iTurismo: Estratégia Turismo 2027, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana, Atilio Forte dedica o comentário à “Estratégia Turismo 2027”, que foi apresentada na abertura da BTL. No “O + da Semana”, o comentador faz um balanço da Bolsa de Turismo de Lisboa, que terminou no domingo passado, enquanto nos “Tópicos da Semana”, analisa as parcerias para potenciar o negócio, a aposta na inovação onde os robots substituem as pessoas e interagem com os clientes de hotel, bem como a evolução do sector das comidas e bebidas na hotelaria.

 Tópicos da Semana:

  • Saber cooperar pode potenciar o negócio: Presentemente é o que se está a passar em Nova Iorque, onde muitos hotéis boutique estão a fazer parcerias (nalguns casos a recrutar) com Chefes de grande nomeada, de modo a proporcionarem experiências únicas aos seus hóspedes e instantaneamente ganharem a confiança dos mesmos. Por seu turno esses Chefes pretendem abrir restaurantes onde não fiquem tão expostos às tradicionais margens “magras”, por isso terem a possibilidade de o fazer inseridos na hotelaria nova-iorquina, apresenta-se-lhes como uma espécie (excelente, diga-se) de “rede de segurança”.
  • Quando os robots substituem as pessoas e interagem com os clientes: O Hotel Henn-Na, localizado em Tóquio (Japão), apostou na inovação pela incorporação de uma fortíssima componente tecnológica através da qual, por exemplo, consegue que o acesso a cada um dos seus 100 quartos seja feito por reconhecimento facial. Mas o mais curioso é que conta com um total de 140 robots e, apenas, 7 pessoas, para receberem e atenderem os seus hóspedes. Desde dinossauros na portaria, a robots que entregam as malas nos quartos e explicam aos clientes as comodidades que têm ao seu dispor, até uma lata de lixo falante no “lobby”, há de tudo um pouco. E a experiência tem sido tão bem sucedida que a empresa já pensa em novas aberturas!
  • Sector das comidas e bebidas (F&B) em permanente evolução: Particularmente na hotelaria vem assistindo-se a uma progressiva customização das ementas, com o objectivo de corresponder às expectativas e anseios dos consumidores da “Geração Y” (“millennials”) quando viajam, particularmente ao seu desejo de provarem sabores locais e, assim, viverem e sentirem uma nova experiência, sempre que se hospedam num hotel.

 

Comentário:

Turisver – Foi apresentada, no dia de abertura da Bolsa de Turismo de Lisboa, a “Estratégia Turismo 2027”. Que avaliação faz deste documento, nomeadamente em termos das metas apresentadas?

 

Atilio Forte – Começamos por dar uma breve nota para dizer que atenta a importância do documento apresentado justifica-se, plenamente, a opção editorial da Turisver em dedicar, na íntegra, o comentário de hoje ao mesmo, pese embora por manifesta falta de espaço seja impossível ir além de uma análise genérica. Certamente oportunidades não faltarão para voltarmos ao tema em maior detalhe.

Sobre a “Estratégia Turismo 2027” (“ET27”) convirá, a título introdutório, fazer três referências:

A primeira para felicitar o Governo, para além do trabalho efectuado, por ter cumprido com o compromisso assumido em Maio passado e procurado delinear uma visão prospectiva para o desenvolvimento futuro da actividade turística em Portugal. Concorde-se ou não com os seus objectivos e conteúdo, deve relevar-se a pro-actividade demonstrada, seja no seu desenho e planeamento, seja na busca de contributos junto dos mais variados actores, tanto em Portugal, como no estrangeiro.

A segunda para reconhecer o esforço que foi realizado para tentar, num horizonte a 10 anos, por um lado, estabelecer metas mensuráveis e, por outro lado, definir medidas e acções concretas que suportem a (incontida) ambição do nosso país poder vir a “liderar o turismo do futuro” – expressão que consta como subtítulo do documento –, rejeitando liminarmente qualquer postura mais cómoda face aos bons resultados alcançados, particularmente nos últimos dois anos.

