iTurismo: (in)Consistência Política, por Atilio Forte

A um ano de eleições legislativas, será que os Partidos Políticos já têm uma política consistente para o turismo? Esta é uma questão que o comentador Atílio Forte responde no iTurismo desta semana, ao mesmo tempo que dá destaque ao plano especial de combate à sazonalidade no Algarve e na Madeira, aprovado pelo Governo, que envolve investimentos de 1 milhão de Euros em acções especiais de promoção turística.

Tópicos da Semana: 

  • O dinheiro existe, mas o crédito está mais restrito: Na opinião da maior parte dos especialistas, actualmente assiste-se a “um bom ambiente” no que se refere à concessão de crédito às empresas turísticas, sobretudo às que actuam no sector do alojamento, o que permite antecipar uma continuidade do crescimento da actividade, no longo prazo. Não obstante, sublinham que a atmosfera de hoje é incomensuravelmente mais cautelosa do que a vivida no período pré-recessão económica mundial (2008).
  • Soluções “à prova de futuro” podem ajudar na corrida tecnológica: As empresas turísticas recorrem, cada vez mais, às designadas soluções “à prova de futuro” de modo a salvaguardarem-se contra custos e ineficiências causadas pelas rápidas alterações tecnológicas. Para isso, na opinião da maioria dos gestores turísticos, um dos princípios-chave é investir (agora) em soluções “wi-fi” e infra-estruturas suportadas na “cloud”, de modo a evitar gastos adicionais em anos vindouros.
  • “Daycation” uma ideia a ter em consideração: Desde finais do mês passado que a startup “ResortPass” adicionou Miami ao seu portfolio, passando a disponibilizar um cartão que permite (quando comprado) a admissão de qualquer cidadão às facilidades disponibilizadas pelos hotéis daquela cidade americana, em particular o acesso às piscinas, spas e ginásios, juntando assim a Florida à oferta que já tem noutros Estados (Califórnia, Arizona, Texas, Novo México, Tennessee e Havaí). A ideia é proporcionar um dia de lazer – “daycation” (day + vacation) – a quem o pretenda, sem ter de sair da cidade.

 

 Comentário

Turisver – A actividade turística tem ganho importância, ano após ano, na economia portuguesa. A um ano de eleições legislativas, pensa que os Partidos Políticos já têm uma política consistente para o turismo?

 

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta à pergunta que nos é colocada, convirá que aqui deixemos duas notas prévias:

A primeira para salientar a crescente importância e o reconhecimento que o turismo tem vindo a conquistar na vida do país e da sociedade portuguesa, principalmente ao longo das últimasduas décadas, a qual decorre, em muito, do seu incontornável contributo económico para a criação de riqueza, emprego e coesão territorial, bem visíveis num vasto conjunto de indicadores onde o peso nas exportações – e consequentemente na balança comercial –, o investimento – tangível e intangível –, o aumento do emprego – directo e indirecto –  e a vivificação das cidades e regiões – sobretudo do litoral, mas também no interior –, aparecem em lugar de destaque.Consequentemente, hoje-em-dia todos os Partidos Políticos estão muito mais despertos e atentos ao que se passa na actividade turística e ao que com ela interage.

A segunda para referir que, embora seja esse o cenário mais plausível (e desejável) – eleições daqui a pouco mais de um ano (no início do Outono de 2019) –, não podemos esquecer-nos que, entretanto, teremos em Outubro/Novembro próximos a apresentação e o debate do Orçamento de Estado que, caso não sejam obtidos os devidos consensos, poderá pôr em causa a estabilidade política e antecipar o final da Legislatura. Em nossa opinião,e apesar de essaser uma probabilidade remota, não a devemos excluir liminarmente dado que, se viesse a acontecer, colocar-nos-ia num quadro político totalmente distinto, com Eleições Legislativas a terem lugar no início de 2019. E, nessasituação, os Partidos Políticos teriam de antecipar a preparação dos seus Programas Eleitorais.

Contudo, tanto num horizonte de pouco mais de um ano, como num a cerca de seis a sete meses, temos a convicção que muito pouco – para não dizer, quase nada – seria alteradodo ponto de vista dos Partidos Políticos, no que ao turismo respeita. Seguramente não por falta de vontade, e muito menos por pouca consideração sobre a importância estratégica da actividade turística para a vida do país, mas por persistência em políticas relacionadas com a mera gestão da conjuntura – se se quiser de “cabotagem” (navegação de costa à vista) – em vez de levarem a cabo reformas estruturais que dêem corpo ao verdadeiro peso que o turismo detém e contribuam decisivamente para o seu escorreito desenvolvimento e crescimento sustentáveis, de forma duradoura.

