iTurismo: A Importância das Low Cost, por Atilio Forte

Atilio Forte comenta a importância das companhias lowcost em Portugal e os factores que estão por trás do crescimento do turismo no país, enquanto no “O + da Semana” a atenção vai para as comemorações do centenário dos Hotéis Alexandre de Almeida, e os “Tópicos da Semana” têm como temas o investimento hoteleiro na Europa, o aumento dos pequenos eventos sociais e o turismo na Austrália.

 Tópicos da Semana: 

  • Quais as cidades que lideram o investimento hoteleiro na Europa?: Um documento recentemente divulgado pela multinacional “Savills”, empresa que opera no ramo imobiliário e que está cotada na Bolsa de Valores de Londres, dá resposta a esta questão ao afirmar que, actualmente, o “ranking” das cidades onde se regista maior investimento hoteleiro na Europa é liderado por Dublin, onde nos próximos dois anos vão estar disponíveis mais 3.500 quartos, a maior parte dos quais em resultado da abertura de novos hotéis, maioritariamente de 4 estrelas, logo seguida, respectivamente, de Milão, Madrid, Londres e Barcelona.
  • Aumento da importância dos pequenos eventos sociais: Os eventos de pequena dimensão, tais como casamentos e outro tipo de reuniões sociais, são cada vez mais preponderantes na receita dos hotéis. Assim, de acordo com a opinião de inúmeros hoteleiros, tornar as unidades em locais privilegiados para a realização deste tipo de eventos contribui, decisivamente, para atenuar as oscilações da procura que, normalmente, acontecem ao longo do ano.
  • Futuro brilhante para o turismo da Austrália: O crescendo da actividade turística australiana tem vindo a atrair um maior número de investidores, particularmente no sector do alojamento. O valor total dos investimentos directamente relacionados com o turismo ascendeu a 22 biliões de dólares no ano transacto, sendo que, no mesmo período, os gastos dos turistas naquele país atingiram os 30 biliões de dólares.

 

Comentário

Turisver – Cada vez mais companhias aéreas voam para aeroportos portugueses, e mais rotas se “abrem” entre as nossas cidades/regiões e países estrangeiros. Um papel determinante tem sido feito pelas companhias lowcost. No seu entender elas têm sido decisivas para o crescimento do turismo português?

 

Atilio Forte – Como noutros comentários e análises tivemos oportunidade de referir, o advento da internet e a consequente alteração de paradigma provocada pela “entrada” da tecnologia na nossa vida diária, proporcionou que novos modelos e visões de negócio surgissem, dessacralizando “leis e regras” de mercado que tínhamos por adquiridas e, nalguns casos, reinventando mesmo a verdadeira essência de alguns sectores ou actividades económicas.

Foi o que aconteceu no turismo, pois a posição dominante da oferta sobre a procura – verificada até cerca dos anos 90 do século passado – foi alvo de uma total revolução que colocou nas mãos, ou para sermos rigorosos na ponta dos dedos, dos consumidores o “poder” da decisão, conduzindo a que passasse a ser a procura (os consumidores) a determinar qual a tipologia de produtos turísticos que privilegiaria através da sua escolha/compra.

Em consequência desta “alteração de forças” muitos dos sectores, para não dizer a totalidade, que integram a constelação turística tiveram de adaptar-se a uma nova realidade. E, de todos eles, talvez aquele em que tal impactou de forma mais significativa foi o da aviação, onde as companhias aéreas tradicionais foram confrontadas com o aparecimento de novos “actores” – as transportadoras de baixo custo (vulgo lowcost) –, que apostaram num inovador modelo de gestão no qual a geração do grosso da receita não advinha da tradicional venda de lugares nas suas aeronaves, mas de outras fontes, como os países, as regiões, as cidades, os organismos oficiais de promoção turística, os aeroportos e demais agentes turísticos e económicos, daqueles que pretendiam ver os seus produtos distribuídos/vendidos a bordo e, ainda, dos próprios passageiros sempre que desejassem ter mais serviços para além do transporte “puro e duro”.

Deste modo, e quase repentinamente, viajar de avião tornou-se muitíssimo mais barato, o que permitiu, por um lado, que aqueles que já o faziam passassem a despender menos, libertando recursos para outros (ou para mais) gastos turísticos e, por outro lado, que uma imensidão de novos consumidores ganhasse capacidade económica para viajar.

Em síntese – o resultado desta equação é de todos conhecido – o transporte aéreo enquanto primeiro e fundamental elemento para que haja turismo (como chegar?) “democratizou-se” e as “novas” companhias aéreas (lowcost) prosperaram e, com elas, muitos destinos turísticos afirmaram-se sobretudo a nível continental, seja por terem passado a deter a possibilidade de aumentarem significativamente o número de turistas que já recebiam, seja porque ficaram mais acessíveis devido ao aparecimento de novas rotas aéreas que os passaram a servir.

Portugal e o turismo português são disto perfeitos exemplos, uma vez que destinos consolidados como o Algarve, Lisboa ou a Madeira, passaram a receber mais turistas, enquanto outros, como o Porto e Norte de Portugal ou os Açores viveram (e vivem) momentos de fortíssima afirmação turística. Mesmo as regiões do Centro e do Alentejo e Ribatejo, embora indirectamente, têm beneficiado e muito deste crescimento de fluxos turísticos.

