iTurismo: Dias de Trumpestade, por Atilio Forte

Nos “Tópicos da Semana” deste iTurismo, Atilio Forte fala dos resultados da hotelaria que podem “escorregar” em 2016, da liderança de Amesterdão na Europa, e da China que continua imparável, enquanto “O + da Semana” é dedicado ao turismo sustentável. O comentador destaca ainda as implicações no turismo, nomeadamente em Portugal, da vitória de Donald Trump nos EUA, bem como a generalização do turismo como prioridade para o desenvolvimento local.

 Tópicos da Semana:

  • Resultados da hotelaria podem “escorregar” em 2016: A Pricewaterhouse Coopers divulgou um estudo feito à escala global onde avisa que o presente ano pode terminar com a primeira “escorregadela” na taxa de ocupação dos hotéis, desde a crise de 2008. Recordamos que em 2015 tinha-se chegado ao recorde dos últimos 30 anos, com aquele indicador a situar-se nos 65,5%. A mesma consultora prevê ainda que em 2016 a tarifa média diária apenas cresça 3,1% o que, a verificar-se, significará metade do valor alcançado no ano passado.
  • Amesterdão é líder na Europa: De acordo com uma pesquisa recentemente divulgada pela consultora Deloitte, a cidade de Amesterdão tornou-se no primeiro destino europeu de investimento na hotelaria, ultrapassando o Reino Unido. Curiosamente, as respostas ao mesmo inquérito também revelam que por terras de “Sua Majestade”, e logo a seguir a Londres, Edimburgo (Escócia) é a cidade mais atractiva para quem pretende investir no sector do alojamento. 
  • China continua imparável: O segmento do alojamento de luxo na República Popular da China persiste em apresentar excelentes perspectivas de crescimento estando, em grande parte, a ser impulsionado pelo mercado doméstico. Presentemente, só na categoria das 5 estrelas, encontram-se em fase de conclusão 516 novos hotéis. Uma das razões deste sucesso prende-se com o facto da hotelaria “topo de gama” estar a ir ao encontro da procura interna, através da introdução de novos “designs” ao nível dos quartos, permitindo que estes acomodem famílias.

 

Comentário

 

Turisver – As recentes eleições nos EUA ditaram a vitória de Donald Trump para a presidência do país. Na sua perspectiva, face a tudo o que foi dito pelo candidato durante a campanha eleitoral em termos económicos e sociais, esta eleição poderá vir a ter implicações no turismo, nomeadamente no que diz respeito a Portugal?

 

Atilio Forte – Nos últimos dias já foi quase tudo dito acerca das eleições presidenciais dos Estados Unidos da América (EUA) e da surpreendente vitória do candidato republicano DonaldTrump. De todos esses comentários e análises vale a pena salientar que a incógnita quanto ao futuro daquele país e, sem qualquer exagero, do Mundo tal como o conhecemos, subsiste.

No fundo, e caso no dia 19 de Dezembro os “Grandes Eleitores” votem em conformidade com o mandato popular e democrático que receberam, teremos à frente dos destinos da maior potência mundial alguém totalmente “fora do sistema” e, por essa razão, com um grau de imprevisibilidade de actuação à escala global sem precedente nas últimas oito décadas.

Permitimo-nos recordar que quando, há alguns meses, aqui comentámos as possíveis consequências para o turismo do “Brexit”, alertámos que este era um possível (e bem real) desfecho para as eleições americanas, fruto da tremenda falta de substância e credibilidade que, de uma maneira geral, vem afectando a esmagadora maioria dos governantes dos diferentes países, o que gera um natural “cansaço” nos cidadãos e, acima de tudo, vontade de mudança, a qual se traduz – mais do que para melhor ou para pior – na procura de algo de diferente.

