iTurismo: A Febre das Taxinhas, por Atilio Forte

A entrada da Airbnb no segmento de luxo, a aposta dos investidores hoteleiros fora da sua zona de conforto e o aumento da compra online de viagens nos EUA constituem os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolheu como “O + da Semana” a reunião de ministros de Turismo na CPLP. No habitual Comentário, o destaque vai para as taxas turísticas, a que foi aprovada no Porto e a de “navegabilidade no Douro” proposta pelo edil de Sta. Marta de Penaguião.

Tópicos da Semana:

  • Airbnb prepara-se para entrar em força no segmento de luxo: De acordo com um artigo publicado na revista “Bloomberg”, aquela empresa planeia, até ao final do ano, lançar um novo tipo de alugueres especialmente dirigido aos consumidores de maior poder de compra. Este “programa”, denominado internamente “Airbnb Lux”, disponibilizará propriedades de luxo – mega casas, mansões, coberturas, etc. – que passem rigorosos critérios de inspecção física, nomeadamente padrões de consistência de serviço e qualidade do alojamento, à semelhança de qualquer unidade hoteleira de luxo. Este tipo de produto corresponderá a uma evolução natural do “Airbnb Select” e permitirá equiparar a segmentação da oferta deste gigante americano àquela que as grandes cadeias hoteleiras fazem actualmente.

 

  • Promotores e investidores hoteleiros apostam “fora da zona de conforto”: Quem está no negócio da hotelaria, ou nele deseja entrar, começa a ter “debaixo de olho” mercados menos tradicionais, principalmente aqueles em que as taxas de ocupação indicam estar em clara ascensão. Nalguns casos os investidores preferem comprar hotéis que se encontrem em actividade nesses locais, de modo a evitar os riscos e custos de construção.

 

  • Mercado americano cada vez mais “móvel”: Um estudo elaborado recentemente pela empresa de estudos de mercado “eMarketer” projecta que a compra de viagens online nos Estados Unidos da América vai alcançar, no final de 2017, um volume de negócios que rondará os 190 biliões de dólares, dos quais 40% das reservas serão efectuadas através de dispositivos móveis (computadores portáteis, “tablets” e “smartphones”), o que representará uma subida de 4 pontos percentuais comparativamente a 2016.

 

Turisver.com – Na passada semana, o executivo da Câmara do Porto aprovou a implementação da taxa turística a partir de Janeiro de 2018, tendo também ficado a conhecer-se que o Presidente da edilidade quer que a mesma seja de 2,00€ por cada noite dormida pelos turistas. Já no último fim-de-semana, o Presidente da Câmara de Santa Marta de Penaguião, Luís Machado, propôs a criação de uma taxa de navegabilidade no rio Douro a ser paga pelos turistas, que reverta para ajuda aos viticultores e para a sustentabilidade da região demarcada. Na sua perspectiva, estamos a começar a assistir a um excesso de exploração do turista que nos visita?

Atilio Forte – Julgamos ser útil começar por dar duas notas para melhor contextualizar cada uma das situações.

Uma primeira para sublinhar que a edilidade portuense apenas aprovou – sendo o único voto contra o da Coligação Democrática Unitária (CDU) – a implementação da taxa turística a partir do início de 2018. Segue-se agora um período de debate público, com o objectivo de encontrar o valor da taxa a cobrar e do destino a dar às receitas que dela resultarem. No entanto, e tal como é salientado na pergunta, o Presidente daquela autarquia defende que o valor da mesma seja 2 euros por dormida e estima que a cidade do Porto atinja 6,5 milhões de dormidas.

