iTurismo: Estratégia 2027, por Atilio Forte

A temática central do iTurismo tem a ver com o lançamento, para debate público da Estratégia Turismo 2027. A concessão da primeira licença de jogo online, os clubes de fidelização na hotelaria e as viagens românticas preenchem os “Tópicos da Semana” de Atilio Forte, que escolheu para “O + da Semana o destaque que as várias regiões têm vindo a dar à gastronomia.

Tópicos da Semana:

  • Apostar num erro: Com a recente concessão da primeira (de várias) licença de jogo online o Estado/Governo assume, em definitivo, a abertura da “caixa de Pandora” que provocará profundas transformações no sector dos casinos e, consequentemente, nos moldes como o turismo nacional (e o Turismo de Portugal, I. P.) será (ou deixará de ser) financiado. Esta aposta (sucessiva) num erro – de dois Governos que envolvem (todos) os principais Partidos Políticos -, perante o alheamento (quase total) dos privados, vai provocar uma das maiores alterações estruturais de sempre do nosso turismo. Já aqui expressámos como tudo deveria ter sido (bem) feito. Resta-nos deixar um derradeiro alerta!

 

  • Os fiéis pagam menos: Este é o mote que começa a guiar as grandes cadeias hoteleiras (Hilton, Marriott, InterContinental, Hyatt, etc.) como forma de manterem a sua independência e competitividade face às Online Travel Agencies (OTA’s). Tal postura tem como consequência a oferta de preços mais baixos aos membros dos respectivos “clubes de fidelização”, desde que estes efectuem as suas marcações através dos canais de reserva dos hotéis.

 

  • Romance em alta: O segmento das viagens românticas está a passar por um surto de crescente popularidade, com os casais a procurarem locais e experiências que causem impacto (e os promovam) nas redes sociais. Mas não só. Alguns estudos revelam que os recém-casados começam a escolher luas-de-mel de múltiplos destinos.

 

Comentário

 

Turisver.com – Foi lançado o debate público para aquilo que o Governo denominou de Estratégia Turismo 2027 que virá substituir o PENT que terminou já o seu período de vigência. Face ao que o Governo apresentou em Tomar, face até aos grandes desafios delineados, qual pensa ser o grande contributo que o sector privado pode dar para este debate?

 

Atilio Forte – Ao longo destes dois anos e meio de comentários e análises que aqui temos feito, se há tema sobre o qual temos insistido é justamente este, ou seja, o da necessidade imperiosa de Portugal definir uma estratégia que mobilize, envolva e responsabilize todos os agentes turísticos e, assim, posicionar-se para aproveitar da melhor forma o crescimento sustentado que a actividade turística irá continuar a revelar à escala planetária, durante as próximas décadas.

Terminada a vigência do anterior Plano Estratégico Nacional de Turismo (PENT) e não tendo “arrancado” – pelas razões que se conhecem – o Turismo 2020 (elaborado pelo anterior Governo, no Verão passado), impunha-se preencher esse vazio, porque é sempre pior “navegar à vista”, adoptando medidas avulsas, do que ter objectivos definidos, mesmo que estes não mereçam o apoio ou não contemplem os contributos de uma parte – significativa ou não – dos agentes turísticos nacionais ou, ainda, apresentem metas irrealistas, situações que (como nos recordamos) aconteceram tanto com o PENT, como com o Turismo 2020.

Em nossa opinião, o Governo é pois credor uma palavra de apreço, quer por não ter protelado um assunto de tamanha importância quer por, simultaneamente, o abrir à discussão pública (até ao final do ano), resistindo assim à tentação de apresentar um documento “fechado”.

Para além destes aspectos, merece também que se destaque, por um lado, o facto de esta ser uma “discussão” para a próxima década (2017-2027) e que, por isso, abrangerá temporalmente o futuro Quadro Comunitário de Apoio (2021-2027), independentemente da forma que ele venha a assumir e, por outro lado, o momento escolhido para a apresentar, em pleno período de bonança e por esse motivo de alguma distensão, atentos os bons resultados que o turismo português tem vindo a alcançar.

Perante este cenário, perguntam-nos (e bem) os nossos leitores qual poderá ser o grande contributo que o sector privado dará para este debate? Quanto a nós, a partir do momento em que foi o Governo a tomar a iniciativa, o mais desejável é que as posições dos empresários sejam tão uníssonas quanto possível, ou seja, que os agentes privados, nomeadamente, através das suas estruturas representativas – as associações empresariais – tenham capacidade para se porem de acordo, para pensarem “o” e “no” turismo mais do que nos interesses (legítimos, mas corporativos) que representam, que façam um esforço para que sobressaia o que os une e não o que os divide.

