iTurismo: Educar, Formar, Empregar, por Atilio Forte

O aumento do investimento hoteleiro na União Europeia, a retracção do investimento externo chinês e a preferência da geração Milénio pelas OTA, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” a celebração do Dia Mundial do Turismo. A procura por cursos de turismo neste novo ano escolar e o peso do turismo na venda de automóveis por via das rent-a-car, são temas do habitual Comentário.

Tópicos da Semana:

  • Retracção do investimento externo chinês poderá atingir a actividade turística: Vários grupos chineses de grande importância – entre os quais encontram-se o Anbang Insurance Group, o Dalian Wanda Group, o HNA Tourism Group e o Shanghai Jin Jiang International Hotels – enfrentam restrições governamentais no que respeita ao investimento no estrangeiro, em virtude do Governo chinês estar preocupado com os níveis de endividamento bancário por eles contraído para investir no exterior.

 

  • Geração do Milénio rendida às reservas efectuadas através das Online Travel Agencies (OTAs): De acordo com a esmagadora maioria dos especialistas esta será uma tendência a manter. A atestá-lo estão os dados do ano passado, em que mais de metade das reservas hoteleiras foi gerada por esta via, o que demonstra que as OTAs continuarão a ser um factor a ter em consideração, isto apesar dos esforços dos hotéis para atraírem directamente as marcações. A noção de que as OTAs oferecem os melhores preços e propostas está na origem deste comportamento, onde os consumidores da geração do Milénio aparecem em destaque.

 

  • Investimento na hotelaria aumenta na União Europeia (UE): Na primeira metade do ano a receita por quarto disponível (“RevPar”) dentro da UE aumentou 4% o que, a par da melhoria global da economia na região, deixa transparecer uma menor percepção de risco e, consequentemente, maior confiança, tanto para quem pretende investir, como para quem constrói. Ora, esta conjugação de factores tem motivado que os investidores apostem cada vez mais no sector hoteleiro.

 

Comentário

Turisver.com – Com o início de mais um ano escolar assistiu-se a uma procura crescente pelos cursos ligados ao turismo. No seu entender as escolas profissionais e os estabelecimentos de ensino superior estão preparados para esta procura?

Atilio Forte – Antes de entrarmos directamente na resposta, convirá fazermos um sublinhado para destacar que na origem desta grande procura estão, entre muitos outros, dois aspectos que nos parecem fundamentais:

Desde logo a gigantesca capacidade de criação de emprego que a actividade turística tem a qual, aliada ao facto de apelar a mão-de-obra intensiva, motiva que muitos jovens escolham cursos – superiores ou profissionais – com ela relacionados, pois em tempos em que é tão difícil entrar no mercado de trabalho, o turismo aparece-lhes como uma espécie de “oásis” de oportunidades.

Em segundo lugar, porque a actividade apresenta perspectivas de crescimento futuro muito acima de qualquer outra e porque nunca se falou tanto (e tão bem) de turismo como nos dias de hoje o que, queira-se ou não, acaba por influenciar os mais jovens a quererem abraçar as mais diversas profissões turísticas.

Dito isto, somos de opinião que, de uma maneira geral, não só temos excelentes estabelecimentos de ensino, seja ao nível técnico-profissional, seja politécnico e universitário, como a evolução que os mesmos vêm demonstrando começa a colocá-los numa posição de referência tanto no plano nacional (em comparação com os das demais áreas), como internacional (a que não são alheios os resultados que a actividade tem vindo a atingir no nosso país).

No entanto, e se até agora a procura tem sido correspondida pela qualidade global oferecida pelos estabelecimentos de ensino, quer ao nível da estruturação dos cursos, quer da capacidade de resposta que têm manifestado a um crescente número de alunos, tal não quer dizer que num futuro próximo tudo possa continuar como até aqui.

Isto significa que alguns cuidados devem ser tomados para salvaguardar a manutenção da qualidade da formação e educação ministradas ou, se possível, melhorá-las. Por esta razão não podemos deixar de alertar para alguns aspectos que nos parecem de capital importância:

Em primeiro lugar, devemos ter noção que o mercado da educação/formação está cada vez mais competitivo, situação que terá tendência para agravar-se nos anos vindouros em face das fracas taxas de natalidade que Portugal vem registando (se hoje não há nascimentos, amanhã não existirão alunos!). Esta situação poderá vir a revelar-se perigosa, pois muitos estabelecimentos procurarão adaptar-se à “procura”, isto é ao aumento da busca por qualificações académicas e profissionais em turismo, mesmo sabendo que não reúnem as competências necessárias para o fazer.

Se já hoje existe um ou outro curso com objectivos e conteúdos curriculares duvidosos, imagine-se o que poderá suceder daqui a alguns anos, em que a procura esteja mais concentrada à volta das profissões turísticas e os estabelecimentos, para sobreviverem, decidam “voltar-se” para esta actividade económica, como forma de compensarem quebras noutras áreas?

Em segundo lugar, e quanto a nós este é um aspecto vital, Portugal deve delinear uma estratégia que aproveite ao máximo as competências e reconhecidas capacidades que vem demonstrando no plano turístico para, também no sector do ensino e da formação, cimentar uma posição de liderança internacional e, assim, potenciar o país como centro de excelência do saber e do conhecimento ligados às profissões turísticas. Se o fizer, certamente atrairá muitos estudantes estrangeiros, já que os diplomas conferidos pelas nossas escolas terão um elevado reconhecimento internacional, o que traduzir-se-á em (bons) empregos para aqueles que deles forem detentores.