A terceira para referir que, apesar do dinamismo e do empenho colocados na elaboração do documento, o Governo não foi acompanhado deidêntico entusiasmo pelos privados – no fim de contas o grande motor da actividade e, por isso, principais interessados no sucesso futuro da mesma – os quais, embora o tenham caucionado desde a primeira hora, pela concordância pública expressa pelo seu organismo associativo de cúpula (a CTP – Confederação do Turismo Português), o facto é que os contributos dados foram parcos e, de alguma forma, impedem que a estratégia apresentada tenha maior fôlego, situação que, como não podia deixar de ser, reflectiu-se no resultado final.

Destas referências resulta a constatação, que imediatamente tivemos após a sessão de apresentação da “ET27”, de estarmos perante uma visão mais “pública” ou – se se quiser – “estatizante” (no bom sentido do termo), na qual o Estado aparece quase solitariamente como grande impulsionador da estratégia e não como uma das partes construtoras, comprometidas e responsabilizadas com a dita.

Acresce a este aspecto que, quer pela (auto) “desobrigação” do sector privado quer, principalmente, por na quase totalidade das vezes “o Estado” confundir-se com “o Governo”, ninguém garante que, num novo ciclo político – que quase certamente acontecerá antes de 2027 – tudo o que agora é proposto não possa vir a ser alterado, por discordância política ou por influência dos próprios agentes turísticos.

Poder-se-á dizer que esse é sempre o risco de quem faz! Posição com a qual concordamos e subscrevemos. Contudo, deve admitir-se que um maior compromisso entre todos os actores daria um acréscimo de robustez aos objectivos delineados, para já não dizer autoridade, precavendo e garantindo inflexões/alterações futuras, como adiante veremos. É que o turismo é demasiado importante para andar ao sabor das diferentes agendas políticas!

Chegados a este ponto, importa referir que a “Estratégia Turismo 2027” é composta por três grandes pilares, a saber: económico, social e ambiental.Pilares esses com os quais concordamos, sobretudo porque assentam ou têm na sua base as pessoas. Como tantas vezes afirmamos, o turismo é, porventura, a actividade económica mais humana e humanizada que existe, o que significa que é feito por pessoas para pessoas, já que tanto são elas quem acolhe, como quem viaja.

No entanto, somos de opinião que faria sentido ter introduzido um quarto pilar, não por uma mera questão de (maior) equilíbrio, mas porque provavelmente será nele que, dentro e fora das nossas fronteiras (plano internacional) e interna e externamente à actividade (plano nacional), residirão as maiores ameaças e/ou oportunidades. Referimo-nos ao pilar “Político”.

Legitimamente perguntar-nos-ão do porquê da sua necessidade? Ao que respondemos, porque quando se planeia a longo prazo numa actividade económica tão sensível ao que a rodeia – como é o turismo – sabe-se que, à partida, é impossível prever os desenvolvimentos que a poderão afectar (positiva e negativamente), mais a mais, num Mundo como aquele em que vivemos que muda (quase) a cada minuto. Porém, o que está ao nosso alcance fazer é definirmos, concordarmos e comprometermo-nos com o que de nós depende, com o que podemos realmente executar, onde temos possibilidade de intervir, de forma estruturante, tanto no plano internacional, como no nacional, tendo sempre presente que o turismo é uma das áreas da economia mais exposta à competição global e, por essa razão, a única certeza que conseguimos ter é que o que não fizermos num dado momento outros, por certo, fá-lo-ão nesse mesmo exacto tempo.

Ora quem quer que leia o documento apresentado verificará esta omissão (do “pilar político”), que assume particular relevância porque pelo seu conteúdo pretende-senão apenas definir uma estratégia, logo intervir no longo prazo (se ele se confinasse ao curto e médio prazo tal poderia aceitar-se) mas, também, manifestar-se uma ambição de liderança. Só que, como sabemos, é impossível liderar sem que haja intervenção política (no sentido amplo do termo).

