iTurismo: A Geração do Milénio, por Atilio Forte

As inovações ao nível do investimento hoteleiro no país, e a crescente atenção que a actividade turística tem captado por parte do poder político, nomeadamente do Governo, estão em destaque no iTurismo desta semana. Atílio Forte comenta também os resultados do último estudo do IPDT sobre intenção de férias dos portugueses.

Tópicos da Semana:

  •  Quem lidera o crescimento turístico actualmente?: Uma pesquisa realizada pela consultora internacional “1010data” revela que a crescente popularidade da Airbnb, dos hotéis boutique e das Online Travel Agencies (OTA’s) tem significado um aumento de concorrência para as principais cadeias hoteleiras, pois enquanto o número de consumidores que preferem as primeiras não pára de crescer, um acentuado abrandamento na subida dos preços médios das segundas tem vindo a verificar-se.
  • Animação é a mais recente tendência na promoção dos hotéis: Com o objectivo de aumentar a despesa dos clientes e fazer crescer os gastos destes nas áreas onde estão implantados, particularmente no comércio, “novos” e “velhos” hotéis vêm aumentando a sua oferta ao nível do entretenimento. Música ao vivo, exibição de filmes e, até, pistas de bólingue contam-se entre os elementos que mais têm contribuído para aumentarem a sua atractividade junto dos (potenciais) hóspedes.
  • Berlim enfrenta excesso de quartos no segmento de luxo: Presentemente o preço dos quartos em hotéis de luxo na capital da Alemanha pode considerar-se uma verdadeira pechincha, se comparado com o praticado em outras grandes cidades como Nova Iorque, Paris ou Londres, motivo que levou os hoteleiros alemães a alertarem para a sustentabilidade (e nalguns casos viabilidade) dos seus negócios.

 

 Comentário

Turisver – Em Portugal os investimentos no sector da hotelaria são para continuar com grande cadência nos próximos anos. Na sua perspectiva,  estes investimentos que estão a surgir já vão ao encontro da procura dos chamados millennials, ou será que não estamos a inovar?

 

Atilio Forte – Esta é, sem sombra para qualquer dúvida, uma excelente pergunta! Mais a mais porque a sua resposta não é fácil… nem curta.

Por estes motivos é tentador dizer-se que, à primeira vista e atentos os sucessos recentes do turismo português, mesmo tomando em consideração a conjuntura internacional favorável de que temos beneficiado, tudo indicia que estamos no bom caminho, pois se tal não acontecesse dificilmente seriam explicáveis quer os resultados que vimos alcançando, quer as perspectivas de investimento na actividade turística que vislumbramos. Mesmo quando olhamos para aqueles que são os projectos “mais pesados”, seja em termos de capital, seja de intensidade de mão-de-obra, seja ainda com prazos de amortização mais longos, como é o caso da hotelaria, verificamos que respira-se confiança.

E isso significa que quem arrisca o seu capital pensa – porque avaliou, porque reflectiu, porque estudou – que o está a aplicar em projectos com futuro, isto é, que irão merecer a preferência dos turistas, por se encaixarem na perfeição na procura presente e dos anos vindouros e, portanto, que não só irá reaver, como irá multiplicar os valores investidos.

Em suma, e procurando simplificar, esta será a resposta mais objectiva à questão que nos foi colocada.

Contudo, e dentro das limitações de espaço que temos, não resistimos em aqui deixar algumas notas que possam contribuir para uma reflexão mais aprofundada sobre este decisivo tema.

É um facto que a geração “Y” ou do “milénio” – genericamente o grupo de consumidores que nasceram entre 1980 e 1996 – não dá tanta importância à “posse” ou à “propriedade” como a que a antecedeu (a geração “X”), por duas grandes ordens de razões:

Primeiro, porque ficou “marcada” pelas crises económicas, sobretudo as que têm assolado o sistema financeiro mundial no último par de décadas as quais, por um lado, limitaram-lhe o acesso ao crédito e, por outro lado, alertaram-na para as consequências nefastas que o endividamento excessivo pode ter nas suas vidas. Muitos dos que pertencem a esta geração viveram e viram a angústia dos seus pais, por perderem o emprego ou não conseguirem pagar a prestação da casa ou do carro.

