iTurismo: Ensino Superior: Não ao Turismo!, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte comenta a decisão do Governo de reduzir as vagas nas instituições de ensino superior nos maiores centros urbanos do país e os efeitos nefastos que esta resolução acarreta para o Turismo. Outro tema em análise é também a anunciada entrada da companhia aérea LATAM Airlines no mercado português, com uma operação que vai ligar São Paulo a Lisboa, a partir do início de Setembro próximo.

Tópicos da Semana:

  • Constrangimentos ao investimento na hotelaria: Um recente inquérito levado a cabo pelo Lodging Industry Investment Council revela que o excesso de oferta, a falta de trabalhadores qualificados e o aumento das taxas de juro são, presentemente, as três principais ameaças que os investidores no sector hoteleiro enfrentam.

 

  • Cooperação entre as empresas de construção e os operadores hoteleiros é fundamental: Na opinião da maioria dos especialistas esta é uma das chaves do sucesso de qualquer investimento na hotelaria. Por isso defendem que desde a concepção do projecto, à sua edificação e à exploração do mesmo, todas as equipas que intervêm em cada uma destas fases devem trabalhar em conjunto, com o objectivo de conceber um produto que, quando pronto, vá totalmente ao encontro das expectativas e necessidades do consumidor final e detenha possibilidades de adaptação futura.

 

  • Maior voo do mundo começa em Outubro: A aviação comercial não pára de bater recordes! Assim, depois da ligação entre Doha e Auckland (17h40m de voo) operada pela Qatar Airways, chegou agora a vez da Singapore Airlines nos surpreender ao anunciar uma nova rota directa – entre Singapura e Nova Iorque (Newark) –, com um tempo de voo (estimado) de 18h45m, para percorrer os 16.700 quilómetros de distância. Acrescente-se que esta ligação será operada com recurso a uma aeronave da Airbus (A350-900LRS).

 

Comentário

Turisver.com – O  Ministro que tutela o Ensino Superior, Manuel Heitor, anunciou recentemente que o Governo vai reduzir em 5% as vagas nas instituições de ensino nos maiores centros urbanos do país. A medida do Governo tem como objectivo fazer com que mais alunos possam ir para estabelecimentos de ensino superior no interior. Qual a sua visão sobre esta situação?

Atilio Forte – Pese embora os nossos leitores saibam da equidistância e isenção que sempre procuramos colocar nas análises que fazemos, não podemos começar o comentário desta semana sem aqui deixarmos expressa uma declaração de interesses, dado que leccionamos, como convidados e enquanto especialistas de reconhecida experiência e competência profissional (é esta a denominação oficial), num dos estabelecimentos de ensino visados por esta medida. Por essa razão, tudo o que doravante dissermos é, como sempre, da nossa única e exclusiva responsabilidade, não vinculando de algum modo terceiros, e centrar-se-á, como habitual, no que à actividade turística respeita.

Salvaguardado que está este aspecto, quer do ponto de vista ético, quer deontológico, vejamos então o que está em causa:

Na prossecução das suas competências o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES) fez publicar no passado dia 21 de Maio, em Diário da República (2ª série), o Despacho (nº 5036-A/2018) do respectivo Ministro que definiu as orientações para a fixação de vagas, para o ano lectivo 2018-2019, nos estabelecimentos públicos de ensino superior tutelados exclusivamente por si, o qual, em síntese – e para o que importa para darmos resposta à questão que nos é formulada –, refere que as instituições que se encontrem dentro desse âmbito e se localizem em Lisboa e no Porto deverão reduzir em 5% o número de vagas que irão disponibilizar para o concurso nacional de acesso, que terá lugar a partir de meados do próximo mês de Julho. Ao invés, e como contrapartida, as que também dependam da sua tutela mas que se encontrem noutras zonas do país poderão aumentar, igualmente em 5%, a oferta de lugares.

Com esta equação o Governo pretende estimular a inscrição de mais alunos em instituições que se situem fora dos dois maiores centros urbanos nacionais, por forma a corrigir, entre outros factores, os “evidentes desequilíbrios territoriais na evolução recente do ensino superior público”, conforme é explicitado no preâmbulo do dito Despacho.

Convirá mencionar que as únicas excepções admitidas a esta decisão são os cursos de Medicina, Física, Tecnologia Nuclear, Informática, Tecnologias da Informação e, pela sua especificidade, a Escola Náutica Infante D. Henrique (Oeiras).

Por fim, deve ainda referir-se que a redução do número de vagas em causa é de 1.100, atendendo a que no ano transacto o total de novos acessos disponibilizados pelos estabelecimentos públicos de ensino superior de Lisboa e do Porto, tutelados directamente pelo MCTES, ascendeu a 22.000.