Apesar de esta ser uma postura reactiva – e não proactiva (como sempre pugnámos) -, acreditamos que será a que, passada (ou perdida) que foi a oportunidade de “marcar a agenda”, melhor poderá enriquecer o debate e, acima de tudo, salvaguardar as posições defendidas por aqueles que são os maiores protagonistas de uma actividade económica que é, na sua essência, eminentemente privada e, por esta razão, os que mais directamente poderão sair beneficiados ou prejudicados de acordo com o sucesso ou insucesso revelados pelas medidas que, no final, acabarem por ficar contidas na Estratégia Turismo 2027.

Certamente que ao longo dos meses que se seguem este será um tema que os nossos leitores nos levarão a revisitar, o que faremos com grande prazer, aproveitando para dar – e recordar – os nossos singelos contributos para esta discussão pública que, para sermos sinceros, não prevemos que venha a ser muito acalorada.

Uma coisa é certa, há um documento “aberto” que está em “cima da mesa”. Não o debater e discutir é desistir de moldar o (nosso) futuro. Ignorá-lo significa voltar as costas ao turismo. E isso seria intolerável para a actividade e num país como Portugal!

 

Turisver.com – A estratégia do Governo para o turismo prevê o aumento do rendimento da população empregada no sector, que é 37% inferior à média (segundo o estudo). A ideia não é nova, o Presidente do Turismo de Portugal já se referiu várias vezes a este tema, e voltou a ele em Tomar. Mas a ideia também não é pacífica. O ex-presidente da AHP, Luís Veiga, disse tratar-se de uma falsa questão (os vencimentos dos trabalhadores da hotelaria) e acabaria até por considerar que o Governo estava a torpedear a hotelaria. Por seu turno, o director-geral da AHRESP, José Manuel Esteves, afirmaria que com alimentação e horas nocturnas, a restauração paga bastante acima da média nacional (1.037€ no mínimo). Na sua opinião esta é uma falsa questão ou, pelo contrário, é uma questão que devia mesmo ser levantada nesta altura?

 

Atilio Forte – Independentemente da formulação dada à pergunta, somos de opinião que todos os intervenientes têm argumentos válidos para sustentar o que afirmam. No entanto, e no que respeita aos vencimentos médios pagos nos diferentes sectores que integram a constelação turística, convirá não confundirmos efeitos com causas.

Queremos com isto dizer que numa economia de mercado, como se caracteriza aquela em que vivemos (e trabalhamos), o valor dos salários pagos situa-se, naturalmente, em função das competências e dos conhecimentos dos trabalhadores mas, também, em razão da capacidade financeira das empresas – que como é sabido estão descapitalizadas – e, tão ou mais importante, do volume de mão-de-obra disponível, qualificada ou não, consoante as funções a exercer.

Caso o turismo nacional continue a crescer em todos os indicadores (mais turistas, mais receitas, aumento da estada média, etc.), como se prevê, tal repercutir-se-á positivamente na actividade e nos resultados das empresas. E como o turismo é uma actividade económica de mão-de-obra intensiva, obviamente as empresas criarão mais postos de trabalho, contribuindo deste modo para a diminuição desse grande flagelo que é o desemprego.

Paralelamente a este aumento da oferta – de emprego -, e atenta a crescente exigência dos consumidores (turistas) – principalmente ao nível dos serviços prestados -, as empresas também terão necessidade em procurar (e reter) os profissionais mais habilitados.

Da conjugação destes dois factores – crescimento da actividade e necessidade de mais e melhor mão-de-obra – resultará um natural aumento dos salários médios pagos nas diferentes profissões turísticas.

É por estas razões que começámos por afirmar, que não se devem confundir causas com efeitos. Assim, e para concluir, o que é decisivo (para além da valorização das carreiras e profissões turísticas e da formação e qualificação dos recursos humanos) é manter o bom desempenho do turismo nacional, pois essa será sempre a principal “causa” que conduzirá ao “efeito” que todos desejamos, isto é, a melhoria da actividade empresarial, a diminuição do desemprego e o aumento dos salários.

 

O + da Semana:

Ultimamente, e em nossa opinião bem, tem-se acentuado a importância do papel e do contributo do turismo para o desenvolvimento das diferentes regiões do nosso país. De outro lado, Portugal tem vindo a registar um grande crescimento turístico ligado à enologia graças, sobretudo, aos seus excelentes vinhos, os quais não cessam de conquistar (merecida) fama por esse Mundo fora. Todavia não deixa de ser curioso, e por isso merecedor de destaque que, neste último ano, tenhamos constatado que algumas autarquias vêm procurando os empresários mais ligados à gastronomia – principalmente os hoteleiros e os restauradores -, solicitando-lhes que destaquem nas suas cartas ou incluam nas suas ementas (completando-as) vinhos da respectiva região, tendo por objectivo não apenas tirar partido dos efeitos multiplicadores que o turismo proporciona, mas também potenciar a promoção, a diferenciação, a autenticidade e a complementaridade dos produtos locais. Em linguagem turística dir-se-ia, com o intuito de “aprofundar as experiências vividas” pelos turistas. Pondo de parte os gostos de cada um, esta é uma ideia que pode e deve ser aprofundada. E não apenas ao nível dos nossos “néctares” de eleição.