejamos especialistas em demografia, esta é uma das questões que a todos mais nos deve preocupar pois, se é verdade que ela claramente exemplifica o progresso da Humanidade, sobretudo devido aos avanços da ciência e do reflexo destes no aumento da esperança média de vida, tal significa também que cada vez teremos menos população activa, o que penalizará não só os sistemas de protecção social e o mercado de trabalho, como porá a nu a sustentabilidade demográfica do nosso país.

Nada disto seria muito grave se, pelo menos, a taxa de natalidade acompanhasse a de mortalidade, o que, infelizmente e como sabemos, não acontece. Ou seja, não só estamos a envelhecer, como não temos antídoto para contrariar este estado de coisas. É que apesar das pessoas morrerem mais tarde, o número das que nascem persiste em ser inferior. E isso, naturalmente, traduz-se em perda de população.

Por esta razão, impõe-se que comecemos por dizer que este é um dos maiores problemas que Portugal enfrenta actualmente embora, paradoxalmente, não lhe esteja a dar a devida atenção, ou melhor, a dimensão de urgência que o mesmo configura. É que, acreditamos, esta será uma das áreas na qual muito do nosso futuro estará em jogo, quer enquanto país, quer enquanto sociedade, quer ainda enquanto economia. Assim sendo, não é compreensível que esta problemática esteja ausente da “ordem do dia”, que a todos pouco preocupe e que não se torne numa das mais candentes da tão propalada necessidade de reformas estruturais de que constantemente falamos ou ouvimos falar.

Para melhor ilustrar o que acabamos de afirmar basta recordar que, de acordo com o relatório das Nações Unidas “World Population Prospects” (de 2015), estima-se que daqui a cerca de três décadas (2050) Portugal seja o 4º país mais envelhecido do Mundo (!) – e o segundo da União Europeia –, apenas superado pelo Japão, pela Coreia do Sul e por Espanha. Tal quer dizer que, em 2050, 40% da população portuguesa terá mais de 60 anos e, tão ou mais grave, que o nosso número de habitantes cairá dos actuais 10,4 milhões, para 9,1 milhões. Não espanta por isso que estejamos classificados como uma das seis economias mundiais com mais rápida taxa de envelhecimento.

Perante tão negro cenário não é difícil imaginar-se que, entretanto, se nada for feito, estaremos perante um processo de definhamento com consequências futuras óbvias e devastadoras.

A manter-se este quadro – de envelhecimento e de infertilidade –, e para respondermos directamente à pergunta que nos foi colocada, as perspectivas são de contracção da economia, porque haverá menos consumidores e menos trabalhadores, o que traduzir-se-á numa diminuição da compra de produtos e serviços turísticos, tanto no país como para fora dele, e de pessoas que trabalhem na actividade turística. Ora, numa economia já de si pequena como a nossa, isto poderá ser catastrófico.

No entanto, é legítimo que nos interroguemos: como contrariar, ou inverter, esta situação?

Em nossa opinião, para além de a resposta não ser simples nem fácil, devemos ter presente que tudo o que fizermos levará tempo que é, provavelmente, o bem mais escasso nas sociedades actuais.

Assim, e mesmo que por um qualquer passe de mágica conseguíssemos, de um momento para o outro, implementar medidas activas que promovessem a natalidade e as mesmas tivessem sucesso, estaríamos a contrariar a nossa caminhada em direcção ao precipício demográfico, mas subsistiria o problema das próximas duas a três décadas. E, como sabemos, Portugal, em geral, e o turismo, em particular (basta ouvir os empresários e as suas estruturas representativas), precisa com urgência de pessoas que produzam, que criem riqueza, que consumam … e, já agora, que (também) procriem.

Resta-nos, portanto, o recurso à imigração, atraindo para o nosso país gentes de outras paragens e origens, recebendo-as bem, integrando-as melhor e criando condições para que assimilem alguns dos nossos traços culturais e aprendam a gostar de Portugal. E neste aspecto em particular poderemos beneficiar, e muito, dos recentes êxitos que o turismo nacional tem vindo a alcançar, já que temos, seja enquanto país, seja enquanto povo, qualidades e características ímpares, que levam terceiros a facilmente apreciarem-nos e a sentirem-se bem entre nós.

Embora sem sermos exaustivos – nem tínhamos essa pretensão, atenta a magnitude do tema e o espaço disponível – cremos que estas são as duas mais importantes medidas que poderão ajudar a mitigar as consequências desta “doença silenciosa” de que padecemos.

Não são rápidas. Não são fáceis. Nem garantem a “cura”. Mas pelo menos alertam-nos para que comecemos a enfrentar o problema e, acima de tudo, dão-nos esperança e, quem sabe, talvez, um futuro mais rejuvenescido!