Ora, definido que está o alcance da decisão tomada pelo Governo e tendo em consideração o curto espaço ao nosso dispor, impõe-se que aqui realcemos os dois aspectos – muitos mais poderíamos ter em conta – que, em nossa opinião, têm maior relevância:

Desde logo deve salientar-se que genericamente, e não obstante entender-se a bondade do alcance desta medida, a mesma não irá introduzir qualquer alteração estrutural ao nível do ensino superior em Portugal, quer pelo número de vagas em questão (apesar de tudo, insignificante), quer por as mesmas ficarem dispersas pelo território e, por essa razão, acabarem por ter um impacto diminuto (quase nulo) na vivificação do interior.

E estamos totalmente à vontade para o afirmar, pois temos aqui constantemente referido – e pugnado! – a imperiosa necessidade de atenuar as assimetrias existentes entre o interior e o litoral e, simultaneamente, encontrar fórmulas que contribuam para aumentar os índices de fixação demográfica no interior.

Por isso, o que muito provavelmente acontecerá é que os lugares que irão ser disponibilizados serão destinados a alunos provenientes de Lisboa e do Porto – até porque a população do interior não só é mais escassa, como está mais distante da chamada “idade escolar” –, o que certamente confrontará as suas famílias (ou encarregados de educação) com um maior esforço financeiro, dado terem de suportar encargos adicionais com o alojamento, as refeições e a deslocação dos seus filhos (ou dos que têm a seu cargo), mesmo considerando que o custo de vida fora dos grandes centros urbanos é significativamente mais acessível do que nestes, isto para já não referir a distância a que os alunos se encontrarão do seu natural apoio familiar.

Assim, e admitindo que a qualidade do ensino ministrado será homogénea em todo o país e em todos os estabelecimentos de ensino (o que sabemos não ser verdade, por isso é que uns são mais reconhecidos e, consequentemente, têm maior procura consoante a sua especialidade, do que outros), aquilo que naturalmente irá ser ponderado situar-se-á entre o acréscimo de gastos e o “desenraizamento” familiar e a opção por estabelecimentos de ensino superior privados que, no limite, terão idêntico custo económico (todas as despesas somadas), mas permitirão maior proximidade e comodidade, já que se situam nas regiões designadas por “grande Lisboa” e por “grande Porto”.

A isto acrescem ainda as oportunidades de estágios e empregos existentes, que reflectem a preponderância das diversas actividades económicas nos maiores centros urbanos e no litoral, situação que, por razões similares, também pesará no momento da tomada de decisão.

Em segundo lugar, e bem mais importante, principalmente no que ao turismo directamente respeita, considerando tanto a escassez de mão-de-obra, sobretudo qualificada, com que a actividade actualmente se debate e que vem sendo (re)clamada por todos os sectores que integram a constelação turística – mesmo tendo em consideração os baixos níveis salariais oferecidos –, como a capacidade única que o turismo vem manifestando na criação de novos postos de trabalho, revela-se (no mínimo) incompreensível o facto dele não ter sido considerado entre as excepções admitidas no Despacho ministerial que inicialmente citámos recusando, por esta via, estimular-se uma das áreas da economia que desempenha um papel cada vez mais central no emprego, no progresso e no desenvolvimento do país e a única em que, porventura, podemos competir à escala planetária, seja enquanto destino, seja como centro de excelência de conhecimento e saber na formação de novos profissionais e, por isso, com estabelecimentos mais do que qualificados quer para formarem os futuros profissionais do turismo nacional, quer para atraírem estudantes oriundos de outras paragens – basta olharmos para as elevadíssimas taxas de empregabilidade que apresentam –, que connosco venham aprender e adquirir as melhores práticas e ensinamentos.

Estamos, pois, confrontados com uma óbvia desvalorização – para não dizermos menorização – da actividade turística e com um claro desinvestimento no seu futuro, já que se descartam as vantagens do sucesso que, paulatinamente, tem vindo a ser construído e que, até, vem sendo reconhecido e elogiado, entre outros, pelo próprio Governo.

É por situações desta natureza que, tantas e tantas vezes e há tantos e tantos anos, pugnamos pela existência de um Ministério do Turismo (englobando, pelo menos, o sector da aviação), pois estamos certos que quando matérias como esta fossem discutidas, nos seus princípios, no principal centro executivo de decisão do país (o Conselho de Ministros), seguramente existiria uma voz que chamaria a atenção do Governo, em geral, e do MCTES, em particular, para a falta de visão estratégica e de acompanhamento da evolução do mercado laboral que a “não-descriminação positiva” da actividade turística configuraria, numa decisão com este âmbito.