Depois, porque nasceram em pleno advento da internet e, por isso, desde cedo, habituaram-se não só a ter acesso (quase) ilimitado à informação à escala global, o que lhes permite uma maior racionalidade (e comparação) enquanto consumidores, como constataram que essa “nova ferramenta” tecnológica possibilitou o aparecimento de outros modelos de negócio/consumo, cujo exemplo mais paradigmático é o configurado pela chamada “economia de partilha”, como ainda habituaram-se a “ir às compras online”, ou seja, a qualquer hora do dia ou da noite exercerem a suaautoridade de clientes com o menor esforço possível (quero comprar, logo não tenho que deslocar-me e tudo deve ser-me disponibilizado da forma mais fácil, confortável ou acessível). Caso contrário exercem o “seu poder” e alertam os demais consumidores (através das redes sociais, dos sites específicos, da blogosfera, etc.) sobre o que não gostaram ou para as deficiências que constataram.

Não é assim de estranhar que a conjugação destas duas grandes ordens de razões tenha “sobreposto” a experiência à posse e motivado o aparecimento de um sem número de “novos negócios”, fazendo com que os mesmos prosperassem. As “Ubers”, as “Amazons”, as “qualquer coisa sharing” são disso um bom exemplo. Ou, no caso do turismo, as “TripAdvisors”, as “Airbnbs”/Alojamentos Locais, os “Hostels”, etc..

Deste estado de coisas resulta uma boa notícia, particularmente para a actividade turística, e um desafio com que todos os agentes económicosestão presentemente confrontados, independentemente do tipo de negócio a que se dediquem:

A boa notícia é que menor “vontade de posse ou propriedade” liberta maiores recursos para consumir. E quando o consumo releva as experiências, as vivências, as emoções, o turismo surge na linha da frente, ou seja, acentuam-se as perspectivas de tempos de prosperidade para a actividade nas próximas duas a três décadas.

O desafio prende-se com a capacidade de adaptação que as empresas demonstrem para moldar-se a este “novo” tipo de clientes. No fundo, estamos perante a célebre máxima vulgarmente atribuída a Charles Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.

Só que tal não irá ficar por aqui. É que se a tecnologia é extremamente importante para os “millennials”, para a geração seguinte (a “Z”) – nascida, aproximadamente, entre 1997 e 2012 – ela é vital, porque para os seus nativos ela é a “sua água”, isto é, a sua “fonte de vida”, porque integra o seu código genético.

Postas as coisas nestes termos, seja como destino turístico, seja enquanto investidores, devemos perguntar-nos: temos capacidade de adaptação para respondermos às solicitações de uma geração de consumidores cada vez mais globais, mais informados, menos fiéis e mais impacientes? A nossa oferta turística vai ao encontro das preferências e do modo de estar na vida dos nossos potenciais clientes? Até que ponto estamos preparados para sermos disruptivos com grande parte dos modelos e conceitos com que crescemos e aprendemos? Somos ou estamos visíveis na internet? Em que medida é que a nossa oferta/produto/negócio está integrada com a comunidade local? Temos disponível uma aplicação (“App”) que permita adquirir facilmente o nosso produto ou fazer reservas do mesmo instantaneamente? Como conseguiremos ganhar a fidelidade dos clientes? O que fazemos para nos distinguirmos dos nossos semelhantes/concorrentes e, desse modo, sobressairmos e sermos mais atractivos e diferentes?

Como os nossos leitores já perceberam poderíamos continuar, porque as perguntas e/ou os desafios são infindáveis.

Mesmo para os que tenham ficado levemente preocupados ou sentido que os acontecimentos o(a) ultrapassaram após a leitura destas linhas, de nada vale perder o ânimo. Ainda há tempo! É que graças aos progressos que a Humanidade tem feito, nomeadamente no campo da ciência, a esperança de vida continua a aumentar. E, no momento presente, isso traduz-se em longevidade dos clientes das gerações dos “baby boomers” (os que nasceram entre 1946 e 1964) e da “X” (nascidos entre meados dos anos 60 e finais dos anos 70), apesar de, também estes, recorrerem crescentemente ao uso da tecnologia para a selecção e marcação das suas viagens.

Em conclusão, tanto para quem está no turismo, como para os que nele pensam investir, o presente está salvaguardado! A questão é: como garantir o futuro?