Por exemplo, e cingindo-nos ao plano internacional se, por um qualquer passe de mágica, de um momento para o outro a situação na bacia mediterrânica estabilizasse, como é que Portugal reagiria? É que, sem qualquer dúvida, este é um factor que tem concorrido para o nosso bom desempenho turístico mas, como diz o ditado, “não há mal que sempre dure…”. E, não nos esqueçamos que estamos a debruçar-nos num horizonte de uma década. Portanto, seria bom definirmos o que nos propomos fazer para reter e fidelizar os fluxos turísticos que nos têm escolhido como alternativa a outros destinos.

Outro caso: sendo o Reino Unido historicamente um dos nossos principais mercados, caso o “Brexit” avance e, consequentemente, a libra sofra uma desvalorização maior do que a que actualmente é previsível, tal irá colocar-nos desafios (leia-se pressão) ao nível do preço aos quais será necessário dar resposta. Ou depreciamos – o que é possível, mas não é credível, nem desejável – ou será necessário encontrar alternativas que compensem as eventuais perdas de turistas daí oriundos. Vamos ficar à espera do que acontecerá, ou começamos já a delinear um “plano B”? É que este é, como o documento o define (e muito bem) um dos nossos “mercados estratégicos”…

E com os Estados Unidos da América (EUA)? Presentemente em franco crescimento devido ao aumento substancial das ligações aéreas, o que motivou com que fossem considerados no documento (também bem) como “mercado de aposta”. Caso as politicas da Administração Trump nos reservem alguma surpresa, qual ou quais as possíveis respostas?

E, por falar nos EUA, atento um admissível desanuviamento nas suas relações com a Rússia – apenas ao nível das sanções relativas à Crimeia – como irá comportar-se a União Europeia e qual é que será a posição de Portugal no seio dos 27 (ou 28)? É que no documento aquele mercado (russo) está classificado como de terceira linha (atrás dos “estratégicos” e dos de “aposta”), ou seja, como “mercado de crescimento”, adiantando-se mesmo a possibilidade de uma “actuação mais sistematizada, após o actual contexto político-social” (sic.). Assim, perguntamo-nos: se já se prevê essa evolução, não seria importante dar início a acções mais incisivas de modo a posicionarmo-nos para aproveitarmos “a crista da onda”? É bom lembrar que há poucos anos este era um mercado em franco crescimento tanto para a Europa, como para Portugal.

E Angola, que nem sequer merece uma referência? Como é sabido, há não muito tempo, chegou a agitar o mercado turístico nacional. Assume-se que nada irá mudar naquele país nos próximos 10 anos?

Estas são apenas algumas ilustrações que demonstram, no plano internacional, a importância da existência do que classificámos como “pilar político”. Mas muitas outras e com diferente abordagem poderiam ser dadas, seja ao nível da evolução demográfica, seja das tendências sociais com reflexos no consumo (o documento aborda-as mas incipientemente), seja ainda do turismo de base religiosa (particularmente o halal), para só referirmos algumas.

Mas se olharmos para o plano nacional, esta lacuna também se faz sentir. Senão, vejamos:

Apresenta-se uma estratégia a 10 anos, mas nada se propõe para a salvaguardar de eventuais sobressaltos políticos como, por exemplo, uma alternância de Governo. Seria próprio que, à semelhança do que acontece noutros países, alguns até com maior complexidade institucional do que a portuguesa – veja-se a nossa vizinha Espanha, detentora de um Governo Central e de Governos das Juntas Autónomas –, se procurasse concretizar um verdadeiro “Pacto de Regime” (há quase duas décadas que o defendemos) entre as diversas forças partidárias, nomeadamente as com tradicional representação parlamentar, assegurando por essa via aquilo que poderíamos definir como “uma política de turismo”.

Atenta a transversalidade da actividade, tal seguramente obrigaria, por um lado, ao estabelecimento de compromissos sérios em muitas outras áreas (quase todas com referências e objectivos expressos no texto), como na da saúde – se se pretende atrair mais “seniores”, o país tem que estar preparado, ao nível dos equipamentos, para os receber –, na da educação – se se quer qualificar, formar e educar mais e melhor, tal implica uma intervenção consistente e duradoura –, na da segurança – se somos percepcionados como um destino seguro, é decisivo aprofundar o trabalho invisível e silencioso que, tanto quanto possível, nos mantenha nesse plano – e, por outro lado, estimularia a partilha de responsabilidades nos planos legislativo, fiscal, autárquico, do investimento, etc., susceptíveis de criarem um quadro de referência estável para que o turismo se desenvolva no longo prazo, de modo a que quem investe, quem gere e quem trabalha, soubesse com aquilo que pode contar.

