iTurismo: A Imobiliária do Lazer, por Atilio Forte

A importância das redes sociais, a transformação do antigo terminal da TWA no Aeroporto John F. Kennedy em hotel e um serviço inovador de requisição de livros num hotel parisiense, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe como “O + da semana” a solidariedade dos portugueses. O habitual “Comentário” versa sobre a imobiliária turística e a recente alteração na denominação e âmbito da Secretaria Regional de Turismo da Madeira.

Tópicos da Semana:

  • Redes sociais estão a tornar-se numa ferramenta indispensável: O Instagram, o Facebook e o Twitter são, presentemente, ferramentas essenciais nas acções de marketing das empresas turísticas, principalmente no sector do alojamento, pois permitem uma melhor divulgação dos produtos, serviços e facilidades oferecidas pelas unidades, bem como, uma maior interacção com os (potenciais) hóspedes, dado proporcionarem-lhes uma ideia bastante próxima da experiência que poderão usufruir e uma visão muito concreta do destino que pretendem visitar.

 

  • Antigo terminal da Trans World Airlines (TWA) vai ganhar nova vida: O antigo terminal da TWA no aeroporto John F. Kennedy, em Nova Iorque, actualmente encerrado, vai ser transformado num hotel boutique, com 505 quartos, num investimento que ascenderá a 265 milhões de dólares e que contemplará a construção de dois novos edifícios que permitirão a existência de uma piscina no terraço, um espaço para observação das descolagens e aterragens dos aviões e um museu dedicado àquela companhia aérea, o qual contará, entre muitos outros aspectos de interesse, com uma exposição permanente de uniformes gentilmente cedidos por antigos membros que integraram as suas tripulações.

 

  • Levar o nome “à letra”: Foi o que, literalmente, decidiu fazer o hotel parisiense Le Pavillon des Lettres. Esta unidade que, como o nome indica, já se incluía no segmento do alojamento temático – “baptizando” todos os seus 26 quartos com nomes de escritores famosos e relacionando-os com cada uma das letras do alfabeto (sendo o “A” destinado a Hans Christian Andersen e o “Z” a Émile Zola) –, decidiu dar um passo em frente, ao criar um inovador serviço através do qual os seus hóspedes podem solicitar a entrega de livros nos quartos.

 

Comentário

Turisver.com – A imobiliária turística tem apresentado grandes crescimentos, nos últimos anos. A sua relação com a actividade económica do turismo pode ver-se espelhada em Vilamoura, na Quinta do Lago e na alavancagem que deu a muitos campos de golfe. No seu entender a relação entre este tipo de imobiliária e o turismo tem sido perfeita?

Atilio Forte – Pese embora seja quase um lugar-comum afirmá-lo, podemos dizer que a interacção entre a denominada imobiliária turística e o turismo tem sofrido altos e baixos ao longo dos anos, muito à semelhança de qualquer outro tipo de relação.

Sem pretendermos recuar em demasia no tempo e, simultaneamente, procurando demonstrar de forma simples a sua evolução, nomeadamente no nosso país, valerá pena começar por dizer que, de há algumas décadas a esta parte, a construção e comercialização de segundas residências (de férias) em determinadas zonas de veraneio constituiu um forte mecanismo impulsionador do desenvolvimento turístico das mesmas, uma vez que muito do seu sucesso estava aliado à sua integração em projectos com notório valor acrescentado, pelos cuidados postos não apenas no que à qualidade das edificações respeitava, mas também à sua inserção em espaços urbanísticos aprazíveis, onde o ambiente, o ordenamento do território, o cuidado posto nos arranjos paisagísticos e todo um conjunto de valências complementares marcavam presença.

Porventura os exemplos mais paradigmáticos do que acabamos de afirmar, são os contidos na pergunta – Vale do Lobo e Vilamoura, no Algarve –, que acabaram, pela sua qualidade, por impor-se como destinos próprios dentro de uma região, a qual por si só já era turística e, também, por servirem de “inspiração” para outros de natureza semelhante, espalhados um pouco por todo o país.

