iTurismo: Ignorância (Não) É Felicidade, por Atilio Forte

Os congestionamentos nos aeroportos de Lisboa e do Porto e o anúncio de desviar as operações charter para o aeroporto de Beja, bem como o tema central do 44º Congresso da APAVT – “Os Desafios do Crescimento”- são analisados por Atilio Forte no iTurismo desta semana, que dá também destaque ao novo mecanismo de autorização de entrada no espaço da UE aprovado pelo Parlamento Europeu.

 Tópicos da Semana: 

  • Investidores vêem África como uma boa oportunidade: Pelo menos este é o sentimento demonstrado por todos quantos pensam continuar a investir no sector da hotelaria em virtude, por um lado, da pouca oferta de unidades de nível internacional que existe em todo o Continente e, por outro lado, pelo expectável aumento da procura que, paulatinamente, tem vindo a confirmar-se.
  • As pessoas são fundamentais para manter o mercado “em alta”: Esta é a mensagem que a grande maioria das empresas turísticas já interiorizou ou, pelo menos, procura pôr em prática, dado estar provado que maximizar a satisfação dos turistas e cultivar relações saudáveis entre e com todos os que nelas trabalham são, presentemente, factores-chave para manter e prolongar o bom desempenho por que passa esta área da economia, confirmando-se assim, mais uma vez, que o turismo é “uma actividade feita por pessoas, para pessoas”.
  • A satisfação dos hóspedes está sempre em primeiro lugar: Para dar cumprimento a esta “velha máxima” do turismo, uma pousada localizada no Estado do Alasca – Tordrillo Mountain Lodge – decidiu que, durante este Verão, irá utilizar um helicóptero para transportar os seus clientes até aos melhores locais para a prática de ciclismo de montanha.

 

Comentário:

Turisver – Os aeroportos de Lisboa, em especial, e do Porto, entraram em ruptura, com dezenas voos atrasados de várias companhias, com destaque para a TAP. A situação já levou o Ministro do Planeamento e das Infra-estruturas a avançar com a ideia de desviar as operações charter para o aeroporto de Beja, enquanto a gestora aeroportuária parece querer abrir uma pista actualmente de segurança, ao mesmo tempo que se assiste a uma “guerra” de acusações entre a TAP e a Vinci. Sem solução à vista, são milhares os passageiros que diariamente vivem este sufoco e a imagem do país é prejudicada. Qual a sua visão, ao dia de hoje, sobre estes assuntos?

 

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que esta é uma das matérias que mais tem estado, está e, infelizmente, vai continuar a estar, na ordem do dia, apesar dos incontáveis alertas que toda a comunidade turística – na qual nos incluímos – tem vindo a fazer. Pode, pois, dizer-se que a situação que presentemente se vive há muito que estava anunciada e, por isso, era mais do que previsível.

Nesse sentido, não temos qualquer rebuço em afirmar que é totalmente incompreensível – e inqualificável! – aquilo por que o “Melhor Destino Turístico do Mundo” está “forçado” a passar no que respeita ao sector da aviação que, como é referido na pergunta, prejudica todos quantos viajam para e do nosso país e, consequentemente, fere a imagem de Portugal, já que não existe pior do que a primeira ou última impressão de chegada ou partida a ou de um determinado destino ser penosa e sofrida, causando dolorosos transtornos.

Muito já foi dito, escrito, comentado e, até, justificado sobre as razões que motivaram a que tivéssemos chegado a este estado de coisas. Mas, porventura, o mais (tristemente) caricato é que que nenhuma das entidades directamente envolvidas assumiu, pelo menos até agora, qualquer responsabilidade. Muito pelo contrário. Temos assistido a um jogo de “passa culpas”, em nada dignificante e, acima de tudo, preocupante. É que nenhum erro ou falha podem ser corrigidos sem que, em primeiro lugar, seja feito um “mea culpa”, sem que se reconheça que se errou ou falhou…

Como se não tivéssemos já problemas de sobra motivados pelo esgotamento do aeroporto Humberto Delgado, pelas deficiências graves no funcionamento do SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras nos nossos aeroportos, pelas greves do pessoal de voo e de terra das companhias aéreas ou dos funcionários das empresas de segurança presentes nos aeroportos, pela falta de estacionamento para aeronaves, pelas ineficiências e sobrecargas dos serviços de navegação, controlo e segurança aéreas, etc., etc..