Ou mesmo, sabendo-se da importância (cada vez maior) que os transportes têm para o crescimento do turismo – se não houver “como chegar?”, dificilmente haverá desenvolvimento turístico –, nomeadamente para um país com a nossa localização, pelo menos, assumir-se a aviação como parte integrante e peça fundamental da actividade turística englobando-a, por essa razão, numa mesma Tutela.

E, já agora, porque esta é uma discussão que está longe de ter terminado, qual o papel que deve competir ao Estado, no que respeita ao turismo (que é a actividade em análise)? Deverá ser condicionador/interventor? Ou regulador/facilitador (e fiscalizador)?

Esperamos e acreditamos ter justificado, também no plano nacional, a necessidade da existência do “pilar político”, como um dos suportes decisivos para uma visão de longo prazo.

Temos consciência – aliás o documento di-lo – que a estratégia agora apresentada, para além de acompanhada e monitorizada, poderá sempre vir a ser alterada em função da conjuntura ou pela consideração de factores relevantes. Esperamos, assim, que este nosso comentário não seja entendido como uma crítica – porque o não é! –, mas antes como um singelo contributo para o aperfeiçoamento da mesma.

Existe grande mérito no trabalho desenvolvido, principalmente porque acabou por ser “mais solitário” do que inicialmente os seus promotores, por certo, previam e desejavam. Talvez por isso o mesmo quantifique algumas metas, como o número de dormidas ou o valor das receitas, e não indique outras, como o número de turistas.

Contudo, o mais relevante é que a “Estratégia 2027” está em cima da mesa e certamente ainda haverá possibilidade e abertura para a afinar e enriquecer. Ao invés, esgotou-se o tempo (e o argumento) para não ter opinião, porque não se sabe ou não se conhece. Quem não foi pró-activo, que seja reactivo. As pessoas, as empresas, o turismo, a economia e o país, merecem-no.

Terminamos dizendo que o sucesso faz-se com diálogo consequente e construtivo, que inclua, que promova a partilha, que comprometa e que responsabilize todos, sem excepção. Pois só assim se transforma a ambição, por mais legítima que seja, em verdadeira esperança. E a esperança é uma força gregária, logo mobiliza!

 

O + da Semana:

Domingo passado terminou mais uma BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa. Mais uma não… desculpem-nos, de acordo com os dados disponibilizados pela organização foi a maior BTL de sempre! Enchendo os 4 pavilhões da FIL o certame demonstrou o bom momento que o turismo atravessa em Portugal e que “o pior” já lá vai. Ao percorrer a feira constatámos o cuidado (traduzido em investimento) posto nos stands pelos expositores (inúmeros com enorme sentido estético e alguma inovação), a grande afluência de profissionais e o elevado número de contactos realizados, tal como, no fim-de-semana, a excelente adesão do público não apenas traduzida em visitas/entradas mas, felizmente, também em reservas. Naturalmente, e bem, a classe política (Presidente da República, Membros do Governo, Líderes Partidários, Deputados, Autarcas, etc.) decidiu marcar presença – só falhou o Primeiro-Ministro (?) –, associando-se aos bons resultados turísticos alcançados no passado recente e aos que se perspectivam, sublinhando e reconhecendo o trabalho e o contributo ímpar que os agentes da actividade deram, dão e (por certo) darão para o crescimento e desenvolvimento da economia nacional, o que, simpatias e elogios à parte, é inteiramente justo e mais do que merecido! Acreditamos, sincera e plenamente, que a actividade turística no nosso país pode estar perante um “virar de página” e que a responsabilidade acrescida que decorre dos êxitos por que passa no momento actual, a todos servirá de estímulo para, no futuro, fazerem cada vez mais e melhor.