iTurismo: Desporto: Novas Oportunidades, por Atilio Forte

A valorização dos activos turísticos na Europa Oriental, os novos consumidores e a utilização dos ginásios de hotéis por turistas americanos são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe para “O + da Semana” a identificação das grandes marcas com causas sociais ou humanitárias. O habitual comentário versa sobre o turismo desportivo e a Kids Route, uma novidade da BTL deste ano direccionada às crianças.

 

Tópicos da Semana:

  • Activos turísticos da Europa Oriental valorizam-se: No ano passado os hotéis localizados no Leste Europeu viram o seu valor aumentar de forma significativa. No topo dessa escala situaram-se as capitais da Eslováquia e da Bulgária – Bratislava e Sófia –, que viram a valorização dos seus activos aumentar, respectivamente, quase 19% e 16%.
  • Ao encontro dos novos consumidores: Muitos dos mais importantes “designers” e criadores que se dedicam ao sector do alojamento estão profundamente empenhados em encontrar novos visuais e sentido para os espaços destinados a acolher hóspedes da Geração Z – também conhecida por “iGeneration” –, de modo a que os mesmos proporcionem experiências suficientemente significativas e apelativas para os atraírem. Sabendo que grande parte do tempo destes (novos) consumidores é passado no Facebook e no Instagram, é fundamental proporcionar-lhes um ambiente confortável, onde se sintam à frente das tendências que ainda não foram partilhadas, de modo a estimulá-los a divulgarem as suas próprias memórias e vivências.
  • Da intenção à prática vai (por vezes) uma grande distância: Um estudo recente realizado pelo “Cornell Center for Hospitality Research” revelou que apenas 22% dos turistas americanos utilizam os ginásios dos hotéis, apesar de 50% terem essa intenção quando efectuam a reserva, o que quer dizer que durante uma viagem o tempo inicialmente pensado para a prática de exercício físico é um dos primeiros a ser sacrificado em prol de outras actividades.

 

Comentário

Turisver.com – Vários leitores têm sugerido que fale sobre a falta de uma estratégia que possibilite a Portugal captar turismo desportivo. No seu entender estamos a desperdiçar um importante “nicho” de mercado?

Atilio Forte – Há cerca de dois anos e meio, a propósito de uma pergunta dos nossos leitores, recordamo-nos de ter aflorado esta questão, chamando a atenção para o facto de o nosso país, por um lado, reunir condições únicas, nomeadamente climatéricas, para a prática de muitos desportos e, por outro lado, estar dotado de um vasto conjunto de infra-estruturas de grande qualidade que, por razões várias, estavam – como estão – subaproveitadas.

Apesar disso, devemos reconhecer que temos avançado, ainda que timidamente, o que nos leva a ter alguma contenção no uso do termo “desperdício”, pese embora, em nossa opinião, muito mais pudesse – e devesse – ser feito.

Desde logo porque nem sequer há conhecimento da existência de muitas dessas infra-estruturas, seja por manifesta falta de divulgação das mesmas, seja porque, no plano desportivo, grande parte delas estão devotadas a modalidades que, queira-se ou não, estão longe de ter o mediatismo que as poderia retirar da “penumbra em que vivem”.

Talvez o melhor exemplo que conheçamos sejam os magníficos Centros de Alto Rendimento que temos – espalhados um pouco por todo o país –, dedicados a áreas do desporto tão vastas como a esgrima, a ginástica, o hipismo, o badmington, o remo, o taekwondo, o judo, o ciclismo, o surf, o bodyboard, o longboard, a natação, a canoagem, o ténis de mesa ou o triatlo, os quais, numa grande parte dos casos, são até desconhecidos da esmagadora maioria dos agentes turísticos.

Ora, há que assumi-lo com frontalidade, é difícil promover o que não se conhece ou nem sequer se sabe que existe!