É bom que não nos esqueçamos que o que acaba de acontecer nos EUA é, em grande parte, muito semelhante ao que se passou na Grã-Bretanha, aquando do Referendo acerca da permanência ou saída da União Europeia ou, até, da solução governativa encontrada em Portugal através da cognominada “geringonça”. Em todos estes casos os resultados foram surpreendentes colocando em causa, sem excepção, aquilo a que nos habituámos a designar por “normalidade”. No fundo, a expressão do voto popular acabou por permitir (ou forçar/obrigar) que novas soluções fossem encontradas, por saturação e em oposição ao “aturar mais do mesmo”, apesar do risco que continham (ou contêm).

E se dúvidas houvessem basta (re)ver o que os americanos anónimos, quando entrevistados, foram dizendo ao longo do dia das eleições (8 de Novembro): “estamos fartos e queremos que tudo isto acabe depressa”; ou, “ambos os candidatos são péssimos, nós só vamos escolher o menos mau”. É precisamente nestas palavras que todos – principalmente os políticos – devemos reflectir… Por que é isto que inexoravelmente acontece quando o “sentido de Estado” deixa de ter conteúdo e tradução prática ou quando aos líderes basta serem “governantes” e não “estadistas”!

Perante este cenário de incerteza que envolve o futuro da maior economia mundial torna-se extremamente difícil antever quais os reflexos que tal poderá ter na actividade turística.

Contudo, se tomarmos como ponto de partida as ideias que ao longo da campanha eleitoral foram apresentadas por Donald Trump, tudo indicia que iremos ter uns EUA mais focados em dinamizar (ainda mais) a sua economia, em implementarem medidas mais securitárias no respeitante ao acesso ao seu território, em diminuírem a sua cooperação política, económica e militar com a Europa, em terem uma postura menos dialogante tanto com a América Latina como com o “Mundo Árabe”, em erguerem barreiras alfandegárias aos produtos asiáticos (principalmente aos chineses), etc., numa frase, reflectindo quase na perfeição o individualismo (ou egoísmo) exacerbado em que vivemos, isto é, “primeiro eu” (neste caso “nós, os americanos”) e só depois os outros.

Como facilmente se percebe ao abrirem-se tantas “frentes de batalha” elas reflectir-se-ão, logo no imediato, no comportamento dos mercados e, consequentemente, terão implicações directas no consumo, às quais o turismo também não ficará imune, nem escapará impune. A começar pela Europa, na qual Portugal se insere, e onde se encontram alguns dos destinos turísticos preferidos dos americanos.

Claro está que uma atitude desta natureza dará ainda origem a reflexos múltiplos, os quais tenderão a manifestar-se como Isaac Newton tão bem descreveu na sua terceira Lei (da física): “A toda a acção há sempre uma reacção oposta de igual intensidade”. Ou seja, os níveis de incerteza aumentarão, as relações tornar-se-ão mais tensas, o que em nada beneficiará a actividade turística.

Mas – há sempre um “mas” – da teoria à prática existe uma grande distância, razão pela qual não devemos permitir que o nosso optimismo esmoreça. A História está pejada de tentativas em que “um” ou “alguns” forçaram a imposição das suas ideias aos demais, embora sem sucesso.

É que no Mundo em que vivemos os que prevalecem não são os mais fortes, poderosos ou ricos, mas os que melhor se adaptam.E o turismo já demonstrou à saciedade a sua incomparável capacidade para superar as adversidades com que é confrontado, regenerando-se e encontrado sempre novas formas de prosseguir o seu desenvolvimento e, simultaneamente, ser factor gregário entre os povos.

 

Turisver – Portugal tem 308 municípios que estão a fazer aprovar os seus orçamentos para 2017, ano de eleições autárquicas. Nas últimas eleições, grande parte dos eleitos proclamava o turismo como uma prioridade para o seu concelho e alguns dos orçamentos agora apresentados vão nessa direcção. Na sua opinião esta generalização do turismo como prioridade para o desenvolvimento local faz sentido?

