iTurismo: Do Montijo a Ver os Aviões, por Atilio Forte

O facto de a UTAP acabar de afirmar que todos os quatro factores de capacidade fixados contratualmente com o Estado, em relação ao Aeroporto de Lisboa, ficaram esgotados, valorizando por isso uma solução alternativa, bem como a recente aprovação pelo Conselho de Ministros de um Decreto-Lei que cria o Fundo de Apoio ao Turismo e ao Cinema, são analisados por Atilio Forte no iTurismo desta semana.

 

Tópicos da Semana:

  • Novo projecto certifica alojamento “amigo das mulheres”: As inglesas Capita Travel and Events (agência de viagens) e a Maiden Voyages (portal de informação de viagens destinado ao público feminino) estabeleceram uma parceria para identificar hotéis “amigos da mulheres”, em virtude de terem chegado à conclusão, através de um inquérito realizado, que 51% das mulheres de negócios que viajam dizerem sentir-se vulneráveis quando ficam num hotel, o que as levou à conclusão da existência de uma oportunidade de mercado que “reclama” por uma genuína oferta padrão e de confiança.

 

  • Turismo tira proveito do marketing de influência: O desenvolvimento desta ferramenta através das redes sociais, tornou-se numa das mais importantes estratégias promocionais da actividade turística. Uma pesquisa infográfica demonstra, entre outras coisas, que 80% dos consumidores usam as redes sociais e os sites que contêm partilha de informação para obterem ideias de viagens e 78% dos turistas são influenciados por recomendações de pessoas que (re)conhecem, pela confiança legítima que estas lhes transmitem.

 

  • Médio Oriente é região líder na hotelaria em 2018: De acordo com a empresa de estudos e análises de mercado STR, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos registarão a maior taxa de abertura de novos hotéis no corrente ano. A título de exemplo, basta referir que Nova Iorque, que liderará as cidades americanas, tem prevista a inauguração de 9.448 quartos, enquanto Meca (Arábia Saudita) “ficar-se-á” pelos 19.209 quartos (!?).

 

 Comentário:

Turisver – A situação do Aeroporto de Lisboa já foi por várias vezes analisada aqui no iTurismo mas agora há um facto novo, já que a Unidade Técnica de Acompanhamento de Projectos (UTAP) veio afirmar que, em 2017, todos os quatro factores de capacidade fixados contratualmente com o Estado ficaram esgotados, valorizando por isso uma solução alternativa. Como analisa a situação actual?

 

Atilio Forte – Como é muito bem salientado na pergunta a criação de uma infra-estrutura aeroportuária complementar ao aeroporto Humberto Delgado (antiga Portela) já foi, por diversas vezes, objecto da nossa reflexão nesta rubrica. Aliás, este é um assunto que, nas últimas duas décadas e no exercício de várias funções, tem merecido a nossa intervenção e acompanhamento, não sendo demais recordarmos que sempre defendemos a solução “Portela+1” – localizando-se o “+1” na área “Montijo/Alcochete” –, mesmo quando outras alternativas estiveram prestes a ser (incompreensivelmente) aprovadas, como aconteceu com a Ota.

Para além disto, deve ainda ser enfatizado que este é um dos pontos que maior consenso tem gerado na comunidade turística e sobre o qual têm sido produzidas as mais diversas chamadas de atenção por parte da quase totalidade dos agentes ligados ao turismo, pois a inexistência de outro aeroporto em Lisboa condiciona, sobremaneira, o escorreito desenvolvimento da actividade, seja na região, seja no país.

Assim sendo, é legítimo afirmar-se que até agora, por uma razão ou por outra, todos os Governos têm sido responsáveis pelo adiamento de uma decisão que começou por antever-se como necessária, para depois assumir o cariz de urgência, encontrando-se presentemente com o rótulo de emergência.

Então porque é quenesta altura a questão de uma nova estrutura aeroportuária aparece com tão grande veemência? Porque o contrato de concessão celebrado entre o Estado Português e a actual concessionária prevê, no caso de Lisboa, que quando se verificasse estarem esgotados, num mesmo ano, três dos quatro factores relativos à capacidade do actual aeroporto, fosse de imediato desencadeada a criação de uma solução alternativa que desse resposta às necessidades de expansão do tráfego aéreo.

Ora, conforme pudemos constatar pelas análises vindas a público nos últimos dias, a totalidade dos (quatro) factores relativos à capacidade do aeroporto Humberto Delgado foi ultrapassada em 2017, motivo pelo qual tornou-se inevitável avançar para construção/reconversão de um novo equipamento.