Julgamos, por isso, que a primeira medida a tomar, e que se revestiria de grande utilidade, seria que os mesmos fossem apresentados e divulgados junto da comunidade turística que, estamos certos, ao constatar da existência deste enorme potencial, não deixaria de o aproveitar como pólo de atracção de atletas, equipas e mesmo clubes e, consequentemente, como uma nova oportunidade de negócio.

Abrimos aqui um parêntesis para referir que, para além deste exemplo – o dos Centros de Alto Rendimento – poderíamos dar muitos outros, desde as próprias academias de formação (particularmente as do futebol, algumas de renome mundial) dos diferentes clubes – aproveitando o facto de Portugal ter conquistado o último título europeu de selecções e o melhor jogador do Mundo ser português –, até às excelentes pistas de regata que possuímos para a prática da vela (nas suas múltiplas categorias), para já não falar do golfe, talvez a modalidade onde tenhamos mais créditos firmados no que respeita à notoriedade internacional dos nossos campos.

E aqui insere-se uma segunda ideia, que tem a ver com uma maior aproximação entre as entidades desportivas – sempre tão carenciadas de potenciarem as suas receitas – e os agentes económicos e organismos de promoção do turismo. Estamos em crer que desse estreitar de relações poderiam resultar excelentes exemplos de cooperação, com notórios ganhos para as partes e para o país.

Sem pretendermos alongar-nos em demasia, expressamos um terceiro aspecto que, do nosso ponto de vista, também contribuiria para ajudar a exponenciar o nosso país como destino turístico de excelência para o desporto ou para a prática desportiva, que se prende com convidarmos alguns atletas e/ou equipas de renome internacional (seja através dos próprios, seja através dos seus treinadores, clubes ou Federações) a visitarem Portugal, apresentando-lhes as condições que lhes poderíamos proporcionar para cumprirem o seu plano de treinos, principalmente em momentos do ano (particularmente no Inverno) onde o clima dos seus países os força a condicionarem ou, nalguns casos, suspenderem a sua preparação.

Uma das consequências mais positivas desta medida seria a que derivaria dos resultados da cobertura mediática de que são normalmente alvo, ou mesmo pela divulgação que fazem do seu dia-a-dia nas redes sociais, sites, blogs, etc.. Acreditamos que esse efeito seria extremamente positivo e, porventura, contribuiria tanto para atrair outros, como para exponenciar as nossas potencialidades. A título de exemplo recordamos o que se passou com Garrett McNamara e a Nazaré… e, cremos, está tudo dito!

Claro está, que aqui só abordámos alguns pontos relativos à alta competição, ou pelo menos a um nível competitivo “mais a sério”. Mas, não nos podemos (nem devemos!) esquecer que praticar desporto (qualquer que ele seja) é algo que cada vez mais está enraizado no quotidiano de todos, como hábito e parte de uma vida mais saudável. Assim, aquilo que é entendido pelos “profissionais” com sendo “bom”, certamente também será percepcionado pela generalidade dos demais (mais do que aos “amadores”, referimo-nos aos consumidores de produtos e serviços turísticos) como tendo qualidade.

Depois basta deixarmos que cada um constate o “concentrado de diversidade” turística que somos, as nossas insuperáveis hospitalidade e gastronomia, enfim, tudo aquilo que tem e faz de nós um destino turístico de excelência.

Em suma, e pelas razões expostas, Portugal tem tudo para afirmar-se no segmento do turismo desportivo, a começar na motivação para esbater, parcialmente, a sua sazonalidade turística…

 

Turisver.com – A BTL, que teve início esta quarta-feira, tem como grande novidade a “Kids Route”, uma iniciativa destinada a crianças dos 5 aos 12 anos, que são convidadas a descobrir Portugal através de uma série de acções promovidas pelas Entidades Regionais de Turismo e empresas regionais e que conta com uma grande adesão por parte dos expositores. Como é que vê esta iniciativa que tem como alvo os “turistas do futuro”?