 

Atilio Forte – Ao longo das nossas análises e comentários por diversas vezes sublinhámos o incontornável contributo que a actividade económica do turismo dá para a criação de riqueza, emprego, coesão social e territorial, principalmente num país como o nosso que é, por definição, um concentrado de diversidade turística. Faz por isso todo o sentido que os diferentes municípios a coloquem no topo das suas prioridades, já que tal quase sempre implica uma melhoria das condições de vida das suas populações.

Esta postura concorre ainda para uma qualificação global da nossa oferta turística, uma vez que o país, no seu todo, acaba por beneficiar do somatório de todos esses esforços individuais, para além das economias locais retirarem o devido proveito dos efeitos que o turismo induz noutras áreas e sectores.

Contudo, também já dissemos, que o turismo não é a panaceia para todas as nossas insuficiências, até porque quer a montante, quer a jusante, tão importante quanto ter produto é criar condições ao nível da sua envolvente para que ele possa, naturalmente, desenvolver-se.

Dito isto, e em nossa opinião, a grande questão que se coloca relaciona-se com o facto de, com grande frequência, as diferentes autarquias trabalharem isoladamente, amiúde em clima de clara competição, procurando “copiar”, embora melhorando ou gastando mais ou fazendo maior, o que tem o “vizinho” e arrastando para esse processo empresários ou investidores menos preparados ou conhecedores.

Situação que tende a agravar-se porque na maioria dos casos a prioridade é dada a equipamentos “visíveis”, a obra tangível – normalmente envolvendo edificações –, descurando coisas mais simples, mas igualmente importantes, como a limpeza, as acessibilidades, a sinalética, o arranjo dos espaços públicos, a estruturação e criação de conteúdos com interesse para os visitantes, a revitalização cultural e histórica (em menor número, mas nalguns casos até patrimonial), a regulação e a consequente fiscalização do mercado … e poderíamos continuar.

Aliando a este facto a pouca cooperação intermunicipal, mormente ao nível da complementaridade da oferta (salvo honrosas excepções), ao que podemos adicionar um grande desconhecimento da tipologia de consumidores a quem se pretendem dirigir e captar, encontramos as razões pelas quais, muitas das vezes, principalmente no interior e apesar de se realizarem investimentos de monta, os resultados tardam em aparecer ou, mesmo, acabam por nunca frutificar.

Pelo que terminámos de referir, investir na actividade económica do turismo pode revelar-se decisivo para o desenvolvimento local, desde que haja maior cooperação e complementaridade entre municípios, que sejam tidos em consideração todos os factores relativos à qualificação da envolvente doproduto e se aposte na valorização da autenticidade e genuinidade da oferta turística.

Fazendo-o o turismo revelará todo o seu esplendor, seja pela atracção de visitantes, seja pela criação directa e indirecta de riqueza e emprego, que darão um inquestionável contributo para a melhoria das condições de vida das populações locais, reforçando assim a coesão social e territorial.

 

O + da Semana:

É do conhecimento público que, porventura, a actividade económica do turismo é a maior aliada e, simultaneamente, a principal defensora do meio ambiente e da biodiversidade, já que questões como o aquecimento global ou a destruição de santuários naturais, para além de porem em risco a sustentabilidade da vida no nosso planeta podem, a curto prazo, revelarem-se como entraves primordiais ao desenvolvimento do turismo. Apesar dos avanços que decorrem da assinatura do Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, ocorrida em finais do ano passado, torna-se imperativo que conjunta e conjugadamente – Estados, empresas e cada um de nós que habita o “planeta azul” – procuremos fazer um esforço para irmos mais além do que a letra daquele texto, em todos os domínios que travem a destruição ou alterem o equilíbrio dos ecossistemas. Assim, saúda-se a posição da Tripadvisor que, pela boca do seu CEO (Stephen Kaufer) anunciou que, doravante, irá deixar de comercializar produtos turísticos que utilizem animais selvagens como atracção, procurando deste modo contribuir para pôr um ponto final à sua exploração. Espera-se e deseja-se que este possa ser um exemplo que frutifique. Para bem da Humanidade!