Convirá aqui sublinhar que este “mérito” não cabe apenas às “lowcost”, dado que as companhias aéreas “tradicionais” também reagiram ao “novo desafio” e investiram, evoluíram e inovaram o seu produto e a sua presença no mercado, adaptando-se aos novos padrões e exigências de consumo, assegurando, assim, o seu incontornável e insubstituível papel na cadeia de valor da actividade turística.

Como ilustração para o que acabámos de afirmar, e continuando a falar da realidade nacional, basta analisarmos o trabalho da TAP no mercado brasileiro ou, mais recentemente, nos Estados Unidos da América, para avaliarmos e valorizarmos o compromisso que este tipo de companhias mantém com os destinos (turísticos) que servem, isto para já não entrarmos em aspectos mais técnicos (mas não menos importantes) como o da criação de novas “subclasses” a bordo.

Embora o cenário traçado, mesmo sendo real, pareça quase idílico e indiciador de prosperidade futura, não podemos deixar de aqui dar uma nota final no sentido de alertar para a sua volatilidade. É que o Mundo muda a cada instante e o mesmo acontece com “a vontade” dos consumidores. Queremos com isto dizer que mais importante do que assegurar a abertura de uma nova rota aérea ou a captação de mais uma companhia “lowcost” que passe a voar para o nosso país, é manter/garantir essa rota e essa transportadora de forma duradoura, não apenas através de uma forte ligação contratual mas, acima de tudo, pela criação de laços mais perenes, em que o investimento seja recíproco, de modo a assegurar um resultado final justo e equilibrado para as partes, em que a confiança e o compromisso mútuos sejam o garante da sustentabilidade do negócio para uns e do destino para outros.

 

Turisver – Portugal tem sido falado em todo o Mundo e em especial na Europa por vários acontecimentos como a nomeação de António Guterres para Secretário-Geral das Nações Unidas, a vinda do Papa a Fátima, ou a vitória de Salvador Sobral no Festival da Eurovisão. Tem sido atribuído a situações destas o disparar da vinda de turistas estrangeiros ao nosso país. Esta ideia não lhe parece um claro exagero?

 

Atilio Forte – Esta é uma pergunta extremamente curiosa, principalmente porque traduz na perfeição algumas análises que nas últimas semanas têm tido eco nos meios de comunicação social mais generalistas, a nosso ver contaminando a opinião pública porque a induz a confundir a “árvore com a floresta”, propalando uma visão totalmente imediatista e, por esse motivo, distorcida da actividade turística. Mas, vamos por partes:

É óbvio que os factos referidos na pergunta, a que poderíamos acrescentar muitos outros, pela sua repercussão planetária têm um efeito extremamente positivo na imagem e na percepção externas do nosso país. Numa linguagem mais “crua” podemos afirmar que são aspectos que contribuem, gratuitamente, para um reforço da promoção turística internacional de Portugal.

Contudo, assunto diverso é atribuir-se a esse acréscimo de notoriedade uma relação directa com o aumento do fluxo de turistas que o nosso país está a registar, uma vez que, a contratação de produtos e serviços turísticos é feita, genericamente, a um ano de distância. Isto significa que, presentemente, os agentes turísticos nacionais e internacionais já estão a trabalhar no próximo ano (2018), dado o ano de 2017 já “estar feito”, se assim podemos dizer.

Finalmente, e este é um ponto de vista que merece ser realçado, porque se tal correspondesse à verdade, estaríamos a passar um autêntico atestado de “menoridade” – para não dizer “incompetência” – a todos os agentes públicos e privados que actuam e operam no turismo, desvalorizando os seus esforços e trabalho que, esses sim, tão bons e proveitosos resultados têm alcançado para a actividade e para o país.

Reposta aquela que em nossa opinião é a verdade dos factos, mais importante do que reivindicar a “paternidade” dos bons resultados turísticos que vimos obtendo, é que todos – país, empresas, organizações e cidadãos – continuem empenhados em proporcionarem um excelente acolhimento aos que nos distinguem com a sua visita, transformando cada turista num verdadeiro embaixador de Portugal e da sua inigualável hospitalidade.

 

O + da Semana:

No passado fim-de-semana, uma cerimónia que decorreu no Curia Palace Hotel, Spa & Golf marcou o início das comemorações do Centenário dos Hotéis Alexandre de Almeida (1917 – 2017). Esta efeméride merece o nosso natural destaque pois, por um lado, celebra a fundação da primeira e mais antiga cadeia hoteleira portuguesa – bem como uma das mais antigas a nível mundial, em actividade ininterrupta – e, por outro lado, evoca o espírito empreendedor e inovador, a visão e o amor ao turismo que toda uma família – que já vai na terceira geração – dedicou a esta fascinante actividade, em geral, e ao sector hoteleiro, em particular. Sem eles, sem a sua tenacidade e perseverança, sem a sua obra e exemplo, o turismo português seria, por certo, mais pobre e, porventura, nunca teria trilhado os caminhos que hoje o tornaram, pelo menos, numa das principais e mais bem-sucedidas actividades económicas de Portugal. Num tempo em que o que conta “é o momento”, em que o futuro tantas vezes cinge-se ao “dia de amanhã”, convém que mantenhamos viva e revisitemos, com humildade, a herança que os percursos de vida e os exemplos de todos quantos, como Alexandre de Almeida (avô), foram pioneiros, visionários e ajudaram a construir as fundações da actividade turística nacional. É que o presente só pode ser compreendido e o futuro perspectivado se valorizarmos o passado e aprendermos com todos quantos, como diria o poeta, “… por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”!