 

Turisver.com – Depois de na época de Verão e Outono termos assistido a vagas de incêndios que muito prejudicaram o turismo no interior, tivemos recentemente outra situação de prejuízo ambiental com a poluição no rio Tejo. Sabendo que hoje a informação corre o mundo num minuto, este acontecimento deve preocupar também o “trade” turístico?

Atilio Forte – Num Mundo como aquele em que vivemos, onde a informação é instantânea e, por consequência, os consumidores têm imediato conhecimento de tudo o que se passa, não temos a mais ínfima dúvida que todos os agentes turísticos terão ficado preocupados com o sucedido! Leviano seria pensar-se o contrário.

Para além do mais são inúmeros os estudos de opinião que apontam a preservação ecológica e ambiental como um dos motivos a que os turistas dão maior atenção, aquando da escolha de um destino para as suas férias.

Não é por isso aceitável que situações como a referida na pergunta continuem frequentemente a acontecer no nosso país, o qual ostenta presentemente – convirá que disso não nos esqueçamos – o título de “melhor destino turístico do Mundo”, sendo por esse motivo detentor de responsabilidades acrescidas, seja ao nível da preservação da sua imagem internacional, seja nos exemplos que projecta.

Mais a mais porque a competição entre destinos é global, feroz e implacável. E quando algo de anormal acontece não é fácil conseguir passar incólume e evitar as repercussões que tal tem nos mercados externos e os naturais (justificáveis, embora cruéis) aproveitamentos que deles a concorrência pode retirar.

Faz por isso todo o sentido que os diversos agentes turísticos, independentemente da sua índole – pública ou privada –, estejam cada vez mais atentos ao que acontece no país e adoptem uma postura mais actuante e, sempre que possível, preventiva e protectora, que preserve a qualidade global da nossa oferta e, desse modo, diminua ou evite este tipo de situações negativas.

Por outro lado, todos nós enquanto cidadãos temos o dever de exigir mais do Estado, sobretudo quando idênticos casos começam a ser recorrentes, uma vez que isso denota incúria na gestão e protecção das pessoas, bens e património.

E para aqueles que caem amiúde na tentação fácil de propalarem a nossa segurança ou a ideia de que Portugal é um país seguro, sublinhamos o alerta que tantas vezes aqui temos deixado: a segurança não se promove, garante-se! Basta apenas que olhemos para os vários episódios que tiveram lugar no último ano – dos incêndios no Centro, aos surtos de “legionella” na região de Lisboa, do roubo de armamento militar em Tancos, à queda de uma árvore na Madeira, dos inúmeros relatos de desacatos em estabelecimentos nocturnos de animação, a esta descarga que poluiu o Tejo –, para constatarmos que muito mais e bem melhor podia e devia ter sido feito.

É que o “sermos seguros” não respeita apenas aos atentados terroristas ou à criminalidade violenta. A segurança é muito, muitíssimo mais, do que isso. Não o querer compreender, ou pior fazer-lhe “vista grossa”, é algo extremamente perigoso e inaceitável.

Por tudo isto acreditamos verdadeiramente que, doravante, os cuidados a ter com os nossos rios – verdadeiras âncoras de atracção turística e de desenvolvimento económico, principalmente do interior do país – serão redobrados, para que não mais vejamos o nosso património natural e ambiental a ser delapidado.

 

O + da Semana:

 

O tema da igualdade de género na vida activa tem vindo, crescentemente, a ocupar um lugar de destaque na nossa sociedade, sobretudo no campo das prioridades e preocupações socioeconómicas, mormente das empresariais. E isso significa (felizmente) que estamos a progredir e que alguns estereótipos (aberrações) do passado começam, finalmente, a ser exorcizados! Contudo, na actividade económica do turismo, e não obstante os (ténues) avanços registados principalmente na corrente década, constatamos que ainda existem muito poucas mulheres nos lugares “de topo da gestão” ou, mesmo, de chefia. Não deixa de ser intrigante saber-se que, por um lado, o género feminino é o mais abundante na espécie humana e, por outro lado, sendo o turismo uma actividade de mão-de-obra intensiva, isto é, um gigantesco empregador à escala global (porventura o maior de todos!), tal não encontre tradução prática no dia-a-dia da condução dos destinos dos mais diversos agentes turísticos. Pelo que acabamos de expor urge que esta seja uma matéria que mereça por todos ser reflectida para que, mais do que apontar dedos acusatórios ou encontrar “bodes expiatórios”, se descubram caminhos mais rápidos que premeiem o mérito, a competência e todo um sem número de capacidades profissionais que um/a gestor/a turístico/a deve actualmente possuir, independentemente do seu género. Caso tal debate seja levado por diante, é nossa convicção que, muito rapidamente, começaremos a assistir a uma maior paridade entre homens e mulheres na gestão das mais variadas entidades turísticas.