A segunda nota para recordar que relativamente à taxa de navegabilidade do Douro, a mesma (ainda) só traduz a intenção da autarquia mencionada, já que tal proposta irá ser presente à Comunidade Intermunicipal (CIM) do Douro, organismo que reúne os 19 municípios durienses. A atentar nas declarações do “pai da ideia” a taxa poderá oscilar entre 1 e 2 euros por cada passageiro que viaje pelo rio e terá como destino o financiamento directo dos viticultores para que “preservem a paisagem”, sobretudo quando a mesma seja alvo de intempéries como a que aconteceu recentemente (fortes chuvas e queda de granizo), e não abandonem as vinhas. Salienta-se que no ano transacto foram 900.000 os turistas que viajaram por aquele curso fluvial, em programas de duração entre 1 hora e 1 semana.

Feito este breve enquadramento, relembramos o que já aqui dissemos por inúmeras vezes, nomeadamente quando comentámos a introdução de uma taxa semelhante em Lisboa, momento que considerámos determinante, uma vez que a “capital daria o mote” e o pretexto para que os demais municípios seguissem o seu exemplo (como veio a acontecer com Cascais). Foi por esta razão que então referimos estar a abrir-se uma autêntica “Caixa de Pandora”.

Não é pois de estranhar o alargamento desta “esquizofrenia” a outros municípios e agora, ao que parece, a regiões inteiras, incentivada por um notório “aproveitamento” dos bons resultados turísticos que o país tem vindo a obter.

Concretamente, cremos que sobre a génese destas taxas (ou sobre a sua implementação) não haverá muito mais a referir. Em nossa opinião elas são nocivas para o turismo, já que encarecem os destinos, retirando-lhes competitividade. Uma situação que poderá agravar-se caso passem a “cumulativas”, isto é, vermos a sua aplicação estender-se a todo o território nacional e, nalgumas vezes, até duplicadas (como nos exemplos em análise, já que um turista que pernoite no Porto e faça um cruzeiro/passeio de barco no Douro, poderá vir a pagar duas taxas). Contudo, há dois aspectos ou, melhor, duas constatações que, ainda assim, não podemos deixar de destacar.

A primeira, prende-se com a incapacidade, cada vez mais demonstrável, da generalidade das nossas autarquias gerirem bem os recursos que têm – ainda há, felizmente, excepções – e, principalmente, saberem retirar o máximo partido dos benefícios que, de modo directo, indirecto ou induzido obtêm do actual estado de desenvolvimento e pujança da actividade turística, deixando levar-se pela tentação de “dinheiro fácil” cobrado aos que nem sequer são eleitores no nosso país. Se os turistas votassem por certo outro “galo cantaria”!

A segunda, relaciona-se com a total falta de peso (capacidade de influência) e de força (importância) reveladas pelos agentes da actividade, sejam eles públicos ou privados, de natureza nacional, regional ou local. A realidade é que, neste aspecto, o turismo não pode contar com o Governo (não nos esqueçamos que o processo de introdução da taxa turística em Lisboa foi iniciado quando o actual Primeiro-Ministro presidia à autarquia) e quanto às demais entidades, nomeadamente as que compõem o movimento associativo empresarial, aquilo a que temos assistido é ao claudicar sucessivo da defesa da competitividade turística nacional, por vezes a troco de “aparentes conquistas ou voz activa” no destino a dar às receitas das taxas aplicadas que, no fundo, não são mais do que miragens, uma vez que (de facto) não as controlam.

Não podemos terminar sem antes destacar que a partir do próximo mês de Outubro está previsto novo aumento das taxas aeroportuárias, por parte da ANA – Aeroportos de Portugal. Ou seja, e como se constata, as célebres “taxinhas” somam e seguem no caminho da proliferação.

Em suma, o turismo e os turistas que paguem “a conta”! Que paguem os devaneios, as promessas eleitorais e as insuficiências da gestão autárquica. A competitividade do destino fica/está, claramente, relegada para segundo plano. Pelo menos, perdoem-nos a linguagem, enquanto a actividade “estiver a dar”…

Todavia, esta é apenas a nossa opinião. Atento o sepulcral silêncio dos diferentes agentes turísticos, afinal, parece estar tudo bem!

