iTurismo: Imigrantes Precisam-se!, por Atilio Forte

A “época alta” irá começar sem que muitas das empresas turísticas tenham conseguido recrutar a totalidade do número de trabalhadores necessários para a sua normal operação. Por outro lado, acaba de ser lançada a plataforma online “Refujobs”, criada para o emprego de refugiados. Esta pode ser uma solução para a hotelaria e a restauração? É questão que Atílio Forte aborda no iTurismo desta semana.

Tópicos da Semana: 

  • Férias de luxo… em família: As viagens ou as férias em família representam, actualmente, um volume de negócios anual que ronda os 500 biliões de dólares, segundo dados da FamilyTravelAssociation. Por isso, não devemos estranhar o crescimento global da oferta turística destinada a este segmento, a qual dedica cada vez mais atenção aos programas especialmente concebidos para entretenimento das crianças, sobretudo na vertente do turismo de luxo.
  • Quartos de hotel ainda não são o que já deviam ser: Na opinião da Associação Alemã de Hotelaria os dias dos quartos “standard”de hotel há muito que terminaram, pois deixaram de corresponder aos desejos dos hóspedes, os quais esperam que os ditos apresentem e incorporem novas soluções em termos de “design” e comodidades disponibilizadas, mais consentâneas com o estilo de vida actual.
  • Se tem fechaduras electrónicas no seu hotel, isto é para si: De acordo com a empresa finlandesa “F-Secure” – que se dedica ao desenvolvimento de soluções contra ameaças no espaço digital – a segurança de milhões de fechaduras electrónicas está em risco, pois já existem piratas informáticos que conseguiram conceber “chaves-mestras” capazes de contornar o software instalado nas das portas dos quartosde hotel.

 

Comentário:

Turisver – A hotelaria e a restauração estão muito aquém do número de empregados de que necessitam para que possam preencher todas as suas vagas e carências, basta ver o site recentemente criado para o emprego de refugiados. Face a esta situação e à queda demográfica justifica-se uma outra visão para a imigração?

 

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta à questão que nos é colocada, é importante que aqui registemos duas breve notas: a primeira para referir que não somos especialistas em imigração; e, a segunda, para sublinhar que esta é uma temática extremamente vasta e complexa que, seguramente, nem de perto, nem de longe, ficará esgotada nos pontos que abordaremos de seguida.

Dito isto, é um facto que a “época alta” irá começar sem que as empresas turísticas – pelo menos, muitas delas – tenham conseguido recrutar a totalidade do número de trabalhadores necessários para a sua normal operação, não obstante os esforços que realizaram (houve quem até fizesse “roadshows”) e apesar de ainda possuirmos um nível de desemprego relativamente elevado, razões ponderosas para que meditemos sobre as condições salariais oferecidas, a valorização e o reconhecimento das carreiras e profissões turísticas e a ligação entre os estabelecimentos de ensino (superior e técnico-profissional) e o tecido empresarial como, amiúde, temos vindo a sublinhar.

Portanto, mesmo tendo a certeza dos esforços que irão ser desenvolvidos por quem emprega e por quem trabalha, não será de estranhar que aconteçam casos em que a qualidade do serviço prestado diminua, podendo vir a beliscar o valor global da nossa oferta turística.

Paralelamente, na passada sexta-feira foi apresentada pelo Alto Comissariado para as Migrações a plataforma online “Refujobs”, uma excelente iniciativa que visa facilitar quer a procura de emprego pelos refugiados que se encontram no nosso país (já são 163 que o fazem, 6 dos quais com habilitações superiores), quer divulgar junto dessas pessoas as oportunidades de trabalho existentes nas empresas. Uma análise sumária do seu conteúdo (empregos, estágios e formação) permite verificar que a maioria das possibilidades aí registadas encontra-se directamente ligada ao turismo, particularmente, aos sectores do alojamento e da restauração.

Deve também referir-se que, em Janeiro último, e para efeitos de concessão de vistos a trabalhadores estrangeiros, o Governo já havia publicado em Diário da República uma lista das actividades sazonais onde, naturalmente, figuram vários sectores que integram a constelação turística.

Finalmente, para não sermos exaustivos, e conforme tivemos oportunidade de salientar num dos nossos comentários de Fevereiro deste ano – intitulado “Demografia: Uma Doença Silenciosa” –, Portugal está, por um lado, com taxas de natalidade muito aquém do desejável (necessário!) e, por outro lado, é um dos países da Europa cuja população está a envelhecer mais rapidamente, em consequência do baixo número de nascimentos e do aumento da esperança média de vida, problemática que, entre muitos outros reflexos, tem um efeito nefasto no segmento da denominada população activa, isto é, no número de pessoas que estão em “idade de trabalho”.