Ou seja, no ano passado, o aeroporto de Lisboa superou os 22 milhões de passageiros (atingiu os 26,7 milhões), excedeu o total de 185.000 movimentos anuais (alcançou os 200.000), o número de passageiros no trigésimo dia de maior procura suplantou os 80.000 e, por último, o total de aterragens e descolagens no trigésimo dia de maior tráfego aéreo ultrapassou os 580 movimentos.

Foram estas as razões que levaram com que em Fevereiro último a UTAP – Unidade Técnica de Acompanhamento de Projectos e a ANA – Aeroportos de Portugal tivessem celebrado um “memorandum de entendimento” que estabelece um calendário para a expansão da capacidade aeroportuária na região de Lisboa, através da instalação de uma infra-estrutura complementar no local onde presentemente se situa a Base Aérea nº 6 (Montijo).

Acresce a esta situação o facto de, no passado mês de Janeiro, o aeródromo de Tires ter iniciado a sua reclassificação, de Classe III (para a qual tinha sido certificado em Outubro de 2017) para Classe IV, isto é para aeroporto, já a partir do próximo mês de Julho, o que obrigará à renovação do terminal de passageiros, à construção de um novo ramal de saída da A5 (auto-estrada Lisboa-Cascais) e à presença, em permanência, do SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras e da ATA – Autoridade Tributária e Aduaneira, de modo a poder acolher todos os operadores de aviação privada (vulgo, executiva) e, desse modo, libertar espaço no aeroporto de Lisboa para a aviação comercial.

Por seu turno a ANA – Aeroportos de Portugal prevê entregar o estudo de impacto ambiental sobre o novo aeroporto do Montijodurante o próximo mês, situação que permitirá que a consulta pública do mesmo se inicie de imediato e durante os 60 dias subsequentes, após os quais a APA – Agência Portuguesa do Ambiente terá de emitir o seu parecer.

Caso todos estes prazos sejam cumpridos, e sabendo-se que a intervenção no Montijo demorará entre três e quatro anos, ficará o Governo com “caminho livre” para tomar a decisão final, na segunda metade de 2018, o que quer dizer que, em teoria, entre finais de 2021 e o decurso de 2022, haverá possibilidade de encerrar uma história com mais de meio século e, finalmente, permitir que o turismo e a restante economia nacional respirem de alívio.

Contudo (há sempre um “mas”!), e apesar da ANA – Aeroportos de Portugal ter garantido em Novembro de 2017 que a “solução Montijo” não obriga a qualquer esforço financeiro por parte do Estado português, fomos surpreendidos na passada sexta-feira com a publicação em Diário da República de um despacho (2989/2018) da UTAP que, para além de confirmar o avanço da “solução Montijo”, em virtude do esgotamento de todos os (quatro) factores de capacidade do aeroporto de Lisboa, constitui a comissão de renegociação do actual contrato de concessão o qual, como é público, foi assinado em finais de 2012 e é válido por 50 anos.

E tal só pode significar uma de três coisas: a primeira, e mais benigna embora incompreensivelmente tardia, prende-se com a necessidade de incorporar no contrato de concessão, nomeadamente no que se refere a direitos e obrigações recíprocas, a nova estrutura aeroportuária localizada no Montijo e, portanto, ser precisa a abertura de um processo negocial para o efeito; a segunda, é que não obstante estarem previstos os limites de capacidade do aeroporto Humberto Delgado no contrato de concessão inicial e, consequentemente, haver obrigação da concessionária avançar com uma solução de expansão aeroportuária para a região mal os mesmos fossem alcançados, também aí estaráclausulado que, quando isso vier a suceder, haverá que renegociar a extensão do período de concessão contratualmente estabelecidocomo contrapartida do investimento a realizar; a terceira, quanto a nós bem mais gravosa, é que nada tenha ficado definido em 2012 e, agora, a concessionária venha dizer ao Estado, legitimamente, queestando disposta a suportar o investimento a efectuar, deverá rever-se a totalidade do actual contrato de concessão, seja no respeitante aos valores a suportar por si (leia-se já pagos e a pagar ao Estado português), seja no que se refere ao prolongamento do tempo de exploração dos equipamentos que (pelo dito contrato) lhe foram atribuídos.

