iTurismo:  (Des)Emprego Jovem, por Atilio Forte

A Bolsa de Empregabilidade que pelo terceiro ano consecutivo se realizou no âmbito da Bolsa de Turismo de Lisboa, a carência de mão-de-obra em várias áreas da actividade turística, a valorização profissional e os salários pagos nas profissões do turismo, nomeadamente aos jovens com elevada formação, são algumas das questões analisadas por Atilio Forte no iTurismo de hoje.

 

Tópicos da Semana:

  • Experiências dão lugar às emoções: Há muito que aqui vimos alertando para esta alteração no comportamento da procura, isto é, de quem viaja. Como que a corroborar essa nossa chamada de atenção, podemos ler no recente Global Wellness Trends Report que “transformativo” será a “palavra de ordem” em 2018 pois, de acordo com os inúmeros especialistas que participaram na sua elaboração, as viagens “transformacionais” originarão uma nova vaga de inovação na actividade a qual, embora não descarte o foco nas experiências autênticas, tenderá a transformá-las em vivências emocionais mais profundas e introspectivas.

 

  • Hilton desenvolve micro marca urbana: De modo a melhor corresponder às exigências de uma procura cada vez mais específica, a conhecida cadeia hoteleira Hilton encontra-se a desenvolver um novo (micro) conceito de hotel para algumas das suas unidades, tendo como pontos de partida: a localização das ditas em ambiente urbano, quartos mais pequenos, gastronomia de excelência e uma alargada oferta de bebidas.

 

  • Hotelaria continua atenta à “boa forma” dos hóspedes: A disponibilização de espaços para preparação física e manutenção da saúde dos clientes, que teve início na década de 80, continua a ocupar um lugar fundamental na oferta dos hotéis, a qual é visível através dos próprios ginásios e spas de que dispõem, da variedade de equipamentos que oferecem e, mesmo, das parcerias que fazem com entidades locais, sobretudo quando estas se localizam nas suas proximidades. A verdade é que por detrás desta oferta está a consciência que o segmento turístico de saúde e bem-estar já ultrapassou os 400 biliões de dólares de receita anual!

 

COMENTÁRIO

 

Turisver.com – Realizou-se, no âmbito da BTL, a 3ª Bolsa de Empregabilidade, onde estiveram 60 empresas com 10.000 ofertas de trabalho em diversas áreas da actividade turística. Na abertura desta Bolsa, a Secretária de Estado do Turismo convidou os jovens a virem trabalhar no turismo e desafiou-os a exigirem “condições para garantir que são valorizados”. Como encara o repto lançado por Ana Mendes Godinho?

Atilio Forte – Impõe-se que iniciemos a nossa resposta dando duas notas prévias. Uma para destacar a continuada descida que a taxa de desemprego tem vindo a registar nos últimos anos no nosso país fruto, sobretudo, da melhoria da situação económica de Portugal, a que não tem sido alheia – é justo referi-lo! – a acção governativa. E, outra, para salientar o relevantíssimo papel que as actividades turísticas têm desempenhado na obtenção destes resultados.

Assim, e de acordo com os últimos elementos do Eurostat (Gabinete de Estatísticas da União Europeia), respeitantes a Janeiro passado, o desemprego continua a recuar, encontrando-se já abaixo dos 8% (7,9% para sermos exactos), situação que, embora não sendo ideal, contrasta com os quase 20% registados, há bem poucos anos.

Paralelamente, vimos constatando que os diferentes sectores que compõem a constelação turística começam a alertar para a escassez de mão-de-obra com que se sentem confrontados, razão que tem motivado com que muitas empresas e entidades publicitem as suas intenções de contratação de novos trabalhadores e realizem ou participem em acções com esse objectivo, de que esta 3ª Bolsa de Empregabilidade é exemplo paradigmático.

Ora, tomando em consideração tudo o que até agora referimos, a que devemos somar as taxas de crescimento que o turismo registará nas próximas décadas, as quais situar-se-ão muito acima da média da economia mundial, faz todo o sentido o apelo feito pelo Governo – citado na questão que nos é colocada –, para que todos aqueles que estão prestes a começar ou a iniciar a sua entrada na vida activa, olhem para o conjunto das actividades turísticas como uma prometedora e aliciante área de ingresso e carreira profissional e, por esta razão, acompanhamos integralmente aquele convite.

