iTurismo: Grandes Congressos e Turismo Halal, por Atilio Forte

A entrada do Facebbok no turismo, soluções hoteleiras “mais verdes” e as preferências da geração Y são os “Tópicos da Semana do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte destaca como “O + da Semana” o protocolo entre a Fundação AIP e a Hoti Hoteis. O habitual Comentário versa sobre a subida de Portugal no ranking da ICCA e os esforços para a entrada no mercado do Médio Oriente.

 

Tópicos da Semana:

  • Quartos mais pequenos são proposta para atrair a geração “Y”: Em resposta à sensibilidade comportamental manifestada pelos turistas da geração do milénio, várias cadeias hoteleiras começam a criar (desenhar, conceber, construir) unidades de alojamento mais pequenas, principalmente nos hotéis de cidade. Deste modo conseguem ficar com mais “espaço livre” para proporcionarem novas experiências aos seus hóspedes, seja nas áreas comuns, seja nos restaurantes e bares e, simultaneamente, ganham a possibilidade de aumentarem o número de quartos de que dispõem.

 

  • Ser mais amigo do ambiente compensa: Inúmeras marcas hoteleiras têm vindo a introduzir soluções “mais verdes” nos seus modelos de operação, de modo a atraírem o crescente mercado de consumidores com maiores preocupações ecológicas e consciência ambiental. Em consequência desta nova tendência, muitas unidades têm aproveitado para transformarem os seus jardins (ou parte deles, por vezes até os terraços) em hortas que produzam vegetais e ervas aromáticas que, posteriormente, utilizam na confecção das refeições que servem.

 

  • Facebook entra “a sério” no turismo: As duas novas aplicações (“Apps”) disponibilizadas por esta rede social – “Facebook Events” e Facebook Recommendations” – têm tudo para se tornarem em poderosos instrumentos do marketing turístico, uma vez que permitem quer uma maior disseminação dos produtos disponibilizados pela oferta, quer uma maior interacção tanto com os actuais como com os potenciais (futuros) clientes.

 

Comentário

Turisver.com – Foi recentemente divulgado o ranking da Associação Internacional de Congressos e Convenções (ICCA) que colocou Portugal no 10º lugar mundial, com uma subida de dois lugares, enquanto a nível europeu mantemos o sétimo lugar. Na sua opinião estes resultados são o espelho do trabalho que temos desenvolvido para conquistar mais mercado neste segmento, ou poderíamos fazer mais?

Atilio Forte – Pese embora os resultados agora divulgados respeitem ao ano passado, sem sombra para dúvidas que esta é mais uma excelente notícia para o turismo português e que vem provar o que desde sempre vínhamos (também) aqui afirmando, ou seja, que independentemente do peso que os canais digitais têm presentemente na forma como a promoção turística é realizada, existem outras áreas onde a divulgação da nossa oferta pode e deve ser feita em moldes não só mais assertivos mas, também, mais profissionais (e às vezes pessoais).

Por essa razão tivemos oportunidade de saudar neste espaço a decisão do Governo em criar, no âmbito do Turismo de Portugal, uma estrutura com a missão de proceder à captação de grandes eventos internacionais junto das entidades que os organizam e, sempre que necessário, colaborar na coordenação dos intervenientes nacionais, agilizando processos e desbloqueando constrangimentos, de modo a fazer com que o nosso país ganhasse uma competitividade acrescida neste importante segmento do negócio turístico.

Claro está que nada disto teria sido possível, caso as acessibilidades e a qualidade global da oferta turística instalada não existissem. Por isso, é legítimo reconhecer-se que grande parte do sucesso que, neste particular, tem vindo a ser obtido deve-se, e em muito, à iniciativa privada, pois sem os investimentos efectuados e a constante inovação das operações e do produto, tal tornar-se-ia extremamente difícil alcançar.

Apesar deste honroso 10º lugar (em igualdade com o Canadá) a nível mundial – graças aos 287 eventos que acolhemos em 2016 e que preencheram os requisitos da International Congress and Convention Association (ICCA) – convirá termos presente, por um lado, a importância específica que Lisboa e Porto nele tiveram – respectivamente 9ª e 20ª classificadas na lista das cidades mundiais anfitriãs de mais congressos e convenções – e, por outro lado, que o mesmo só foi atingido devido à excelente relação preço/qualidade da nossa oferta – seguramente uma das melhores da Europa.

Como progredir nesta escala? E como fazer mais e melhor no futuro? São estes os desafios que doravante se nos colocam.

Ora, se por um instante pusermos de lado as constantes melhorias que deveremos continuar a fazer em todas as áreas, em nossa opinião, existem três aspectos fundamentais sem o contributo dos quais não podemos almejar ir muito mais além. São eles:

Desde logo o novo aeroporto de Lisboa, com tudo o que ele implica, nomeadamente, maior capacidade para receber/escoar tráfego aéreo e processar passageiros e bagagens.

Em seguida, dotarmos o país de uma infra-estrutura permanente (e não adaptável pontualmente) com capacidade para acolher megaeventos, isto é, congressos e reuniões acima dos oito, nove ou dez mil participantes, aliás como a Associação Turismo de Lisboa (ATL) já referiu, e bem.