Convirá abrir aqui um parêntesis para sinalizar que se nos dias de hoje Portugal é um dos melhores destinos de golfe do Mundo, tal muito fica a dever-se a este tipo de projectos, uma vez que a componente imobiliária era (e é!) essencial para a viabilidade financeira de investimentos pesadíssimos e com prazos de amortização bastante longos, como aqueles que incluem equipamentos hoteleiros e campos de golfe.

Na entrada da última década do século passado, assistimos à “explosão” de um outro tipo de fenómeno, conhecido por “timesharing”, através do qual democratizou-se a “compra parcial” de uma habitação de férias, a que posteriormente juntou-se a flexibilização das datas e locais onde o mesmo podia ser usufruído pelo cliente/consumidor (num modelo que, de algum modo, foi percursor daquele que hoje conhecemos como economia de partilha) e que veio impulsionar significativamente o sector da imobiliária do lazer.

Esta maior pressão da procura levou a que, do lado da oferta, fossem cometidos alguns excessos, na mira de lucros fáceis, os quais acabaram por um lado, por desvirtuar a natureza turística dos projectos – muita coisa a que foi chamado turismo, nada tinha a ver com a actividade e carecia de boas decisões ao nível do ordenamento do território e do ambiente – e, por outro lado, provocaram uma perda do valor acrescentado que resultava dos mesmos ficando-se, quase exclusivamente, perante projectos imobiliários “puros e duros”, com nefastas consequências para as regiões e destinos onde estavam localizados, fruto de uma construção desorganizada, desenfreada e desordenada como, posteriormente, veio a comprovar-se.

Acresce a este facto, o aumento da bolha imobiliária e financeira a nível global que, como todos nos recordamos, acabou por eclodir no Verão de 2008 (a chamada crise do “subprime”), com terríveis repercussões na economia mundial.

Mas, como sucede tantas vezes ao longo do tempo, “há males que vêm por bem”, sendo que no caso vertente ajudaram a distinguir “o trigo do joio”, ou seja, entre o que tinha e era do interesse turístico, e o que pertencia à pura (e selvática) especulação e exploração imobiliária.

Com o ganhar de maior consciência dos promotores, sobretudo devida às alterações dos padrões de consumo por parte dos potenciais clientes/compradores, que passaram a ser muitíssimo mais exigentes e a denotar maiores preocupações com o escorreito ordenamento do território e com os factores naturais e ambientais, a relação entre o turismo e a sua componente imobiliária reequilibrou-se, tendo-se assistido – apesar da crise – ao aparecimento de projectos que recuperaram as características iniciais e incorporaram outras (novas), contribuindo para o seu pleno sucesso tanto no mercado nacional, como no internacional. Tal é bem ilustrado em projectos como Tróia, para apenas dar um exemplo.

Contudo, actualmente assistimos a um outro fenómeno, cujos sinais de descompensação desta íntima relação já começam a fazer sentir-se, o qual está relacionado com o alojamento local, onde a pressão exercida pelo imobiliário com propósito turístico nalgumas grandes cidades – como Lisboa e Porto –, apesar de ter trazido incontáveis vantagens que vão da reabilitação urbana, à vivificação dos seus centros históricos, nos dá indicações de desvirtuação da autenticidade das mesmas e provoca impactos na vida diária de quem aí reside.

Assim, e em conclusão, estamos na alvorada de uma nova etapa na relação entre a actividade turística e a sua componente imobiliária, a qual devemos encarar com extrema atenção, para que não possam repetir-se consequências (e erros) passadas que venham prejudicar a sustentabilidade turística do nosso país.

 

Turisver.com – A Região Autónoma da Madeira passou, recentemente, por uma remodelação governamental. Fruto desta remodelação, Eduardo Jesus deixou o Governo Regional, sendo substituído por Paula Cabaço, que durante anos esteve à frente do Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira. Por outro lado, a até então Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura passou agora a ser Secretaria Regional do Turismo e Cultura, embora tenha também a área dos Assuntos Europeus. Que visão se pode ter destas alterações?