Assim, mais do que olharmos para cada uma “das árvores”, por maior que seja a sua importância (e é muita!), é vital que comecemos por olhar para a “floresta”, sob pena de nos perdermos ou nos deixarmos atolar em questões parcelares, sem termos uma visão global – há quem lhe chame estratégia – daquilo com que estamos confrontados e, principalmente, para onde pretendemos ir. Se, ao invés, optarmos por começar poravaliar uma a uma todas as “peças do puzzle”, sem antes sabermos o que com elas fazer e onde deverão encaixar, corremos o risco de inacção, o que só degradará ainda mais o actual momento e que, a prazo, terá efeitos nefastos e perversos no escorreito desenvolvimento da actividade turística em Portugal.

Dito isto, temos para nós que nunca, como hoje, foi tão actual a afirmação que há mais de duas décadas vimos fazendo, de que a aviação é parte integrante e peça fundamental da actividade turística e que o nosso país nunca teve, nem tem, uma estratégia para este sector (da aviação).

Esta ausência de uma visão prospectiva por parte do Estado, Governo após Governo, aliada a uma completa ignorância (leia-se desconhecimento ou falta saber) acerca do que verdadeiramente está em causa e sobre os impactos futuros que as decisões tomadas podem ter, foi o principal motivo de termos chegado a este ponto, com privatizações e concessões no sector feitas à pressa e sem uma verdadeira noção da importância estratégica (mesmo para a soberania nacional) detida pelos activos alienados ou dados em concessão, com adiamentos sucessivos da construção, na margem Sul, de um novo aeroporto na região de Lisboa (já passou meio século desde que se começou a falar dessa necessidade!), com a realização de “obras e obrinhas” paliativas no da Portela (agora Humberto Delgado) ou, para não sermos exaustivos, com a opção por localizar um aeroporto em Beja que – pasme-se! – vem agora dizer-se deve ser melhor aproveitado pelos operadores turísticos para a realização de voos não-regulares (vulgo “charters”), o que é, no mínimo, risível e ilustra na plenitude a total ausência de substância sobre aquilo de que se fala.

Sendo, actualmente, o avião o meio de transporte por excelência utilizado por quem pretende viajar (leia-se turistas), não fará todo o sentido que a Tutela de tudo o que o rodeia seja a mesma do turismo? Não será do senso mais elementar que quem tem de regular, proteger o consumidor e garantir o acesso ao mercado, em pé de igualdade, a todos os agentes económicos, seja a mesma entidade que lida, legisla, licencia, fiscaliza, apoia os investimentos, lidera a promoção, a formação e qualificação profissionais, da demais oferta turística? Não terá mais lógica que o planeamento e desenvolvimento de novos produtos, investimentos e oferta, esteja interrelacionado com a capacidade aérea do país e vice-versa?

Na nossa modesta opinião, a resposta a todas estas questões deve ser – só pode ser – positiva! E não se julgue que com isto apenas pretendemos justificar ou caucionar uma “dama” que sempre defendemos: a criação de um Ministério do Turismo que englobe a Aviação. Longe disso. Fazemo-lo e defendemo-lo porque é o que faz mais sentido. É o mais racional. É que vai ao encontro da realidade, do que realmente acontece no terreno!

Pare-se pois com “desculpas esfarrapadas”, com acusações mútuas, com afirmações e justificações descabidas. Acabe-se com o constante denegrir da imagem de Portugal, muitas vezes logo à chegada, no primeiro contacto. Proteja-se e dêem-se condições para que a actividade económica que, nos últimos anos, mais tem contribuído para a criação de riqueza, investimento e emprego no país prossiga o seu crescimento e desenvolvimento, de forma sustentável e harmoniosa. Ganhe-se tempo, dinheiro e, principalmente, futuro!

Defendam-se os superiores interesses nacionais, como é tão comum ouvir dizer-se na política. “Arrume-se” no seio do Governo, seja deste ou de qualquer outro, todos quantos falam a “mesma língua”, porque fazem parte da mesma face da moeda. Olhe-se para a “floresta” não apenas como um somatório de “árvores”, mas como um verdadeiro ecossistema que permanentemente precisa ser calibrado e preservado, para que possamos aproveitar na plenitude os benefícios que elenos pode dar. Porque os maiores cegos são sempre os que não queremver e, apesardessa recusa, vivem alegremente no obscurantismo da sua ignorância, a qual traduz na perfeição as suas(in)competências.