Não se entenda do que acabámos de afirmar que “as culpas” são apenas dos Partidos Políticos. Longe disso. Os diversos agentes turísticos – públicos, público-privados e privados – também têm responsabilidades neste resultado, pois nem sempre têm apresentado as melhores propostas ou, quando o fazem, nelas insistido com veemência, procurando sublinhar a bondade e as vantagens das mesmas, já que são eles, melhor do que ninguém, quem conhece em profundidade a actividade, os seus constrangimentos, os seus desafios e as suas oportunidades e, por este motivo, estão colocados numa posição ímpar para, com determinação mas, sobretudo, com conhecimento e sabedoria, defenderem o seu progresso e garantirem o seu futuro.

A isto acrescem as decisões que vão sendo tomadas pelos sucessivos Governos, mesmo quando enquadradas em molduras temporais dilatadas – como aconteceu com os “Planos Estratégicos Nacionais de Turismo (PENT) I e II” ou, agora, com a “Estratégia Turismo 2027”, para só mencionarmos os exemplos mais recentes –, que invariavelmente vão sendo revistas ou substituídas por outras ou, pior, quando garantida a sua estabilidade não são devidamente acompanhadas com medidas de acção e actuação política, essas sim da esfera e da exclusiva responsabilidade dos Partidos Políticos, acima de tudo, daqueles aos quais é atribuída, pelos portugueses(as), a responsabilidade de governarem Portugal.

Daqui decorre a defesa que fazemos (há tantos e tantos anos) da elaboração de um “Pacto de Regime” para o turismo, no qual, em primeiro lugar, os Partidos Políticos (entre outras entidades) assumissem compromissos sérios, sem tibiezas, mas com grande coragem, sobre as reformas a implementar e a perenidade das grandes linhas orientadoras da estratégia a seguir, independentemente dos ciclos ou alternâncias políticas.

É por estas razões que, como não nos cansamos de chamar a atenção, Portugal continua sem considerar o sector da Aviação (equipamentos aeroportuários, transporte, navegação, controlo e segurança aéreas) como parte integrante e peça fundamental da actividade turística, que a relação entre a Educação, o Ensino, a Formação Profissional, o Emprego e o Turismo permanece disfuncional, que a legislação laboral não enquadra, nem contempla, as especificidades da actividade turística (sazonalidade, laboração 24horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano), ou a inexistência de uma “frente” política no seio da União Europeia, principalmente ao nível dos países do Sul (receptores), que afirme a importância do turismo como actividade económica estratégica, para só darmos alguns exemplos.

Como é também por estas razões que foram tomadas decisões “pela metade” ou incompletas, como é o caso da legislação sobre o Alojamento Local, que vem estigmatizando o turismo aos olhos da população, sobretudo em Lisboa e no Porto, ou a falta de actuação mais eficaz para a fidelização dos fluxos turísticos de que nos últimos anos temos vindo a beneficiar, em consequência da situação internacional, mormente na Bacia do Mediterrâneo, a qual ao começar a estabilizar já faz sentir esse efeito no número de turistas que (não) estamos a receber, como atempadamente, e em ambos os casos, aqui alertámos.

E nem sequer falamos na criação de um Ministério do Turismo (englobando a Aviação) que, não sendo panaceia, permitiria que a actividade, atentas as suas transversalidade e pluridisciplinaridade, passasse a ter assento no principal centro executivo de decisão do país(o Conselho de Ministros) e, assim, pudesse ter uma maior interacção com as outras áreas da governação. Bem sabemos que a esmagadora maioria dos nossos “parceiros europeus” não o têm (já o tiveram, e não por meros 6 meses como aconteceu connosco em 2004/2005…), mas considerando as especificidades da nossa economia e o potencial futuro de, no que à actividade se refere, podermos competir à escala global, não será algo (no mínimo!) a considerar? Quanto mais não seja para suprir as lacunas que atrás apontámos…

Actualmente, o turismo não só é a maior actividade económica do Mundo, como é a que maior índice de crescimento futuro apresenta. É a mais transfronteiriça. É a que mais emprego gera. É a mais simbiótica. Por isso é altamente complexa. E por tudo isto exige enorme especialização, dedicação e atenção na forma como é compreendida e tratada.

Portanto, e como acreditamos ter deixado perceptível, não basta que os Partidos Políticos tenham consciência para a importância crescente do turismo. É decisivo que sejam coerentes com o estatuto que lhe atribuem e que foi conquistado por mérito próprio (do turismo). É fundamental que se preparem bem!Que sejam consistentes, como é mencionado na pergunta. Que apresentem Programas Eleitorais que não “esqueçam” no dia seguinte às eleições. Que promovam, a par com os agentes turísticos, a criação de uma visão de longo prazo consequente e, acima de tudo, que façam o que só a eles compete, isto é, que tenham a coragem de realizar reformas profundas que potenciem a actividade e, naturalmente, o desenvolvimento e o progresso do país.