Finalmente, reconsiderar (porque tal já foi possível), permitir e adoptar – tal como acontece na maior parte dos países da União Europeia – a dedutibilidade do IVA nas despesas profissionais de recepção, alojamento e transporte.

A actividade turística já provou à saciedade o muito que pode contribuir para o progresso do país. Na esmagadora maioria das vezes mesmo sem os meios necessários e tendo que superar adversidades e constrangimentos sérios à sua competitividade como, acreditamos, se conclui pelo que acabámos de expor.

Portanto, se pretendemos progredir neste segmento turístico que, não é demais enfatizá-lo, é dos que maior taxa de repetição de visitas ao destino apresenta e, ainda, um dos em que a concorrência é mais feroz, temos de ser céleres na solução das suas carências e no potenciar da sua competitividade.

 

Turisver.com – Portugal está a participar no Arabian Travel Market (ATM) nos Emirados Árabes Unidos para dar a conhecer o destino Portugal nesta região do globo e, ao mesmo tempo, fala-se na possibilidade de a Qatar Airways abrir uma rota para Lisboa. Na sua perspectiva estamos preparados para receber turistas do mercado islâmico?

Atilio Forte – Vale a pena começarmos por sublinhar a mais-valia que representa este “marcar presença” no Médio-Oriente, não apenas para nos darmos a conhecer aos fluxos turísticos que directa e indirectamente daí podem ser originários – atento quer o seu elevado poder de compra, quer o papel cada vez mais significativo que a região assume como plataforma (“hub”) de distribuição de tráfego/turistas –, como também para a captação de investimento, prioritariamente aquele que possa ser canalizado para a actividade turística.

Acresce a estes factos o menor fulgor (as razões são de todos conhecidas) por que passam alguns dos nossos maiores concorrentes na captação de turistas muçulmanos, como são os casos da França e da Turquia, situação que nos abre uma óbvia janela de oportunidade.

O número total de turistas muçulmanos ou “Halal”, como mais habitualmente são designados, ascendeu em 2016 a quase 120 milhões, prevendo-se que em 2020 seja um mercado que ronde os 170 milhões de viajantes, que poderão representar ao nível dos gastos cerca de 180.000 milhões de euros.

Contudo, devemos ter consciência que estamos a falar de uma tipologia de consumidores de produtos e serviços turísticos com especificidades muito próprias, razão pela qual, aquando da escolha do destino para onde pretendem deslocar-se, atribuem particular importância aos aspectos que mais directamente estão relacionados com o seu estilo de vida.

Não é pois de estranhar que países que ofereçam um fácil acesso a comida “halal” e garantam a existência de instalações que permitam a oração, estejam entre os preferidos dos turistas muçulmanos.

E, quanto a nós, sem menosprezar os progressos que vêm sendo feitos, é nestes “detalhes” que temos e devemos trabalhar se quisermos assumir-nos como um destino verdadeiramente competitivo para este mercado.

Em suma, gerar e criar informação genérica e profissional acerca de como bem receber, comportar-se e compreender os turistas muçulmanos (como fez o Japão) ou, mesmo, criar uma certificação “halal” como, por exemplo, fez a Tailândia, podem revelar-se instrumentos e medidas extremamente acertadas e assertivas para conseguirmos conquistar uma maior penetração e consequente preferência junto destes consumidores.

 

O + da Semana:

Em resultado do projecto apresentado durante a última edição da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, a Fundação AIP e o Grupo Hoti Hotéis assinaram um protocolo de parceria que visa a abertura de duas novas unidades hoteleiras, uma em Lisboa e outra no Porto, ambas de quatro estrelas e com um mínimo de 100 quartos cada, sob o conceito “O mais português hotel do Mundo”. O total do investimento previsto rondará os 25 milhões de euros e prevê-se que o primeiro destes hotéis abra as suas portas daqui a dois anos. Para a realização deste projecto foram desafiadas várias arquitectas e decoradoras de interiores já com percurso no sector que, no decurso da “Alimentaria & Horexpo Lisboa, certame que decorrerá entre os dias 4 e 6 de Junho próximo, apresentarão a concurso, num dos pavilhões da feira (FIL), as suas propostas de recriação de um hotel feito apenas com recurso a marcas e produtos portugueses. Quem vencer terá a possibilidade de conceber o interior da primeira unidade que operará debaixo desta nova marca do Grupo Hoti Hotéis o qual, recorde-se, já tem experiência na gestão e exploração de unidades temáticas. Esta é uma excelente ideia que, entre muitas outras valências, porá à prova as capacidades inovadoras e criativas de todos os envolvidos, bem como valorizará a excelência dos produtos nacionais e, porventura mais importante, demonstrará o acréscimo e a agregação de valor que o turismo pode proporcionar a muitos sectores da economia portuguesa e, em paralelo, servirá para criar um produto genuíno, autêntico e diferenciador que, seguramente, não deixará de ser reconhecido pelos consumidores nacionais e internacionais, potenciando a qualidade e competitividade de tudo o que tem o selo “feito em Portugal”.