 

Turisver – A Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), apresentou na semana passada o seu 44º Congresso que irá realizar-se em Ponta Delgada, com o tema “Os Desafios do Crescimento” – uma temática que é “cara” ao iTurismo. Num fórum com a importância deste evento, como olha para a escolha deste tema?

 

Atilio Forte – Na esteira do que é habitual por parte da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), a escolha deste tema como pano de fundo do seu Congresso Nacional anual é plena de oportunidade, pois os desafios que a actividade turística actualmente enfrenta estão aí e é fundamental reflectir seriamente sobre eles de modo a dar-se-lhes a melhor resposta.

Se é um facto que nos últimos anos o turismo tem registado um desenvolvimento assinalável no nosso país, não menos verdade é que esse aumento tem provocado algumas “dores de crescimento”, seja pelas consequências que esse maior afluxo de turistas tem causado o qual, por vezes, tem posto a nu inúmeras insuficiências (de que um dos exemplos mais paradigmáticos foi o que abordámos na resposta à pergunta anterior), seja pelos novos desafios com que nos confronta, resultantes das pressões de uma procura cada vez mais ávida por produtos mais inovadores suportados, nalguns casos, por modelos de negócio disruptivos fruto da emergência da economia de partilha, seja pelas dificuldades que tal acarreta em mantermos a genuinidade e a autenticidade que nos tornam tão atraentes junto dos consumidores estrangeiros seja, ainda, pela evolução da conjuntura internacional que se vem verificando, com a retoma turística de alguns dos nossos principais concorrentes, os quais estiveram temporariamente “fora de combate” por razões de todos conhecidas.

No fundo, em nossa opinião o que a APAVT pretende, acima de tudo, com este tema é convidar o “país turístico” a dar uma resposta efectiva à mais importante das questões: como é que garantimos a sustentabilidade turística do destino Portugal? Isto é, como manter os elevados índices de desempenho que vimos demonstrando, sem perdermos qualidade e competitividade e, simultaneamente, como é que os fluxos turísticos que recebemos podem continuar a beneficiar o país, em geral, e a sociedade portuguesa, em particular, sem que tal perturbe ou distorça a nossa vida quotidiana que, no limite, é o que nos distingue e diferencia junto daqueles que nos visitam.

Ao longo do tempo, através das análises e comentários que aqui fazemos, temos procurado dar singelos contributos para este debate, por sentirmos a sua necessidade e urgência. Contudo, qualquer deles jamais se comparará ao impacto que, seguramente, terão ao serem debatidos numa das principais reuniões magnas do turismo nacional.

Portanto, resta-nos esperar e desejar um Congresso fortemente participado, em presenças e ao nível das intervenções, para que daí resultem ideias e soluções que possibilitem um melhor futuro para o turismo e um reforço do seu contributo para o progresso do país, que é o mesmo que dizer, para o bem-estar de todos nós.

 

O + da Semana:

Na passada sexta-feira o Parlamento Europeu aprovou um novo mecanismo de autorização de entrada no espaço da União Europeia (UE), denominado ETIAS – European Travel Information and Authorization System, que estará em funcionamento a partir de 2021. No essencial, esta medida visa facilitar e desburocratizar o acesso ao espaço comunitário por cidadãos oriundos de países fora da UE que estejam isentos de visto e que pretendam viajar para a“Zona Schengen”. Recorrendo à utilização das novas tecnologias, através da solicitação on-line de uma autorização prévia de viagem, cuja resposta (se favorável) poderá ser obtida em poucos minutos, este novo sistema permitirá recolher todas as informações necessárias por parte de quem viaja e, simultaneamente, simplificar o controlo das e nas fronteiras, tendo ainda a vantagem de responder, com maior rapidez, às questões ligadas à segurança. Para tal, bastará ao viajante possuir um documento de viagem, cartão de crédito e acesso à internet. O custo (previsto) de obtenção do ETIAS será de 7 euros por pessoa, sendo que os turistas com menos de 18 anos ou mais de 70 ficarão isentos do seu pagamento. Assim sendo, é legítima a expectativa que este mecanismo venha contribuir para um aumento dos fluxos turísticos para a UE, após a sua entrada em vigor.