Mesmo que, para tal, precisem de romper com preconceitos e dogmas ou tenham de inovar. Mas que não lhes falte a ambição de fazer mais e melhor pelo turismo e por Portugal! O país (certamente) agradece.

 

Turisver – O Governo aprovou um plano especial de combate à sazonalidade no Algarve e na Madeira, que envolve investimentos de 1 milhão de Euros em acções especiais de promoção turística tendo em vista captar mais turistas para aquelas regiões na época baixa. Na sua perspectiva este projecto é positivo?

 

Atilio Forte – Todos os reforços de verbas destinados à promoção turística são, como sempre defendemos, muito bem-vindos e, por isso, esta é uma medida positiva. No entanto, não podemos deixar de aqui tecer algumas (breves) considerações a este propósito.

Desde logo, para melhor identificarmos o que é pretendido com esta decisão. Assim, e de acordo com a informação disponibilizada pela Secretaria de Estado do Turismo, a mesma tem por finalidade promover as regiões do Algarve e da Madeira, entre Outubro de 2018 e Março de 2019, em mercados emissores considerados prioritários, a saber: Reino Unido, Alemanha, Holanda, Escandinávia, Irlanda, Espanha, Bélgica, Luxemburgo e França, no caso do Algarve; e, Reino Unido, Alemanha, França, Holanda, Escandinávia, Polónia, Suíça, Estados Unidos da América, Brasil e Rússia, no caso da Madeira.

O objectivo é dinamizar a atractividade de ambas as regiões na chamada “época baixa”, aumentar vendas, melhorar taxas de ocupação e potenciar as ligações aéreas internacionais entre aqueles países emissores de fluxos turísticos e o Algarve e a Madeira e, simultaneamente, atenuar os efeitos do “Brexit” e repor a capacidade aérea perdida com as falências da Monarch, Air Berlin e Niki, estabelecendo parcerias com agentes turísticos que actuam naqueles mercados as quais, para o efeito, serão apoiadas pelo Turismo de Portugal em articulação com as respectivas Agências Regionais de Promoção Turística.

Depois, para referirmos que a sazonalidade não se “combate”, atenua-se. E dizemo-lo não apenas por uma questão de mera semântica pois, na verdade, podem aligeirar-se ou mitigar-se as quebras registadas na “média e baixa estação”, de modo a obter uma maior constância dos fluxos turísticos, contudo tal é substancialmente diferente de a pretender anular, erradicar ou terminar, como pode subentender-se da expressão (“guerreira”) utilizada. A sazonalidade existirá sempre em destinos como o Algarve e a Madeira, pois Agosto será sempre Agosto, tal como Janeiro será sempre Janeiro, com tudo o que isso implica em termos de hábitos e comportamentos dos consumidores, condições climatéricas e enquadramento laboral e escolar.

Finalmente, para sublinharmos que, conforme facilmente se percebe, a verba disponibilizada – embora compreendamos que seja a possível e, consequentemente, melhor do que nenhuma – é francamente irrisória, para não a adjectivar de outro modo. Basta conferirmos a dimensão e o número dos mercados a que se destina, para o confirmarmos. A título de exemplo a acção que aqui comentámos (e elogiámos!) na semana passada – a maior onda do Mundo em Times Square, Nova Iorque – custou 240.000€, para uma duração de duas semanas… E, cremos, está tudo dito!

Em conclusão, e sem retirarmos qualquer mérito a esta medida, é bom que, de uma vez por todas, o(s) Governo(s) e o país percebam que o melhor investimento que podem fazer é na promoção turística, atentos os inúmeros – impressionantes! – efeitos multiplicadores que o turismo gera, a todos os níveis, no país.

 

O + da Semana:

O mais recente estudo realizado pela Euromonitor International – maior empresa do Mundo de pesquisa de mercados, produção de estatísticas e informação sobre áreas de actividade económica, países e consumidores – revela que a constelação das “viagens e turismo” continua a ter um papel decisivo no desempenho económico à escala global, perspectivando que, no presente ano, a mesma crescerá (mais uma vez) muito acima da média da economia mundial. As razões que suportam a revelação destes indicadores fundamentam-se na projecção de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 3,5%, enquanto o número de chegadas internacionais de turistas crescerá 3,7% e, tão ou mais importante, as receitas por eles geradas ascenderão a + 4,1%, comparativamente aos resultados alcançados em 2017. É também digna de referência a resposta que a actividade, através dos seus sectores mais tradicionais – principalmente nos que actuam junto dos segmentos de maior poder de compra –, está a dar quer à evolução da sensibilidade dos consumidores (de que a sustentabilidade é, porventura, exemplo maior), quer à designada economia de partilha, provando que no mercado global existe espaço “para todos”.