Situação que nos últimos anos tem sido agravada pelo forte fluxo emigratório (só comparável ao da década de 60 do século passado) que tem levado muitos portugueses, especialmente os mais jovens, a procurarem emprego no estrangeiro, de modo a ultrapassarem a ausência de oportunidades de entrada no mercado de trabalho que o seu país lhes oferece ou para obterem melhores condições remuneratórias.

Feito este enquadramento, não é difícil constatarmos que “saltam à vista” uma multiplicidade de factores – desde a carência de mão-de-obra, à insuficiente natalidade, passando pelo rejuvenescimento da população e pela emigração –, para os quais, aparentemente, apenas existe uma resposta satisfatória e, principalmente, dotada da rapidez (urgência!) que necessitamos: a imigração!

Assim sendo, estamos em crer ser por demais óbvio que temos, obrigatoriamente, deprocurar criar condições para que os “nossos” não saiam e fazer muito mais e melhor para atrair pessoas oriundas de outras paragens para o nosso país, com o objectivo de aqui se estabelecerem, aqui trabalharem e aqui (desejavelmente) constituíremfamília.

Até porque temos a vantagem de ser um povo hospitaleiro, que permite uma fácil integração social (basta ouvirmos o que de nós dizem os estrangeiros que aqui vivem e trabalham), com uma cultura simples de assimilar, uma forma de ser e de estar aberta e cosmopolita e um país dotado de excelente atractividade, onde pontuam o clima ameno e a gastronomia variada.

Mas para isso é fundamental que a sociedade portuguesa e, sobretudo, o(s) Governo(s) entendam e assumamque estamos perante um problema que urge (começar a) resolver. E, se for essa a intenção, precisamos que sejam adoptadas medidas muito práticas para a prossecução desse objectivo como, a título de exemplo, fazer algo semelhante ao agora anunciado para os refugiados: um portal (neste caso teria de ser multilingue) de oferta de empregos em Portugal, que pudesse ser facilmente consultado noutros países e que, para além de anunciar as vagas disponíveis, possibilitasse a submissão de candidaturas, informasse sobre as equivalências académicas, a obtenção de visto de entrada, autorização de residência, salário médio pago e direitos e deveres laborais, entre outros aspectos.

Do ponto de vista estritamente turístico, não temos qualquer dúvida do sucesso que o mesmo iria ter, já que permitiria que supríssemos não apenas as carências que começámos por identificar como, também, dar-nos-ia capacidade de atrairmos imigrantes que nos ajudassem a desenvolver e a prestar correctamente serviços a turistas oriundos de mercados emergentes (para o nosso país) – veja-se as dificuldades que temos em encontrar quem fale mandarim, para melhor recebermos os chineses que nos visitam – ou, mesmo, de outros que poderíamos incrementar, como o dos países muçulmanos (turismo “halal”), se tivéssemos mais pessoas que falassem a língua e explicassem em maior detalhe os seus usos e costumes às nossas empresas.

Em suma, este não é apenas um problema relativo à escassez de mão-de-obra. É muito mais vasto do que isso, como esperamos ter demonstrado, ainda que de forma genérica e sintética. Trata-se, acima de tudo, de invertermos a espiral de definhamento demográfico em que nos encontramos. Mas para isso necessitamos de procurar ajuda além-fronteiras. Precisamos de imigrantes!

 

O + da Semana:

De passagem já aqui tínhamos dado nota da evolução por que passa – e irá passar – o sector do aluguer de automóveis sem condutor (vulgo, “rent-a-car”), o qual prepara-se para abraçar e abarcar o que, agora, comummente se designa por “mobilidade”, incorporando empresas e serviços muito para além daquilo que tradicionalmente compunha a sua oferta. Assim, segmentos como o aluguer de bicicletas e ciclomotores, nomeadamente “scooters”, a partilha de veículos (“carsharing”), a disponibilização de serviço de motorista ou de veículos com motor eléctrico são, entre muitas, algumas das áreas que se juntarão ao aluguer de automóveis, furgões e carrinhas a que estávamos habituados, quer como forma de dar resposta eficaz às novas exigências e tipologias de consumo dos turistas actuais, quer à fundamental sustentabilidade – particularmente ecológica e ambiental – que, cada vez mais, está na base do desenvolvimento saudável das actividades turísticas. Não é pois de estranhar que alguns gigantes mundiais do sector estejam a dar passos largos em direcção a esta nova realidade, como é o caso do Grupo Europcar que, recentemente, alterou a sua designação para Europcar Mobility Group, exactamente para reflectir e tornar mais perceptível ao mercado e aos consumidores, todo o vasto conjunto de transformações (e desafios) por que passa o “velhinho” rent-a-car.

 

Nota da Redacção: Em virtude de amanhã (dia 31 de Maio) ser feriado e para não privarmos os nossos leitores do tradicional comentário, antecipámos o iTurismo desta semana, embora em tamanho reduzido. No dia 7 de Junho estaremos de volta retomando o formato habitual. Muito obrigado.