iTurismo: Mais Emprego, Melhores Salários, por Atilio Forte

A utilização dos dados dos clientes pela hotelaria, o lançamento do “quarto conectado” pela Hilton em 2018 e de um serviço de conversação instantâneo pela Four Seasons, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” os resultados do turismo mundial previstos para este ano. No habitual Comentário fala-se de emprego, qualificação e salários nas profissões do turismo e do novo Terminal de Cruzeiros de Lisboa.

 

Tópicos da Semana:

  • Sector hoteleiro demora em tirar partido dos dados dos clientes: De acordo com a Ernst & Young a hotelaria ainda se encontra nos primórdios da utilização dos dados que recolhe junto dos seus clientes para deles retirar vantagens competitivas. Para inverter este estado de coisas aquela consultora internacional recomenda que a análise desses dados seja incorporada nas boas práticas e rotinas diárias do negócio, de modo a ir ao encontro das alterações verificadas na procura (por parte dos consumidores) e compreender melhor as distorções do mercado, tanto dentro como fora do sector.

 

  • Hilton lança “quarto conectado” em 2018: Recentemente Christopher Nassetta, CEO da Hilton, anunciou que aquela cadeia hoteleira irá, já no próximo ano, lançar uma nova tipologia de quarto – o “quarto conectado – utilizando a tecnologia da “Internet das Coisas” (Internet of Things – IoT), que irá permitir aos hóspedes controlarem, total e perfeitamente, a intensidade de luz do quarto, o ar-condicionado e as opções de entretenimento, incluindo as que pré-carregarem ou as que estejam a ser transmitidas em directo, bastando para tal que utilizem a aplicação (“App”) ao seu dispor.

 

  • Four Seasons lança serviço de conversação instantâneo: Esta reputada cadeia hoteleira está presentemente na fase final de testes de um novo serviço de conversação (“chat”), em mais de 70 das suas unidades, que permitirá, também já a partir de 2018, aos hóspedes enviarem mensagens directamente aos colaboradores dos seus hotéis solicitando todos os tipos de pedidos – desde “room service”, até bebidas junto à piscina, passando por informações sobre a localização do hotel ou quaisquer outras que necessitem –, através da Four Seasons App, do Facebook Messenger, de SMS ou do WeChat.

 

Comentário

 

Turisver.com – Nos últimos anos, sempre que se fala em emprego em Portugal fala-se na actividade económica do turismo, dado que esta área tem sido a principal responsável pela queda do desemprego. No entanto, muitos dos novos empregados que têm integrado as profissões do turismo têm falta de qualificação profissional e, por outro lado, o sector é visto como um dos que paga salários mais baixos. Na sua análise, a qualificação e os salários têm de ser encarados de outra forma pelos empresários, sob pena de perdermos qualidade no serviço?

Atilio Forte – Sem sombra para qualquer dúvida que este é um dos temas mais candentes da actualidade turística, sobretudo pelo fortíssimo crescimento que a actividade tem demonstrado nos últimos anos o qual, como é bem referido na pergunta, tem arrastado consigo a criação de dezenas de milhar de novos postos de trabalho, fazendo do turismo a área da economia com maior contribuição líquida para o combate ao desemprego.

No entanto, será errado pensar-se que o aumento da actividade turística é a única razão que motiva este efeito. Nunca deveremos esquecer que, por estarmos perante uma área da economia “feita por pessoas, para pessoas”, logo de mão-de-obra intensiva, este é igualmente um importantíssimo motivo que concorre para a obtenção destes resultados.

Paralelamente, temos vindo a assistir a alguns fenómenos os quais é urgente que sejam tidos em consideração e atenção, sob pena de, a prazo, poderem vir a limitar o escorreito crescimento e desenvolvimento do turismo no nosso país, bem como a sua competitividade internacional. Referimo-nos em concreto aos dois que são citados na questão que nos é posta: a qualificação e os salários.