Em conclusão, seja pela ausência de dimensão, seja pelos problemas que não resolve, seja pela falta de ligação “ao país real”, seja pela forma como trata o turismo, seja pela inconsequência entre o que é dito e o que na prática é feito, estamos perante um rotundo “não!” dado pelo Governo ao turismo, através do ensino superior público.

 

Turisver.com – Desde o início do século, Portugal tem vindo a afirmar-se como a “porta de entrada” dos voos do Brasil com destino ao continente Europeu.   A TAP iniciou esta situação e mais recentemente a Azul passou a voar para Lisboa. Agora é uma companhia aérea prestigiada na América do Sul, a LATAM Airlines que vai chegar a Portugal, com voos desde São Paulo. Como olha para o papel de Portugal na atracção dos voos vindos do Brasil?

Atilio Forte – Considerando que o transporte aéreo é, nos dias de hoje, o principal meio de deslocação dos fluxos turísticos, tudo o que estiver relacionado com a abertura de novas ligações, de e para um qualquer destino, deve sempre ser encarado como algo extremamente positivo para o desenvolvimento do turismo.

Neste caso em concreto, e para além desta razão, cremos que o início da operação da LATAM Airlines, que ligará São Paulo a Lisboa, através de cinco frequências semanais, a partir do início de Setembro próximo, proporcionará algumas vantagens adicionais que importa destacar:

Em primeiro lugar, porque trará mais concorrência às ligações aéreas já existentes entre Portugal e o Brasil (sobretudo na rota de São Paulo) o que, naturalmente, é saudável, uma vez que contribuirá para que exista uma maior exposição do nosso país no mercado da América Latina (deve ter-se presente que esta companhia serve mais de 120 destinos localizados na região); e, claro está, a inversa também é verdadeira, ou seja, passará igualmente a existir no mercado nacional maior oferta de voos, não apenas para o Brasil, mas para toda aquela zona do globo. Tudo isto para além das vantagens óbvias que tal implicará para os consumidores.

Em segundo lugar, porque a abertura desta rota – que traduz-se na existência de, aproximadamente, mais 1.100 lugares semanais – vem de alguma forma comprovar que, não obstante a instabilidade política que o Brasil atravessa, a mesma não estará a afectar a continuada melhoria da sua economia e, particularmente, as deslocações para o estrangeiro dos brasileiros.

E, finalmente, porque se tivermos em linha de conta os acordos de cooperação na Europa (vulgo, “codeshare”) existentes entre a LATAM e a Lufhtansa e a Iberia, tal vem reforçar a posição de Portugal – e de Lisboa em particular – enquanto “placa giratória” do tráfego aéreo entre a América Latina e a Europa (e vice-versa), situação que, do ponto de vista turístico, pode vir a beneficiar-nos, mais a mais se tivermos em linha de conta a projecção internacional ganha pelo nosso país nos últimos anos e, consequentemente, a atractividade que daí resulta.

Em suma, trata-se de boas notícias para o turismo nacional.

 

O + da Semana:

 

Entre os dias 9 e 14 (hoje) de Junho a GNR – Guarda Nacional Republicana realizou em todo o território nacional (Continente e Regiões Autónomas) uma operação, denominada “Turismo Seguro”, tendo por objectivo informar, apoiar e alertar os turistas nacionais e estrangeiros acerca das práticas mais comuns utilizadas pelos criminosos, de modo a melhor garantir a segurança de todos quantos viajam no nosso país. Nesse sentido, ao longo destes dias os militares da GNR tiveram oportunidade de contactar com inúmeros turistas procurando, por um lado, sensibilizá-los para a tipologia de crimes que mais lhes são dirigidos e sobre os comportamentos preventivos que devem adoptar para evitarem ser alvo de qualquer situação “menos agradável” – nomeadamente, os furtos de carteiras, em residências, nos automóveis e nos transportes públicos – e, por outro lado, informá-los acerca das acções a tomar no caso de serem vítimas de um qualquer delito. Assim, e para além da óbvia consciencialização dos destinatários desta operação para os eventuais perigos a que podem expor-se, também deve enaltecer-se o efeito adicional de segurança e protecção que tal gera junto dos turistas. Espera-se que esta excelente iniciativa levada a cabo pela GNR possa, no futuro, vir a ser alargada e conjugada com outras forças de segurança – como a Polícia de Segurança Pública (PSP) –, bem como contar com a colaboração e o envolvimento da generalidade dos agentes turísticos.