iTurismo: Contra a “Época dos Fogos”, por Atilio Forte

A tragédia que constituiu a vaga de incêndios do passado fim-de-semana é o tema em que se centra o Comentário e Atilio Forte no iTurismo de hoje que tem como “Tópicos da Semana” a constituição da “Soap Aid”, a inovação em hotelaria e os resultados dos hotéis de Praga. Já “O + da Semana” destaca a constituição da Planet Ocean Underwater Hotels com a intenção de construir hotéis boutique debaixo de água.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Ideias simples podem ajudar muito: Foi tendo por base este princípio que o empresário e filantropo australiano Michael Matulick fundou a “Soap Aid”, de modo a combater o desperdício na hotelaria e, simultaneamente, suprir a carência de produtos de higiene que existe em grande parte do “Mundo em vias de desenvolvimento”. Se bem o pensou, melhor o fez, associando-se à Rotary International para criar uma organização sem fins lucrativos com a missão de recolher, junto de centenas de grupos hoteleiros, as sobras de sabonetes utilizados pelos hóspedes e reciclá-los em novos, prontos a serem distribuídos por quem mais precisa.

 

  • Inovação: Hoje em dia há um movimento global que traduz a progressiva preocupação das pessoas com a sua saúde, com o seu bem-estar físico e com a melhoria da sua qualidade de vida através de práticas mais saudáveis. Claro está que tal tinha forçosamente que repercutir-se no produto turístico. Por esta razão a cadeia hoteleira Hilton decidiu criar uma nova tipologia de quartos – denominada “Five Feet to Fitness” –, os quais passam a incluir 11 géneros diferentes de equipamento para a prática de exercício.

 

  • Resultados dos hotéis de Praga continuam em queda-livre: De acordo com o último relatório da consultora internacional “HotStats”, especializada em análises comparativas (vulgo “benchmarking”), algumas regiões do mercado europeu estagnaram no que respeita ao sector do alojamento. É o caso da capital da República Checa (Praga) onde, por exemplo, podemos constatar que os lucros obtidos em 2016 pela totalidade dos seus hotéis ainda são inferiores aos alcançados em 2007.

 

Comentário

Turisver.com – A catástrofe que se abateu sobre as povoações de vários concelhos do país, e que provocou dezenas de mortos e de feridos, teve repercussões em todo o Mundo, com as principais cadeias de televisão a abrirem os seus noticiários dando conta do ocorrido em Portugal. Na sua opinião, esta tragédia pode vir a ter efeitos negativos sobre a imagem do país?

Atilio Forte – É um imperativo de consciência começarmos o comentário desta semana deixando aqui registada uma palavra de conforto e ânimo às famílias das vítimas e a todos quantos, de algum modo, foram atingidos por esta enorme tragédia.

Igualmente, devemos sublinhar a coragem e o esforço de todos aqueles que, no terreno, tudo fizeram e fazem para combater e debelar os efeitos deste (e outros!) horrendo incêndio, protegendo pessoas e bens e confortando, na medida do possível, os que estão a viver e a passar por este autêntico pesadelo. Seria, também, profundamente injusto que estas palavras esquecessem e não enaltecessem a gigantesca corrente de solidariedade gerada, dentro e fora do país, a qual trouxe ao de cima o melhor de nós próprios: o auxílio e o amparo ao próximo!

O choque em que ainda nos encontramos, quer (principalmente) pela perda de vidas humanas, quer pelas imagens dantescas que observámos, não tornam este o momento mais propício para, com serenidade, darmos resposta cabal à pertinente pergunta que nos é colocada pelos nossos leitores. No entanto, sempre valerá a pena referirmos alguns factos sobre os quais todos, sem excepção e com maior frieza, deveremos posteriormente reflectir.

E o que nos ocorre dizer em primeiro lugar é que, infelizmente, as tragédias acontecem! Sempre assim foi e sempre assim será. Simplesmente hoje em dia tudo ganha maior dimensão e impacto em razão da velocidade a que a informação circula e das imagens e relatos que, em tempo real, nos chegam. É exactamente por isso que quando a “natureza se revolta” – seja através de um terramoto na Ásia, de uma avalanche nos Alpes, de uma inundação na América Latina ou de um incêndio na Oceânia – a nossa noção de proximidade é muito maior.

Propositadamente referimos estes aspectos para justificar que, em situações como a que aconteceu em Pedrógão Grande, por vezes conjugam-se um conjunto de factores naturais – no caso, calor excessivo, Primavera seca, ausência de humidade nos solos e no ar, densidade florestal, trovoada seca, desertificação/abandono do interior, etc. – que acabam por ser o “combustível” que é inflamado pela “simples” queda de um raio, originando uma fatalidade.

E, quando tal sucede, pouco ou nada há a fazer, estejamos em Portugal ou em qualquer outro local do Planeta. Em palavras frias e cruas, isso é compreensível e entendível aos olhos de qualquer ser humano e, portanto, daí não advêm consequências que possam afectar um destino turístico, pelo menos de modo duradouro.

Nestas situações aquilo em que mais devemos pensar é no nosso comportamento individual e colectivo, como tantas e tantas vezes aqui temos chamado a atenção, nos pequenos gestos que diariamente fazemos (ou não fazemos) para preservar a “nossa casa comum”, que é, até ao momento, a única que temos: a Terra.