Em conclusão, e bem que gostaríamos de estar redondamente enganados, aquilo que doravante poderia assumir-se como um caminho sem retorno e, sobretudo, rápido (3 a 4 anos), atento o momento de emergência a que inicialmente aludimos, poderá revelar-se bem mais moroso e difícil, motivando com que um novo aeroporto que possa servir Lisboa, o país, a economia e o turismo persista em não ser mais do que uma miragem e, entretanto, nos deixe todos a ver “não navios”, mas aviões…do Montijo!

 

Turisver – Foi recentemente aprovado em Conselho de Ministros um  Decreto-Lei que cria o Fundo de Apoio ao Turismo e ao Cinema. Na sua perspectiva este é o caminho para procurarmos atingir novos nichos de mercado e consolidar o crescimento do turismo?

 

Atilio Forte – Esta é, sem dúvida, mais uma boa medida do Governo destinada não apenas a dar corpo às iniciativas que vêm sendo desenvolvidas junto dos estúdios e produtores cinematográficos para que considerem Portugal como uma (excelente) opção para a rodagem dos seus filmes, como também para fortalecer os mecanismos de apoio à captação de grandes eventos internacionais, reforçando assim o posicionamento do nosso país enquanto destino turístico.

Considerando o actual bom momento por que passa o turismo nacional e sabendo-se da dificuldade em perpetuar qualquer destino na “crista da onda”, tem toda a lógica que procuremos outras (todas as) soluções que permitam que mantenhamos, no bom sentido do termo, uma forte agressividade promocional quer nos mercados internacionais quer, principalmente, junto dos consumidores.

Claro está que se tal parece simples ao dizer, é muitíssimo mais complexo de transpor para o terreno. E uma das formas de o fazer é utilizando os novos instrumentos de marketing que temos à disposição, nomeadamente o de “influência” (de que damos uma outra perspectiva nos “Tópicos da Semana”), já que, tendo em conta as nossas belezas naturais e riqueza patrimonial, podemos servir de palco, de pano de fundo, de cenário, se se quiser, a inúmeras produções da sétima arte. Atento o poder do cinema e caso tal venha a verificar-se, como acreditamos, certamente que isso sensibilizará muitos dos espectadores por esse Mundo fora a quererem conhecer os belos locais onde a acção se desenrola, como temos visto suceder amiúde noutras situações.

Por outro lado, seria excelente se conseguíssemos chamar a atenção da indústria cinematográfica para alguns acontecimentos da nossa História, em muitos casos verdadeiras epopeias – veja-se, a título de exemplo, a época dos Descobrimentos – e despertar-lhe o interesse em criar argumentos e enredos em seu torno que, depois, passassem para o “grande ecrã”.

Também por este aspecto a articulação com o ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual, prevista no diploma, justifica-se plenamente, esperando-se que da mesma resultem os contactos, a agilização de processos e a concentração de esforços para alcançar os objectivos enunciados, atraindo pelo menos uma megaprodução, e não desbaratando os meios financeiros agora disponibilizados em películas que, apesar de poderem vir a possuir inquestionável valor para a comunidade cinéfila, não entrem no grande circuito de distribuição/comercial internacional.

 

O + da Semana:

 Estamos em plena época Pascal! E, do ponto de vista turístico, isso significa um dos momentos do ano onde se regista uma maior apetência pelo gozo de férias, por parte daqueles que têm posses para as fazer. Assim, por estes dias, a principal escolha dos consumidores nacionais recairá em destinos citadinos (“city breaks”), à semelhança da tendência verificada um pouco por toda a Europa. Pelo menos essa é a conclusão a que chegaram os estudos realizados tanto pelo “Observador Cetelem”, como pelo “Grupo Hotelbeds”. De acordo com o primeiro, 39% dos portugueses que escolheram esta altura para fazer férias optaram por locais citadinos, enquanto 31% decidiram-se pelo interior ou pelo campo, sendo que só 24% elegeram destinos de sol e mar e apenas 6% a neve. Já o segundo, embora sublinhe o crescimento moderado das reservas, revela que Paris “ganhou a corrida”, pois lidera as preferências dos turistas europeus, superando cidades como Orlando, Nova Iorque, Roma e Londres. O produto sol e mar terá perdido preponderância até nos destinos asiáticos, uma vez que, também aí são as cidades quem mais se destaca, com Banguecoque, Singapura, Hong Kong e Tóquio “à cabeça”, sendo Bali a excepção, o que deverá merecer uma reflexão, pois parece que, entre outros, os britânicos e os alemães – dois dos mercados europeus mais fortes –, tradicionais adeptos do sol e mar, fizeram outras opções.

 

Aos nossos leitores e respectivas famílias desejamos uma Páscoa Feliz!