Contudo, quanto ao desafio efectuado da exigência de condições de valorização, embora também seja uma das áreas em que nos revemos, não estamos em crer que o mesmo possa, no imediato, ter correspondência ou, se se quiser, tradução prática, por um conjunto de razões que passamos a enunciar:

Desde logo, porque se voltarmos aos atrás citados elementos do Eurostat verificamos que Portugal é o quarto(!) país da União Europeia com maior taxa de desemprego jovem (22,2%), apenas superado pela Grécia (43,7% em Novembro), Espanha (36%) e Itália (31,5%), o que configura um quadro totalmente distinto do respeitante ao do desemprego em geral.

Depois, porque se é verdade que 2016 e, principalmente, 2017, foram anos excepcionais do ponto de vista turístico, tal não significa que o tecido empresarial – no fundo quem cria emprego – já tenha ultrapassado completamente os constrangimentos e consequências sofridas, sobretudo, durante o período entre 2008 e 2014. E isso significa que muito do que ultimamente tem sido ganho, ainda está a ser necessário para resolver passivos passados, recapitalizar empresas, robustecer tesourarias e, simultaneamente, fazer face quer à constante requalificação que o produto exige, quer aos investimentos em inovação sem os quais não é possível ser-se competitivo e atractivo, logo não pode ser canalizado para o desejável aumento de salários.

A estes aspectos é preciso adicionar a qualificação e formação profissionais com que os jovens “chegam” ao mundo laboral, porque ainda não existe uma ligação perfeita entre os diferentes sistemas de ensino – superior e técnico-profissional – e as reais exigências do mercado de trabalho, o que origina a necessidade, por parte de quem emprega, de fazer investimentos nestas áreas de modo a suprir essas carências e preparar e qualificar os activos recrutados com o nível de conhecimento desejável para o desempenho das funções e tarefas para as quais são contratados.

Finalmente, porque tanto a crise, como o progresso tecnológico, contribuíram para que as empresas afinassem melhor os seus processos de gestão e tivessem maior comedimento na criação de encargos fixos, onde encaixam os custos salariais.

Não se infira das nossas palavras que estamos contra a melhoria (com urgência!) das remunerações relativas às profissões turísticas ou, por maioria de razão, do aumento do salário pago a quem inicia o seu percurso profissional no turismo. Nada mais errado! Entendemos, sim, é que existem obstáculos a esse almejado propósito os quais, acreditamos, só com o tempo poderão ser vencidos.

No entanto, esse tempo poderá ser mais ou menos dilatado em função do que o Estado fizer. E, neste capítulo, cabem claramente as opções políticas dos Governos. Daí entendermos que este tipo de manifestações carecem de acompanhamento de medidas de política que concorram para o efeito desejado ou, pelo menos, para a criação de condições que permitam consubstanciar esse objectivo, de entre as quais, sem sermos exaustivos, permitimo-nos destacar:

No plano fiscal, uma significativa baixa da carga de impostos a que as empresas estão sujeitas, para que não continuem a ter o Estado como grande sorvedouro dos lucros gerados (e maior sócio/accionista silencioso); uma desoneração contributiva do factor trabalho, seja em sede de TSU – Taxa Social Única, seja em sede de IRS – Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (em todos os escalões para que, por exemplo, ninguém seja excessivamente penalizado – por aumento de escalão –, caso passe a ganhar mais); criação de benefícios e incentivos para quem pretenda empregar – e aqui deve distinguir-se o emprego destinado aos jovens –, tendo em consideração as características específicas das diversas áreas de actividade económica, ou seja e a título de ilustração, tendo presente que todos os sectores que integram o turismo são de mão-de-obra intensiva, o que quer dizer que são dos que têm maior potencial de geração de novos empregos e, por isso, devem ser discriminados positivamente (e não como acontece presentemente, onde quem mais emprega, mais é penalizado); alívio nas contribuições a pagar quando haja lugar à distribuição de lucros, pagamento de prémios ou bónus, aos trabalhadores.

