iTurismo: Feiras com Novo Fôlego, por Atilio Forte

O previsível crescimento da edição de 2017 da BTL, e o lançamento, pelo Governo uma nova linha de apoio a projectos turísticos no interior, no montante de 10 milhões de Euros são as questões abordadas por Atilio Forte do iTurismo desta semana. O hotel mais antigo do mundo, a inovação tecnológica no sector hoteleiro, e como serão os hotéis do “amanhã” são analisados nos “Tópicos da Semana”, enquanto “O + da Semana” tem como tema o “co-living” na hotelaria.

Tópicos da Semana: 

  • Sabe onde fica o hotel mais antigo do Mundo?: No Japão! Localizado na cidade de Hayakawa – mais ou menos 180 quilómetros a Sudoeste de Tóquio –, o “Nishiyama Onsen Keiunkan” recebe hóspedes há mais de 1.300 anos, razão porque é considerado o estabelecimento hoteleiro mais antigo do planeta. Nas mãos da mesma família há 52 (!) gerações (abriu portas no ano 705), foi totalmente renovado em 1997 possuindo presentemente 37 quartos, todos decorados no estilo tradicional japonês, sendo que alguns têm a “zona de banhos” a céu aberto. O preço por quarto/noite ronda os 355€.
  • Inovação tecnológica no sector do alojamento em 2016: De “provocantes” a “práticos” é a melhor definição que podemos fazer dos avanços tecnológicos registados no ano passado. Programas de realidade virtual e quartos activados (comandados) por voz são apenas dois dos muitos exemplos que, a este respeito, podem ser dados. Nos “bastidores” o progresso tecnológico acentuou-se na racionalização dos processos de gestão e operação, enquanto as quebras de segurança dos dados, sobretudo as relacionadas com os dos clientes, mantiveram-se como o maior desafio que o sector enfrenta.
  • Como serão os hotéis do “amanhã”?: De acordo com um estudo levado a cabo pelas consultoras Deloitte e Doblin, os hotéis do futuro deverão pensar (e ser pensados) para além da marca e das suas “quatro paredes”, transformando-se em centros comunitários completamente focados em proporcionar uma experiência total aos seus hóspedes (ver abaixo e em complemento “O + da Semana”).

 

 Comentário:

Turisver – Já são conhecidos alguns dados sobre a próxima BTL. Segundo a organização esta será a maior BTL de sempre no que se refere ao número de empresas presentes, e será uma das maiores em área ocupada, já que para acolher todos os expositores vai ser aberto o 4º pavilhão da FIL. Neste crescimento, a BTL não está sozinha, uma vez que um pouco por toda a Europa as feiras de turismo estão a ver ampliado o número de expositores. Que ilações se podem tirar, em termos da importância para o sector, do reforço da Bolsa de Turismo de Lisboa e do crescimento deste tipo de eventos de promoção que ainda há pouco tempo se dizia estarem a perder peso?

 

Atilio Forte – Num dos nossos comentários de finais do ano transacto, já havíamos referido – e saudado – o previsível crescimento da edição de 2017 da Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL), que terá lugar entre 15 e 19 de Março, agora confirmado com o anúncio da ocupação de todos os pavilhões da FIL.

Em nossa opinião, este aumento do espaço ocupado que progressivamente se tem verificado nas últimas edições da BTL deve-se, principalmente, a duas grandes ordens de razões: por um lado, o facto de a organização ter percebido a necessidade de alterar as datas de realização do certame, “puxando-as” mais para o final do primeiro trimestre de modo a ir ao encontro, quer do momento em que os diferentes agentes turísticos começam a ter produto disponível para as épocas média e alta, quer da altura em que os consumidores começam a preocupar-se com a escolha do local ou destino onde pretendem passar as suas férias e, por isso, a procurarem no mercado quais as possíveis alternativas que têm, de acordo com as suas disponibilidades, nomeadamente financeiras, e preferências (praia, cultura, natureza, etc.).

Claro está que numa perspectiva mais global, este sucesso está intimamente relacionado tanto com a gradual melhoria do poder de compra sentida pelos portugueses em geral, como com os bons resultados que têm vindo a ser alcançados pelo turismo nacional, mormente nos últimos três anos, que motivam um maior número de agentes turísticos a participarem na qualidade de expositores neste (e noutros) evento(s), já que começam a ter mais “desafogo” financeiro para neles investirem e, paralelamente, ao verem a procura aumentar, recuperaram a consciência da importância em nele(s) estarem presentes para, desse modo, promoverem e exporem os produtos, os destinos, no fundo a oferta turística que detêm ou pretendem divulgar.

Em síntese, devemos reconhecer mérito a todos quantos participam na organização da BTL, tal como devemos estar cientes que este crescendo está directamente relacionado com o bom momento que a actividade económica do turismo atravessa, não apenas em Portugal, mas um pouco por toda a parte.

Procurando agora fazer uma análise mais holística sobre o actual momento por que passam as “feiras de turismo” (BTL incluída), podemos afirmar com segurança que se descontarmos o efeito promocional e, até, de materialização de vendas, que as mesmas têm junto dos potenciais consumidores, do ponto de vista profissional elas servem, sobretudo, para fazer novos contactos e manter “vivos” os já existentes, para observar as mais recentes inovações verificadas nos diferentes sectores que compõem a constelação turística e apreender o “estado da arte” e, ainda, para a possibilidade de realização de “autoformação”, uma vez que, normalmente, estes são eventos que contemplam um grande número de acções paralelas, por vezes até em excesso, como sejam, seminários, colóquios, debates, etc., reunindo oradores de nomeada que, de outro modo, seria impossível (ou pelo menos bem mais difícil) ouvir e, eventualmente, interpelar.