Atilio Forte – Ao iniciarmos a nossa resposta, entendemos que aqui devemos registar duas notas: a primeira para recordar, como sempre fazemos, que apenas nos debruçamos sobre factos, políticas e estratégias, e nunca sobre pessoas; a segunda, para sublinhar que a definição e composição do Governo da Região Autónoma da Madeira é da exclusiva responsabilidade do seu Presidente, o qual foi legitimamente eleito, e consequentemente mandatado para o efeito, pelos madeirenses.

Dito isto, e tal como em tempo oportuno aqui também referimos, aquando abordámos as alterações ao Governo da Região Autónoma dos Açores, é nosso entendimento que a separação da área dos transportes – principalmente o aéreo – da mesma tutela do turismo virá a revelar-se, a prazo, como uma decisão que será penalizadora para os interesses globais daquela Região Autónoma e, muito particularmente, do seu turismo.

Sabendo a importância que os transportes têm hoje na actividade turística, onde o avião é o veículo de deslocação por excelência, por maioria de razão tal ganha acrescidos impactos quando estamos perante um destino insular, onde esse é o meio quase exclusivo para aí chegar.

Mesmo considerando que, neste caso, a tutela dos transportes transitou para a esfera de competência do Vice-Presidente do Governo Regional, que a acumulará com as áreas das Finanças, da Economia e da Coordenação Política, podendo assim argumentar-se que (em teoria) o sector terá maior peso político e atenção, o facto de ficar sob outra alçada acarretará, necessariamente, desarticulações e descoordenações que, inexoravelmente, acabarão por reflectir-se na definição da estratégia turística do Arquipélago, na sua implementação e, ainda, num processo decisório menos ágil e mais demorado, o que não favorecerá, nem se coadunará com as exigências dos mercados emissores actuais, isto para já não referir, alguma secundarização de que poderá ser alvo, fruto da (aparente) maior premência e absorção decisória que decorre da importância e peso na estrutura governativa das demais áreas tuteladas.

Finalmente, esta decisão é ainda mais surpreendente pelo facto de a Madeira ter estado sempre na linha da frente dos progressos e da inovação turística do país situação que, aliás, levou com que se tornasse a primeira a ter percepcionado as vantagens que poderia retirar de uma mais estreita relação entre o turismo e os transportes, posição que agora sofreu um refluxo em tudo idêntico ao anteriormente verificado nos Açores.

Esperamos que não seja necessária a constatação das dificuldades atrás apontadas para que, rapidamente, o Governo da Madeira volte a “unir” o turismo e os transportes, uma vez que a aviação é parte integrante e peça fundamental da actividade turística e, por essa razão, é dela parcela indissociável.

 

O + da Semana:

Várias são as qualidades universalmente reconhecidas ao povo português, algumas das quais com tradição secular. Por esta razão ser cosmopolita, hospitaleiro ou “de brandos costumes”, são características que, em grande parte das vezes, aparecem ao lado ou ajudam a definir o “ser português” e, consequentemente, assumem-se como traço dominante na forma como nos expressamos, tanto cultural como civilizacionalmente, quer perante o Mundo, quer junto de todos quantos nele habitam. Não é pois de estranhar que em quase todos os estudos de opinião realizados àqueles que nos visitam, a “arte de bem receber”, que funde estas e muitas outras qualidades, seja um dos traços mais positivos que neles é destacado e enaltecido. No entanto, nos últimos meses, e pelas piores razões, o nosso código genético trouxe ao de cima outro tipo de “modos de estar e encarar a vida”, cada vez menos presentes na(s) sociedade(s) do século XXI, como sejam a solidariedade e a fraternidade, manifestados nos comportamentos adoptados para com os nossos concidadãos que foram tragicamente atingidos pela catástrofe dos incêndios. Num país a refazer-se de uma profunda crise económica e financeira, onde muitos perderam os empregos, o rendimento e, em casos extremos, o ânimo, é um privilégio “viver lado a lado” com quem ainda demonstra capacidade de partilhar o pouco que tem com os seus amigos, vizinhos e, em grande parte das vezes, desconhecidos, procurando com esse gesto anónimo e altruísta mitigar a dor infligida pela tragédia. Bem hajam!