No plano legislativo, assumir sem tibiezas que o Mundo não só mudou, como especializou-se, como ainda que as áreas de actividade económica têm diferenças entre si, as quais obrigam a distintos sistemas de operação e produção. No caso do turismo – como acontece com algumas outras – adequar a legislação vigente a necessidades de laboração 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, flexibilizando a utilização dos bancos de horas e considerando que, por estarmos perante uma actividade sazonal – com picos identificados em determinados dias da semana ou períodos do ano – a entidade patronal e o trabalhador poderão, caso assim o entendam, criar vínculos laborais que traduzam essas flutuações do mercado.

Caso nenhuma destas (ou outras) medidas seja adoptada, resta-nos aguardar que, episodicamente, funcione uma das mais antigas “leis” da economia, a da oferta e da procura, motivando que sempre que houver escassez de mão-de-obra o valor da mesma aumente e quando tal não suceder exista estagnação dos salários ou, quando a situação for mais grave, o único recurso seja não contratar ou, pior, despedir, aumentando o desemprego.

Em conclusão, cremos que este é, em linhas gerais e infelizmente, o cenário com que os nossos jovens estão confrontados, continuando a ter de vencer inúmeras barreiras para conseguirem entrar na vida activa e, quando aí chegados, deparando-se com salários muito baixos. Por seu turno, não podemos iludir-nos com os bons resultados da economia nacional e do turismo. São muito importantes, mas ainda não chegam para que exista a tão desejável “revolução” das e nas remunerações.

Pelo menos enquanto o Estado continuar a levar, directa e indirectamente, quer a empregadores, quer a trabalhadores, uma parcela tão significativa do que ganham, e a não pugnar pela modernização dos instrumentos jurídicos e fiscais, adequando-os a um Mundo que está diferente, tanto do ponto de vista económico, como social, como, ainda, ao nível das mentalidades (alguém já pensou que, porventura, o que as novas gerações pretendem hoje em termos de emprego, possa ser bastante diverso do que os seus pais desejavam?…).

Talvez por isto, no que respeita ao desemprego jovem, a desconfortável posição onde Portugal se encontra dentro da União Europeia não seja, a final, uma surpresa.

 

Turisver.com – Sabemos que esteve na Bolsa de Turismo de Lisboa. Durante os dias dedicados aos profissionais, como é que lhe pareceu o ambiente de negócios que a feira apresentou?

 

Atilio Forte – Daquilo que nos foi dado observar cremos que, no tocante à presença de profissionais e aos contactos de negócio, a BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa esteve ao nível daquilo que era expectável, isto é, deu continuidade ao verificado no ano transacto, enfatizando o bom momento que a actividade vive presentemente.

Não será pois de estranhar que tenhamos constatado um ambiente propício à realização de negócios, seja no renovar de parcerias, estreitando e estendendo laços já existentes, seja na criação de novas oportunidades, dentro e fora do país, aspectos só por si merecedores que aqui expressemos um elogio à organização da feira.

Embora num outro plano, deve ainda sublinhar-se que a BTL está, paulatinamente, a extravasar o plano estritamente profissional e a assumir-se, cada vez mais, como uma grande feira de viagens voltada para o público e, consequentemente, como um momento importante do ano na venda de produtos e serviços turísticos.

 

O + da Semana:

 

Realizou-se recentemente, em Lisboa, uma reunião da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico subordinada ao tema: “Megatendências e Turismo Rumo a 2040: Criação de Cenários”, que teve na sua agenda de trabalhos matérias de enorme relevância para o futuro da actividade – repercussão das alterações climáticas no turismo, acesso aos transportes e planeamento de infra-estruturas como meio de disseminar os benefícios económicos provenientes da actividade e gerir os efeitos de mais visitantes, alterações demográficas e a consequência destas na procura e, ainda, o impacto das inovações tecnológicas na mudança da experiência turística –, e onde Portugal teve oportunidade de demonstrar a importância do turismo como factor decisivo para impulsionar o seu desenvolvimento económico, social e ambiental, tendo, por isso, sido considerado como um exemplo a seguir. Mas de primordial importância são as recomendações saídas desta reunião, de entre as quais merecem destaque: a necessidade de existirem mais políticas públicas orientadas para o desenvolvimento da actividade turística; a crescente importância de uma mais estreita cooperação entre os Governos, os diferentes agentes turísticos e as comunidades locais; e, a implementação de acções práticas que promovam a inovação e a sustentabilidade. Recorde-se que, presentemente, Portugal preside ao Comité de Turismo desta organização internacional.