Contudo – e é neste particular que reside a pertinência da questão –, o grande problema é quando vamos para além do que é causado ou provocado pelos “caprichos da natureza”, que são quase sempre a excepção, e constatamos, ano após ano, que chegados ao Verão (ou perto dele), a par do começo da época balnear temos, também, o início da “época dos incêndios” em Portugal.

Em nossa opinião, esta é a “fatalidade” que todos devemos recusar-nos aceitar! Porque, independentemente das mãos criminosas e doentias que na esmagadora maioria dos casos estão na origem dos fogos, esses atentados só são bem-sucedidos por deficiências e insuficiências múltiplas e, mesmo, incúria. E isso é que é inaceitável e incompreensível, tanto aos nossos olhos, como aos daqueles que nos visitam ou pensam visitar.

Em suma, e isto é algo para que temos vindo constantemente a alertar nestas nossas análises e comentários – sobretudo no Verão –, é precisamente este o factor que degrada a nossa imagem, nomeadamente no exterior, e um dos motivos que pode ter peso na decisão dos turistas. A última coisa que todos queremos que alguém pense é: “Ir no Verão a Portugal? Não! Aquilo por lá está sempre a arder! O melhor é ir para outro lado…”

Apesar da dor colectiva presentemente sentida, acreditamos que toda a comunidade turística unir-se-á – como alguns já deram o exemplo – e saberá passar uma mensagem positiva e instar os mercados internacionais a visitarem-nos.

E, mal os ânimos “arrefeçam”, saibamos honrar e dignificar a memória dos que pereceram e dos que sofrem com esta tragédia, pondo um ponto final à “época dos fogos”, construindo um país com maior consciência cívica individual e colectiva, onde a humanidade e a solidariedade continuem presentes, mas traduzidas na melhoria da nossa qualidade de vida comunitária e na defesa do nosso património ecológico e ambiental e do ordenamento do território.

Como sempre afirmamos, o que é bom para nós, também o é para quem nos distingue com a sua visita e vice-versa.

 

Turisver.com – Com o crescimento do turismo, têm aberto dezenas de unidades de alojamento de todo o tipo no interior do país que estão a revelar-se um bom investimento e a gerar empregos nas regiões onde surgem. O horror vivido no último fim-de-semana, motivado pelos fogos, pode gerar uma retracção na procura por alojamento em pequenas povoações, em especial por parte dos turistas nacionais?

Atilio Forte – Na linha do que dissemos no final da resposta à pergunta anterior, estamos em crer que (ainda) não. Todavia, dada a sua constante repetição, esta não é uma situação sustentável por muito mais tempo.

E, acima de tudo, o turismo e os seus agentes não podem nem devem desresponsabilizar-se de algo que recorrentemente acontece, devendo sentir-se obrigados a participar na busca construtiva de soluções e, sobretudo, na sua implementação, quanto mais não seja porque, a prazo, tal poderá ter reflexos na actividade.

Assim, somos de opinião que todos os actores turísticos, públicos e privados, nomeadamente, as associações empresariais e as Entidades Regionais de Turismo (ERT’s), têm o dever (e a obrigação) – até porque conhecem o território como poucos – de alertar, de identificar potenciais “pontos negros”, de apresentar propostas, de congregar entidades locais, regionais e nacionais em volta da mesma mesa, de estimular a constituição de parcerias que, em alguns casos, possam mesmo substituir-se ao Estado (nas suas diversas representações), por forma a, por um lado, garantirem a defesa e a preservação, a sustentabilidade económica, social e ambiental dos territórios e, por outro lado, ajudarem à fixação das populações, sobretudo no interior, contribuindo para o esbater das assimetrias com o litoral, promovendo o rejuvenescimento – a todos os níveis – e a coesão social regionais.

E, ainda, estarem preparadas para, se necessário, lançarem atempadamente alertas públicos para este ou aquele aspecto. Ao fazê-lo estarão a defender o turismo. Mas, em simultâneo, também defenderão a vida humana, o emprego, o investimento, a criação de riqueza, o património, o território, o ambiente, em três palavras, as pessoas, a economia e o país.

 

O + da Semana:

É por todos reconhecido que a actividade económica do turismo é das mais criativas e inovadoras, pois só assim pode, com sucesso, ir correspondendo às crescentes exigências dos consumidores, por um lado, cada vez mais ávidos de novas experiências e emoções e, por outro lado, constantemente preocupados com a sustentabilidade ambiental dos destinos que escolhem para as suas férias. Foi precisamente para dar resposta a estas questões que uma nova empresa foi constituída – a “Planet Ocean Underwater Hotels” –, com o propósito de implementar um arrojado projecto hoteleiro, o qual passa por construir hotéis afectos ao “segmento boutique” literalmente “debaixo de água” tendo, para o efeito e até ao momento, seleccionado 15 localizações que incluem: as Caraíbas; o Oceano Índico; o Oceano Pacífico; e, o Golfo Pérsico. Vale a pena referir que todas as unidades ficarão a cerca de 9 metros de profundidade, de modo a proporcionarem aos seus hóspedes vista para magníficas paisagens subaquáticas, sem nunca esquecer a sua tão necessária (e exigida) privacidade. Para além disto a empresa propõe-se investir 5% do valor total dos custos de construção na preservação da vida marinha e compromete-se a destinar 10% das receitas de alojamento geradas à recuperação dos recifes de coral nas respectivas zonas de implantação das suas propriedades. Resta referir que o valor de comercialização previsto por quarto/noite rondará os 2.500 dólares (cerca de 2.230 euros).