Quanto à qualificação, e apesar de ser um assunto que já aqui abordámos por diversas vezes, ainda assim, valerá a pena fazer duas referências:

Em primeiro lugar para dizer que, não obstante a qualidade e quantidade de alunos que são formados anualmente nos diversos estabelecimentos de ensino, quer superior, quer técnico-profissional, as necessidades da actividade têm sido maiores do que a capacidade formadora, até porque em muitos casos existe uma completa dissonância entre a oferta formativa e as reais necessidades do mercado de trabalho, o que gera insuficiências que acabam por ser colmatadas com recurso à contratação de trabalhadores não qualificados que, por um lado, contribuem para a deterioração da qualidade da prestação do serviço e, por outro lado, impõem aos empregadores, principalmente às empresas, uma enormíssima exigência de integração dos mesmos num ambiente de trabalho que lhes é alheio.

Em segundo lugar, e para superar o que acabamos de afirmar, esta situação obriga o tecido empresarial a fazer um grande esforço ao nível da formação profissional dos seus activos, seja no local de trabalho, seja com recurso a entidades externas, o que requer investimentos significativos.

Investimentos estes que, em resultado da escassez de mão-de-obra qualificada no mercado, acabam por ter um risco mais elevado do que aquele que seria normal ou aceitável, tanto pela sazonalidade própria da actividade, como pela grande volatilidade dos trabalhadores, dado que, entretanto, ao adquirirem um mínimo de qualificações, isso leva-os a serem objecto de cobiça pela concorrência.

Não é pois de espantar que estas questões relacionadas com a qualificação acabem também por reflectir-se no nível dos salários pagos. É que, queira-se ou não, se quem emprega vê-se obrigado a investir fortemente na qualificação dos seus trabalhadores, naturalmente verá a sua disponibilidade financeira cerceada para melhor os remunerar.

Abrimos um parêntesis para salientar que só neste ano (2017) é que as receitas turísticas – logo os resultados das empresas – irão estar ao mesmo nível de há dez anos (2007)…

Ao mesmo tempo que tal sucede, no que respeita aos salários pagos na actividade turística subsistem outros dois importantes constrangimentos: o relacionado com a inexistência de uma legislação laboral que tenha em linha de conta as especificidades do turismo; e, uma gigantesca carga fiscal sobre o trabalho e os rendimentos que dele decorrem, tanto para as empresas, como para os trabalhadores.

Não obstante tudo aquilo que acabámos de referir, deve reconhecer-se que, presentemente, o nível médio de salários que são pagos nos diferentes sectores que integram o turismo é baixo e, portanto, pouco apelativo, tal como fica aquém da qualidade global que Portugal oferece, enquanto destino turístico. Ora, esta é uma razão adicional que induz os trabalhadores a não se manterem por muito tempo nos seus empregos e que, aqui ou ali, começa a provocar deterioração dos serviços prestados antes, durante e após a estada, situação que, a não ser corrigida, terá forçosamente consequências futuras.

Sintetizando, as necessidades de mão-de-obra no turismo continuam superiores à oferta formativa e qualificada existente, o que obriga a elevados investimentos em formação profissional, numa actividade que não é excepcionada ao nível do direito laboral e que, tal como as demais, suporta um elevado peso dos impostos sobre o trabalho, apesar de actuar num ambiente de forte sazonalidade – tanto anual, como semanal – e, em geral, com um tecido empresarial ainda a denotar enormes fragilidades do ponto de vista económico-financeiro.

Assim, e em jeito de conclusão, acreditamos que a manterem-se as perspectivas de crescimento da actividade no nosso país, o tecido empresarial terá de fazer um maior esforço para passar a pagar salários mais condignos com o nível de exigência da actividade, tanto para elevar a qualidade do serviço prestado, como para melhorar a taxa de retenção dos (“seus”) trabalhadores como, principalmente, para manter (ou aumentar) a sua/nossa competitividade internacional.

Mas também terá de existir uma melhor compreensão da realidade turística por parte do Governo e dos Partidos Políticos com representação parlamentar, para além de um diálogo mais profícuo e aprofundado, em sede de Concertação Social, com as próprias estruturas sindicais, pois no final todos pugnam pelo mesmo objectivo: gerar mais emprego, maiores qualificações e melhores salários/rendimentos.