 

Turisver – O Ministro da Economia tem vindo a aparecer com mais regularidade em eventos do turismo nos últimos meses. Na sua opinião é este papel activo que se espera que Manuel Caldeira Cabral tenha, dada a crescente importância do sector?

 

Atilio Forte – Como habitualmente temos o cuidado de fazer, começamos por recordar que as nossas análises debruçam-se sempre sobre acontecimentos, projectos, estratégias ou opções políticas e nunca sobre pessoas.

Dito isto, entendemos com total normalidade a crescente atenção que a actividade turística tem captado por parte do poder político, nomeadamente do Governo e, muito em particular, da sua tutela, o Ministério da Economia.

E afirmamo-lo quer por ser uma consequência óbvia em face dos bons resultados que a actividade tem demonstrado e, por essa via, do precioso contributo que vem dando para o desenvolvimento e coesão económica, social e territorial de Portugal – mais riqueza, mais investimento, mais emprego, maior equilíbrio da nossa balança comercial, maior crescimento das exportações e menores assimetrias entre o interior e o litoral –, quer porque finalmente (dizemo-lo há tantos anos!), “a política” e “os políticos” começam a perceber que esta é uma das áreas da economia que quase sempre é portadora de boas notícias e, por essa razão, não apenas merece ser acarinhada, acompanhada e estimulada, como exemplifica na perfeição aquilo que, acreditamos sinceramente, todos querem e por quetrabalham: o progresso de Portugal.

Acresce a esta constatação o facto de o turismo ser, porventura, a mais transversal e pluridisciplinar de todas as actividades económicas, exigindo constante atenção e permanente interacção com as demais áreas da governação, uma vez que o seu sucesso e desenvolvimento sustentável carecem, por um lado, da harmonização das políticas públicas e, por outro lado, da coordenação da intervenção do Estado nas suas diversas formas, mormente na regulação, na fiscalização e na protecção do consumidor.

Para além disso convém ter presente que esta é uma actividade feita por pessoas, para pessoas, e por isso que tem e trabalha com a mais rica e sensível de todas as matérias-primas: o ser humano. Pessoas de cuja memória fica para sempre a fazer parte integrante, seja como a concretização do mais idílico dos sonhos, seja como o pior dos pesadelos.

Não é por isso de estranhar que, por estas e muitas outras razões, há mais de duas décadas defendamos a existência de um Ministério do Turismo (ondeo sector da Aviação – transporte aéreo, infra-estruturas aeroportuárias, navegação, segurança e controlo aéreo – esteja englobado), já que, como se tem demonstrado à saciedade, a actividade precisa de uma voz activa, focada, própria e especializada, no principal centro executivo de decisão do país: o Conselho de Ministros.

É que não há outra actividade económica com tanto potencial de crescimento. De nenhuma outra existe a previsão que continue a aumentar, nas próximas décadas, a uma taxa superior ao dobro do que cresce a economia mundial. Para já não falar do insubstituível papel que tem na paz e na concórdia entre os povos, na preservação do meio ambiente, na educação e na melhoria da nossa qualidade de vida.

A Portugal mais não resta do que determinar o que pretende fazer para continuar na “linha da frente” dos principais destinos turísticos mundiais e, consequentemente, decidir quais as melhores opções para garantir uma “fatia” do crescimento futuro que o turismo perspectiva.

 

O + da Semana:

 Há poucos dias foi revelado o habitual estudo realizado nesta época pelo IPDT – Instituto de Turismo, em parceria com o operador turístico Soltrópico, sobre as intenções de férias dos portugueses para o corrente ano. Embora com uma amostra relativamente pequena – 411 respostas obtidas ao questionário efectuado através do “Facebook” –, é de sublinhar que 93,4% dos inquiridos disseram pretender realizar férias fora do seu local de residência, o que pode ser interpretado como um aumento face a 2017, já que no ano passado este valor situou-se nos 91%. Talvez por em 2018 os feriados não proporcionarem tantas “pontes”, prevê-se uma ligeira diminuição dos “short breaks” (escapadinhas), relativamente ao período homólogo. Ao invés, aumentou a vontade manifestada para a realização de períodos de férias de média e longa duração (91%), o que contrasta com os 74% de intenções manifestadas há um ano, em idêntico estudo. Em suma, e no que respeita às férias dos portugueses, prevê-se que a actividade turística continue a prosperar durante o ano que está em curso.