 

Turisver.com – Termina amanhã um curso internacional sobre turismo cultural na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, subordinado ao tema “Cultural Tour Guiding. Theory & Practice; Skills and competences for guiding, interpretation and mediation in cultural tourism”. Primeiro, gostava de saber o que pensa da iniciativa, depois se ela deve ser motivadora para que se estabeleça uma melhor e maior relação entre o turismo e o nosso património cultural?

 

Atilio Forte – Quanto a nós este tipo de iniciativas faz todo o sentido pois, por um lado, preocupam-se em reunir o meio académico e os profissionais de turismo (do presente e do futuro) e, por outro lado, envolvem as universidades, centros de excelência do conhecimento, as empresas, locais onde a aplicação prática do mesmo é vital, e os profissionais que estão “no terreno”.

Sempre fomos defensores (e não vemos razão para alterar esta posição) da existência de uma ligação muito estreita entre todos estes actores, quer quem ensina, quer quem estuda, quer quem partilha e troca experiências e saber, quer a actividade turística ou quem nela trabalha, quer a cultura e o património, pois dela tanto o país, em geral, como o turismo, em particular, poderão retirar excelentes dividendos.

A única coisa a lamentar é que este seja um processo demasiadamente lento para a realidade e exigências actuais e, paralelamente, que não existam tantos encontros desta natureza como seriam desejáveis. Sejam as universidades, sejam as empresas, sejam os profissionais, têm tudo a ganhar se cooperarem mais e melhor, o que para ser alcançado obriga a uma redobrada intensidade e empenho nos laços a estabelecer.

E, claro está, em situações tão concretas quanto esta, os resultados são óbvios: não apenas assistimos à formação, qualificação e transmissão do saber, como dá-se um excelente contributo para a preservação da nossa História, cultura e património, material ou imaterial, habilitando quem de algum modo acolhe e acompanha aqueles que nos visitam, com argumentos válidos e rigorosos, para que melhor expliquem o país e o povo que somos e, não menos importante, indo ao encontro das “experiências” únicas, hoje em dia tão procuradas.

Temos para nós que, actualmente, já não é suficiente “pôr as pedras a contar a sua história”. Deve ir-se mais longe e entrar-se no plano emocional e sensorial. Porque é esse que mais marca, que é mais impressivo e duradouro. E certamente que Portugal, enquanto Estado-Nação mais antigo da Europa, tem muitas “emoções” para partilhar!

 

O + da Semana:

Aqueles que nos acompanham mais de perto sabem que há anos (publicamente desde o início da presente década) que somos acérrimos defensores da criação de um “mercado interno de génese lusófona e raiz atlântica” como forma, entre muitas outras vantagens, de ganharmos dimensão e, assim, podermos competir à escala global com outro tipo de argumentos. Paralelamente, também sempre manifestámos a convicção que a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) só terá futuro, caso se “auto despolitize” e adopte uma visão “mais concreta e palpável” traduzida, tanto na potenciação das relações económicas entre os seus Membros, como na cooperação destes com o objectivo de marcar uma presença mais significativa no mercado mundial. Por esta razão, atribuímos grande importância à reunião de Ministros do Turismo da CPLP, que teve lugar em Foz de Iguaçu (Brasil) no final do mês passado, onde foram aprovadas várias propostas apresentadas pelo Governo português relativas à actividade turística – Plano Estratégico de Cooperação em Turismo e respectivas linhas de acção, formação de formadores em Turismo, promoção turística digital dos valores e património comum aos diversos Membros e replicação do “Programa Revive” (que visa a recuperação e valorização do património imobiliário público, em Portugal) nos países que integram a CPLP. É caso para dizer: “mais vale tarde que nunca”! Esperando-se, agora, que todas estas propostas sejam ratificadas na XXII Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP, que terá lugar em Brasília (Brasil) no decurso deste mês.