 

Turisver.comNa semana passada, Lisboa teve o seu novo Terminal de Cruzeiros inaugurado, uma obra que resultou de um investimento total de 77 milhões de Euros. O novo terminal é um edifício já elogiado, considerado como  moderno, confortável para os passageiros, adequado à cidade e à procura. Na sua opinião é com este tipo de infra-estruturas que o desenvolvimento do turismo pode continuar?

 

Atilio Forte – Como os nossos leitores estarão certamente recordados esta era, de há muito, uma das obras que vínhamos sinalizando como extremamente importante para o desenvolvimento da actividade turística em Portugal e, particularmente, na região de Lisboa.

Agora que está concluída, ela irá permitir que a “capital” possa tirar total partido da localização geográfica do seu porto – entre o Mediterrâneo e o Atlântico –, esperando-se que tal venha a traduzir-se num aumento significativo do número de navios de cruzeiro que a escalem.

Para além disso, o nível das condições técnicas e de conforto que doravante passam a ser disponibilizadas, tanto para os navios de cruzeiros, como para os seus passageiros, como ainda para os demais operadores turísticos, abre novas possibilidades ao desenvolvimento deste segmento turístico, concretamente no que se refere a este nosso porto poder passar a assumir-se como uma placa giratória para início ou fim de uma viagem deste género.

E, em nossa opinião, terá de ser essa a exigência ou responsabilidade que, sem receio, deverá estar presente no horizonte dos agentes turísticos: fazer de Lisboa não apenas um dos principais portos de escala para navios de cruzeiro mas, também, um importante ponto de embarque ou desembarque de viagens marítimas, delas retirando todas as vantagens turísticas e benefícios económicos que resultam de uma mais-valia desta natureza para as cidades portuárias e sua envolvente, particularmente a estada mais prolongada daqueles que aí vêm iniciar ou terminar o seu cruzeiro.

Importa assim, que este seja o foco e a motivação de todos quantos contribuem para a cadeia de valor do turismo, pois este é um dos sectores que integram a constelação turística que oferece maior margem de progressão, bastando para tal que atentemos no escasso número de passageiros processados pelo porto de Lisboa, em 2016: 523.000.

Como nota final – mas que não podemos deixar de aqui registar –, convirá salientar que este equipamento é mais um factor que vem pressionar a urgência da abertura de um novo aeroporto em Lisboa. É que se queremos crescer neste segmento e para aqui atrair as grandes companhias de cruzeiros, temos rapidamente que melhorar a nossa capacidade aeroportuária.

 

O + da Semana:

Fazendo fé nos últimos dados revelados pela Organização Mundial do Turismo (UNTWO), o corrente ano turístico ultrapassará todas as expectativas, confirmando-se o que há muito aqui havíamos perspectivado. Assim, segundo aquela Agência das Nações Unidas, prevê-se que a actividade turística a nível mundial encerre o ano de 2017 com um aumento de 6,6%, bastante superior ao registado em 2016 (3,9%). Note-se que as previsões iniciais apontavam para que o ano em curso atingisse um crescimento turístico entre os 3 e os 4%. Ainda de acordo com aquela entidade, para a obtenção destes resultados muito está a contribuir a recuperação verificada nos mercados russo e brasileiro, respectivamente com crescimentos de 27% e 35%, que assim invertem a tendência de decréscimo que vinham mantendo. Saliente-se que a Europa é de todas as “grandes regiões” a que maior taxa de progressão apresenta – nos oito primeiros meses do ano cresceu 8,2% –, sendo por isso previsível que venha a aumentar a quota que já detinha em 2016, período em que captou quase metade do total das chegadas internacionais de turistas (49,9%). Finalmente, e porque é matéria que nos interessa directamente, vale a pena destacar que a Europa do Sul e Mediterrânica é a segunda sub-região que mais progride (+ 12,3% entre Janeiro e Agosto), apenas suplantada pelos + 14,9% alcançados pelo Norte de África, no mesmo período.