Finalmente, e para não sermos exaustivos, tanto os estabelecimentos de ensino nacionais, como as nossas empresas, poderão e deverão (têm a obrigação!) estreitar a sua cooperação de modo a adequar o mais possível a educação e a formação à realidade e às necessidades do mercado de trabalho, obviando deste modo a maior lacuna que presentemente existe.

Temos para nós que um curso só termina quando quem o conclui entra no mercado de trabalho. Por isso, há que educar e formar não apenas de acordo com as necessidades de quem emprega mas, também, de forma que os futuros trabalhadores possam acrescentar valor e saber às organizações, em geral, e às empresas, em particular, para que nelas despertem interesse no seu recrutamento.

Sendo o turismo uma actividade económica eminentemente privada, faz todo o sentido que o tecido empresarial esteja mais envolvido na estruturação dos cursos e no seu planeamento curricular para deles beneficiar, como igual sentido faz que quem ministra a educação/formação o possa levar a cabo com as maiores garantias possíveis de empregabilidade.

Só que para isso é fundamental começar e aprender a cooperar!

 

Turisver.com – Números divulgados pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP) dão conta que o mercado português de veículos ligeiros de passageiros e comerciais ligeiros encerrou o mês de Agosto com um volume de vendas de 14.414 unidades, +11,7% face ao mês homólogo do ano anterior, sendo que as vendas de carros novos para empresas de aluguer de curta duração aumentaram 30% no acumulado do ano. Até ao final de 2017 deverão vender-se cerca de 55.000 carros para rent-a-car, número que se compara aos 42.600 de 2016. Contas feitas, um em cada quatro carros novos vai para as empresas de rent-a-car. Face a estes indicadores podemos dizer que também no sector da venda de automóveis se está a fazer sentir o aumento do peso do turismo?

Atilio Forte – Este é mais um dos muitos bons exemplos que poderiam ser dados acerca dos efeitos multiplicadores que a actividade turística induz nas demais áreas da economia, e que prova que cada euro investido na promoção do turismo tem um elevadíssimo retorno, tanto directa, como indirectamente.

Em anteriores comentários já aqui havíamos assinalado o enorme progresso que o “rent-a-car” vinha registando, sobretudo após os anos “da crise e da troika”, em que o sector foi severamente castigado, à semelhança do que aconteceu com a generalidade da economia e, particularmente, do turismo, em Portugal.

Ora, voltada que está essa página, assistimos agora a um continuado investimento tanto em renovação de frotas, como na qualificação da oferta das viaturas destinadas ao aluguer de curta duração, por parte das empresas deste sector o qual, é bom lembrar, tantas vezes é, injustamente, secundarizado (para não dizermos esquecido) na cadeia de valor da constelação turística.

Não obstante algumas condições adversas de operação – nomeadamente nos aeroportos – e de uma fiscalidade altamente “penalizadora”, sobretudo se comparada com a que lhe é aplicada “aqui ao lado”, na vizinha Espanha, amiúde ainda há quem leia enviesadamente estes números, sublinhando o seu impacto no aumento das importações e, por essa razão, como sendo prejudicial para a balança comercial portuguesa.

Temos para nós que esta é uma visão totalmente destituída de fundamento, pois esquece – certamente não de forma deliberada, mas por mero desconhecimento – o outro lado da questão, já que existem importações sim, mas o consumo do produto, isto é o aluguer do veículo, contribui para as exportações turísticas – como qualquer quarto de hotel –, já que o mesmo é feito em território nacional. Para além disto, não podemos esquecer todas as outras receitas que daí advêm, com as dos combustíveis “à cabeça” o que, do ponto de vista turístico, torna este sector como um dos que mais contribui para os “cofres” nacionais.

 

O + da Semana:

Como vem sendo habitual desde 1980, celebrou-se ontem mais um “Dia Mundial do Turismo”, iniciativa da Organização Mundial do Turismo (UNWTO) que, desta feita, escolheu o Qatar como “epicentro” das comemorações e que teve como pano de fundo o mais do que actual tema “Turismo Sustentável: Uma Ferramenta para o Desenvolvimento” – abordado em duas sessões, uma versando sobre o “Turismo como Factor de Crescimento Económico” e, outra, debatendo o “Turismo e o Planeta: Comprometidos com um Futuro Mais Verde” –, isto apesar de um sem número de iniciativas terem ocorrido um pouco por todo o Mundo. De entre elas merecem o nosso destaque, por um lado, a Conferência de Alto Nível que teve lugar no Parlamento Europeu, onde foi debatida “Uma Estratégia Europeia para Aumentar a Competitividade da Indústria [nota do autor: a palavra não é nossa] do Turismo, Factor Essencial para a Criação de Emprego” e, por outro lado, a organizada pela CTP – Confederação do Turismo Português, em Vila Nova de Gaia, onde foi apresentado o “Roteiro para a Competitividade”. Num Mundo de crescentes incógnitas e incertezas é de realçar o compromisso (e o exemplo!) do turismo e de todos quantos nele intervêm, mais ou menos directamente, para tornar o Planeta melhor, mais aprazível e mais sustentável, não só para o benefício da actividade, mas para o de todos os seres humanos.

 

Nota da Redacção: Em virtude do feriado de 5 de Outubro, informamos os nossos leitores que o iTurismo será publicado na Quarta-Feira, dia 4.