Perguntar-nos-ão, então e o negócio? Se exceptuarmos o que atrás referimos (os potenciais consumidores), com a facilidade que hoje em dia temos em comunicar uns com os outros, independentemente do local do planeta onde nos encontramos, e a esse aspecto aliarmos quer a crescente exigência de uma procura com maior avidez por novas, diferentes e, mesmo, exclusivas propostas, que tornam “o segredo cada vez mais a alma do negócio”, quer a dificuldade em ter “sossego” para reflectir, debater e criar num “ambiente de feira”, a maior parte dos contactos entre os diversos agentes turísticos com essa finalidade decorrem, normal e naturalmente, em momento alternativo ao do certame, seja ele qual for.

Em jeito de conclusão, podemos afirmar que, ultrapassada que foi a conjuntura adversa motivada pela crise financeira internacional de 2008, que penalizou a actividade turística tal como as demais áreas da economia internacional – levando à sensação de perda de “peso” das feiras de turismo –, o que verificamos é que houve, por assim dizer, uma transferência do foco principal destes eventos, que até então se situava mais no “business to business”, para se centrar mais na promoção, nas “relações públicas” e na qualificação profissional e, simultaneamente, no dedicar maior “atenção” ao consumidor directo.

 

Turisver – O Governo lançou recentemente uma nova linha de apoio a projectos turísticos no interior, no montante de 10 milhões de Euros. Esta constitui a terceira linha de apoio referente ao Programa Valorizar, depois do Turismo Acessível que teve 5 milhões de euros e dos projectos wi-fi em centros históricos, com 1 milhão de euros. Qual a sua opinião sobre estes apoios que visam a descentralização geográfica do turismo?

 

Atilio Forte – Inúmeras foram as vezes que, ao longo das nossas análises, chamámos a atenção paraopapel decisivo que o turismo tem como factor de coesão social e territorial e, não menos importante, como dínamo das economias locais e regionais, atentos os enormes efeitos indutores que nelas provoca, sendo por essa razão uma das áreas da economia que mais contribui para esbater as assimetrias entre o interior e o litoral.

Deve por isso saudar-se esta “Linha de Apoio à Valorização Turística no Interior”, agora apresentada pelo Governo e inserida no âmbito do “Programa Valorizar”, pois é exactamente a este aspecto que ela procura dar resposta: apoiar o investimento de iniciativas ou projectos “…com interesse para o turismo, que promovam a coesão económica e social do território” (sic).

Sucintamente, são cinco as tipologias de projectos e iniciativas que esta “Linha” tem por finalidade apoiar:  “projectos de valorização ou incremento da oferta de “Cycling&Walking”; projectos de valorização do património e dos recursos endógenos das regiões ou de desenvolvimento de novos serviços turísticos com base nesse património e nesses produtos; projectos de desenvolvimento de actividades económicas do turismo ou com relevância para o sector, assim como de valorização e de qualificação das aldeias portuguesas; projectos que tenham em vista a estruturação de programas de visitação turística em destinos do interior; e, desenvolvimento de calendários de eventos com potencial turístico e com impacto internacional realizados nos territórios do interior ou com impacto nesses territórios” (sic).

Obviamente que também está subjacente à criação desta “Linha” a atenuação dos efeitos da litoralização, nomeadamente turística, mas não só, que são por demais evidentes no nosso país visando, pelo aumento da dinâmica económica (turística!), proporcionar oportunidades de emprego que, como se sabe, cada vez são mais escassas nas zonas do interior do território nacional.

Apesar de possuir uma dotação relativamente exígua (10 milhões de euros) para a magnitude dos efeitos pretendidos, não será sem curiosidade que acompanharemos o evoluir das candidaturas (que podem ser efectuadas até ao final deste ano), de forma a aferirmos a adesão às mesmas por parte dos agentes económicos privados, junto dos quais será muito importante divulgar a existência deste “apoio”, por forma a evitar o seu “açambarcamento” pelo poder local, retirando-lhe desse modo parte substancial da vitalidade e do dinamismo desejados.

 

O + da Semana:

Uma das tendências para 2017 que está a gerar mais expectativa ao nível da hotelaria é a do “co-living” (partilha de espaços comuns pelos hóspedes), não apenas para dar resposta ao denominado alojamento local e aos hostels, mas também como forma de contrariar a crescente solidão em que um cada vez maior número de pessoas vive, principalmente as que viajam com maior frequência. Tal como aconteceu com a internet ou o wi-fi (inicialmente o importante era que os mesmos estivessem disponíveisapenas no quarto), há hoje uma tentativa clara em responder ao desejo de maior comunhão, partilha e convívio dos consumidores, através da reinvenção das zonas comuns, de modo a permitir-lhes uma crescente interacção, principalmente nos hotéis de menor dimensão. Aliás, algumas grandes cadeias internacionais já criaram “marcas” específicas para preencherem esta “lacuna”, como a “Jo&Joe” da AccorHotels ou a futura “Microtel” da Hilton Worldwide. Por estas razões, todas as unidades de menor dimensão deverão (se já não o têm) passar a ter nas suas prioridades formas de “reunir” os hóspedes (dentro e fora do hotel) e, assim, proporcionarem-lhes experiências conjuntas ou, se se quiser, maneiras de levar “estranhos” a juntarem-se e a conhecerem-se, fazendo com que, mesmo por um curto espaço de tempo, se sintam “em casa” e, tal como aí, possam falar com os seus “vizinhos”, sejam eles do seu prédio, da sua rua ou do seu bairro.