Atilio Forte – Sem sombra para dúvidas que esta é mais uma óptima e inovadora iniciativa que a organização da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa irá levar a cabo, com o objectivo, não apenas de atrair mais visitantes ao longo de todo o fim-de-semana reservado ao público (não-profissional) como, acima de tudo, começar a despertar a consciência dos mais jovens para as potencialidades e riqueza turística do (seu) país.

Para aqueles que, como nós, consideram o turismo como um desígnio nacional, capaz de contribuir como nenhuma outra actividade para a criação de riqueza, emprego, coesão territorial e social, “educar” e inculcar na mente das gerações vindouras essa presciência, garante o nosso futuro turístico e, porventura mais importante, rasga horizontes profissionais e incute hábitos de consumo que poderão revelar-se decisivos quer no sucesso, quer no comportamento, na vida adulta, daqueles que hoje sendo crianças ou adolescentes, serão as mulheres e os homens de amanhã que viverão e trabalharão num país onde o turismo terá um papel cada vez mais determinante.

Por esta razão consideramos vital que, num país como Portugal, ganhe-se desde tenra idade verdadeira noção para a importância do turismo, como actividade protectora do ambiente, do ordenamento do território, da preservação do património histórico e cultural e, simultaneamente, que desde muito cedo perceba-se, seja como consumidor, seja enquanto potencial profissional, que a diversidade e a liberdade de escolha e o conhecimento são valores inalienáveis e preciosos activos intangíveis que, a todo o custo, devem ser defendidos, estimulados e acarinhados.

Não espanta por isso que esta iniciativa da BTL tenha granjeado tamanha adesão por parte das diferentes Entidades Regionais de Turismo (ERT’s) e do próprio tecido empresarial turístico com espaços no certame, de modo a darem-se a conhecer e passarem a ser conhecidas(os), participando e contribuindo na e para a formação dos futuros consumidores e decisores (nalguns casos certamente turísticos) e, pondo de lado qualquer ingenuidade, porque também sabem que, ainda que de forma indirecta, estão a promover-se junto dos seus progenitores, os quais são consumidores no presente.

Não obstante os argumentos que apresentámos, acima de tudo, está a óbvia consciência que todos têm/temos que será também essa a “educação” que aqueles que hoje são jovens, amanhã darão e transmitirão aos seus descendentes.

 

O + da Semana:

No Mundo actual dos negócios assistimos a uma tendência crescente de associação das grandes empresas ou marcas a causas com as quais as pessoas (leia-se consumidores) se identificam, por forma a não apenas “humanizarem” a sua actividade mas, também, a melhor expressarem os valores que defendem e, por essa via, captarem a “simpatia” (leia-se preferência) daqueles que têm potencial para adquirirem os seus produtos ou serviços. É por isso que todos somos amiúde confrontados com situações em que se adquirirmos o produto “x” estamos a contribuir com um valor “y” para plantar uma árvore, para salvar uma espécie, no fundo para ajudarmos a fazer algo que nos gratifique e, sobretudo, que nos faça sentir estarmos de algum modo a colaborar para tornar o “nosso Mundo” um pouco melhor. Ora, sendo o turismo a maior actividade económica do planeta, não seria plausível – nem inteligível – que o mesmo se deixasse ficar à margem deste processo. De entre os muitos exemplos que aqui poderíamos trazer escolhemos um: o da cadeia hoteleira Aloft (propriedade da Starwood Hotels & Resorts Worldwide que, por sua vez, é (agora) detida pela Marriott International) que decidiu lançar uma vasta campanha visando fomentar, junto dos seus clientes, a adopção de cães abandonados que tenham sido recolhidos pelos canis situados nas imediações de cada um dos seus cerca de 100 hotéis. E a resposta não se fez esperar. Inúmeros animais ganharam um “novo lar” e, simultaneamente, as reservas aumentaram…